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Verdadeiramente espantoso e de deixar qualquer um boquiaberto

por Samuel de Paiva Pires, em 27.06.17

Deixando de lado as notórias tentativas de cobertura das falhas recentes do SIRESP, note-se o seguinte:

O contrato assinado entre o MAI e a SIRESP, S. A. – assinado em 2006, era António Costa responsável pela pasta – estabelece que a ocorrência de situações de “força maior” ilibam a empresa de responsabilidades, em caso de falha do sistema.

O contrato refere que serão considerados “casos de força maior os eventos imprevisíveis e irresistíveis, cujos efeitos se produzem independentemente da vontade da operadora ou da sua atuação, ainda que indiretos, que comprovadamente impeçam ou tornem mais oneroso o cumprimento das suas obrigações contratuais”. E enumera: “Atos de guerra ou subversão, hostilidades ou invasão, rebelião, terrorismo ou epidemias, raios, explosões, graves inundações, ciclones, tremores de terra e outros cataclismos naturais que diretamente afetem as atividades” do SIRESP.

Ou seja, muitas (se não todas) as situações anormais em que se esperaria que o sistema de comunicações de emergência garantisse os contactos entre as autoridades que precisam de articular a ação no terreno — uma vez que os utilizadores do SIRESP vão dos bombeiros à Proteção Civil, passando pelos militares, câmaras municipais, serviços de informações, portos, entre outros — estão previstas no contrato como casos em que, falhando o SIRESP, a empresa fica isenta de responsabilidades.

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publicado às 11:12

Lobbying em Portugal

por Samuel de Paiva Pires, em 25.06.17

Não sou adepto daquele estafado provincianismo que acha que o que se faz lá fora é que é bom e tem de ser importado para Portugal. Mas neste caso, basta olhar para as realidades de Bruxelas, Londres ou Washington para compreender que um regime de transparência na actividade de representação de interesses seria um saudável desenvolvimento que melhoraria a qualidade da nossa democracia. Bem, portanto, o CDS, o PS e o PSD. Já os "argumentos" de BE e PCP são de uma pobreza atroz.

 

(também publicado aqui.)

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publicado às 15:03

O que importa perguntar

por Samuel de Paiva Pires, em 21.06.17

Rui Ramos, "Um país entregue à sua sorte":

 

Não, não é a altura para discutir a limpeza das matas e das bermas da estrada, a desertificação do interior, a propriedade rural, o aquecimento global e a relação dos seres humanos com a natureza. Tudo isso são temas muito interessantes, mas desta vez temos de resistir à mania nacional de fazer derivar as conversas. Neste momento, há apenas uma questão relevante: o Estado tem um sistema de protecção civil, e esse sistema falhou tragicamente. Porquê? A “natureza” e os “problemas estruturais”, como o mitológico ordenamento do território, não ilibam o sistema, porque a protecção civil existe para defender as populações nas condições existentes, mesmo quando tudo é “muito rápido”, e não apenas em condições ideais, como fossem aquelas em que o país se tivesse desenvolvido de outra maneira ou a progressão dos fogos fosse sempre muito lenta.

 

(...).

 

Os oligarcas não querem que se “faça política” com a tragédia. Mas se não “fizermos política” com a morte evitável de 64 pessoas, para que serve então a política? Só para festejar vitórias no Festival da Canção? A oligarquia convenceu-se recentemente de que a política são uns abraços. Mas a política não devia ser um programa televisivo da manhã, mas o debate sobre o estado de um país onde desta vez faltou a sorte que houve noutras ocasiões. Porque com esta oligarquia política, só a sorte nos pode valer.

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publicado às 12:10

Como ajudar os bombeiros neste momento (2)

por Samuel de Paiva Pires, em 19.06.17

Haverá certamente que apurar responsabilidades, debater estratégias e actuar no sentido de melhorar o dispositivo de prevenção e combate aos fogos. Até lá, é ajudar os bombeiros que estão no terreno e as populações afectadas por este flagelo. Entre as várias louváveis iniciativas, destaco a da Uber, que permite utilizar a aplicação para solicitar gratuitamente recolhas de donativos como água e bens não perecíveis.

 

Entretanto, para os que estão em Lisboa, podem entregar soro fisiológico (unidoses), compressas, ligaduras e adesivos, a qualquer hora do dia e da noite, no quartel dos Bombeiros Voluntários de Lisboa, no Largo Barão de Quintela.

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publicado às 16:21

Como ajudar os bombeiros neste momento

por Samuel de Paiva Pires, em 18.06.17

Ver aquiaqui ou aqui.

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publicado às 18:28

Música para hoje: Samuel Úria - Tapete

por Samuel de Paiva Pires, em 16.06.17

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publicado às 16:16

Da amizade em política

por Samuel de Paiva Pires, em 15.06.17

Na Quadratura do Círculo, a respeito da nomeação de Lacerda Machado para a TAP, Jorge Coelho afirma que também é amigo do Primeiro-Ministro e este não o nomeia para nada. Estribando-se na doutrina de Carlos Santos Silva, António Costa deveria cuidar melhor dos seus amigos.

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publicado às 23:11

Quando o partidarismo se sobrepõe ao interesse nacional

por Samuel de Paiva Pires, em 09.06.17

Jamelle Bouie, "Who Needs Rule of Law?":

Just one of our two parties is interested in checking this president’s abuse. The other, the Republican Party, is indifferent, content to tolerate Trump’s misconduct as long as it doesn’t interrupt or interfere with its political agenda. What defined Thursday’s hearing, in fact, was the degree to which Republicans downplayed obvious examples of bad—potentially illegal—behavior and sought to exonerate Trump rather than grapple with Comey’s damning allegations about the president. Sen. James Risch of Idaho, for example, pressed Comey on his claim that President Trump had asked the then–FBI director to drop the investigation into Flynn, suggesting that—because Trump didn’t give a direct order—we ought to ignore the clear subtext of the president’s statement. Sen. James Lankford of Oklahoma described Trump’s actions on behalf of Flynn as a “light touch.” Other Republican committee members, like Sens. John Cornyn of Texas and John McCain of Arizona, steered the conversation toward the FBI’s investigation of Hillary Clinton’s private email server. Still others, like Sen. Marco Rubio of Florida, defended Trump’s actions, blasting leaks to the press as efforts to undermine his administration.

 

Republican committee members were aided in all of this by the official organs of the GOP, which treated the hearings as a distraction—a partisan frivolity driven by Democrats and the press. “Director Comey’s opening statement confirms he told President Trump three times that he was not under investigation,” said a statement from the Republican National Committee that recommended a strategy of deflection. The RNC additionally argued that “Director Comey lost confidence of both sides of the aisle, and the president was justified in firing him.” House Speaker Paul Ryan, commenting on the procedures, defended Trump’s potentially illegal behavior as the mistakes of a novice. “He’s just new to this, and probably wasn’t steeped in long-running protocols,” he said.

 

(...).

 

James Comey’s sworn Senate testimony, both written and spoken, is evidence of one political crisis: A president with little regard for rule of law who sees no problem in bringing his influence and authority to bear on federal investigations. The Republican reaction—the effort to protect Trump and discredit Comey—is evidence of another: a crisis of ultra-partisanship, where the nation’s governing party has opted against oversight and accountability, abdicating its role in our system of checks and balances and allowing that president free rein, as long as he signs its legislation and nominates its judges.

 

Americans face two major crises, each feeding into the other. Republicans aren’t bound to partisan loyalty. They can choose country over party, rule of law over ideology. But they won’t, and the rest of us will pay for it.

 

(também publicado aqui.)

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publicado às 17:00

O problema do workhalism nas startups (e não só)

por Samuel de Paiva Pires, em 31.05.17

David Heinemeier Hansson, Trickle-down workaholism:

It’s not hard to understand why such a mythology serves the interest of money men who spread their bets wide and only succeed when unicorns emerge. Of course they’re going to desire fairytale sacrifices. There’s little to no consequence to them if the many fall by the wayside, spent to completion trying to hit that home run. Make me rich or die tryin’.
(...)
The sly entrepreneur seeks to cajole their employees with carrots. Organic, locally-sourced ones, delightfully prepared by a master chef, of course. In the office. Along with all the other pampering and indulgent spoils AT THE OFFICE. The game is to make it appear as though employees choose this life for themselves, that they just love spending all their waking (and in some cases, even sleeping) hours at that damn office.
(...)
Not only are these sacrifices statistically overwhelmingly likely to be in vain, they’re also completely disproportionate. The programmer or designer or writer or even manager that gives up their life for a 80+ hour moonshot will comparably-speaking be compensated in bananas, even if their lottery coupon should line up. The lion’s share will go to the Scar and his hyenas, not the monkeys.
(...)
So don’t tell me that there’s something uniquely demanding about building yet another fucking startup that dwarfs the accomplishments of The Origin of Species or winning five championship rings. It’s bullshit. Extractive, counterproductive bullshit peddled by people who either need a narrative to explain their personal sacrifices and regrets or who are in a position to treat the lives and wellbeing of others like cannon fodder.

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publicado às 19:06

Entrevista de Jeffry Frieden sobre a crise do euro

por Samuel de Paiva Pires, em 09.05.17

Jeffry Frieden a explicar coisas fáceis de entender sobre a crise do euro e o futuro da União Europeia. Não vi esta entrevista muito divulgada por cá e compreende-se porquê: à esquerda é mais fácil continuar a acreditar na narrativa sobre o malvado ultra-neo-liberalismo, ao passo que à direita é mais fácil continuar a acreditar na narrativa dos trabalhadores do norte contra os preguiçosos do sul, dos responsáveis contra os irresponsáveis que só gastam dinheiro em copos e mulheres, que serve os interesses alemães.

 

(também publicado aqui.)

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publicado às 12:48

O perigo do viés de confirmação e das certezas absolutas

por Samuel de Paiva Pires, em 04.05.17

Robert Burton em entrevista à Scientific American:

 

BURTON: A personal confession: I have always been puzzled by those who seem utterly confident in their knowledge. Perhaps this is a constitutional defect on my part, but I seldom have the sense of knowing unequivocally that I am right. Consequently I have looked upon those who ooze self-confidence and certainty with a combination of envy and suspicion. At a professional level, I have long wondered why so many physicians will recommend unproven, even risky therapies simply because they "know" that these treatments work.

 

(...)

 

BURTON: The present presidential debates and associated media commentary feel like laboratory confirmation that the involuntary feeling of certainty plays a greater role in decision-making than conscious contemplation and reason.


I suspect that retreat into absolute ideologies is accentuated during periods of confusion, lack of governmental direction, economic chaos and information overload. At bottom, we are pattern recognizers who seek escape from ambiguity and indecision. If a major brain function is to maintain mental homeostasis, it is understandable how stances of certainty can counteract anxiety and apprehension. Even though I know better, I find myself somewhat reassured (albeit temporarily) by absolute comments such as, "the stock market always recovers," even when I realize that this may be only wishful thinking.


Sadly, my cynical side also suspects that political advisors use this knowledge of the biology of certainty to actively manipulate public opinion. Nuance is abandoned in favor of absolutes.


LEHRER: How can people avoid the certainty bias?


BURTON: I don't believe that we can avoid certainty bias, but we can mitigate its effect by becoming aware of how our mind assesses itself. As you may know from my book, I've taken strong exception to the popular notion that we can rely upon hunches and gut feelings as though they reflect the accuracy of a thought.


My hope is the converse; we need to recognize that the feelings of certainty and conviction are involuntary mental sensations, not logical conclusions. Intuitions, gut feelings and hunches are neither right nor wrong but tentative ideas that must then be submitted to empirical testing. If such testing isn't possible (such as in deciding whether or not to pull out of Iraq), then we must accept that any absolute stance is merely a personal vision, not a statement of fact.


Perhaps one of my favorite examples of how certainty is often misleading is the great mathematician Srinivasava Ramanujan. At his death, his notebook was filled with theorems that he was certain were correct. Some were subsequently proven correct; others turned out to be dead wrong. Ramanujan’s lines of reasoning lead to correct and incorrect answers, but he couldn’t tell the difference. Only the resultant theorems were testable.


In short, please run, do not walk, to the nearest exit when you hear so-called leaders being certain of any particular policy. Only in the absence of certainty can we have open-mindedness, mental flexibility and willingness to contemplate alternative ideas.

 

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publicado às 23:21

Trainspotting 2, Choose Life

por Samuel de Paiva Pires, em 13.04.17

 

Choose designer lingerie, in the vain hope of kicking some life back into a dead relationship.

Choose handbags, choose high-heeled shoes, cashmere and silk, to make yourself feel what passes for happy.

Choose an iPhone made in China by a woman who jumped out of a window and stick it in the pocket of your jacket fresh from a South-Asian firetrap.

Choose Facebook, Twitter, Snapchat, Instagram and a thousand others ways to spew your bile across people you've never met.

Choose updating your profile, tell the world what you had for breakfast and hope that someone, somewhere cares.

Choose looking up old flames, desperate to believe that you don't look as bad as they do.

Choose live-blogging, from your first wank till your last breath; human interaction reduced to nothing more than data.

Choose ten things you never knew about celebrities who've had surgery.

Choose screaming about abortion, choose rape jokes, slut-shaming, revenge porn and an endless tide of depressing misogyny.

Choose 9/11 never happened, and if it did, it was the Jews.

Choose a zero-hour contract and a two-hour journey to work, and choose the same for your kids, only worse, and maybe tell yourself that it's better that they never happened. And then sit back and smother the pain with an unknown dose of an unknown drug made in somebody's​ fucking kitchen.

Choose unfulfilled promise and wishing you'd done it all differently.

Choose never learning from your own mistakes.

Choose watching history repeat itself.

Choose the slow reconciliation towards what you can get, rather than what you always hoped for. Settle for less and keep a brave face on it.

Choose disappointment and choose losing the ones you love, then as they​ fall from view, a piece of you dies with them until you can see​ that one day in the future, piece by piece, they will​ be all gone and there will be nothing left of you to call alive or dead.

Choose your future, Veronica.

Choose life.

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publicado às 15:19

A mensagem de Trump para Putin e Xi Jinping

por Samuel de Paiva Pires, em 07.04.17

donald trump.jpg

Não se consegue ainda perceber bem as consequências do ataque que Trump lançou esta noite sobre a base militar síria de onde alegadamente saíram os aviões que protagonizaram o recente ataque com armas químicas na Síria - ainda não foi confirmada a autoria deste ataque, embora a administração norte-americana afirme que tudo indica que a responsabilidade recai sobre Assad e a posição russa seja realmente risível. Alguns começaram já a condenar Trump por trair a retórica isolacionista em termos de política externa utilizada durante a campanha para as eleições presidencias do ano passado, outros afirmam que o ataque desta noite mostra um aventureirismo perigoso.

 

Eu prefiro sublinhar que Xin Jinping chegou ontem aos EUA para reunir com Trump e que tanto a China como a Rússia têm apoiado a Síria na ONU, o que me faz crer que a acção algo imprevisível de Trump comporta essencialmente uma mensagem para Pequim e Moscovo: há linhas que não podem ser atravessadas mesmo em contextos de guerra e os EUA não vão assistir impavidamente às acções de russos e chineses que atravessam essas linhas ou que apoiam quem as atravessa.

 

O ataque lançado pelos EUA é cirúrgico o suficiente para ser uma justa retaliação pela acção inqualificável de Assad, mas também, e mais importante, para servir como demonstração de força e enviar uma mensagem a Putin. E não deixa de ser ridículo ver o presidente russo, tantas vezes aplaudido por muitos por decisões imprevisíveis e demonstrações de força que ignoram ou violam o direito internacional e são justificadas por pretextos dúbios recorrendo a argumentos tipicamente utilizados por potências ocidentais, vir agora argumentar que a decisão de Trump viola o direito internacional, é uma agressão a um Estado soberano  e prejudica as relações entre EUA e Rússia. Ora, afinal, o que foram as invasões da Geórgia e da Ucrânia, e em particular a anexação da Crimeia, senão provocações da Rússia a todo o Ocidente e agressões a Estados soberanos violadoras do direito internacional?

 

A utilização recorrente deste tipo de argumentos por Putin, que não correspondem à prática russa, deixa bem patente a duplicidade do presidente russo que ainda vai passando algo incólume, mas a sua utilização no dia de hoje mostra também que Putin foi surpreendido por Trump e não sabe bem, pelo menos para já, como reagir. E isso é muito positivo.

 

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publicado às 11:25

Da série "lacunas do regime"

por Samuel de Paiva Pires, em 04.04.17

Mais grave que as faltas e verdadeiramente inacreditável é, em primeiro lugar, o regime permitir que se acumulem cargos políticos que deveriam exigir uma dedicação a tempo inteiro - no caso, os cargos de vereador da Câmara Municipal de Lisboa e de deputado ao Parlamento Europeu - e, em segundo lugar, a falta de vergonha daqueles que, como João Ferreira, independentemente de o regime não o impedir, se permitem esta desfaçatez - e isto aplica-se a todos os partidos. Afinal, nem tudo o que é legal é lícito ou legítimo.

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publicado às 22:36

Dear Jeroen Dijsselbloem

por Samuel de Paiva Pires, em 22.03.17

I would like to let you know that I have no problem with direct style. Just with blatant stupidity and your inability (as well as of most European leaders) to understand that the roots of the eurocrisis lie in the structural weaknesses of the Economic and Monetary Union.

 

Yours sincerely 

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publicado às 18:08

O problema não são as declarações de Dijsselbloem

por Samuel de Paiva Pires, em 22.03.17

Para lá da deselegância óbvia geradora da indignação fácil, o verdadeiro problema é aquilo que subjaz às declarações do holandês: uma narrativa dominante entre as elites europeias, inclusive entre muitos políticos de países do sul da Europa, que só vê virtudes nos países do norte da Europa e defeitos nos países do sul, no que concerne à sua gestão política e económica, ignorando, propositadamente ou não, que a crise do euro se deve à deficiente arquitectura deste. Permitam-me recuperar o que escrevi em 2014 a este respeito:

 

Começando no estabelecimento da União Económica e Monetária - em que prevaleceu a visão do Bundesbank de um BCE inspirado no seu modelo, centrado quase exclusivamente na estabilidade de preços -, que não era e continua a não ser uma Zona Monetária Óptima, circunstância agravada pela inexistência de uma união orçamental que permitisse uma gestão macroeconómica conjunta, o que a torna propensa a choques assimétricos; passando por uma fragilidade estrutural essencial para a compreensão da crise, segundo Paul De Grauwe, que é a perda da capacidade de os países emitirem dívida numa moeda própria, emitindo-a numa moeda que não controlam, pelo que estão, assim, mais facilmente à mercê dos mercados financeiros e podem ser rapidamente precipitados por estes para um default; e chegando aos anos da crise do euro, em que o diagnóstico da crise da dívida soberana grega foi erradamente generalizado a outros países, conforme Jay Shambaugh sublinha, servindo como justificação para prescrever pacotes de austeridade e reformas estruturais que, per se, não são suficientes para superar os constrangimentos resultantes das fragilidades estruturais da UEM, conclui-se que estas fragilidades não só resultam da perspectiva alemã aquando das negociações que levaram ao seu estabelecimento, como aproveitam actualmente à Alemanha. Hans Kundnani assinala que a actual situação, com um euro fraco (segundo Andrew Moravcsik, a taxa de câmbio real da Alemanha, actualmente, está 40% abaixo do que estaria se o país ainda tivesse o marco alemão), é a ideal para a economia alemã baseada nas exportações e avisa que o narcisismo económico da Alemanha coloca toda a Zona Euro em causa. Assim, a Alemanha está actualmente numa posição muito confortável, com um euro fraco que favorece as suas exportações, tornando-a a economia mais competitiva da Zona Euro, e, em parte em resultado disto, encontra-se de forma indisputada na liderança política da UE, tendo a cooperação entre países soberanos sido relegada em favor de uma dominação de facto por parte de Berlim. Ulrich Beck resume de forma lapidar esta situação em A Europa Alemã: "Como a Alemanha é o país mais rico, agora é ela que manda no centro da Europa." A austeridade imposta erradamente aos países sob resgate financeiro permite à Alemanha manter este status quo em que, nas palavras de Moravcsik, ao "utilizar uma moeda subvalorizada para acumular excedentes comerciais, a Alemanha actua como a China da Europa."

 

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publicado às 12:46

Peculiaridades do regime pátrio

por Samuel de Paiva Pires, em 17.03.17

Confesso que nunca percebi o motivo da repulsa ou até mesmo ódio que tantos políticos portugueses têm por Santana Lopes. Parece-me tratar-se de um indivíduo com uma autêntica vocação e devoção pela causa pública, não lhe sendo conhecidos quaisquer envolvimentos em esquemas de corrupção e afins ao fim de quase 4 décadas de presença na vida pública e política do país. No caso de muitos dos protagonistas políticos da nossa praça, quase poderia dizer-se que o ódio que lhe dedicam é  proporcional ao amor que têm por José Sócrates - o que é revelador quanto baste.

 

Ora, como já terão adivinhado, vem isto a propósito da recentemente revelada justificação de Jorge Sampaio para ter dissolvido a Assembleia da República em 2004: "fartei-me do Santana." Não precisamos de recorrer ao estafado argumento de que se fosse alguém de direita a dizer isto de alguém de esquerda, cairia o Carmo e a Trindade. Afinal, já se sabe que o actual regime pende significativamente para a esquerda, permitindo a quem é de esquerda muito do que não poderia ser feito por alguém de direita sem que um coro de indignados se manifestasse violentamente. Limitamo-nos a salientar que se espera do mais alto magistrado da nação que não sucumba a estados de alma, visto que estes não nos parecem poder justificar a decisão de accionar a mais poderosa prerrogativa ao seu dispor, e, assim, a registar que as declarações de Sampaio têm, efectivamente, o condão de fazer de Cavaco Silva um estóico estadista muito superior à média dos políticos que nos vão pastoreando.

 

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publicado às 14:36

Contratação - João Tavares

por Samuel de Paiva Pires, em 16.03.17

É com muito gosto que anuncio a mais recente contratação do Estado Sentido. Chama-se João Tavares e tem 24 anos. É solteiro, mas não anda solto. Gosta muito de Cimino e de James Gray, de Celine e Balzac. Como escreveu este último, não sabe qual será o seu futuro: ministro ou homem honesto, ainda está tudo em aberto. É conservador em política para poder ser radical em tudo o resto (Oakeshott dixit). Não é ex-fumador. Bem-vindo, caríssimo João!

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publicado às 17:10

Sobre o populismo, a tecnocracia e a democracia liberal

por Samuel de Paiva Pires, em 14.03.17

Recomendo vivamente o artigo "Will vs. Reason: The Populist and Technocratic Forms of Political Representation and Their Critique to Party Government", da autoria de Daniele Caramani, publicado no mais recente número da American Political Science Review. Podem ler um excerto aqui

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publicado às 18:23

Da hipocrisia do Bloco de Esquerda

por Samuel de Paiva Pires, em 09.03.17

Paulo Tunhas, "Lenine explica"

 

Acerca da anulação da conferência de Jaime Nogueira Pinto na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e dos motivos dessa anulação, muita gente, da esquerda à direita, se pronunciou com as palavras certas. Há, no entanto, uns silêncios que convém interrogar. Que eu tenha reparado, ninguém do PC ou do Bloco de Esquerda julgou útil desta vez fazer ouvir a sua voz, o que em princípio devia espantar, tratando-se de gente particularmente vocal que aprecia sumamente dissertar sobre toda a espécie de direitos e que tem ideias bem definidas sobre a liberdade, ou sobre as “amplas liberdades”, como dantes o PC dizia.

 

(...).

 

Não custa muito encontrar uma explicação simples: porque concordam com a anulação da conferência. Demasiado simples? Francamente, não creio. A especialização nas chamadas “causas fracturantes”, que tornou o Bloco conhecido do bom povo português, tende a fazer esquecer algumas características ideológicas que identificam no essencial aquela tão moderna agremiação. É que, sob as vestes da modernidade, o que conta verdadeiramente são ainda as arcaicas concepções totalitárias que se encontram na sua origem. É isso que fornece uma unidade subjacente à multiplicidade das “causas”. Que isso permaneça imperceptível a uma grande parte das pessoas deve-se em grande parte a um efectivo talento para o marketing político que descobriu um muito conveniente nicho ecológico nos media. A maneira como esta ocultação da presença da origem no presente foi levada a cabo com sucesso é provavelmente um dos factos mais reveladores da facilidade do triunfo da impostura em política, uma impostura desde há um ano devidamente recompensada, para nossa grande desgraça, com a generosidade de António Costa.

 

(...).

 

É bom percebermos que estamos a lidar com gente para a qual não há, em domínio algum, qualquer espécie de neutralidade, inclusive académica. O silêncio em relação ao caso de Jaime Nogueira Pinto exibe-o perfeitamente e de forma inadulterada. O outro de que se discorda não é susceptível de merecer a distância que nos permita ouvi-lo. Insultá-lo, identificá-lo como inimigo, é mais fácil. No caso de Nogueira Pinto, é “fascista”. Noutros tempos, é bom lembrá-lo, bastava ser “socialista”. Desde que António Costa, com a sua proverbial fortitude, derrubou pela segunda vez o Muro de Berlim, os socialistas, tirando um excêntrico ou dois, podem estar tranquilos: “socialista” não é um nome feio. Mas nada garante que seja sempre assim. A não ser que certa gente do partido que Costa trouxe para junto de si tomar definitivamente conta do PS. Nesse caso, a paz poderá tornar-se definitiva. Com o PS a mudar até de nome: PSE – Partido Socialista de Esquerda. Lenine explica.

 

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publicado às 10:46






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