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O segundo confinamento e o ensino (II)

por Nuno Resende, em 21.01.21

Se o governo toma decisões aos bochechos por causa do mau aconselhamento dos cientistas que participam nas reuniões do Infarmed, ou ao sabor da opinião pública e dos comentadores de serviço, em qualquer dos casos talvez devesse parar para avaliar da sua função, autoridade e utilidade. Um governo que, numa semana diz que não fecha o comércio todo, depois fecha o comércio todo, que não fecha as escolas, depois fecha as escolas, só pode ser um caso grave de saúde mental.

E ao ouvirmos o presidente da república dizer que se pensava que a pandemia acabava em Outubro de 2020, temos completa esta nave dos loucos.

A vacina chegou primeiro que a noção a Portugal, infelizmente continuará facultativa  e circunscrita a um grupo reduzido de indivíduos - o que significa que nada ou muito pouco adiantará numa população maioritariamente não vacinada e sujeita ao contágio e disseminação do vírus (de que adianta fechar as escolas hoje, amanhã e depois, se o vírus continuar nas salas de aula?). Não custaria menos vacinar pelo menos 80% da população do que sujeitar o país a uma crise económica sem precedentes?

O que é pena é que entre tantos cientistas, comentadores televisivos, peritos em epidemiologia e saúde pública, nenhum tenha a coragem de nos dizer que não, não vai ficar tudo bem e que este segundo confinamento há-de ser um de muitos que no futuro ainda hão-de acontecer.

  

  

publicado às 19:30

O segundo confinamento e o ensino (I)

por Nuno Resende, em 17.01.21

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O segundo confinamento em Portugal deixou de fora todos os graus de ensino, o que levou a um coro de críticas por parte de sectores da ciência e da sociedade – sem que saiba muito bem quem constitui estes sectores.

O que a pandemia nos tem ensinado é que há poucas certezas, mesmo as que vêm acompanhadas por certificações de fiabilidade ou estudos científicos. Todos os dias a comunicação social embarca numa difusão de dados desactualizados, não validados ou ainda não devidamente revistos por pares, fazendo assunções generalistas e lançando confusão e pânico na opinião pública.

Sobre os técnicos ou cientistas que participam nas reuniões do INFARMED, sabemos pouco ou quase nada. O que é certo é que parecem faltar ali geógrafos, sociólogos, antropólogos, demógrafos e até filósofos, por que não? Faltam conhecer declarações de interesses de muitos dos comentadores e tudólogos que na televisão debitam opiniões.

E sobre os anónimos mais críticos em relação à abertura das escolas, pouco nos dizem as redes sociais quando fazemos uma leitura na diagonal dos comentários mais frequentes. Certamente que plataformas como o Facebook conseguem desenhar o perfil de grupos de indivíduos segundo as suas reações (os famosos botões de gosto etc.ª). Mas é possível vislumbrar por ali algumas explicações para a ânsia de fechar tudo, assentes quase todas na pouca capacidade crítica para filtrar a informação que todos os dias entra nos seus olhos e ouvidos, quer pelos media digitais, quer tradicionais. Medo puro, uns, inabilidades várias que o conforto do trabalho em casa permite colmatar, outros.

As escolas estão abertas desde Setembro, mas só em Janeiro os casos de contágio e morte por covid-19 dispararam. Muitos culparam o Natal, mas a verdade é que a curva ascendente começou em finais de Agosto e inícios de Setembro, muito antes de todos os graus de ensino estarem em pleno funcionamento (as Universidades públicas abriram quase no final de   Setembro) e basta olhar para um país não cristão, onde o Natal não tem o peso social e comercial para perceber que a tendência de crescimento contínua, por exemplo os Emiratos Árabes Unidos, com uma população e um calendário lectivo semelhante ao de Portugal. O vírus segue o seu caminho, provavelmente com um itinerário a outros vírus de infecção respiratória, de cariz sazonal. Todas as barreiras que se lhe põem no caminho são como travar água com uma peneira. Pode atrasar a passagem da água mas não a veda.

A 6 de Agosto de 2020 o ECDC europeu lançou um guia sobre a transmissão em contexto escolar que refere algumas das questões já conhecidas, como a reduzida prevalência de sintomas e desenvolvimento da doença COVID-19 em crianças. Não descarta a transmissão na comunidade escolar, mas refere «if appropriate physical distancing and hygiene measures are applied, schools are unlikely to be more effective propagating environments than other occupational or leisure settings with similar densities of people».  E acrescenta-se: «There is conflicting published evidence on the impact of school closure/re-opening on community transmission levels, although the evidence from contact tracing in schools, and observational data from a number of EU countries suggest that re-opening schools has not been associated with significant increases in community transmission».

É claro que, no caso de crianças nem sempre é possível conseguir cumprir as advertências de distanciamento, higienização, etc. Mas também já percebemos que, no caso de adultos será impossível garantir a longo prazo um controlo efectivo dos comportamentos humanos, obrigando à sua repetição durante meses ou anos, como se espera venha a acontecer com esta pandemia.

Mais à frente o mesmo documento conclui: «Closures of childcare and educational institutions are unlikely to be an effective single control measure for community transmission of COVID-19 and such closures would be unlikely to provide significant additional protection for the health of children». Faz, ainda, esta advertência: «A number of organisations have identified various negative impacts on children’s wellbeing, learning opportunities and safety caused by school closures. These range from the interruption of learning and the exacerbation of disparities and mental health issues to an increased risk of domestic violence. The negative impacts particularly affect children from vulnerable and marginalised population groups». O Diogo Martins do Ladrões de Bicicletas explicou isto e muito mais , assim como a Raquel Varela e ambos têm sido trucidados por medrosos primários.

No que se refere às Universidades, a sua população é maioritariamente adulta, reunindo faixas etárias dos 17 aos 66 anos. A população docente será mais vulnerável à doença, e a taxa da incidência é efectivamente mais elevada para indivíduos entre os 20 aos 29 anos. Todavia o risco de mortalidade só é verdadeiramente uma ameaça a partir dos 75 anos.

Os números não dizem nada se não forem tidos em conta outros aspectos que advêm da aplicação de medidas de confinamento em aprendizagem. A primeira experiência mostrou-nos que, num caso de emergência, foi possível lançar mão das tecnologias para minimizar os estragos de um fechamento completo das instituições de ensino, quando estas não estavam preparadas para um regresso adaptado à vida em pandemia. Aulas à distância que de repente pareceram um milagre, já existiam desde os cursos por correspondência, passando pela telescola e à Universidade Aberta, mas sempre como alternativa ou ferramenta paralela à aprendizagem presencial.

A ideia de Universidade assenta na de academia, na reunião, no diálogo presencial e gregário, não na transmissão impessoal de informação hoje em zeros e uns, imagem e som. As ferramentas digitais são importantíssimas, mas não substituem o contacto interpessoal. A própria União Europeia estava a investir, antes da pandemia, cada vez mais em formas de mobilidade a aproximação de estudantes, investigadores e professores. Ninguém participa num congresso internacional apenas para publicar um texto (há quem o faça, infelizmente), mas para viajar, conhecer outros investigadores e visitar outros lugares.

O confinamento é uma espécie de homeopatia, que a própria ciência combate. Vai dando a impressão da mitigação, de bálsamo quando as coisas correm mal, mas nunca trará a cura. É apenas uma forma de interrupção da vida. Neste momento sobrevivemos, não vivemos. E aplicar estas medidas à educação resultará a médio e longo prazo ou na abertura de um fosso maior entre privilegiados (os que acedem às ferramentas digitais) e os que por alguma razão não conseguem estar a par do a maior parte das vezes complexo mundo

Já uso ferramentas digitais em contexto pedagógico ao tempo suficiente para perceber o valor das mesmas. Mas elas trazem um presente envenenado: o seu manuseio necessita de formação complementar, nem sempre possível, nem sempre acessível e, sobretudo, quase sempre impossível de conciliar com os programas curriculares já estabelecidos. De resto, nem todos os cursos são teóricos, nem totalmente compatíveis com este tipo de aprendizagem em-linha.

Apesar de já manusear relativamente bem ferramentas como o Moodle, o ZOOM, o Google Team e outras plataformas e softwares para ensino à distância, eu e os meus colegas fizemos em Março-Abril um esforço notável para não deixarmos para trás o que já estava em andamento. Superamos muitos desafios, mas ficou clara a ideia de que aquilo foi um momento, uma excepção, não a regra.

Compreendido o vírus, o seu perigo e a forma de minimizar o contágio, foi possível estabelecer uma situação de compromisso que permitisse uma alternância entre ensino à distância e ensino presencial, uma espécie de ensino misto, que resultou perfeitamente bem durante o semestre. Mas num curso como o de História da Arte, ficaram de fora as aulas de campo, as idas aos museus, à maioria das bibliotecas e os arquivos. Por muito que se possa visitar um museu em-linha, descarregar livros ou documentos em PDF, todos nós sabemos que isso não substitui o contacto, a observação directa ou a apreciação sensorial.

Voltar atrás neste compromisso é por em risco um ano lectivo já marcado pela carga emocional de todos os dias sermos confrontados com números de mortos e infectados, obrigações e deveres que se alteram quinzenal ou semanalmente e sentirmo-nos observados e acusados de infracções no é que é, provavelmente, uma das maiores máquinas mais intensas de comunicação e propaganda alguma vez dirigida à Humanidade.

É de prever que os confinamentos se tornem regulares, integrando, talvez, uma rotina social, como as máscaras. Entrevê-se isso, por exemplo, na entrevista a Henrique Barros, da Universidade do Porto. Ano após ano seremos conduzidos a uma nova normalidade, justificada pelo possível colapso do SNS – como se a cada confinamento, os profissionais de saúde recuperassem prontos para mais um período de «acalmia». Já ninguém estranha que os confinamentos sejam pedidos como pão para a boca, mas as vacinas, facultativas, cheguem, apenas. Já ninguém estranha que as medidas aplicadas sejam, provavelmente ineficazes na sua maioria, mas a sua aplicação seja como um placebo ou uma terapêutica homeopática.

Já ninguém estranha muita coisa, até porque os tempos não são para estranhar, são para aguentar e calar. Alguns médicos são os novos torquemadas que em vez de ameaçaram com fogo e com a danação da alma, ameaçam com ventiladores e com a morte do corpo.

Mas que não nos tirem as escolas e a liberdade para ensinar e aprender, nos dias que correm o último reduto para se questionar. Pode ser que a próxima pandemia já não tenha que utilizar métodos medievais para a conter, mas se ainda for preciso utilizá-los, ao menos que os possamos discutir desassombradamente.

 

publicado às 20:00

A ficção da Razão

por Nuno Resende, em 21.12.20

 

«Creio que o rigor de Descartes é aparente ou fictício. E isso nota-se no facto de que ele parte de um pensamento rigoroso e, no final, chega a algo tão extraordinário como a fé católica. Parte do rigor e chega ...ao Vaticano».

Jorge Luís Borges

 

No início da pandemia foi-nos dito que deveríamos ficar em casa para aplanar a curva. Este aplanar a curva era tão só impedir que o SNS – Serviço Nacional de Saúde não colapsasse com a afluência de doentes. Já se conhecia o vírus e as mortes que ele provocava, mas o aviso era que as pessoas não se contagiassem nem contagiassem o outro e assim não terem que ser assistidas nos Hospitais.
Desde o início que a Ciência não soube comunicar e, se o soube, permitiu-se ser substituída pelos Políticos e pela Comunicação Social. Desautorizando-se, perdeu credibilidade. Pior: deixou que se relativizasse a vida em detrimento de mortes estatísticas todos os dias contabilizadas pelos media como «recordes» (termo odioso quando aplicado ao número de seres humanos falecidos), e tudo alimentando um crescendo de temor que levou a extremismos e a extremistas. Por um lado, os frágeis e amedrontados, para quem a vida é uma questão de sobrevivência, por outros os autodestrutivos e incautos, facilmente manipuláveis por teorias conspiracionistas. Este perigoso diálogo entre gente ignorante ou convencida da sua razão tem sido prejudicial ao controle da pandemia. Não podemos acreditar que, nem os mais hipocondríacos tomem todas as medidas para protegerem os outros, nem os incautos se preocupem, sequer, com eles próprios.
Eventualmente pagaremos este descontrolo, o desnorte na comunicação da Ciência e o cansaço que meses de uma intensiva campanha de medo difundiram. Provavelmente já o estaremos a pagar. Alguns cientistas, ao demonizarem quem os não compreende ou se lhes opõe, enveredaram por um caminho semelhante ao da Religião que, alguns séculos atrás, com base numa figura maior, invisível e omnisciente, anametizavam quem se lhes opusesse. Naquele tempo eram os seus, hoje a Saúde Pública.
Estranhamente as religiões foram as primeiras a venerar este novo deus da Razão. A Igreja Católica apressou-se a cancelar celebrações e actos litúrgicos, a afastar os seus sacerdotes da população e até, pasme-se, a eliminar o uso de água benta nas pias das igrejas ou em casos mais extravagantes a desinfectá-la. Um Igreja fundada na ideia de sacrifício, espiritual e corporal, abandonar-se assim à assepsia e à higienização do indivíduo, aceitando e promovendo a sua despersonalização e «segregação», parece agora, finalmente, destituída de qualquer fundamento
Por outro lado, o carácter necrófago da comunicação social aproveitou-se como pode da oportunidade para explorar a dor, o sofrimento e a morte. Tem-no feito e continuará a fazê-lo, segundo alguns, para satisfazer a curiosidade humana. Mas pode haver outra explicação: em constante desagregação pela transformação da notícia jornalística em boato digital, os media cavalgaram como puderam este rastilho, aproveitando a sua mudança para o mundo cibernético e potenciando os cliques nas suas páginas de publicidade. Uma comunicação social cada vez mais constituída por, ou precários, ou mercenários, só podia resultar nesta lógica de ataque em matilha.
Estranha-se, porém, que os media cedessem à elaboração de uma campanha sentimental, como nunca vista anteriormente, desenvolvendo o slogan: «vai ficar tudo bem». Tal ausência de imparcialidade, integridade ética marcada por umm desbragado moralismo, só pode compreender-se no que se seguiu: uma paulatina reflexão permitiu-nos constatar que tudo não ficou nem vai ficar bem. E nesse sentido, depois de uma eufórica campanha de falsa esperança a Comunicação Social atirou-se aos ossos, como uma hiena esfomeada.
Mau será se os interlocutores da Ciência, os Homens da Igreja e os arautos da Informação não saiam profundamente feridos desta pandemia, quando e como ela acabar. Contribuíram para, partindo da Razão, criar uma aparente ficção.
Talvez estejamos perante uma oportunidade da História, como as que o Homem conheceu pelos séculos XIV e XVIII e que alteraram substancialmente os paradigmas anteriores, provocando Revoluções quanto ao modo de sentir, pensar e agir no resto do presente século XXI.

 

publicado às 15:02

Portugal é um inconseguimento permanente

por Samuel de Paiva Pires, em 09.12.20

Hoje, a propósito de três acontecimentos da semana passada, escrevo no Observador sobre alguns traços da cultura nacional. Termino assim:

Em suma, no nosso país imperam a “tudologia”, um debate político pobre, uma crónica incapacidade organizacional e lideranças políticas medíocres. Continuaremos certamente a pensar a cultura portuguesa, a identidade nacional e o nosso declínio em torno de temas como o sebastianismo, o pessimismo ou a saudade, mas a causa principal do nosso atraso estrutural, na esteira do que Nuno Garoupa escreveu há quase três anos, é a infelicidade de termos elites de má qualidade. Como canta Samuel Úria, “Se fosse meritocracia/ Nem serviam para comida de cão”.

publicado às 20:56

Sem norte

por Samuel de Paiva Pires, em 30.11.20

Fátima Bonifácio realiza hoje um exercício que tem tanto de intelectualmente desonesto como de revelador. Diz-se uma conservadora liberal burkeana defensora do reformismo gradualista ao mesmo tempo que defende a perturbação da ordem social e política pelo Chega, um partido que, na tipologia de Jaime Nogueira Pinto, em A Direita e as Direitas, anda algures entre a direita revolucionária e a autoritária, esta última uma corrente da direita conservadora. Ainda seguindo JNP, dentro da família conservadora temos uma segunda corrente, a liberal, que é a das Revoluções Atlânticas que nos deram a democracia liberal, a do conservadorismo anglo-saxónico, onde se inclui Burke, e da democracia cristã. Esta corrente é a antítese da direita autoritária, onde pontificam populistas vários. A literatura recente sobre o populismo mostra que o aparecimento deste (seja de esquerda ou de direita) em democracias liberais consolidadas leva invariavelmente à erosão democrática e, no limite, à quebra da ordem demo-liberal que a historiadora defende. A mesma historiadora que não se inibe de aplaudir o Chega pela possibilidade de terraplanar a ordem política vigente. Tamanha confusão e incoerência só é passível de ser compreendida se levarmos em consideração a enésima vez em que alguém da direita protofascista aventa os fantasmas da alegada supremacia da esquerda a que a direita liberal andaria constantemente a tentar agradar. Boa parte da discussão espoletada pelo artigo dos 54 no Público não é intelectualmente séria, porquanto a direita protofascista é informada por percepções e vieses psicológicos que atestam uma tormenta permanente em relação a um papão esquerdista, seja ele do PS, do BE ou do PCP, o que justificaria todos os meios, inclusivamente entendimentos com extremismos à direita, para desalojar a esquerda do poder. É certo que a política não é só racional, tem muito de emoção. Mas assim sendo, ou bem que deixam a teoria política de lado para não incorrerem em contradições várias, ou assumem a filiação na direita revolucionária ou na autoritária para serem intelectualmente coerentes. Foi esta, no fundo, a clareza que defendemos, contra a amálgama patente no artigo de Fátima Bonifácio. De resto, para os que temem o papão, sugiro que, na hora de irem dormir, comecem a deixar uma luz de presença ligada.

publicado às 15:43

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Negacionismo foi a designação encontrada pelos meios de comunicação social para apontar todo aquele que nega ou não acredita na pandemia de SARS-COV-2. Para além destes existem, ainda, os conspiracionistas e os fascistas, designações mais antigas e correntes que apontam um largo espectro de cibernautas ou comentadores.
Estamos perante um fenómeno em nada novo. O espaço cibernético abriu caminho a uma longa trupe de indivíduos que encontrou o lugar ideal para defender, difundir e confirmar as suas teorias, muitas delas alimentadas ao longo dos anos pelo cinema de Hollywood e por nomes famosos da literatura esotérica, de consumo fácil e atractiva pelos elementos nela contidos: explicações simples para o misterioso, o incógnito ou o inexplicável.
Acreditar que a pandemia é, ou uma patranha, ou não acreditar nela é uma idiotice fácil de desmontar. Primeiro, ninguém acreditaria verdadeiramente que alguém produzisse um vírus para o «soltar» na humanidade, com intuito de prejudicar selectivamente países ou culturas. 
Depois, porque todos nós vivemos, desde Março, uma experiência que dificilmente poderia ser uma farsa. Todos vimos nas televisões os camiões com caixões em Itália, a contagem dos já milhões de óbitos, as urgências cheias, os profissionais de saúde exaustos e os confinamentos por todo o mundo. Não há imaginação que planeasse este panorama, nem as televisões mentiriam de uma forma tão consistente e abrangente. Neste mundo de inverdades digitais as televisões foram o grande recurso para saciar as nossas eventuais dúvidas.
Verdade: nunca esta palavra foi tão reclamada. A Verdade, coisa tão subjectiva como o seu contrário, tem sido invocada por alguns para desmascarar a situação em que vivemos. Para alguns há uma narrativa oficial, política, científica que mente e que deturpa o tempo em que vivemos. Uns insistem na estranha origem do vírus, outros recusam a sua letalidade, outros ainda que não passa de uma “gripezinha”. Como foi possível surgir esta frente, hoje aficandamente combatida pela comunicação social e por alguns médicos, como o Doutor Gustavo Carona?
Creio que a explicação poderá ser encontrada na forma como a comunicação da pandemia tem sido gerida quer pelos cientistas, quer pelos políticos, quer pelos media. Desde o início que todos conduziram errónea e erraticamente campanhas diversas: primeiro a do “vai ficar tudo bem”, mensagem que alimentou as parangonas de jornais e revistas e ocupou o tempo de antena de chorosos pivots televisivos . Nunca na história recente da Comunicação Social se viu tamanha campanha sentimentalista que deixou os media fragilizados na sua função de imparcialidade e objectividade pedida a uma ocasião como esta. Seguiu-se-lhe uma falsa sensação de acalmia que derivou num verão quase tranquilo, sem surtos ou casos graves. Excepções atrás de excepções, políticos e jornalistas contribuíram para um discurso confuso, errático, por vezes imperceptível e pouco sério: eis a uma das explicações para o exponencial crescimento de movimentos “pela verdade”. De facto, ninguém detém a Verdade nesta discussão entre fanáticos conspiracionistas e hipocondríacos esquizofrénicos, mas quer de um lado quer de outro, o desvario tomou proporções incontroláveis devido a meses de uma infrene campanha de desinformação.
Neste momento, uma pretensa segunda vaga (ou a continuação da primeira, acentuada pelo crescente número de testes) colocou os hospitais numa situação de ruptura. Fala-se já em escolher quem vive e quem morre, num twist macabro e irónico quando a discussão sobre a Eutanásia está na ordem do dia.
Mas o reflexo de outras escolhas já está na rua, nas manifestações de ontem, no Porto, e hoje em Lisboa. É que se os médicos, os cientistas e os políticos se responsabilizam directa ou indirectamente pelas escolhas de quem vive ou morre nos hospitais, certamente nunca se responsabilizarão pela destruição da vida individual e colectiva de jovens que vêm os seus empregos eliminados pelas políticas aplicadas na contenção de uma doença que avança desenfreadamente mesmo com o estabelecimento de várias formas de controlo. Nem a comunicação social será responsabilizada por alimentar e alimentar-se desta frenética campanha de desinformação. Um autêntico frenesi de desespero que lhes é devolvido pelos teóricos da conspiração e negação e que os media exploram como apenas mais um sensacionalismo dos muitos que lhe garantem sustento. Infelizmente os media tornaram-se um poder absoluto sem qualquer tipo de oposição ou resistência.
Ora, sem vacina ou terapêuticas adequadas conter o avanço da pandemia é como segurar uma fuga de água com uma peneira. E se, como a Comunicação Social tem divulgado abundantemente, houver sequelas nos doentes covid-19, vislumbra-se um futuro de milhões de inválidos que contribuirão para o enfraquecimento dos Serviços Nacionais de Saúde.
Até vacina chegar à maior parte da população do planeta (um, dois, três anos?) entre formas de aplanar as sucessivas curvas, muitos milhões serão aplicados nestas medidas que apenas remedeiam, durante semanas ou meses, a destruição do tecido social e económico. Até quando um estado como o da República Portuguesa aguentará este tipo de investimento?
Não se pode colocar o dilema entre a saúde e a economia, como se a saúde de uma população fosse apenas uma doença que se trata no dia de hoje, ou a curto e médio prazo. O empobrecimento social resultará em graves problemas sanitários que saem da esfera meramente biológica, como o que vivemos hoje, contribuindo ainda mais para o acima descrito enfraquecimentos dos sistemas de saúde.
Por isso, o leque de escolhas é, como escrevemos, muito mais alargado: não se decide apenas pela vida no imediato, nos cuidados intensivos, decide-se pela vida de milhões de pessoas, algumas delas tão jovens que, ou ainda em formação, ou no início do seu período de empregabilidade já viram truncadas as suas esperanças próximas futuras.
O panorama parece desolador e é-o de facto. Mas entre a desinformação e a errância dos actos, convinha respirar fundo e pensar a longo prazo. Pois o tempo que o vírus veio para ficar e as ondas de choque da sua chegada serão sentidas daqui a muitos anos. Era importante que começássemos a preparar um futuro mais saudável e não um presente remediado, investindo em mais recursos humanos e equipamentos sanitários. Bem vamos precisar destes quando já nos tivermos habituados à presença do Sars-cov-2 mas as consequências da sua chegada ainda se fizerem sentir entre nós. 

publicado às 19:45

A clareza que defendemos (no Público)

por Ana Rodrigues Bidarra, em 10.11.20

É importante, em momentos como o presente, defender a democracia liberal. Integro, por isso, o conjunto de subscritores deste importante texto, difundido pelo Público.

A título estritamente pessoal, acrescento apenas o seguinte:

Tenho-vos visto, lido e ouvido.

Desde há uns tempos a esta parte que recuso participar deste teatro de egos protagonizado pela expressão da parca auto-estima daqueles que se escondem atrás de um avatar como miseráveis bullies. Biltres de cadeirão. Se do debate nasce a luz, do Facebook apenas se vislumbram as trevas, motivo pelo qual também me fascina, admito.

Por aqui, tenho assistido ao crescente acantonamento das posições políticas e ideológicas. Aquilo a que muitos preferem chamar debate ou confronto é, na verdade, um exercício de regurgitamento visceral por quem só quer ver o mundo a arder.

Eu sei muito bem quem vocês são e prefiro ver-vos de perto. É que, ao contrário das vossas tão firmes convicções de que são uma espécie de Übermensch, a vossa flacidez de carácter não me faz sombra, não me assusta. Chego até a sentir alguma pena do estado deplorável a que alguns de vós chegaram.

A vossa fascinação quasi-erótica por líderes facínoras e autocratas não é coisa recente e motiva parte da vossa retórica iliberal contra aquilo que vão apelidando como a “direita fofinha”, “direita cobarde”, “direita moderada”. Eu cá não tenho vergonha nem pejo de chamar as coisas pelos nomes e ajudo a desmistificar, a bem da necessária clareza: aquilo que vocês querem destruir é a democracia porque a solução que vocês preconizam é autoritária. O que vocês querem é, escudados pelos direitos, liberdades e garantias de que são titulares e que devem a pessoas verdadeiramente heróicas que há cerca de 40 anos lutaram pela liberdade e pela democracia em Portugal, instituir um regime autoritário. Fazem-no de forma dissimulada, escamoteando a vossa agenda e intenções. Desenganem-se, meus caros, afinal os cobardes são vocês. Não são a “direita musculada”, vocês não são nada. Não têm ideologia. São débeis. E ainda têm o dislate de apelidar os que defendem a pluralidade, a democracia, de “cobardes”? Ganhem vergonha. A vossa retórica gongórica só vos dá direito a emojis. O 25 de Abril não se fez ao som das teclas.

Muitos de vós experimentaram os partidos à direita, à esquerda e acabaram de birra no canto da sala, porque “afinal não era bem aquilo” e encontram agora conforto na solução que sempre quiseram, o Chega. É curioso observar que vocês seriam as primeiras vitimas do sistema que tanto ensejam. Falta-vos consciência de classe e de condição. Falta-vos também perspectiva. É que eu conheço alguns de vós e sei, meus caros, que se odeiam mutuamente. Não há partido nem movimento que consiga dar resposta aos vossos anseios antagónicos. Vocês, juntos, têm apenas coerência no distanciamento radical de todas as estruturas, sistemas e métodos liberais e democráticos, motivo pelo qual se unem contra estes como meninos de coro com síndrome de Tourette. Não há ninguém que vos diga? Vocês não são especiais, são mesmo muito idiotas.

A democracia é-me cara mas também me lixa o juízo. Foi a democracia que permitiu que Hitler ascendesse ao poder na Alemanha, Bolsonaro no Brasil, Trump nos EUA, etc. Mas eu dependo da (e defendo a) democracia porque só com ela alcanço os meus objectivos. A História ensinou-me importantes lições e, ao contrário de vós, não vejo o mundo quando me olho ao espelho. Sei que devo o que tenho hoje como garantido à coragem dos meus antepassados e, se é certo que no quadro do combate político demoliberal, o lado que eu defendo nem sempre ganha, é igualmente seguro que um dia ganhará. Em democracia, não há uma verdade única e as minorias de hoje são as maiorias de amanhã. Mas o que vocês querem não é isso. O que vocês querem é forçar-nos a sucumbir àquilo que é a vossa mundividência, sempre temperada com doses q.b. de teorias conspiracionistas. JAMAIS.

Mas se o advento e eleição de partidos populistas nos ensinou algo é que, acima de tudo, a democracia é frágil e precisa de ser protegida. Temos problemas gravíssimos e é urgente reconhecer que algumas críticas tecidas por estes partidos estão correctas, mas não as soluções preconizadas. Em vez de deixarmos que a História se repita como tragédia ou farsa, o importante é trabalhar na resposta aos problemas reais e cada vez mais prementes, que em momento algum passará por regimes políticos autocráticos.

É que o conforto de uma cadeira e a capacidade de teclar tudo aquilo que vos passa pela cabeça, não é sinal de coragem, de músculo, é a definição não apenas de alienação mental mas da mais abjecta cobardia. Afinal, a direita cobarde é outra.

Assumam-se, seus protofascistas.

publicado às 12:28

Dos Eric Cartman da direita portuguesa

por Samuel de Paiva Pires, em 06.11.20

Durante os últimos quatro anos, os partidários portugueses de Trump e quejandos líderes e movimentos populistas não só ignoraram como se regozijaram com os inúmeros ataques do ainda Presidente dos EUA aos fundamentos da democracia liberal e às mais elementares regras de decência e civilidade. Aprenderam com Trump uma táctica discursiva de contornos bastante simples, assente em duas fases, que temos observado nos últimos dias: acusam os adversários daquilo que, na verdade, são as práticas dos próprios acusadores, e quando confrontados recorrem invariavelmente à vitimização. Isto em registos constantemente marcados pela grosseria e ofensas gratuitas ao mesmo tempo que se arvoram em adeptos da elevação no debate. São constantes os ataques vis protagonizados por Trump, as acusações de que os adversários fizeram X ou Y que, na realidade, é o que o próprio faz, e a sempre previsível vitimização perante o confronto. A estratégia de Trump para as eleições é, aliás, elucidativa quanto baste a este respeito. Entre os seus aprendizes, um exemplo particularmente ilustrativo foram as críticas a Joe Biden por ter chamado “clown” a Trump no primeiro debate presidencial, tecidas por quem ignorou olimpicamente o facto de ter sido Trump a levar o debate para a lama. Mais uma vez, escamotearam a conduta miserável do seu querido líder e alguns, sem terem visto o debate, concentraram os seus ataques sobre esse momento, não tendo sequer a noção de que Biden revelou capacidade de contenção numa situação em que muitos nivelariam a sua postura pela de Trump ou abandonariam o debate.

Entretanto, por cá, à direita, a divisão entre democratas liberais e populistas tem-se tornado cada vez mais visível, sendo célebres, dos trumpistas nativos, várias ofensas, desde as mais patéticas (“a direita cobarde”, “os moderados cobardes”, “a direita fofinha”, “a direita Haddad”) às mais directas e em registo taberneiro. Recorrem com uma inusitada frequência a este estilo pela simples razão de que atrás de um computador, e no tempo das redes sociais, a propensão para a agressividade é particularmente acentuada. Ao vivo, perante aqueles que apelidam de cobardes, não se atrevem, como já pude observar várias vezes, a adoptar um vislumbre da retórica ofensiva a que recorrem nas redes, até porque a frontalidade e a coragem moral e física de muitos é inversamente proporcional à que demonstram no mundo virtual, da mesma forma que a sua noção de civilidade também é inversamente proporcional à que fica patente na internet - felizmente! Talvez mais interessante que a fase das ofensas, é a fase da vitimização. Revela a mesma postura moral do bully no recreio da escola que, quando confrontado, choraminga e vai fazer queixas aos professores e aos pais. São os Eric Cartman da direita portuguesa.

Mas esta semana trouxe-nos uma novidade nas práticas discursivas. Às acusações, ofensas e vitimização vieram acrescentar a cereja no topo do bolo: o gongorismo proclamatório em declarações sobre o fim da civilização, do debate público elevado e, no limite, da humanidade como a conhecemos. Descartados os óbvios exageros de quem se leva demasiado a sério, há que mostrar alguma compreensão. Estão desnorteados com a eventual queda do querido líder e com o que esta significaria para o futuro dos movimentos nacional-populistas. Agora que os EUA poderão entrar numa fase de regeneração, por cá a direita radical ainda está na fase de crescimento. Quando a direita radical lusa atingir o auge, em muitos outros países já os populistas estarão no espelho retrovisor. O populismo é a antítese da democracia liberal. Em vez de harmonizar contrários, alimenta-se da tribalização e da polarização. Mas quando chegarmos à fase de síntese, isto é, quando algumas críticas dos populistas tiverem sido absorvidas e respondidas pelo mainstream que descarta as soluções anti-liberais, os "moderados-fofinhos-cobardes" cá estarão, na sua infinita paciência, tolerância e, em muitos casos, caridade cristã, para acolher os que os têm ofendido.

publicado às 22:04

Sobre a app do nosso descontentamento

por Samuel de Paiva Pires, em 18.10.20

Para uma app ajudar no combate à pandemia, ou seja, para ser eficaz, tem de funcionar com base em pressupostos radicalmente diferentes das apps na Europa: imposta coercivamente, com geolocalização (para permitir a fiscalização das quarentenas e isolamentos), com os dados numa base de dados centralizada e em que os infectados são identificados pelas autoridades de saúde/governos. Ou seja, tem de ser uma ordem de organização, nos moldes das apps utilizadas em países asiáticos, onde o colectivo toma primazia, não uma ordem espontânea, por defeito centrada na liberdade e privacidade dos indivíduos. Dado que o demo-liberalismo predominante no Ocidente repudia fortemente - e por bons motivos - uma app nos moldes das asiáticas, não adianta muito andar a discutir a eficácia (reduzidíssima) da Stayaway Covid e a sua eventual obrigatoriedade (que muito dificilmente seria aprovada e implementada). Esta última questão, aliás, não passa de mais um sinal da notória tentativa, por parte do governo PS, de deslocar o centro da responsabilidade pelo combate à pandemia para o nível individual. Assim sendo, devemos concentrar-nos naquilo que já se sabe que resulta, quer ao nível individual - máscaras, higienização das mãos e distanciamento físico - quer ao nível governamental, pelo que é necessário pressionar o governo a assumir as suas responsabilidades na alocação de recursos financeiros e humanos que reforcem os testes massivos, rastreamento de contactos e fiscalização de isolamentos e quarentenas. Tudo o mais são distracções que só acabam por ter custos mais elevados, quer em termos de saúde pública, quer no que à actividade económica diz respeito.

publicado às 14:49

O novo livro do Professor José Adelino Maltez, Portugal pós-liberal, será lançado amanhã na Biblioteca da Academia Militar, em Lisboa, pelas 18:30. A apresentação estará a cargo de João Soares. O livro já pode ser adquirido através da Wook e para mais informações podem consultar a página no Facebook.

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publicado às 13:24

Racismo, meritocracia e desigualdades

por Samuel de Paiva Pires, em 27.09.20

O caso de ontem nas redes sociais foi o novo pivô da SIC Notícias, Cláudio Bento França. Permitam-me recapitular e tecer breves comentários aos três previsíveis “argumentos” que logo começaram a ser derramados por aí contra aqueles que se regozijaram com o acontecimento:

1 - “Não é o primeiro pivô negro em Portugal”. Claro que não, mas foram e são tão poucos, devido ao que se segue nos próximos pontos, que não pode deixar de ser notícia.

2 - “A cor da pele não é relevante, o que importa é que as pessoas desempenhem cargos para os quais têm competência e que alcançaram por mérito próprio”. Assim seria num mundo ideal, que não é o nosso. Estamos perante a perniciosa ideia de meritocracia, um pilar do capitalismo contemporâneo que permite justificar e normalizar estruturas e relações de poder que contribuem para a perpetuação de desigualdades e discriminações. Nos últimos anos, vários autores têm evidenciado efeitos negativos da crença na meritocracia, sendo esta, aliás, o tema do mais recente livro de Michael Sandel (The Tyranny of Merit). Mas podem continuar a acreditar que não partimos todos de situações desiguais resultantes de diferentes condições económicas das famílias em que nascemos (que os sistemas de educação, saúde e segurança social não conseguem atenuar como seria desejável), que em sociedades capitalistas onde os brancos constituem a maioria étnica e a burguesia é a classe social dominante basta ser trabalhador e competente para se conseguir ascender socialmente sem que a classe social, a cor da pele, o sexo, a orientação sexual ou a aparência (atente-se nos comentários sobre as rastas de Cláudio Bento França) sejam barreiras ao sucesso, e, por último, podem também continuar a adoptar o pensamento mágico de que todas as pessoas em posições profissionais e políticas destacadas estão lá por mérito e devido à sua competência – as últimas duas décadas demonstraram à saciedade a imensa competência de tantos políticos, CEO’s e banqueiros portugueses. Ou seja, podem continuar a viver no vosso domínio ontológico privado e a achar que o mundo é o vosso umbigo, mas não esperem que a realidade social se conforme aos vossos simplismos intelectuais.

3 - “Lá está a esquerda a abanar a bandeira do racismo outra vez quando Portugal não é um país racista, o que se comprova, entre outras coisas, por este caso, como por outros congéneres e até por termos um Primeiro-Ministro de ascendência goesa”. Em primeiro lugar, se aceitarmos este argumento, em que a selecção de um reduzido número de casos individuais (cherry picking, falácia de atenção selectiva) aparentemente valida uma tese (“Portugal não é um país racista”), então, a contrario, teremos de aceitar igualmente a selecção de outros casos, como Marega em Guimarães ou os assassinatos de Alcindo Monteiro e Bruno Candé, para confirmar a tese contrária (“Portugal é um país racista”). Como é óbvio, ambas as teses não podem estar certas, o que indicia a presença de vícios de raciocínio impeditivos de uma discussão racional. Ora, para começarmos a vislumbrar alguma racionalidade nesta discussão, importa desde logo questionar o que se entende por “Portugal”, se é o Estado-aparelho de poder, se é o Estado-comunidade. Com efeito, o Estado-aparelho de poder não prossegue políticas públicas racistas - pelo contrário. Já o Estado-comunidade - a sociedade portuguesa - é composto por indivíduos (e estes, por sua vez, compõem e moldam instituições e estruturas sociais formais e não-formais) com os mais diversos preconceitos racistas e outros que não têm quaisquer preconceitos. Portanto, o Estado-aparelho de poder não é racista, mas na sociedade portuguesa encontramos tanto indivíduos racistas como não-racistas. A discussão tem sido feita em termos maniqueístas e absolutos, i.e., de forma errada, porque a esmagadora maioria das pessoas não compreende que a realidade social é muito mais complexa que a sua mundividência e porque os actores políticos de ambos os lados têm interesse em alimentá-la naqueles termos para poderem dela retirar ganhos políticos.

Por último, permitam-me ainda sublinhar que se a direita persistir em deixar a esquerda reclamar como suas causas que deveriam ser transversais, ou seja, se deixar o combate às desigualdades económicas e sociais para a esquerda e continuar mais preocupada com certos espantalhos e os interesses de classes sociais privilegiadas, estará a condenar-se a uma ainda mais prolongada irrelevância política - leia-se, a não governar.

publicado às 14:13

O PRINCÍPIO DA IGNORÂNCIA SÁBIA

por Nuno Resende, em 26.09.20

O texto de um médico chamado Gustavo Carona, publicado no jornal Público circula nas redes sociais como uma espécie de grito de alerta contra «as campanhas de desinformação, conspiração e negação» em tempo de pandemia. O artigo, intitulado, «Resistam à estupidez» é uma espécie de puxão de orelhas a quem se atreva a questionar a gravidade da situação.
Em tom paternalista diz-nos que «quando a vontade é muita, somos capazes de acreditar nas coisas mais estúpidas e inverosímeis». Tem razão. E tem-na de tal forma que, no início de 2020 havia médicos como o Dr. Gustavo Carona que acreditavam em coisas estúpidas como o facto de um vírus já conhecido e potencialmente perigoso como o que fazia tremer a China, 1.º nunca chegaria à Europa, 2.º se chegasse seria inofensivo, 3.º tendo chegado, não seria preciso máscara, etc., etc, de coisa estúpida e inverosímil, em coisa estúpida e inverosímil até hoje!
O Dr. Gustavo Carona, que administra uma página de facebook intitulada Gustavo Carona - Humanitarian Doctor, onde promove abundantemente o seu humanitarismo, rebate em cinco pontos (1.“A ciência aos cientistas”, 2.“Morrem mais pessoas de cancro!” 2“Dinheiro e Felicidade” 3“Avante, Fátima, Futebol e 4. Discotecas” 5. “Numerologistas”) a trupe de estúpidos que circula pelas redes sociais, semeando discórdia e falsos rumores, coisa que parece dever-se única a exclusivamente a gente mal informada ou sem formação.
Qualquer dos pontos é difícil de rebater, mas é sobretudo difícil passar do primeiro, que inicia assim:

«Eu não imagino que alguém se levante do seu lugar num avião a passar por uma tempestade e tente tirar os pilotos do cockpit: “Sai daí! Eu é que sei aterrar este AirBus 380 no meio desta tempestade”. É isto que estamos a presenciar. Doutorados em patetices a dizer que sabem mais do que toda a comunidade científica.»

Suspeito que a maior parte dos cientistas também não saberá pilotar um avião nem, portanto, arrogar-se a isso em pleno voo. Mas duvido que a comunidade científica, à frente da qual fala o Dr. Carona, se pronuncie a uma só voz na questão da pandemia. E mantendo a alegoria do avião, pressinto que se a pandemia fosse um boeing 747 que exigisse uma aterragem segura, dependendo da tal comunidade científica a esta altura não só o avião já teria caído, como certamente teria destroçado uma cidade bastante populosa, causando o maior número de vítimas possível, tal a evolução da pandemia.
O avanço deste vírus trouxe ao de cima o melhor e o pior da humanidade face a uma situação destas: há os que, se não morrerem da doença, morrem de medo; os ignorantes para quem o perigo não existe; e os que pura e simplesmente tiram partido do momento.
Os primeiros persignam-se, barricam-se, sofrem os horrores dos números de mortos e infectados que a comunicação social, com um prazer diabólico, debita todos os dias.
Os segundos vociferam contra a Nova Ordem Mundial, o Club Bilderberg, os Illuminatti e outras quejandas parvoíces com que Hollywood os alimenta. Uns não acreditam, são os tais «negacionistas», outros acusam poderes invisíveis e outros, ainda, acham que é um plano maquiavélico e à vista de todos para controlar a humanidade pela vacina que virá.
Entre os terceiros há os que acham que o Mundo está a purificar-se, outros que o confinamento foi uma época deliciosa de leitura, música, artes e culinária e ainda outros que acreditam que vai ficar tudo bem.
Nesta ausência de serenidade e equilíbrio é muito difícil ser-se sério ou objectivo. É muito difícil comparar este vírus com outros, pesando o seu verdadeiro perigo para a saúde pública em geral; é muito difícil acreditar em mensagens fiáveis, seguras, definitivas quando tantas antes delas, transmitidas pela comunidade científica foram o seu oposto; é muito difícil contribuir para um discussão ampla, aberta e franca, quando há tanto ruído.
Estamos todos no mesmo barco, esta é uma verdade, médicos e não médicos, cientistas e não cientistas. Não há lugar para teorias da conspiração, que o bom senso desconstrói facilmente com a imagem de um mundo paralisado há vários meses – qualquer conspiração perderia o controlo sobre este cenário.
Mas se, felizmente, deixámos para trás um tempo em que a superstição, o misticismo, a idolatria e o pietismo controlavam as mentes, não podemos achar bem que os sacerdotes de outrora, guardadores dos mistérios da religião, sejam substituídos pelos cientistas e pelo cientificismo.
Tudo pode ser questionado. Tudo deve ser questionado e escrutinado. Mais ainda a Ciência a quem a Humanidade deve a sua sobrevivência e o seu progresso, preciosos bens que várias vezes alguns os mesmos cientistas lhe roubaram. O Dr. Gustavo Carona diz que a ciência é para os cientistas e eu fico, em parte satisfeito com este aviso, pois há anos que me vejo confrontado pela apropriação do meu campo científico de investigação – a História- por não cientistas ou até mesmo por colegas de profissão do Dr. Carona.
Mas a arrogância da expressão não contribui para acalmar o tempo de crispação que se vive. Nem isso, nem o bloqueio nas redes sociais método que alguns colegas do Dr. Carona usam amiúde para silenciar opiniões divergentes. Também não será a atribuir rótulos como “negacionista” ou “fascista” que alguém fará valer o seu ponto de vista. Pelo menos dignamente. E nem sequer é preciso invocar a ética ou deontologia que tem andado arredada da boca e da escrita de muitos médicos .
Sem tolerância ou paciência creio que a Ciência só produzirá ignorantes sábios.

publicado às 18:41

Lançamento de "Quando o Povo quiser"

por Samuel de Paiva Pires, em 16.09.20

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"Lançamento do livro "Quando o Povo quiser", uma antologia de textos monárquicos comemorativa dos 10 anos do Correio Real, que será apresentado pelo poeta e ensaísta Pedro Mexia e com a presença de Suas Altezas Reais os Duques de Bragança.

"Organizado por João Távora e editado por Vasco Rosa, "Quando o Povo quiser" inclui um prefácio de Nuno Pombo, um posfácio de S.A.R. o Senhor Dom Duarte de Bragança, e textos de António de Souza-Cardoso, Augusto Ferreira do Amaral, Carlos Bobone, Diogo Tomás, Francisco Teles da Gama, João Mattos e Silva, João Távora, João Vacas, Joaquim Costa e Nora, Jorge Leão, José Adelino Maltez, José Manuel Quintas, Leonor Martins de Carvalho, Luís Barata, Manuel Braga da Cruz, Miguel Castelo-Branco, Nuno Miguel Guedes, Nuno Castelo-Branco, Nuno Pombo, Nuno Resende, Paulo Cunha Porto, Paulo Teixeira Pinto, Pe. Pedro Quintela, Samuel de Paiva Pires, Teresa Côrte-Real, Teresa Maria Martins de Carvalho, Vasco Rosa e Dom Vasco Teles da Gama.

"O livro estará à venda no local pelo preço de 20,00€.

"O Centro Cultural de Santa Joana Princesa tem lotação para 300 pessoas sentadas: o distanciamento físico será garantido e serão observadas todas as normas sanitárias em vigor."

Mais informações no site da Real Associação de Lisboa e no Facebook

publicado às 19:48

A proposito da polémica sobre a Educação para a Cidadania, hoje escrevo no Observador sobre a crise que grassa na direita:

"Basta olhar para o programa da mencionada disciplina, como fizeram Pedro Mexia e João Miguel Tavares no Governo Sombra de 5 de Setembro, ou atentar no que escreveu Paulo Guinote no Público, para perceber que esta direita incorreu pela enésima vez na falácia do espantalho, facilmente explicada pela eterna obsessão com a igualdade de género, a sexualidade e o marxismo cultural, misturada com muita prosápia em torno de chavões como a liberdade de escolha e a doutrinação ideológica.
(...).
"Enquanto esta direita for incapaz de se organizar, de se consagrar como oposição efectiva e de apresentar um projecto político mobilizador que atenda às prioridades do país, continuará a infligir a si própria a menorização política a que temos assistido nos últimos anos em face de um PS cuja linha dominante não acolhe a inversão a que acima aludi e que, quando no governo, bem ou mal, vai procurando responder aos anseios concretos da maioria dos portugueses. Enquanto não conseguir sacudir-se de espantalhos, continuará uma penosa travessia do deserto."

publicado às 08:27

A matilha.

por Nuno Resende, em 29.06.20

O fenómeno ou comportamento de matilha é algo que tenho observado acontecer nas redes sociais, nomeadamente no Facebook, quando alguém com uma opinião contrária à maioria dos comentários é atacado em grupo por essa maioria. Geralmente este fenómeno observa-se nos comentários ao comentário, desenrolando-se, por vezes, uma extensa discussão até ou à desistência do atacado, ou ao cansaço do grupo.
Este fenómeno tem-se acirrado nos últimos meses, por causa da pandemia. Dada a larga escala e difusão constante de notícias, algumas contraditórias, as redes sociais replicam o eco geralmente catastrofista e ampliam-no em larga escala.
Tem-se ntoado uma diferença no opinismo digital: nas primeiras semanas no confinamento havia ânimo. Afinal, tudo ia ficar bem. O pânico crescia, no entanto, proporcionalmente ao número de infectados e de mortos e, à data do desconfinamento, o projecto da comunicação social para colaborar para travar a difusão da pandemia dera certo: poucos queriam sair de casa e os que saiam começaram a ser vistos como potenciais assassinos.
Neste tipo de difusão de mensagem não há lugar a nuances, ou se é ou bom ou se é mau. Da mesma forma que não há lugar para boas notícias. Como olhamos diariamente (eu diria mesmo quase de hora a hora) para os casos de COVID-19 dentro e fora de Portugal, não há margem para pensar em mais nada. Fora da pandemia, nesta altura, não existe vida.
Nas redes sociais, que em parte replicam comportamentos públicos, as pessoas mobilizam-se. Esta mobilização faz-se ou por mimetismo, ou por arregimentação. No caso do mimetismo: pânico gera pânico, medo gera medo. No caso da arregimentação, ela processa-se de forma solidária: os membros de um grupo ou partido, ideologia ou corporação arregimentam os seus e todos apontam ao alvo. Este tipo de mobilização é transversal a todas as questões candentes das redes sociais e estão geralmente associadas a páginas específicas, de figuras públicas, projectos de comunicação social.
Já fui várias vezes alvo dos dois tipos de ataque em matilha. Recentemente vi-me confrontado com uma situação verdadeiramente kafkiana: por comentar uma notícia a respeito de um título de um artigo de Pacheco Pereira (artigo que não li, apenas fazendo menção ás “gordas”) sobre o facto de o São João do Porto ter sido «domado» em tempo de pandemia vi-me encostado à parede por uma matilha de indivíduos que me acusou de ser um conspiracionista e até um disseminador da doença. Isto por eu ter escrito que se o Porto fora domado, o fora pelo medo – o que, continuo a afirmá-lo, é verdade e está à vista de todos. O medo tem-nos a todos reféns.
Apareceram comentadores de todos os lados e origens. Se é certo que a maioria não tinha dados suficientes para aferir, muitas vezes, sequer da sua identificação real, nota-se que há uma predominância de indivíduos pouco dotados para a escrita e para a argumentação. A partir de uma determinada altura o argumento é apenas o insulto e noutros casos a utilização de dados pessoais localizados na internet para tentar destruir o opinador e fazê-lo desistir, ou para embaraçá-lo no confronto com as suas próprias acções, profissão e até aspecto físico.
No caso que acima exemplifiquei o que me chocou particularmente foi o de um médico cujo método de ataque era recorrer a comentários de teor homofóbico para tentar, não só desviar o assunto, como rebaixar a opinião do outro pelo ridículo. Não contente, ameaçava com pena de prisão por advogar à disseminação da doença – como se alguém, por ter uma opinião diversa da maioria, fosse considerado um pária, ou, pior, um assassino em potência!
A Raquel Varela escreveu, recentemente, um texto sobre este tipo de ataques soezes e da necessidade de reflectirmos sobre eles. As redes sociais  permitiram, e felizmente bem, a possibilidade de mais vozes chegarem mais longe, mas ainda não conseguiram educar para a discussão sã e cordial que poderia ser alcançada, por exemplo, pela responsabilização dos proprietários dos perfis (o sistema de denúncia não funciona porque é feito através de «robots» que lêem palavras proibidas, mas não conseguem entender insultos «complexos») nomeadamente através da associação aos perfis de componentes de identificação credíveis (o cartão de cidadão, por exemplo).
Estou em crer que o problema das fake news poderia ser mitigado com estas formas de identificação credível, em vez de deixarmos as redes sociais entregues a perfis falsos criados para lançar rumores e ataques, trolls e toda uma panóplia de indivíduos sem qualquer capacidade crítica, alguns irresponsáveis sem o saberem ou disso terem consciência.

publicado às 09:03

O Instituto do Oriente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas - Universidade de Lisboa promove um ciclo de seminários subordinado ao tema "As Dinâmicas Geoeconómicas dos Grandes Players". As sessões serão realizadas via Zoom, Facebook e Linkedin estando sujeitas a inscrição prévia através deste formulário. Podem encontrar mais informações no site do Instituto do Oriente.

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publicado às 12:30

O Centro de Administração e Políticas Públicas (CAPP) do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas - Universidade de Lisboa promove um ciclo de webinars subordinado ao tema "A Europa em tempos de (Des)União: Reflexões e Prospetiva". As sessões serão realizadas via Zoom, estando sujeitas a inscrição prévia através deste formulário. Podem encontrar mais informações no site do CAPP

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publicado às 11:36

É preciso mudar alguma coisa para que fique tudo como está

por Samuel de Paiva Pires, em 02.06.20

Anda por aí uma grande agitação em torno do fait divers António Costa Silva. O governo que não conseguiu reorientar a economia quando devia e tinha poderes acrescidos para o fazer pretende agora fazê-lo por via de um plano de recuperação económica com moldes ainda por conhecer. Nada contra, mas a nossa limitada capacidade de planeamento, a memória do que por cá foram as últimas décadas em matéria de investimento público e afectação de fundos provenientes de Bruxelas para investimentos públicos e privados e ainda o que se conhece do plano da Comissão Europeia - por ora apenas uma proposta - deveriam acalmar os espíritos mais agitados. Porque continuamos a viver numa economia mista marcada por dois processos paralelos assinalados por Norberto Bobbio, a privatização do público e a publicização do privado, podem ficar descansados todos aqueles que se especializaram na indústria extractiva de recursos financeiros para projectos duvidosos e frequentemente sem quaisquer efeitos para além do very typical encher os bolsos de alguns à custa do bem comum. Das consultoras às associações empresariais especializadas em candidaturas a fundos europeus, dos agricultores à espera de comprar um Land Rover aos empresários que anseiam pelo mais recente Mercedes, BMW ou Porsche - sejam eles pequenos ou grandes empresários dos sectores mais tradicionais ou de uma startup tecnológica qualquer -, dos empresários que sem o Estado dificilmente sobreviveriam aos políticos cujo sonho é passar por uma revolving door para uma sinecura num qualquer conselho de administração, vão todos ficar mesmo bem. O mesmo é dizer que o milésimo plano para desenvolver ou reformar o país não vai afectar a nossa cultura política e empresarial e dificilmente terá impactos assinaláveis no nosso desenvolvimento económico. Não é esta, sequer, uma preocupação do Primeiro-Ministro. Como escreveu Lampedusa, é preciso mudar alguma coisa para que fique tudo como está.

publicado às 11:56

Do poder e da estupidez em tempos de coronavírus

por Samuel de Paiva Pires, em 29.05.20

Quando, há uns dois meses, escrevi que iríamos assistir a mudanças sistémicas à escala global, não tomei partido quanto à direcção destas, isto é, não formulei nenhum juízo sobre se as mudanças seriam para melhor ou pior. Mais ou menos na mesma altura, começaram a manifestar-se na opinião pública aqueles que, pretendendo avançar as suas agendas ideológicas, logo vaticinaram velhinhos “amanhãs que cantam”. Muitos decretaram pela milésima vez a morte do liberalismo e do capitalismo e anunciaram um mundo novo marcado pela bondade e pela compreensão de que os nossos excessos das últimas décadas teriam necessariamente de dar lugar a um mundo mais harmonioso - uma manifestação da fé iluminista no progresso (seja lá este o que for). Outros, em posição diametralmente oposta, preferiram defender a globalização e a ortodoxia liberal, proclamando alguns deles, também pela milésima vez, o império da economia sobre a política, como se estas fossem mutuamente exclusivas. 

Ora, o mais provável é que Richard Haass tenha razão, a crise acabará apenas por acelerar as tendências verificadas nos últimos anos. Os crentes nos diferentes progressismos parecem esquecer-se que a história não progride de forma linear e que há duas características da condição humana aparentemente imutáveis e frequentemente amalgamadas: a luta pelo poder e a estupidez.

Não é por acaso que o poder é o fenómeno central da Ciência Política, assim como na Teoria das Relações Internacionais, especialmente para realistas e neo-realistas, segundo os quais o poder é a moeda da política internacional e esta é sinónimo de power politics. Nem sequer o projecto de integração mais avançado no mundo escapa a isto, como temos vindo a aprender duramente desde 2008. Porém, em Portugal, não faltam defensores da narrativa espelhada na capa de uma revista holandesa, segundo a qual os países do norte da Europa são muito produtivos e frugais ao passo que os países do sul são pouco produtivos, gastadores e pedintes em relação aos do norte. Como já escrevi anteriormente, para estes, que no ano de 2020, tendo já passado pela crise do euro, ainda não conseguiram perceber que a União Económica e Monetária tem falhas estruturais conducentes a um funcionamento perverso que privilegia os países do norte e prejudica os do sul, dificilmente haverá salvação. Os seus vieses cognitivos e ideológicos, para além da ignorância da história do projecto de integração europeia, não lhes permitem vislumbrar e compreender a dimensão política, de luta pelo poder, no cerne do projecto do euro. Para outros, aqueles que acreditam num qualquer modelo de harmonia à escala global que descerá sobre todos nós em resultado da crise actual ou de outra qualquer, também não sei se haverá salvação, mas um estudo minimamente aturado da história da humanidade poderá ajudar a alcançar uma melhor compreensão da condição humana e da centralidade do poder nesta.

Por outro lado, a crise actual permitiu também perceber - se dúvidas houvesse - que a fé iluminista nas capacidades da razão humana é assaz sobrevalorizada. Num mundo hiper-mediático, a estupidez tornou-se particularmente visível. Entre líderes mundiais, lideranças políticas domésticas e burocratas que decidem e implementam medidas abstrusas, opinion makers que se aliviam de disparates e cidadãos que nas redes sociais partilham teorias da conspiração e óbvias fake news, este tem sido um período particularmente prolixo. Haverá muito trabalho para aqueles que se queiram dedicar a documentar as diversas manifestações de estupidez a que temos assistido, como o Nuno Resende aqui fez ontem. Certamente poderão apoiar-se nos trabalhos desenvolvidos por Paul Tabori e Carlo M. Cipolla. 

publicado às 15:15

Dois meses, uma semana e alguns dias após o início do confinamento e, entretanto desconfinamento, já sabemos o suficiente para podemos traçar um ponto de situação em que o Mundo se encontra no contexto de pandemia Sars-Covid-19.
Um vírus surgiu na China em Janeiro de 2020 que o Governo Chinês desvalorizou, não obstante ter construído de raiz, em dez 10 dias um hospital, para o conter e tratar. Apesar desta extraordinária capacidade construtiva pouco tempo depois da edificação do hospital desabou, no mesmo país, um hotel de cinco andares usado para doentes com o coronavírus, entretanto designado COVID-19, porque afinal fora produto do ano anterior.
Preocupante ou não, nem a China, nem a Organização Mundial de Saúde acharam que o vírus pudesse viajar tão rapidamente na era da globalização, de tal forma que só a 11 de Março esta organização achou por bem declarar situação de pandemia (sabendo já que o vírus poderia circular desde finais de 2019).
Pandemónio já o era quase por todo o Mundo, nomeadamente em Itália, em Março, quando na região da Lombardia os casos de COVID-19 surgiam em catadupa, com uma tal rapidez de contágio e mortes deles resultantes que ninguém diria como de Janeiro (?) a Março o planeta inteiro não ficara infectado e metade dele não tivesse ainda morrido.
Em Portugal - que geralmente sob governos do Partido Socialista costuma ser o menino bonito da Europa-, toda a gente entrou ordeiramente em confinamento e teletrabalho, só falecendo de COVID-19 e de mais nenhuma patologia desde 19 de Março, data da entrada em vigor do Estado de Emergência. Presidente da República, Governo e Oposição juntaram-se como uma voz uníssona em torno dos slogans #fiqueemcasa #vaificartudobem, que soariam bem durante o blitz na Segunda Guerra Mundial, ou durante uma guerra química, mas que no meio uma pandemia cuja família de vírus já é conhecida desde a década de 1960, parece um pouco estranho.
A comunicação social fez o seu trabalho empresarial: primeiro alinhou numa estratégia de jornalismo sentimental e choroso, dizendo que ia ficar tudo bem e, depois, alimentou o medo com parangonas, números e gráficos contabilizando mortos diários, de tal forma evidente era que numa questão de dias estaríamos todos mortos. Esta esquizofrenia resulta bem em qualquer venda: primeiro dizemos ao comprador que o chão está cheio de migalhas, depois vendemos-lhe uma vassoura. A vassoura não apanha as migalhas todas e a seguir vem o aspirador.
A D.G.S. lá veio conduzindo o assunto, ora com pezinhos de lá, ora com elefantes em lojas de cerâmica. Antes da pandemia chegar a Portugal a directora, Graça Freitas, dizia que nem cá chegava e se chegasse não era vírus que preocupasse. Chegou, dizendo que a única medida profiláctica era ficar em casa, de resto tomada por grande parte do mundo civilizado e burguês que, em 2020, encontrou numa estratégia medieval a única solução para combater uma doença. Muito me admira que alguns não tenham entaipado casas e atiçado fogo aos moradores lá dentro (a).
Depois disse que as máscaras eram contra produtivas assim como as luvas. Só o lavar de mãos era solução. Várias vezes aos dias, mesmo estando em casa, não fosse o diabo tecê-las! Em Abril as máscaras já eram obrigatórias e em Maio só não estava toda a gente na rua, para estimular a economia (é preciso vender aspiradores…), por que entretanto o medo veiculado pela comunicação social toldou o cérebro da maioria das pessoas.
Hoje os alunos do secundário têm aulas, mas os universitários não, os aviões podem ir lotados, mas os cinemas e teatros estão fechados, as bibliotecas põem os livros manuseados pelos leitores em quarentena, mas as livrarias e os alfarrabistas estão abertos e com os livros para manusear e folhear.
Só um pateta poderia embarcar nas ideias de guerra biológica ou das teorias da conspiração. Até na simples ideia de guerra. Nas guerras, protegiam-se os mais fracos e os mais fortes davam o corpo às balas. Não ficavam em casa agarrados ao TIK TOK ou à NETFLIX.
E ainda que muitos vissem, durante o confinamento, veados e unicórnios a passear nas ruas das cidades, ou golfinhos nos canais de Veneza, supostamente atraídos pela pureza original de um mundo sem gente – a quem os mesmos culpam pelo aparecimento do vírus – lembraremos sempre este ano, não pelos mortos, anónimos, como todos os números de óbitos, mas pelas ondas de choque que esta pandemia deixar, muito para além do seu desaparecimento, com vacina ou imunidade adquirida –se ambas algum dia chegarem a existir.
Por estes dias lembro-me frequentemente daqueles anos todos europeus e mundiais dedicados à Ciência, os prémios nobel, os avanços extraordinários na medicina, os desafios tecnológicos e digitais vencidos e penso e pergunto-me: como é possível que, em 2020, estejamos à mercê de um vírus como os homens de 1020 o estiveram também? Pelo menos esses milenaristas tinham um deus para os iludir. Hoje parece que nem a deusa ciência nos pode salvar.

(a) Não houve piras, nem tochas, mas a delação do vizinho, estratégia amíude utilizada na Idade Média e na época moderna para entregar bodes expiatórios à Inquisição, foi amplamente utilizada por quem considerava uma questão de saúde pública impedir o seu congénere de sair à rua. 

publicado às 18:12






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