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Rien

por Nuno Castelo-Branco, em 18.11.18

 

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No final da tarde de 14 de Julho de 1789, Luís XVI, distante umas léguas de Paris, não podia ter certezas quanto aos acontecimentos daquele dia e assim limitou-se a apor "Rien" à entrada referente àquela terça-feira.
Ontem a situação foi diferente, pois decerto Macron viu em directo o que se passava de norte a sul da França e não deve ter compreendido que não se trata apenas de questões de preços, pois existe muito mais combustível à espera da chispa. Naquele país os petits-riens podem ser seguidos através das redes sociais, da tv, rádio, e "aipádes". Como diz o outro, let's see what happens.

 

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publicado às 10:39

Fake news, ou no news is good news

por Nuno Castelo-Branco, em 12.11.18

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Na RTP3, um interessante debate entre o deputado Diogo Feio e aquele verdadeiro Senhor que dá pelo nome de Honório Novo, focou alguns aspectos do Congresso, perdão, da bem mais jacobina Convenção bloquista.
Passando sobre o conhecido e contraditório posicionamento daquela agremiação de socialmente muito bem acomodados, faz-se então o imediato paralelo de toda aquela ofegante oratória com o assunto da moda, as fake news. O BE tem em Portugal a honra de ter inaugurado institucionalmente este recurso com garantido futuro, pois todos decerto se recordam de Catarina Martins apontando o dedo às mentiras quanto ao caso Robles, sendo em poucas horas ela própria desmentida pelos factos sempre em crescendo de ignomínia, desfaçatez e reserva mental. Como se vê, julgando-se acima de qualquer suspeita, Catarina Martins tornou-se perita no lançamento de cortinas de fumo. Bem a propósito do Armistício ontem recordado, talvez uma inconsciente homenagem à já mais do que centenária Batalha da Jutlândia.

O embaraço não se fica por este ou aquele bloco de apartamentos e respectivas mais valias, ambos legais e caindo sob a alçada dos preços do odioso mercado. Soubemos como o caso rapidamente ficou reduzido a uma memória já muito difusa, para isso contando com o beneplácito da imprensa cujos mais conhecidos títulos pertencem a dois bem identificados grupos económicos, hipotéticos inimigos mortais dos propalados princípios defendidos por aquele bando de burgueses envergonhados. Bem vista a tradição daquela área política, o sacrosanto Trotsky também foi ciosamente protegido pela plutocracia novairoquina que lhe verteu copiosos donativos antes da revolução de Outubro e já bem depois, quando o caudilho voltou a exilar-se.
Voltando ao Caso Robles, o BE beneficia então da prestimosa colaboração de uma imprensa que a seu bel-prazer silencia e censura o que não convém. Com que fim? Isso é o que se verá.

As fake news existem, mas em perfeito paralelo com a maravilhosa descoberta no news is good news. Foi este o essencial resumo do Congresso, perdão, da Convenção. 


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publicado às 22:30

Sobre o populismo

por Samuel de Paiva Pires, em 12.11.18

O Alexandre Homem Cristo está cheio de razão quando afirma que está em curso uma batalha pela linguagem centrada na definição de "populismo" - o novo fascista, neo-liberal ou comunista enquanto insulto no quotidiano politiqueiro. Cá no burgo, esta batalha, à semelhança do que acontece(u) com os epítetos anteriormente mencionados, faz-se em larga medida entre pessoas que sofrem de hemiplegia moral, políticos e comentadores que procuram colar aos adversários este rótulo como forma de deslegitimar a sua participação no processo político demo-liberal.

 

São, portanto, incapazes, de perceber ou admitir o que já tantos autores, de Margaret Canovan a Ernesto Laclau, ou mais recentemente, Cas Mudde e Jan-Werner-Muller, pese embora o sempiterno debate em torno da definição de populismo - como acontece com qualquer outro conceito na ciência política -, definiram enquanto características centrais do populismo, nomeadamente, a possibilidade de acomodar qualquer ideologia, de esquerda ou de direita (o populismo é uma ideologia de baixa densidade - na classificação de Mudde e Kaltwasser, que se socorrem desta expressão originalmente utilizada por Michael Freeden - ou seja, como escrevi num artigo para o Jornal Económicotem um reduzido conteúdo ideológico normativo, aparecendo normalmente ligado a outras ideologias que, essas sim, procuram articular determinadas concepções a respeito da natureza humana, da sociedade e do poder político, estabelecendo a partir destas uma determinada visão do mundo. O mesmo é dizer que o populismo se acopla a ideologias quer de esquerda quer de direita, existindo inúmeros exemplos de políticos e partidos de ambos os quadrantes que articulam uma retórica populista com as mais diversas ideologias. Existem, assim, subtipos do populismo, mas raramente se encontrará o populismo numa forma pura), a divisão da sociedade entre o povo puro e a elite corrupta e a pretensão de que a política seja a expressão da rousseauniana vontade geral, de que os populistas dizem ser os únicos e legítimos representantes.

 

Disto facilmente se percebe que, independentemente da forma como seja teorizado (ideologia, estilo discursivo ou estratégia política sendo as três formas mais comuns), o populismo é incompatível com a democracia liberal, daí que seja particularmente apropriada a definição mínima avançada por Takis Pappas (recomendação de Pedro Magalhães no Facebook) de populismo enquanto democracia iliberal. Esta definição mínima está, aliás, em linha com as considerações de Mudde e Kaltwasser a respeito dos impactos do populismo consoante a fase do processo de democratização em que surja, podendo ter impactos positivos sobre regimes autoritários, ao catalisar uma transição democrática, mas tendo frequentemente impactos negativos se surgir numa democracia liberal consolidada, representando uma ameaça que se pode concretizar num processo de desdemocratização (dividido em erosão democrática, ruptura democrática e repressão).

 

É por isto que, na minha humilde opinião, o populismo contemporâneo representa uma séria ameaça ao que Michael Doyle se refere como a zona de paz liberal, uma actualização da teoria da paz democrática derivada da ideia de paz perpétua de Kant, e, consequentemente, ao modo de vida a que estamos habituados no Ocidente. Mas sobre isto, passe a imodesta publicidade, falarei na próxima semana, no dia 21, no I Congresso de Relações Internacionais da Universidade Lusíada-Norte.

 

(também publicado aqui.)

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publicado às 18:20

No Dia do provisório Armistício

por Nuno Castelo-Branco, em 11.11.18

 

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Acompanhado por oficiais britânicos, é o quarto militar a contar da direita para a esquerda, na segunda fila. Sempre lhe conheci aqueles bigodes à Kaiser

 

Aconteceu há um século, num tempo cada vez mais distante do qual a memória colectiva portuguesa, desde sempre bastante ténue, apenas retém aquilo que dentro de portas as lendas familiares garantem ou o que os livros dos sucessivos regimes fazem difundir como verdades. Na prática, a participação portuguesa quer-se resumida à necessidade de defender o Ultramar em várias frentes, nisto se notabilizando o soldado Milhais. Ponto final, acabou a história.


Não se duvidando minimamente do esforço e extremado sacrifício individual, a participação de Portugal na I Guerra Mundial ter-se-á devido a vários factores entre os quais surge esmagador e prepotente, o desejo de legitimização internacional da casta política que meia dúzia antes tomara o poder na Rotunda, transmitindo a nova ordem de coisas por telégrafo a todo o país, então do Minho a Timor. 

Já estabelecido em Moçambique numa data tão incerta como o seu alegado nome, José Silva, por vezes vagamente referia as suas origens na zona da Anadia e se a conversa porfiasse, diria também que a família produzia vinhos. Tudo muito enigmaticamente vago, dir-se-ia ter vindo ao mundo na segunda década do século XX, quando nascera muito antes, por altura do Ultimatum. Isto foi durante décadas um motivo para todo o tipo de elucubrações, umas mais fantásticas do que outras, mas todas tendo algumas certezas quanto à sua participação nos acontecimentos que levaram à proclamação do novo regime. 

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Participou na guerra levado na massa da mobilização geral, fosse ela oriunda da Metrópole ou nas parcelas coloniais e logo deixou Lourenço Marques integrado numa das expedições que recentemente chegara com armas e bagagens com o fito de rapidamente fazer boa figura, tomando o considerado não muito difícil alvo que era o então Tanganica germânico, território este já desde 1914 isolado de reabastecimentos e contudo nunca  completamente submetido pelas forças britânicas que se adentraram naquele vasto espaço africano. Tremenda desilusão, pois apesar de todos os esforços, o Tanganica estava muito longe de ser um cenário bélico idêntico ao europeu, tanto na amplitude do espaço como nas condições gerais que condenaram contingentes inteiros à morte por doenças, abandono em postos no mato recôndito ou a mais descabelada inépcia dos comandos militares onde o desinteresse rapidamente se seguiu às atoardas marteladas pelos agentes políticos que compunham as expedições, sendo o representante do regime, o bem resguardado e iracundo governador Álvaro de Castro o cabeça de fila que sem sair de Lourenço Marques ordenava acções completamente desfasadas da realidade no terreno. Saneados liminarmente os oficiais tidos como thalassas que conheciam a verdade acerca do que era possível ou não realizar em África, a confiança política sobrepôs-se à competência militar e em consequência o desastre foi total, absoluto, passando rapidamente os teres e haveres dos militares portugueses a abastecer regularmente o esforço de guerra alemão sob o comando do brilhante oficial que foi von Lettow-Vorbeck. 

 

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O monumento à Grande Guerra 


O bisavô recusava-se a falar da campanha propriamente dita, rosnando entre dentes todo o tipo de palavras que contradiziam as versões oficiais acerca dos acontecimentos e com isto, vindo o Armistício, para sempre se desligou da sorte do regime, continuando os seus afazeres profissionais pontilhados por esta ou aquela tomada de posição, a réstia da sua fidelidade, como a colaboração no erguer do palácio maçónico erguido na Av. 24 de Julho, então o mais imponente edifício do género existente em qualquer um dos territórios sob soberania portuguesa. Preferiu então dedicar-se totalmente às suas funções na Agrimensura da Câmara Municipal de Lourenço Marques, a ele se devendo as medições para o risco ortogonal da parte alta da capital moçambicana. Ali casaria com a minha bisavó que já nascera em Lourenço Marques na derradeira década do século XIX, em 1896.

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Vivo ou morto nunca mais voltou à parcela europeia, considerando Moçambique como a sua terra. Por vezes, sentado na sua varanda que dava para a Baía do Espírito Santo, deixava soltar alguns comentários acerca da Situação, sem que jamais com esta tivesse comprometido aquilo por ele julgado como o mais certo, logo acrescentando ..."enquanto forem vivos os da minha geração, Salazar pode considerar-se seguro, o que antes dele sucedeu foi terrível, inesquecível". Não gostava do que significava a 2ª república, mas resignava-se à compreensão das razões da sua já então longa vigência. 

Bisavô copy.jpegNo início da década de sessenta

 

Um dia anunciei-lhe a minha entrada na Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque, já há muito estabelecida naquele palácio maçónico que ajudara a construir. A sua reacção foi típica, dizendo com um desabafo, ..."afinal o mono sempre teve alguma utilidade prática". Mais satisfeito ficaria se soubesse que ainda hoje a escola vai funcionando, realizando após o regime das promessas ocas e daquele que lhe sucedendo realizara o pretendido seguimento material, um bastante intermitente trabalho na formação de quadros. 

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 Quando se aposentou no final da década de quarenta, no terreno que como recompensa pelos seus serviços recebera da Câmara Municipal de Lourenço Marques, construiu a casa na artéria que estoicamente homenageava um conhecido vulto republicano que ali arribara num misto de recompensa e pontapé para o alto. Ainda existe, hoje ocupada por outra gente que por vezes em quentes tardes de ciclone se refrescando na mesma varanda, nem sequer sabe que o antigo proprietário imitava Homem Cristo, dizendo que habitava na Cabrito Macho. Dito isto, o bisavô levava o polegar e o indicador a pressionar as narinas, num gesto que poucos compreendiam como directamente relacionado com a imorredoura fama de um homem escassamente dado a banhos. 

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 Uma ainda relativamente recente foto da sua casa erguida na então R. Brito Camacho, Lourenço Marques


Não quis regressar à terra natal e morreu já depois da independência em 1975, em Lourenço Marques. Qual seria o seu verdadeiro nome?

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publicado às 10:12

Programa para hoje

por Samuel de Paiva Pires, em 06.11.18

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Mais informações aqui.

 

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publicado às 03:05

Milagre de Tancos, parte II

por Nuno Castelo-Branco, em 05.11.18

 

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Saiu-lhes a sorte grande por algo que já estava programado há muitos meses, coincidindo esta altura com a turbulência que tem abanado o regime na sua vertente militar e política.

O Comendador de La Vichyssoise, hoje na sua versão de Supremo Comandante, disse um disparate monumental, quando relativamente à Alemanha de 1914 insistiu no apodo do odioso.

Odioso era o regime que então vigorava em Portugal, capaz de todas as infâmias e violências contra a sua própria população usada como carne para canhão, fosse ele o que troava a partir dos cruzadores surtos no Tejo disparando metralha em direcção à Rotunda, ou os de 75 que em Monsanto varejavam o Torel, a zona da Duque de Loulé, o Príncipe Real, enfim, praticamente a cidade inteira. A isto acrescentaremos os caceteiros e facas de mato de Afonso Costa, os assassinatos ao domicílio, a destruição de jornais e espancar de jornalistas em plena via pública, o corte radical dos cadernos eleitorais recebidos da "ominosa Monarchia", a fome generalizada e a ruína económica que significou uma enorme vaga de emigração para o Brasil, a repressão do sindicalismo ou os massacres contínuos no qual se evidenciou o Movimento das Espadas que acabaria com montões de cadáveres.

Comparativamente àquele Portugal, o que era então a Alemanha do Kaiser Guilherme?
- Tinha no Reichstag o SPD como principal partido eleito.
- Tinha direitos sindicais e um correspondente movimento sindical determinante e muito poderoso.
- Tinha assistência social com direitos que a maioria dos países europeus apenas adquiririam décadas depois: creches do Estado e das empresas, escolas públicas e alfabetização generalizada, escolas e institutos técnicos de primeiro plano em termos mundiais, reformas de aposentação garantidas, ensino grátis e escolaridade obrigatória, saúde pública e os mais avançados hospitais do mundo, etc.
- Uma imprensa livre e bastante dinâmica.
- Era a vanguarda científica mundial onde sobressaía o Instituto Kaiser Guilherme, hoje conhecido por Max Planck


Relativamente à França, Reino Unido, Itália ou Rússia, o II Reich estava num plano de superioridade a todos os níveis, apenas destoando das democracias ocidentais por ser o imperador quem nomeava o Chanceler, geralmente em contraponto com os deputados do Reichstag. Longe de ser um ditador, de facto Guilherme II tinha a palavra final e isso era algo que colidia com a praxis francesa, britânica ou italiana, mas num plano muito diferente da situação russa, também parte integrante e vital da Entente. Passe o anacronismo, o Kaiser retinha atribuições que hoje são atribuídas ao ocupante da Casa Branca e nem sequer presidia ao Conselho de Ministros. Noutro prisma, a própria organização territorial alemã, não sendo a de um Estado unitário, acabou por facilitar os jogos de interesses e a preponderância prussiana, não apenas ditada pela sua dimensão territorial, como pela concentração dos meios materiais. Tal como hoje acontece, a Alemanha era um Estado Federal.

A descendente longínqua dessa Alemanha também hoje foi vista, incompreensivelmente afastada dos contingentes francês, americano e britânico, sendo nestes tempos todos eles aliados de Portugal. Má decisão por parte dos organizadores.

Voltando ao desfile, para além da subliminar mensagem de aviso transmitido pela presença de um forte contingente de elementos pertencentes a duas unidades militarizadas que desfilaram na companhia de equipamentos destinados à repressão interna, o Comendador poderia ter retido um lampejo de grandeza e por uma vez, deixar-se de recaduchos político-partidários. Como se comprova a tentação é insuperável e não deixa de ser alguém oriundo de um sector político que rotineiramente vai a votos. Isto é tão válido para ele, como para os seus antecessores. Pareceu no que interessava para o caso, um desfile bem realizado e com uma certa grandeza, não faltando evocações históricas e os sempre esperados espectáculos de cavalaria e respectivos uniformes que atestam a passagem de séculos que tudo o mais secundarizam.

No que ao mais se refere, apenas duas peças de artilharia, dois blindados Leopard II e a bem visível falta de uniformes de parada. Dir-se-ia estar aquela mole de gente preparada para dali mesmo ter de seguir para uma frente de combate qualquer, tal era a predominância de camuflados que camuflam a penúria geral na instituição.

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publicado às 11:04

Sobre os patuscos liberais lusos

por Samuel de Paiva Pires, em 28.10.18

Se dúvidas tivesse (dissipadas já há muito tempo), o meu post anterior, partilhado por aí por um libertário indígena e comentado por mais uns ditos liberais e libertários portugueses que me presentearam com os mimos que a sua tribo habitualmente reserva para todos aqueles que não alinham na sua ortodoxia simplista e própria de seres intelectualmente grunhos, acaba por servir para comprovar, mais uma vez, que muitos dos putativos liberais cá do burgo só o são quanto à dimensão económica, não hesitando apoiar declarados fascistas e candidatos a ditadores, seguindo na esteira do pior de Friedrich Hayek, Milton Friedman e dos Chicago Boys que formularam as políticas económicas de Pinochet e o apoiaram, justificando-se Hayek com a possibilidade de transição democrática num país cuja economia entretanto prosperasse. Ou seja, validam, mais uma vez, algo que há muitos anos venho escrevendo: não são liberais clássicos. Um liberal clássico, nos dias hoje, como explicam Eric Voegelin e John Gray, é um conservador no sentido anglo-saxónico, um defensor da democracia liberal e dos valores a esta subjacentes, nunca poderá apoiar um aspirante a ditador. Aliás, esta possibilidade arrepiaria Adam Smith, Edmund Burke ou Karl Popper. Claro que, para perceberem do que estou a falar e as suas próprias contradições, os nossos patuscos ditos liberais e libertários precisavam de ler coisas que não se compadecem com a simplicidade panfletária a que estão habituados e que permeia as suas diatribes e concursos de ortodoxia. Aliás, fiquei bem esclarecido a respeito da ignorância e do fanatismo de que sofrem quando, excepcionalmente, acedi a explicar um post meu em que me referia a várias ideias bastante conhecidas de Hayek, Oakeshott, Ortega y Gasset, Bertrand Russell e Popper que o meu interlocutor e os seus compagnons de route na caixa de comentários desconheciam em absoluto, o que, em vez de os tornar mais intelectualmente humildes, apenas reforçou o seu fanatismo em torno do que diziam ser um pensamento próprio (de grunhos, claro). Não há como não continuar a dar razão a Alçada Baptista, para quem "Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas,” e por isto mesmo há que continuar a lutar, na senda de Fernando Pessoa, contra a ignorância, o fanatismo e a tirania.

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publicado às 20:28

Sobre as eleições no Brasil

por Samuel de Paiva Pires, em 28.10.18

Por estes dias, diversas pessoas enveredaram por uma perigosa equivalência moral entre corrupção e fascismo, para justificarem a sua abstenção (no caso de Fernando Henrique Cardoso), apelo à abstenção (nos casos de Assunção Cristas e José Manuel Fernandes), ou apoio declarado a Bolsonaro (caso de Jaime Nogueira Pinto). Ora, ao contrário do que escreveu José Manuel Fernandes, Haddad é mesmo um mal menor em relação a Bolsonaro, e não, corrupção e fascismo não são dois males maiores equivalentes. Sem entrar em grandes teorizações, direi apenas que a corrupção é inerente à condição humana e ao estado de sociedade, permeia qualquer sociedade e qualquer regime político, democrático ou não, embora, claro, em diferentes graus. Isto é uma observação factual, não qualquer tentativa de justificação ou desculpabilização da corrupção, até porque acredito que é moralmente desejável reduzi-la ao menor grau possível. Ainda que seja compreensível que muitos brasileiros estejam cansados da corrupção que grassa no país em resultado do exercício do poder político pelo Partido dos Trabalhadores, quem acredita que Bolsonaro irá eliminar a corrupção está iludido e enganado a respeito da condição humana e do que é a política, especialmente se acreditar que um regime autoritário, fascista, é conditio sine qua non para proceder a uma "limpeza" da corrupção no Brasil. Já que a memória histórica de boa parte dos brasileiros (e não só) parece olvidar que também durante a ditadura militar brasileira existiu corrupção (e em tantas outras ditaduras por este mundo fora), ou que os regimes autoritários são, também eles, permeados por este fenómeno, então que atentem no índice de percepção da corrupção da Transparency International para perceber uma coisa bastante simples: os países cujos regimes políticos são democracias liberais são os menos corruptos do mundo, ao passo que os regimes autoritários são precisamente os mais corruptos. Posto isto,  sugiro ainda que perguntem às vítimas de qualquer regime autoritário ou totalitário, os mortos, os presos políticos, os torturados, os exilados, os perseguidos, se preferem viver num país com corrupção mas em que haja liberdade  (de pensamento, de expressão, de informação, de associação) ou num país cujo regime político imponha a censura ao pensamento divergente do pensamento único, a tortura, os trabalhos forçados e a morte por critérios tão arbitrários e desumanos como a mera discordância política ou diferenças de qualquer tipo (raciais, nacionais, de orientação sexual).  

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publicado às 12:38

Alta e radiante

por Nuno Castelo-Branco, em 25.10.18

 

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 Há mais de um século, Sabugosa descreveu uma recepção na Ajuda, onde sobressaía a Rainha D. Amélia, "altíssima, radiante na sua beleza meridional, coroada por um diadema rútilo". No 67º aniversário do seu passamento, aqui fica a lembrança de D. Amélia como uma  anacrónica activista política, social e cultural que ao contrário de muitas outras agora nossas contemporâneas, fez das palavras actos cujos resultados ainda hoje beneficiam a sociedade portuguesa. 

 

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Anteontem, precisamente no mesmo local sobressaiu alguém com a mesma imponente e majestática figura de D. Amélia, também ela com um nome de rainha, alta e radiante na sua beleza do norte da Europa. Tal como a portuguesa, a mesma atitude e o mesmo permanente sorriso. 

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Esqueçam a presença do Comendador de La Vichyssoise e concentrem a atenção na Senhora da foto. Sempre nos distrai das porcas e pequeninas misérias caseiras.

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publicado às 18:02

Tarde demais

por Nuno Castelo-Branco, em 21.10.18

 

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Quem sintonize qualquer canal de tv em Portugal ou simplesmente conecte o Facebook assiste a um festival diário de tomadas de partido à distância de um oceano, pueris excitações antes de imaginados acontecimentos, imprecações, fake news, desbragados ódios à solta. 


Agora seria uma felicidade poderem reverter a história e anular 1889. Como há uns anos dizia um conhecido abre-caminhos, habituem-se. 

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publicado às 10:06

Os sôfregos gulosos dos queijinhos

por Nuno Castelo-Branco, em 13.10.18

 

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 Os motores de busca indiciam o grau de interesse por um certo tema, propiciando ainda mais discussões e trocas de argumentos, precisamente o que o marketing político pretende. É o que tem sucedido nos últimos anos, tornando  a Internet no centro de decisões de eleitorados, tendências e modas. 

 

É o acontecimento mais evidente neste preciso momento, pois quem ligue o seu computador às mais visitadas redes sociais, deparará com um tema hegemónico, onde se digladiam amigos que há muito já escolheram o seu candidato à ocupação daquele Planalto dos vendavais. Todos eles com prós e contras, todos eles à mercê de ditos e mexericos e inevitavelmente à mercê de fakes para todos os gostos. 

Dizia ontem uma comentadora televisiva que naquele país a classe operária, uma das mais vastas do planeta, não participa nas manifestações anti um dos candidatos. É verdade, até porque pouco ou nada tem a ver com as classes relativamente acomodadas dos queijinhos identitários, por outras palavras, os esquerdistas mais ou menos abastecidos de viagens low cost, dispendiosos aparelhómetros propiciadores de intervenções imediatas ou as sempre urgentes e necessárias vitualhas que várias vezes por dia reconfortam os seus estômagos. Se por cá pululam, por lá também.
De uma coisa poderemos estar todos certos: será aquela classe operária na sua maioria empregada, relativamente silenciosa e bastante avessa ao assistencialismo, quem muito contribuirá para a decisão do resultado das próximas eleições. 

O enorme interesse que este processo eleitoral por cá tem conduzido à ruidosa participação bastante directa em termos das novas tecnologias da informação, apenas demonstra à saciedade uma escassa separação psicológica em contraponto às formalidades da política.
O sistema de circulação é pendular, pouco modificando a situação criada ao longo dos séculos. Os estudantes que de lá vinham cursar em Coimbra, no mesmo movimento de comerciantes que desembarcavam os seus produtos nos cais da metrópole europeia, eram compensados por viagens em sentido inverso por governadores, militares ou povoadores que para aquela inicialmente reduzida testa de ponte sul-americana partiram, dilatando-a até às fronteiras hoje existentes. Todos nós, de ambas as margens do Atlântico, temos antepassados comuns. 

No último século, as terríveis provações decorrentes dos acontecimentos que de longe vinham e podem por todos ser identificados através da data 1910 e anos seguintes, para lá enviaram uma enorme massa de nacionais que procuravam refúgio, trabalho, paz de espírito e tranquilidade para as suas famílias. Algo de parecido sucederia seis décadas depois, devido a bem conhecidas vicissitudes. Devemos, temos a obrigação moral de estar agradecidos.
O pêndulo agora faz o seu movimento compensatório e o inegável facto deve ser encarado com toda a normalidade, pois queiramos ou não, somos o mesmo povo, apenas separado por contingências geográficas e farta imaginação política. Falamos variações da mesma língua, partilhamos até um determinado e ainda muito próximo momento a mesma história. Até na mentalidade ocidental dos queijinhos somos parecidos. 

Não gostam de B? Não gostam de H?

Não os comentem. 

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publicado às 07:38

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 "Por razões óbvias gostaria que esta casa sobrevivesse, de modo a que a o nome do escritor não baptize uma pocilga suburbana no centro de Lisboa."

Já ninguém se lembra deste post, um entre centenas sobre o mesmo tema da desgraça da nossa cidade.  Vem aí coisa nova, rutilante de mediocridade, liquidando um dos escassos exemplos do período da modesta Arte Nova lisboeta.

Adeus. 

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publicado às 16:13

Dignidade institucional...

por Nuno Castelo-Branco, em 08.10.18

 

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 ...ou como ele gosta de referir, sentido de Estado, nestes tempos onde o vale tudo faz escola diária, num sentido sem sentido algum.


MRS ontem respondeu a quem o interrogava acerca das eleições brasileiras, com o clássico ..."não comento eleições noutros países".

Certo.

Hoje, não resistindo a mais uma trica politicamente correcta, resolveu iniciar o discurso com ..."um dia de más notícias", logo rematando com o "extremismo, racismo, xenofobia", etc. Sem dizer um único nome, todos entenderam e o alvo também, é quase certo que por lá terá quem lhe puxe pelo cotovelo e lhe segrede o dito ao ouvido. 

Errado.

Brilhante sentido de Estado, para quem num futuro próximo forçosamente sentar-se-á diante do potencial dirigente do país que não é nada mais, nada menos, senão o principal integrante da CPLP. 

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publicado às 14:43

....e na próxima madrugada já seria tarde

por Nuno Castelo-Branco, em 04.10.18

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publicado às 18:56

11 anos de Estado Sentido

por Samuel de Paiva Pires, em 04.10.18

Foi há 11 anos que se iniciou o Estado Sentido. Aqui fica um sentido agradecimento a todos os nossos leitores, comentadores e amigos por nos encorajarem a continuar por aqui.

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publicado às 00:36

Pum! Purrumpum-pum!, são rosas, Senhor, são rosas...

por Nuno Castelo-Branco, em 29.09.18

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publicado às 17:04

Uma ALIANÇA para o futuro

por Pedro Quartin Graça, em 26.09.18

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O importante são as ideias e os princípios. Os partidos políticos são um mero instrumento para a sua divulgação e concretização. 

 

A esta mesma hora que escrevemos, as 16 horas de 19 de Setembro de 2018, está a nascer um novo partido português: a ALIANÇA, novo projecto político inspirado por Pedro Santana Lopes e que contou com o generoso contributo de mais de dez mil portugueses. Será, logo que seja aprovado pelo Tribunal Constitucional, o 23º a ser criado após o 25 de Abril de 1974.

 

Recuemos algumas décadas. Algures na parte final dos anos 80, em mais uma preparação de uma tomada de posição política pré-eleitoral da Comissão Política do então PPM dirigido por Gonçalo Ribeiro Telles, recordo-me bem de uma frase do mesmo. "O que importa são as ideias", disse o Gonçalo. Para quem, como eu, à época com vinte e tal anos, comungava dos mesmos ideiais mas gostava de os ver concretizados na prática o mais depressa possível, tal parecia quase um absurdo. É verdade que sem ideias nada se faz mas, havendo ideias e sendo estas muitas e boas, era preciso existir quem fosse eleito para as ajudar a concretizar. Isso era, e sempre foi, para um partido com uma pequena dimensão, o mais difícil. Mas, para Ribeiro Telles isso não era o mais importante. Nunca o foi, aliás.

 

Ribeiro Telles nunca teve, diga-se, qualquer especial aptidão para o merketing político nem para acordos de bastidores. Isso não impediu, todavia, de ter sido o primeiro que Francisco Sá Carneiro contactou quando resolveu criar a AD - Aliança Democrática. E, ao contrário da versão oficial profusa e erroneamente divulgada, Sá Carneiro só depois viria a contactar o CDS de Diogo Freitas do Amaral para "compor o ramalhete", numa fantástica abragência das então designadas e hoje completamente ultrapassadas "esquerda", "centro" e "direita".

 

Diga-se que, quando Ribeiro Telles falava das ideias falava também, evidentemente, dos mais elevados princípios éticos que deveriam nortear a acção política daqueles que seriam chamados a defendê-las. Creio que não restam dúvidas de que os monárquicos do PPM souberam estar à altura das mais elevadas exigências também a esse nível. Doutrinadores e nomes como Henrique Barrilaro Ruas, João Camossa Saldanha, Augusto Ferreira do Amaral, Luis Coimbra, António Ferreira Pereira, Bento Moraes Sarmento, António Emílio Gagean Vasconcelos, Eduardo Rosa Silva, José Aníbal Marinho Gomes, os irmãos Vaz Serra de Moura, entre muitos outros a quem peço desculpa de omitir a identificação, emprestaram ao país o seu saber e a sua dedicação.

 

Um parte significativa do papel do PPM esgotou-se, depois de cabalmente demonstrado pela sua acção que a monarquia "não era uma coisa de direita". Ficava a defesa do ambiente, de que fomos também pioneiros em Portugal. Resolvi sair e fui o primeiro a fazê-lo. Seguiram-se os meus amigos Gonçalo, Luis, Eduardo, Zé Aníbal, entre muitos outros. Com a vontade de continuar a fazer política pelo país juntámo-nos a um grupo importante de ecologistas e criámos o MPT - Movimento Partido da Terra. Primeiro o Gonçalo, depois o Paulo Trancoso e por fim eu próprio corporizámos essa defesa na presidência do partido (isto antes da tomada de assalto ao mesmo) .

 

Foram anos difíceis, sem meios, mas com muitos sucessos. Estavam lá as ideias, já com uma nova geração. E já se tinha aprendido alguma coisa em termos de marketing político. Quis o destino que nos cruzassemos com Pedro Santana Lopes estavámos então já no ano de 2005. Com ele (a exemplo do PPM) assinámos um acordo de entendimento político e eleitoral que levaria dois deputados do Partido da Terra à Assembleia da República, integrados no Grupo Parlamentar do PSD, mas com uma larga autonomia nas votações. 

 

Para além de termos sido responsáveis por mais de 5% do trabalho parlamentar do Grupo Parlamentar social democrata (2 deputados em mais de 70 deputados eleitos), estivemos na origem directa da alteração da mais importante e estruturante legislação da vida democrática partidária portuguesa, a Lei dos Partidos Políticos, cuja aplicação cega por parte do Ministério público junto do Tribunal Constitucional, ameaçava extinguir administrativamente os partidos políticos que tivessem menos de 10.000 filiados. É da mais elementar justiça assinalar a postura de Pedro Santana Lopes nesse complicado dossier. Santana Lopes colocou-se ao lados dos "pequenos partidos" ameçados de extinção e desafiou mesmo um largo sector do seu próprio Grupo Parlamentar que se opunha à alteração legislativa. A lei viria a ser alterada  (e por unanimidade, pasme-se!). A verdade é que se hoje existem partidos como o Bloco de Esquerda e o CDS, já para não falar todos os outros com menor expressão eleitoral a nós (e a PSL) se deve esse feito.

 

Já no final de 2011 entendi, em conjunto com um conjunto de amigos, que o nosso papel no MPT tinha chegado ao fim. Saímos. Depois de um interregno de alguns anos o "bichinho" voltou a aparecer e as ideias permeneciam as mesmas. Monárquicos e ecologistas continuávamos. E foi assim que estivemos na génese do Nós, Cidadãos!, uma novel e promissora organização política que ajudámos a fundar mas do quel precocemente nos afástamos quando percebemos que, quem o dirigia, não queria abalar o Sistema.

 

Chegamos a 2018. Com o mesmo entusiasmo e ainda que com mais anos em cima, depois de três experiências partidárias anteriores, não nos desviámos um milímetro daquilo que sempre pensámos. Hoje, como no passado, reconhecemos em Pedro Santana Lopes as qualidades para prosseguir um trabalho pelas ideias e pelos princípios que iniciámos há quase 40 anos. Que rompa com o Sistema e que pugne pela concretização de algumas das mais importantes reformas (o combate à desertificação, a defesa do mar, a tomada de posição em matérias estruturantes da vida política nacional, entre outras) de que o país necessita e que a Santana nunca foi permitido concretizar. Ou porque vítima de um "golpe de Estado constitucional" às mãos de Jorge Sampaio, ou porque boicotado por lutas intestinas internas de um partido que, ora o desejava, ora o desprezava.

 

Décadas depois dou razão ao Gonçalo. O que importa são as ideias. Mas acrescento: Os partidos políticos são um mero instrumento para a sua divulgação e concretização. Nada mais do que isso.

 

É a hora e está encontrada a fórmula para o poder fazer. Em democracia e em liberdade.

 

Muito sucesso à Aliança e a Pedro Santana Lopes. Portugal e os Portugueses vencerão!

 

 

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publicado às 15:04

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O ministro dos negócios estrangeiros de Portugal teve uma "conversa dura" com o seu homólogo venezuelano à margem do festival da ONU - ameaçou o acervo jurídico de uma nação inteira. Santos Silva parece ter sido mais aluno de Sócrates e muitos menos de Joana Marques Vidal. Invadindo o domínio jurisdicional da Venezuela, transgredindo territórios de soberania, o menê português demonstra a sua falta de fé no sistema policial e de justiça daquele país, aclamado glorioso e triunfante pelos camaradas revolucionários do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista Português. Se os Pingaderos Doceros portugueses daquele país praticaram dumping ou outra modalidade de concorrência desleal, cabe à Venezuela inicar su processo Marquez. Santos Silva parece esquecer que deve proteger os interesses de 250.000 portugueses que pernoitam naquele país em demolição acelerada, e não criar um efeito de bola de neve a partir da deliquência de meia-dúzia de batatas podres. Ou seja, ao querer mostrar serviço e que é patrioso, para consumo doméstico e quiçá para fazer boa figura em Nova Iorque, Santos Silva arrisca ser esmagado por medidas mais drásticas de securitização daquele país. Se Maduro é uma espécie de Putin dos pobres, Santos Silva é o gerente de uma cadeia de supermercados especializada na distribuição de bananas. Por vezes se torna difícil distinguir as repúblicas dos bananas.

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publicado às 20:03

Vale da Rosa

por Nuno Castelo-Branco, em 22.09.18

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 Ferreira do Alentejo. Uma empresa de produção de uvas abriu as portas a dezenas de refugiados da Venezuela que ali encontraram, mesmo que para alguns a título provisório, o ansiado porto de abrigo. Não cataram subsídios, nada exigiram, não quiseram surgir nos noticiários. Encontraram a paz e a calma do dia a dia num lugar distante e até há pouco desconhecido. Quem lhes deu a mão? O Estado? As ONG sempre tão pressurosas noutros casos? A U.E.? Não, apenas alguém que tal como eles, um dia também conheceu as dificuldades da partida para destinos onde a incógnita do sucesso faz a norma.


Há dias soubemos que uma dirigente política francesa é agora alvo de retaliação estatal, dir-se-ia mesmo mega-estatal, pois a acção vem teleguiada do Reichstag de Estrasburgo, ou melhor, de quem tudo conduz na Europa: Berlim. Nada mais fez senão divulgar muito ligeiras imagens que apenas fornecem um vislumbre daquilo que todos solitariamente já vimos aumentado até à centésima potência, onde o horror das queimadas de gente a eito, as degolas em série, o arrojar de pobres diabos do alto de prédios, as lapidações na praça pública sob o aplauso de massas ululantes, violações extensivas, o trucidar de infelizes correndo desesperados para fugir às lagartas dos tanques que os perseguem, as piscinas onde se afogam desgraçados dentro de jaulas, o massacre de crianças, as escravas sexuais, as execuções em massa à beira daquele rio onde terá nascido a civilização, as valas comuns contendo centos de anónimos, enfim, o esmagador rol de crimes contra a humanidade ao longo de demasiados anos perpetrados pelo Estado Islâmico. Acusada de anomalia do foro psiquiátrico, foi a melhor prenda eleitoral que lhe poderiam fornecer a título gratuito. Um erro crasso maquinado por gente sem qualquer preparação, nem sequer aquele refinado calculismo que Maquiavel tão bem relatou n' O Príncipe

Tudo isto é bem sabido e guardado entre paredes dos domicílios onde o tom das conversas à hora do telejornal vai paulatinamente subindo a alturas estratosféricas, impublicáveis. Um rugido surdo que provoca hecatombes eleitorais.

O Estado, seja ele o português, francês, alemão, espanhol ou belga e sueco, não reage, caído na armadilha do politicamente correcto que ele mesmo, na ganância do lucro fácil obtido pelo sempre sonhado esmagamento de salários e amálgama na derradeira tentativa de liquidar as nações - visão muito simplista, contudo exacta e de compreensão fácil, tudo podendo ser resumido nisto -, é agora contornado precisamente por aqueles de quem todos os regimes dependem: o povo.

São apenas sintomas de uma revolta silenciosa, mas no Alentejo acompanhada por actos muito concretos. Oxalá essa empresa não passe agora a ser assediada por fiscais de todo o tipo, a baixa e odiosa vingança que a todos arruina, principalmente dirigida por aqueles acobertados pela política que em Portugal e no resto da Europa, sem paradoxos, vai da esquerda à direita.  

Longe das vinhas da ira, saboreámos hoje o doce néctar das vinhas da solidariedade. 

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publicado às 19:12

A política gangolana de António Costa

por John Wolf, em 17.09.18

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António Costa é europeísta. Por isso decidiu vestir calças de Nimes (Denim, De Nimes, vide origem da ganga, googlem...) para ser recebido no aeroporto de Luanda por Manuel Augusto Domingos, ministro dos negócios estrangeiros de Angola. Mas o primeiro-ministro de Portugal também pode ser atlanticista - as blues jeans tanto podem ser da Levi´s ou da marca Lee - ou seja, nada contra John Wayne e os cowboys americanos. No entanto, o primeiro-ministro quebrou o protocolo. Passou a ferro e deixou queimar o único protocolo que verdadeiramente interessa. A qualidade da abstracção representativa, a dignidade que os Portugueses merecem que seja espelhada no principal e mais importante embaixador de Portugal - os Portugueses não gostaram de ver o desfile na passerelle. Mesmo a família mais remediada de Portugal, quando convidada para o baptizado da vizinha coxa e vesga, veste a melhor camisa que tem e calça o único par de sapatos de ocasião que tem. Mas não, António Costa entrou em modo relax, chill-out, a fazer bluff - a fingir não dar grande importância a Angola e a fatia grossa que pode ser talhada para Portugal e alguns socialistas mais empreiteiros do que outros. Eu entendo que a Geringonça que o colocou em tal posição de autoridade e titularidade pública é, em si, uma manta de retalhos. Nesse caso, serviu mal aqueles partidos que o levantaram em ombros de governação. As calças de ganga têm uma conotação mais UNITA do que MPLA, mais colonizadora do que nativa, e isso já não se usa. O pós-colonialismo é doutrina com falhas conceptuais graves. Se Costa quisesse espelhar as Catarinas e os Jerónimos da sua praça parlamentar, levava consigo alguma "merda na algibeira" e uma tê-shert com a cara estampada de Che ou Maduro. Assim, com a farda a meio-gás, dá ares de pertencer a um gangue com jogadas espertas e truques na manga. Esta política da ganga, gangolana, não serve. Não tem a medida certa. O respeitinho é muito bonito.

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publicado às 18:08






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