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Disparates Alegres em ano de Centenário

por Nuno Castelo-Branco, em 16.01.10

 

 O dia das eleições presidenciais, consiste sempre num motivo para testar as certezas, ou melhor, a força de vontade de cada um. É com prazer que ao fim da manhã me desloco à Cister e deparo com aquela mole de gente com "ar de caso sério", vista turva, sobrancelhas em interrogativo arco.  Uns rosnam baixinho à entrada de um vizinho suspeito de ter ido votar no candidato que não interessa, para logo de seguida se iniciar um pisca-pica de olhos aos outros de quem se conhece a fidelidade à inexistente barricada.

 

Lá fico pelo café, divertidamente a escutar o opinionimo daquelas duas dúzias de decisores do porvir nacional. Se o fulano tal é um homem dos interesses que se sabem, o sicrano, bem pelo contrário, é o redentor dos aflitos, que "já deu provas, fez e aconteceu". Em suma, os parlapatões do pastel de bacalhau mais bica por preço único de desconto, por breves momentos julgam-se senhores de algo ou da vida de alguém. Pior,  acreditam mesmo ter o poder de decidir. Como se fosse verdade!

 

Ontem, o sr. Manuel Alegre, conhecido mastigador de manjares, bebericador de puras castas e caçador-recolector de perdizes descongeladas no sítio do costume, apresentou-se como candidato às presidenciais. Está no seu direito, até porque para tal coisa tem sido insistentemente mordido pela carraça BE. 

 

O discurso, bem à maneira do rouco ninguém me cala!, versou temas tão interessantes como a Inovação, problemas oculares - A Visão - e brincadeiras com caixas de Lego sob o tema de A Criatividade. Ficámos todos a saber que é necessária a ...mudança da política, da economia e especialmente, ser imprescindível ter em Belém alguém com "capacidade de inventar e de se inspirar". Bem seguro de si, depreende-se que Alegre nomeou-se como o perfeito rapaz patriota e cidadão - como se uma coisa não implicasse a outra -, identificando-se com as raízes profundas da nossa história e cultura, sendo em simultâneo, um cosmopolita. Mas afinal como é que ficamos?

 

Nada de novo. O vozear fácil após uma boa mesa, até ajuda à digestão e à falta de dotes canoros, tonitroa-se qualquer coisa que siga a expedita linha do alçar-se em bicos de pés da suposta intelectualidade que ainda intimida os parvos do costume.

 

Num país à beira de cair na bancarrota, o sr. Alegre vem falar-nos de aberturas de espírito que impliquem pontapés na contabilística e na tecnocracia. Uma patetice de todo o tamanho, como qualquer néscio facilmente atinge. Palavras ocas e vãs que são o perfeito elixir que serve de antídoto à captação do voto de quem tenha um dedo de testa. São os ronhonhós do Maio 68 com o imenso caudal de asneiras que trouxeram a ruína a nações inteiras, mas que também propiciaram bem conhecidas satrapias aqui na praça. Gente desta, putativa defensora daquilo que mais caricato a política mundial oferece como bodo aos pobres de espírito, vem falar de criatividade. Que tipo de Criação pode a gente de Manuel Alegre engendrar? Analfabetizando de vez o país, enquanto reservam a sua inútil sapiência prática para os salões da moda? Como pensam poder agradar a patrões e empregados? Como julgam resolver o défice? Pensarão recorrer aos conhecidos patrioteiros calotes que noutras instâncias os homens do sistema introduziram como norma? 

 

Ficamos a saber que Manuel Alegre quer inventar. 

 

Pelo menos, já conseguiu uma vitória: encalacrou o Partido Socialista, habilidade em que se tornou perito, não se sabe bem com que fim.

 

Esta fatal geração, encarna o bloqueio de todo e qualquer porvir. A arrogante pázada de lama que atira à cara do adversário que ocupa o  suculento e almejado posto de mordomias aos milhões, vem sempre carregada daquela empáfia de uma reclamada sageza disfuncional que a ninguém interessa. Se o sr. Cavaco não terá optado pelo melhor modelo de desenvolvimento para Portugal - e por isso mesmo hoje todos pagamos as consequências -, o sr. Alegre faz pior. Nada risca em economia, enquanto na sua fervilhante cabeça, as finanças se resumem à sua segurança. De inovação, talvez garatuje no guardanapo uns versos de alheias e calculadas gestas, postas depois em partitura a tocar num piano antigo e desafinado. A criatividade, essa, conhecêmo-la bem das amarelentas revistas do Grand Tour  de há cento e cinquenta anos.

 

Como dizia a minha professora primária, toda esta conversa não passa de "cantigas de Ti ó Rosa, cantadas por Ti ó Rita". 

 

Os republicanos, exímios grilos falantes de ambos os bandos, que se divirtam como puderem e quiserem.

 

À falta de cera nos ouvidos, lá irei escutar na Cister, os peroranços do costume. Não votarei, nem que a vaca tussa no dia do Centenário da República.

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publicado às 15:29


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