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Pelo aniversário de Herculano

por P.F., em 29.03.10

 

Pelo Prof. Doutor J. Veríssimo Serrão (p.91)

Alexandre Herculano e a fundamentação da História de Portugal

 

Torna-se assim possível compreender a metodologia de Herculano com vista à edificação de uma história causal, isto é, um labor de investigação que procura encontrar o fio explicativo dos factos numa ampla visão documental e crítica. O historiador não devia encarar à luz do presente o que tinha forçosamente de ser visto à luz do passado, impondo-se-lhe recuar no tempo, como se fora um homem de outras eras, para descrever os sucessos então ocorridos. Mas descrever com verdade, pondo esta acima de tudo, mesmo que tocasse em lendas venerandas, mesmo que ferisse crenças seculares. A verdade estava acima de tudo e de todos, como dogma fundamental do ideário do historiador. Entra-se assim na zona crítica do pensamento de Herculano, buscando os seus conceitos de patriotismo e de religião quando aplicados à história. Para ele, as tradições irreais e desprovidas de sentido não tinham aproveitamento no campo histórico. Tudo dizendo: Herculano comportava-se como um cientista e não como português, colocando a isenção, norma da consciência, acima do sentimento que é a voz do coração. Era uma posição nova na cultura nacional e que traduziu na mais pura forma antológica:

 

 

 

 «Tenho fé que não me cegou malevolência para com os estranhos, nem parcialidade pela terra natal. Para o homem sacrificar a longas e áridas investigações, frequentes vezes sem resultado, todas as faculdades do espírito, quase todas as horas da vida, com o intuito de dar ao seu país uma história, senão boa, ao menos sincera, é necessário, creio eu, algum amor da pátria. Cifrei-o nisso tão somente. Convertendo em realidade o meu pensamento, procurei esquecer-me de que sou português e parece-me tê-lo alcançado. O patriotismo pode inspirar a poesia; pode aviventar o estilo; mas é péssimo conselheiro do historiador. Quantas vezes, levado de tão mau guia, ele vê os factos através do prisma das preocupações nacionais, e nem sequer suspeita que o mundo se rirá, não só dele, o que pouco importará, mas também da credulidade e ignorância do seu país, o qual desonrou, crendo exaltá-lo...»

publicado às 01:46


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