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Doce negação ou a ignorância que nos tolhe

por Samuel de Paiva Pires, em 19.04.10

 

Fuga para a frente, negação e muita paródia enquanto caminhamos para o abismo de uma decadência anunciada. Eu faço o mesmo, ultimamente, dado o pouquíssimo tempo livre. Raramente vejo notícias ou blogs, limito-me a trabalhar e a ir às aulas do mestrado, que sendo ao fim do dia de trabalho me deixam com pouca paciência para escrever aqui ao chegar a casa, quando ainda tenho que cozinhar,  arrumar e preparar tudo para o dia seguinte, entre as leituras, trabalhos e afins. Qualquer um sabe que se nos abstrairmos do que se passa à nossa volta em termos de notícias, a vida é muito mais tranquila, até porque assim não passamos pelo quase doloroso processo de selecção e destrinça do que é verdadeiro do que não é, considerando-se os vários alinhamentos ideológicos e programáticos dos órgãos de comunicação social e sabendo-se que estes, mais do que informar, enformam e conformam a percepção dos indivíduos em sociedades democráticas avançadas onde a informação prolifera avidamente - não estou a tecer um juízo de valor, apenas e só a constatar um facto, já que é apenas normal que assim seja nos regimes demo-liberais.

 

Ademais, eu posso fazê-lo porque me concentro naquilo que são os meus principais afazeres, quer em termos de produtividade para o país, com o modesto contributo que dou enquanto trabalhador, quer em termos de produção intelectual e aprendizagem ao nível académico. Não advém daí qualquer mal ao país ou à nação. Fico exasperado é quando a maioria dos governantes, responsáveis partidários e detentores de cargos públicos de relevo se deixam embalar na doce cantilena do "no pasa nada", deixando o fechar da porta para quem vier a seguir, característica assaz definidora do carácter português, demonstrativa da falta de sentido de Estado de quem nos vem (des)governando.

 

Contudo, há notícias alegadamente catastróficas que são "não-notícias" e que já há muito vêm sendo adivinhadas por alguns, mais atentos e realmente preocupados com a situação do mundo mas, especialmente, com a situação do país. Não é preciso um Joseph Stiglitz ou um Simon Johnson para nos alertar para aquilo que a maior parte dos intelectualmente honestos e verdadeiramente preocupados com a res publica sabem desde há muito. Medina Carreira que o diga, por exemplo - por momentos esqueço-me que é português, e português que é português e, se político, ou aspirante a tal nas escolas de caciques e mediocridade que proliferam por aí, obtuso e irresponsável, apelida os seus compatriotas como Medina Carreira ou outros que ainda vão tendo algum sentido de Estado como profetas da desgraça, loucos e doidos varridos, deixando vir ao de cima o seu provincianismo ao expressar profunda admiração por uma qualquer sumidade estrangeira que diga precisamente o mesmo.

 

Importa relembrar que, já desde D. Afonso Henriques, a nossa política externa sempre teve como uma das principais características a gestão de dependências externas, deixando para amanhã o salvaguardar das gerações futuras ou o sustentável e equilibrado desenvolvimento do país. Obter dinheiro do exterior para financiar grandes obras e hábitos de vida acima das nossas possibilidades sempre foi apanágio dos portugueses. O conceito de crise depende em muito do contexto e da operacionalização que se lhe dá, mas se há algo que perpassa os quase 9 séculos da História de Portugal é precisamente este conceito. Seja em que vertente for, polítical, económica ou social, já que as três estão interligadas. Nem precisamos de ir muito longe, basta olhar para os dois últimos ciclos de expansão portuguesa (sem lembrar o da expansão para o Norte de África ou o da Índia). Com o Brasil, ouro e tráfico de escravos sustentaram uma economia deficitária em termos de produtividade - ontem, como hoje, e como sempre, aliás -, e com a perda deste, em conjunto com as Invasões Napoleónicas, as Revoluções Liberais e as guerras e crises políticas que se lhe seguiram, ficámos completamente devastados. Tivemos que nos expandir novamente, por necessidade económica essencialmente - ontem, como hoje, e como sempre, novamente - desta vez para África, Império que foi defendido e mantido pelos diversos regimes da monarquia, I República e II República, não sem experimentarmos o amargo sabor de um precursor keynesianismo que teve em Fontes Pereira de Melo o seu principal obreiro, e que nos custou avultados empréstimos cuja liquidação só muito recentemente se deu por terminada. Com a III República, dá-se uma drástica transformação na inserção internacional do país, dando-se particular relevo ao vector europeísta, em detrimento do sempiterno vector atlantista - diga-se de passagem que hoje os dois se complementam activamente na prossecução da política externa - e do isolacionismo que resistiu aos "ventos da mudança", na expressão do primeiro-ministro britânico Harold Macmillan.

 

Na III República, a União Europeia tornou-se o principal quadro de referência não só da política externa como interna, sendo extremamente complicado dividir as duas esferas, a não ser com propósitos meramente académicos. Entre os milhões gastos em infra-estruturas realmente necessárias e outras menos necessárias, aqueles desbaratados em supostos cursos de formação profissional, subsídios à não produção agrícola e outros fins duvidosos, muitos são aqueles milhões que todos os dias entram em Portugal como forma de sustentar os nossos em grande parte irresponsáveis estilos de vida, baseados no crédito, na dívida (quer de indivíduos quer de entidades colectivas públicas e privadas), e no "logo se vê como nos desenrascamos". Portugal pode servir de exemplo em qualquer manual para um país que adira à União Europeia, especialmente consubstanciando a sua experiência no capítulo sobre "O que não devem fazer".

 

E lá vamos, no entanto, caminhando aparentemente despreocupados com o futuro do país. Nisto, não somos diferentes dos gregos, até porque, como referiu Alex Weber, Presidente do Bundesbank (via O Insurgente), estes não se encontram nada preocupados: Weber, citing television footage of Greek demonstrators, expressed concern that sections of the Greek population either don’t care or fail to appreciate the seriousness of the situation their debt-laden country faces.

 

E alguns dos portugueses que fazem parte de um grupo no Facebook intitulado EU NÃO QUERO EMPRESTAR DINHEIRO À GRÉCIA, ELES QUE VENDAM A TAÇA DO EURO'04, também parecem estar na mesma situação. Bem sei que a iniciativa tem um pendor humorístico, mas, note o caro leitor o calibre de alguns dos comentários que por lá se encontram:

 

...e quem nos ajuda a nós??? eles que trabalhem...


Emprestar dinheiro à Grécia é mais uma traição desse Srº Socrates,que vendam a Taça.


Realmente que usem o dinheiro de vend da taça eque quiserem. Mas não o nosso. E já agora. Quem empresta a Portugal? Bem estamos a precisar com tantos Trocas-te!


E a nós quem nos vai ajudar????


daqui a pouco quem vai precisar de dinheiro vamos ser nós, não deve faltar muito!!! frase do momento:" manso é a tua tia pah"

 

Sei que é difícil explicar a qualquer português esta opção. Mas, só por desconhecimento ou ignorância não sabem que não só o dinheiro está directamente relacionado com a quota que detemos no Banco Central Europeu, como se esquecem que este é um precedente que nos dá uma vantagem em termos negociais em futuros contextos diplomáticos em que necessitemos do auxílio da UE, o que espero sinceramente que não aconteça, embora tenha sérias dúvidas - sem esquecer um dos princípios que preside ao projecto europeu, a solidariedade entre os Estados-membros. Além do mais, parecem fazer-se de esquecidos quanto à crise que nos assola, desconhecendo que estamos há muito a ser financiados pela solidez das economias de outros países da zona euro (é que, com uma moeda forte como o Euro, as nossas importações são mais baratas, mas as exportações mais caras, o que provoca um deficit ao nível da balança comercial, que ao longo dos anos tem sido financiado pelos outros Estados-membros), visto que se ainda possuíssemos instrumentos monetários próprios como a possibilidade de emissão ou desvalorização de moeda, há muito que teríamos recorrido a estes, fazendo corresponder a política cambial nacional às nossas verdadeiras possibilidades económicas, com óbvios impactos no nosso estilo de vida - e, aliás, não estamos totalmente salvos de que tal possa acontecer, se formos forçados a sair da zona euro, recuperando estes instrumentos e sofrendo um drástico choque que provocará uma grave crise social.

 

A economia não é a minha especialidade, longe disso, mas não custa nada tentar ser um pouco mais conhecedor, e preocuparmo-nos em tentar entender realmente o que se passa, ao invés de nos divertirmos com demagogias e paródias como se não se passasse nada, até porque "amanhã logo se vê" e de "certeza que alguém nos ajudará", e enquanto continuarem a entrar os milhões advindos dos fundos europeus e das economias europeias mais sólidas lá vamos operando malabarismos contabilísticos e fazendo de conta que está tudo bem, até porque, no fundo, o que interessa realmente é saber "quem é que nos vai dar mais dinheiro".


Entretanto, que tal começarem a preocupar-se realmente com o futuro do país? Aumentar a produtividade, flexibilizar a legislação laboral para atrair Investimento Directo Externo, aceitar que as falências fazem parte de qualquer economia de mercado e retirar peso à intervenção do Estado na economia são apenas algumas ideias (esta última, volto a referir, não deixa de ser irónico que esteja a ser fomentada por um governo socialista, em estado de necessidade). Acabar com as redes clientelares da corrupção era outra, mas esta será alcançada apenas retirando peso ao Estado, simplificando a legislação e desregulamentando. No fundo, se não mudarmos por nós próprios vai ser o mercado e o grau de internacionalização da nossa economia que nos vão obrigar a tornarmo-nos mais responsáveis. Quanto menor o peso do Estado na economia, quanto mais se acentuar o papel dos indivíduos e empresas nesta, forçando-os a ser mais responsáveis na gestão que fazem dos escassos recursos de que dispõem para produzir riqueza, mais hipóteses teremos de fazer face aos maus tempos que se vão avizinhando. Se continuarmos com políticas socialistas e paternalistas, com a ilusão de que o keynesianismo e as obras públicas nos vão salvar, continuaremos apenas a ser maus alunos e a seguir no hayekiano caminho da servidão, ou mesmo da falência.

 

Quando há tempos muitos decretavam o fim do liberalismo, não tiveram a percepção que aquilo que a recente crise financeira internacional veio acentuar foi a falência do socialismo. O liberalismo está bem e recomenda-se. Politicamente, porque as sociedades demo-liberais fundam-se neste. E economicamente, porque o mercado vai funcionando e obrigando as pessoas e os Estados a adaptarem-se a uma realidade internacional e global em mudança acelerada e sujeita a uma crescente complexificação. Adaptação ou falência, eis o nosso dilema.

 

P.S. - Não se espantem se virem no Facebook que aderi ao grupo. Coloquei o link para este post no mural do grupo, esperando, não sei se em vão, que alguns se tornem um pouco menos obtusos e mais conscientes em relação àquilo que os rodeia.

publicado às 22:54


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