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O estranho Dr. Weng
Koch não é apenas o nome de um bacilo.
Em 1986, um Erich Koch que chegava ao fim de uma longa vida de nove décadas, prestava um derradeiro testemunho de carreira. Frente às câmaras da televisão alemã que o entrevistava na sua prisão polaca, o antigo Gauleiter da Prússia Oriental justificava-se perante a história. Não se tratava de uma escusada catarse de vencido, mas de um surpreendente exercício de clarificação da justeza dos seus actos no cair do pano da II Guerra Mundial. O eficaz responsável de Hitler na província do leste da Alemanha, passou os seus meses finais de poder, num desesperado zig-zag entre as localidades prussianas cercadas pelo anel de aço dos exércitos de Estaline, prodigiosamente alimentados, calçados, vestidos, transportados e municiados pelos arsenais capitalistas do Novo Mundo. De bunker em bunker, Koch fazia crer a um expectante Fuehrer, que o poder nacional-socialista se mantinha firme e a população aguerridamente mobilizada sob as suas directas ordens de comando nas batalhas de rua em Koenigsberg. A realidade era bem diversa, mantendo-se este Gauleiter bem resguardado na sua fortaleza de Pillau, protegendo-se das bombas e granadas que choviam sobre a martirizada população que morria pulverizada por um intencional e criminoso etnocídio perpetrado pelos vencedores. Precisamente decorridas quatro décadas da hecatombe que desastrosamente eliminou os prussianos das suas terras ancestrais, Koch apenas parecia interessado no seu ajuste de contas com rivais já desaparecidos do mundo dos vivos. Espectros de uma época passada, estes homens de inabaláveis convicções, jamais se aperceberam de um mundo que lá fora continuava a viver, odiar e também amar à maneira de cada um dos centos de milhão de actores da paródia humana.
Ao longo dos tempos sempre existirão Kochs e mesmo entre nós, alguns se poderão contar. Num plano distinto, João das Regras, o arauto dos vencedores de 1385, deixará o seu testemunho que para sempre imprimirá junto do seu povo, a justeza da sobrevivência de uma nação que ia nascendo e manifestando a certeza de um destino que se adivinhava grandioso. Séculos mais tarde outros surgiram e entre os vitoriosos de 1834, contámos com Herculano e Garrett, para enraizar o sentimento geral da infalibilidade de um percurso de progresso que não podia ser outro senão aquele que varrera a antiga ordem estabelecida e geralmente aceite. Não tendo qualquer interesse a análise ou avaliação da torrente de argumentos apresentados, saliente-se esta constante necessidade de justificação para a posterioridade que no caso português, é sempre desinteressada de tempos e gentes que se perderam pela fatalidade do passar das gerações. A quantas entrevistas já assistimos, em que os protagonistas do PREC continuam a remoer acontecimentos que de tão fugazes, quase ninguém deles guarda memória? O oblívio é uma das nossas principais e infelizes características, embora tenhamos hoje alguns Kochs ainda bastante activos, poderosos e implacáveis guardiões dos seus clubezinhos de influência e extorsão. Do fato-macaco que imaginaram mas jamais usaram, passaram bem depressa ao selecto grupo possidente de um país inteiro.
(Continua)