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Bangkok III: o novo Pol Pot pago com os Euros do seu bolso

por Nuno Castelo-Branco, em 10.05.10

O estranho Dr. Weng

 

Parecia ter chegado a vez da Tailândia. Onde inicialmente se via um multitudinária hoste de camponeses deslumbrados pelas luzes de uma cidade até então desconhecida, com o decorrer das semanas apenas sobrou um reduzido grupo enquadrado por inconfundíveis milicianos, pelos ocidentais bem conhecidos através de imagens de películas como Killing FieldsOlhar feroz, olhos coruscantes de um ódio sem limites ou explicação, cacete na mão, vestidos num misto de panos negros e camuflados. Sem ideologia, mas agarrados aos ícones impingidos pelo poderoso homem branco que de longe dita a moda daquilo que é ou deve ser a revolução. De todo desconhecem a liquefação siflítica do cérebro de Lenine que conduziu milhões à chacina, mas apenas o radicalismo impiedoso que em todos viu inimigos a abater. O sinistro poster já surge em algumas tendas e camisolas, acompanhado de toda a correspondente lixeira panfletária e simbólica que inevitavelmente marca sempre presença. Uma pequena, mas activa e perigosa minoria que se quer impor e que conquistada uma etapa, logo faz subir a parada. Onde antes existia o orgulhoso testemunho de heróis nacionais - Ramatibodhi II, Naresuan, Taksin I, Rama I, Rama III, Rama V - que noutros tempos tinham teimosamente tolhido o passo a esse homem branco que significava o colonialismo que os avoengos impediram, nesta Primavera de 2010 instalam-se pela mão de gente que mensalmente recebe salários equivalentes a vários anos de trabalho braçal de qualquer siamês, os corruptores venenos que visam liquidar as derradeiras resistências que até agora teimosamente se opuseram.

 

Em pleno centro da cidade do grão-ducado, ergue-se a Luxemburg Tower, um colossal edifício que à semelhança da Torre de Babel, encerra dentro dos seus altaneiros muros, milhares de formiguinhas engravatadas que vão traduzindo do portugês para o espanhol, francês, alemão, lituano, sueco, inglês ou búlgaro, resmas e resmas de relatórios e dossiers sobre rãs fluviais e lacustres, mexilhões das Shettland, ou emissões de resíduos líquidos, sólidos ou gasosos. O mesmo se passa relativamente a tradutores originários da quase trintena de países membros, que das suas línguas traduzem para todas as outras, autênticas bibliotecas de semi-inutilidades que apenas servem para alimentarem o voraz Moloch despesista que esmaga os contribuintes europeus de taxas, regulamentos e impostos. Serviços de cópias e toda uma monstruosa logística que consome milhares de milhões de Euros, mantém ocupada uma clientela fidelizada por chorudos rendimentos. Chegando aos seus gabinetes de trabalho, os nacionais representantes de cada Estado, têm como primeira função diária, o despejar de centenas de quilos de papel para dentro de contentores destinados à reciclagem. Jamais lerão uma linha das traduções que as subalternas formiguinhas lhes fornecem. Esta infernal engrenagem de interdependências, cumplicidades no roubo, desperdício de recursos e ineficácia organizada, inevitavelmente ditará o fracasso de um projecto que foi a esperança de uma pequena região do mundo devastada por conflitos estéreis, num imparável processo decadentista. Com alguma sorte para um punhado destes inúteis sortudos, daqui sairá a próxima safra de "revolucionários" que decidirá quem merece a sua súbita devoção por uma causa há muito perdida, mas ainda capaz de levar muitos a caminho de valas comuns. É que esta gente engravatada que perora acerca do destino de povos longínquos, procura sempre encontrar um exemplar daqueles característicos e sinistros tipos com cara de fuinha, infinitamente mais radicais e perigosos e que no caso de uma hoje improvável vitória, desses lastros pançudos e rosados se livrarão bem depressa. Os líderes carismáticos - chamem-se eles Fidel ou Pol Pot -, jamais se dispõem a tolerar por muito tempo a intervenção daqueles que desde os bancos da escola olharam como os opressores da sua terra. Por muito pintalgados de vermelho se apresentem, são sempre o odiado inimigo a esmagar.

 

Na Bangkok deste Abril e Maio de 2010, já existe um desses caras de fuinha. Reservado - foi um dos "fiscalizadores" do Hospital Chulalongkorn -, de gestos bruscos, autoritários e pouco dado a sorrisos complacentes, este "intelectual" tão ao mecânico gosto dos nossos conhecidos degustadores de vinhos e de gastronómicas especialidades au point, dá pelo nome de Dr. Weng. Não se trata de uma personagem de uma aventura de Blake & Mortimer, coadjutor de um imaginado Basam Dambu que por sinal, ali também parece ter um émulo na grotesca personagem que dá pelo nome de major-general Sawasdipon. Este Dr. Weng apresenta aquele olhar distante, gelado e que tão bem conhecemos através de umas tantas horas de documentários históricos que narram as proezas de gente do calibre de Kim Il Sung, Idi Amin, Pol Pot, Mao e outros sanguinários ditadores que fizeram a sua época.

 

Se por miséria das misérias tivessem vencido, os sequazes do Dr. Weng bem depressa iniciariam aquele incontornável processo de diabolização do homem branco. Pelas ruas enxovalhados e corridos a pontapés após a cornucópia de conselhos, vitualhas e subsídios despejados, lá regressariam à Europa. Momentaneamente cabisbaixos e encontrando dialécticas explicações, bem depressa esqueceriam o revés e após os arrotos de um pantagruélico jantar, reunir-se-iam num bar onde sorvendo um Old Scotch, ponderariam a próxima aventura a transplantar para outra paragem distante, preferentemente tropical e que durante uns anos lhes propicie a necessária criadagem para serviços vários.

 

Estes nossos Koch nada aprendem e pior ainda, pouco se importam, no característico encolher de ombros que os define. Permanecem agarrados à caquética máxima do ..."sejamos realistas e reivindiquemos o impossível!"

publicado às 02:01







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