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O momento do gatilho fácil

por Nuno Castelo-Branco, em 23.08.10

 

O país está em crise e dentro de portas, as famílias resumem uma boa parte das férias a refeições enlatadas e pouco mais. No entanto viajam e aparentemente, pouco mudou desde o anúncio da hecatombe anunciada há alguns meses.

 

Nada parece funcionar e de facto, a carcassa que nos tornámos, demonstra que afinal o tumor não se encontra isolado e bem pelo contrário, espalhou metástases que longe merecerem o tratamento urgente, são deixadas à natural evolução das maleitas. As ramificações não saem de um núcleo perfeitamente identificável e bem pelo contrário, o sistema funciona quase de forma global, como se de uma economia de troca se tratasse. Assim, qualquer acto imprevisto e isolado, poderá tornar-se naquele rastilho de queima rápida, bem capaz de fazer explodir a autêntica Santa Bárbara em que vivemos.  Adormecida a tropa por medos de reacção adversa por parte dos parceiros comunitários, são cada vez mais possíveis aquelas iniciativas voluntárias e de vingança pessoal. É bem certo que os agentes políticos não têm ajudado a apaziguar as paixões e a raiva que se escuta e lê seja onde for. Os principais partidos fazem jogos de sombras chinesas, não se preocupando minimamente com o deplorável efeito junto da população urbana - que é quem decide e acaba por ditar a evolução dos acontecimentos -  cada vez menos crédula e impaciente.

 

Há poucos dias,  o muezim Louçã reeditou o  vetusto programa de expropriações de terras, exigindo a criação de uma "bolsa" estatal. esta ardilosa proposta, de imediato pode ser encarada como um rápido regresso à violência política, num clima de crise económica, desemprego generalizado, penhoras de propriedades, falências, etc. Pouco importa se o Estado é principal prevaricador no abandono das suas terras, ou se o Fuehrer do BE não explica como poderá dessa forma, obrigar ao regresso aos campos. Talvez tenha em reserva mental, o sistema tão proficuamente executado por Pol Pot. Não se sabe, nem ele jamais o dirá.  Os radicais têm a perfeita consciência daquilo que propõem, com aquele sentido oportuno que caracteriza o apontar do dedo ao "inimigo de classe", o "rico que tem dois palmos de terra" que herdou dos avós. É esse improvável milionário que hoje se encontra em risco de perder o seu lugar de motorista, bem como o seu apartamento T2 nos subúrbios de Lisboa ou do Porto. O tema dos incêndios serve perfeitamente de pretexto político, mas a intenção visa antes de tudo, o controlo de recursos abandonados e possíveis de negociação e de instalação de um poder de facto. Quem possui a terra, poderá utilizá-la como bem lhe aprouver, mesmo escondendo-se atrás de edifícios legais disfarçados de cooperativismo e outros estratagemas. O que eram as UCP saídas do PREC, senão uma forma de chantagem sobre o poder político consagrado pelas eleições, significando antes de tudo, um domínio territorial de reminiscências feudais? Daí ao controlo autárquico que durou muitos anos, foi apenas um passo, com tudo o que significou em termos de atraso, desperdício de meios, desinvestimento na modernização, especulação imobiliária e destruição de património. Tudo isto aconteceu mesmo às portas da capital do país e os resultados estão à vista. Nada de novo e quanto aos incêndios, já se adivinham os mesmos erros de sempre, com uma pretensa reflorestação feita à base de materiais inflamáveis.

 

Neste clima de avolumar de discórdias e de crispações várias, vem agora o CDS contribuir com um certo facilitismo. A medida parece destinada à almejada desburocratização, num país onde existem muitas centenas de milhar de armas  em hipotéticas "boas mãos". A partir de um dado momento estabelecido por lei, dispara-se contra tudo aquilo que mexe e os campos e montes são invadidos por gente camuflada, ansiosa por confirmar a sua descendência daqueles caçadores-recolectores de outros tempos, podendo depois exibir as fotos de fazer inveja a amigos do mesmo calibre. Pouco interessa se as espécies são ou não protegidas e o descaramento já persegue e ataca propriedades onde são criadas avestruzes, ovelhas e gado bovino. Gaviões, águias, cegonhas, mochos e aves migratórias de espécies protegidas, tudo serve para descarregar as cartucheiras e até burros, cães, gatos e outros animais domésticos, têm sido impiedosamente fuzilados sem qualquer hesitação, ficando as carcassas a apodrecer à beira de caminhos e estradas. Simultaneamente, o chumbo vai-se espalhando pelas zonas rurais, detectando-se óbvios casos de envenenamento progressivo de numerosas animais.

 

A quantidade de armas legalizadas é enorme e bem conhecida, mas, o que poderemos dizer acerca do florescente comércio de pistolas e caçadeiras de todos os tipos, provenientes de arsenais desconhecidos? Nas feiras e em certas zonas marginais dos grandes centros urbanos, é possível adquirir qualquer tipo de espingarda ou pistola própria daquilo a que vulgarmente se chama exército. Os "jovens" - como agora se usa dizer - saem á noite e entram em discotecas e bares, bem artilhados com armas de "defesa pessoal" e muitas vezes as utilizam intimidatoriamente, arrecadando á custa de outrem, os recursos para esbanjar em poucas horas de folia. Comércio descarado, ilícito e alargado de substâncias ilegais, fronteiras escancaradas e um eterno desrespeito da autoridade do Estado, eis o actual quadro. Em suma, embora o tentam disfarçar, assim não há democracia que resista.

 

Esta propensão suicidária, poderá provocar uma rápida corrida ás armas e as notícias diárias de assaltos em plena via pública, agressões à propriedade estatal e privada, violência nos transportes urbanos e a lei da selva pelos campos fora, serão inequívocos sinais de futuras perturbações que colocam em causa a própria segurança do Estado. Se a tudo isto acrescentarmos a geral sensação  de nítida anarquização social, o quadro é deveras catastrófico.

 

A Lei deverá decerto ser simplificada de burocracias, mas ao invés de querer parecer como uma facilitação do processo de rearme pessoal, deverá ser muitíssimo mais severa e exigente quanto à concessão e controlo das licenças e dos armeiros. Simultaneamente, deverão ser facultados recursos legais e materiais às polícias, no sentido de se proceder rapidamente à fiscalização e controlo da posse ilegal, numa política de desarmamento coercivo e de ameaça de severa punição.

 

Desemprego, radical míngua no crédito, desapropriação e penhoras e no campo político, a degenerescência total do sistema e aproveitamento radical para o ataque à propriedade - comummente via impostos directos e indirectos sem freio -, eis um quadro medonho que levará alguns tresloucados á repetição de hoje exaltadas canalhices de há um século, essas sim, bem planeadas por quem acabou por ascender ao poder, arruinando a esperança de um século.  Num ambiente destes, o tiro aos flamingos que agora arribam à foz do Douro, será corrigido para outro tipo de alvos bem conhecidos e universalmente criticados à mesa de qualquer café. Já nisso se fala abertamente e sempre haverá quem exalte o crime. Depois, não se queixem.

publicado às 08:30


4 comentários

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De Nuno Castelo-Branco a 23.08.2010 às 20:13

Cara amiga,

Continuo com a habitual circunspecção no que respeita à apreciação de casos de Justiça. Em Portugal torna-se cada vez mais difícil, a destrinça entre a política e esses mesmos casos. Assim, prefiro esperar.
Por exemplo, lembro-lhe o famoso "escândalo" dos Adiantamentos ao Palácio das Necessidades, ou seja, à Coroa. Tanta algazarra, tantas ameaças - que culminaram no 1º de Fevereiro -, tantas promessas em tirar o caso a limpo e afinal, a montanha pariu um ratinho. Os próprios fulanos do PRP depararam com uma dotação que não sofria qualquer aumento desde... as cortes do Vintismo! Como seria de esperar, preferiram deixar cair a coisa, sem que reparassem os estragos feitos, isto é, relevassem o nome de D. Carlos. Enfim, canalhices!

A monarquia apenas servirá, se efectivamente for a alavanca para profundas mudanças na organização do Estado: mais economia de recursos, um aparelho governamental mais enxuto, outra forma de escrutínio e mais importante ainda, uma efectiva separação de poderes. De outra forma, não valerá a pena.
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De Anónimo a 29.08.2010 às 21:23

A quem o diz Nuno, pois, creia - a Justiça se mal esteve, mal está e vai continuar. Muito, muito importante o significado de uma simples foto em que o titular da acção penal, ou «maioral» dos titulares da acção penal, surge em jeito de «amiguismo» com o tipo que nos tem brindado com escandalos sobre escandalos. Não, não há separação de poderes. Mas continuo na minha, no que concerne à justiça - haja advogado que não se cale, que o juíz terá que se pronunciar e o MP fazer o que lhe mandam ....os factos.
O Tribunal Constitucional, esse, simplesmente abolia-o. Não faz falta, só transtorna e muito.

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