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Arre, gatunagem!

por Nuno Castelo-Branco, em 06.10.10

Viva a república das bananas

 

Percorrer o país de norte a sul, consiste numa experiência única. Sulcado por auto-estradas quase paralelas que partindo da capital, nos conduzem precisamente aos mesmos locais, seria de esperar uma viagem sem contratempos. Mas qual quê?!

 

A gente que ontem vimos sentada na Praça do Município lisboeta, encontrou um novo "esquema" que garante o sucesso infalível no torneamento dos assuntos mais criticados e escaldantes, aqueles mesmo que levam o país ao abismo. Falemos então, das famosas e controversas auto-estradas.

 

Há apenas umas semanas, a par do grotesco TGV e de um aeroporto sabe-se lá onde, aventava-se a hipótese de uma terceira auto-estrada em direcção ao norte. Todos perceberam tratar-se de mais uma reles vigarice, tendente à arrecadação de mais uns milhões sob a capa de contrato de adjudicação, além das habituais derrapagens, comissões e outros truques do estilo. Um "esquema" que vem dos tempos em que um certo residente era 1º ministro e que de forma bem firme, se enraizou na gestão corrente do Estado De Coisas Portugal. Não puderam apressar-se, pois a opinião pública anda irritada e principalmente, a tutela estrangeira não parece muito interessada em avalizar mais dislates.

 

Ontem e dada a escassez do metal sonante dos "fundos de coesão" que a par dos seus conhecidos amigos tão bem administrou, a caríssima inutilidade belenense perorou acerca da "coesão nacional", "cultura da responsabilidade" e genericamente, ou em inconsciente tom de auto-crítica, mastigou de placa semi solta, umas ninharias acerca de "diferentes perspectivas", "crispação" e "critérios rigorosos". Enfim, um dos principais responsáveis pelo estado a que chegámos, decidiu-se por mais um nada que se traduz apenas pelo medo que sente, perante a derrocada que ameaça a "situação". A deles, claro. Foi um recado enviado aos seus servidores mais próximos do próprio partido e aos colaboradores de ocasião, os por enquanto no poder. Nada de novo.

 

Pois aqui e em espírito bastante cívico, deixamos algumas informações que vão no sentido de auferir a verdadeira vontade acerca dos "critérios rigorosos e o conhecimento adequado dos problemas".

 

Estão a ser construídas novas auto-estradas, mas de forma encapotada, fraudulenta. Na verdade, quem se atreva a fazer uma viagem entre Lisboa e Guimarães - por exemplo -, deparará com numerosos exemplos de "alargamento" de vias, "melhoramentos", "reparações" e outras invenções mais. Vias novas, de escasso uso e com tantos trabalhos adicionais? Na zona de Leiria, instalou-se o caos, com a construção de faraónicos viadutos que ligam terreolas de 150 habitantes, passagens desniveladas e os infalíveis "alargamentos". O mesmo acontece em todas as zonas do país e durante este verão, quem se atrevesse a ir à praia na Costa de Caparica, deparava sempre com enormes engarrafamentos de trânsito, devidos aos tais "melhoramentos", "alargamentos" e viadutos que ligarão importantes centros como a Sobreda e o Monte de Caparica. Nas auto-estradas, esse trabalho processa-se de dia e de noite, por autênticos regimentos de operários da construção. Um transtorno imenso para quem pretende chegar rapidamente ao seu destino e que para mais, pagou - outro abuso! - as constantes portagens que deviam garantir um serviço seguro, sem contratempos e impecavelmente servido. Nada de mais falso. O que é patente é o desperdício, a insensata roubalheira escandalosa que tornam bem evidentes, as artimanhas que o "Esquema" encontrou, para contornar as dificuldades do marketing político-eleitoral. Um autêntico saque.

 

Ontem, diante da CML - outra demolidora entidade pouco recomendável -, estavam todos os nababos, bem sentados e em amplas filas destinadas a compor a plateia, geralmente vazia. Conhecidos néscios de proeminente ventre, vigaristas encartados e uns tantos pastores de vacarronas que conhecemos através de revistas de barbeiro ou de consultório de dentista. Povo? Nenhum, tal como no Porto, onde se deu o episódio caricato de uma banda sair em grande fanfarra "À Portuguesa", para ser escutada pelos pombos que debicavam o chão à procura de migalhas, numa bela alegoria à actual situação da população portuguesa. Não haja dúvidas. Um estrondoso e comemorativo fiasco.

 

O sr. António Costa, na sua esperteza de edil da zona saloia urbana, lá arranjou mais um esquema que suprisse a iminente e bem merecida falta de figurantes: povoou o sítio com os convivas do costume, bem protegidos por jagunços de inegável silhueta pidesca e para se assegurar de um quorum mínimo, convocou as juntas de freguesia de uma capital que tendo menos de 10% da população de Paris, sintomaticamente possui o dobro de "arrondissements". Não faltaram os "dinamizadores de espectáculo", contratados e pagos à custa de quem ficou de fora das comemorações. Além disso, marcaram presença os inevitáveis Mercedes, Audi e BMW de vinte e cinco mil contos por chassis pagos por si.

 

Tal como aqui se diz, viva a república das bananas, viva o presidente da república das bananas, viva o 1º ministro da república das bananas!

 

Digam o que disserem, houve um outro 5 de Outubro. Este, por exemplo.

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publicado às 12:31


4 comentários

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De Luís a 06.10.2010 às 13:51

Mais de três décadas de desordenamento urbanístico tornaram as nossas antigas estradas nacionais intransitáveis. Dar-lhe-ei um exemplo. A ligação Tavira-Faro (30 km) demorava, há vinte anos atrás, apenas vinte minutos, pela EN 125. Agora demora perto de uma hora. Durante anos a fio, as autarquias autorizaram a construção de moradias, stands, armazéns, tudo muito americanizado, com os anúncios luminosos gigantes a colorir a paisagem; construções essas, não raras vezes, a escassos centímetros do asfalto. Fizeram-se rotundas gigantes: umas continuam em terra batida, outras têm mamarrachos projectados por «arquitectos», sabe-se lá como foram seleccionados os projectos, serão da prima ou da amiga da esposa do vereador ou do presidente? Os semáforos para controlo de velocidade estão por todo o lado; e os troços onde se circula a 50 km/h são cada vez mais extensos. Já não se trata de uma estrada nacional: a 125 transformou-se, em grande parte da sua extensão, numa espécie de avenida suburbana, desordenada, suja, feia. Seria evitável? Claro que sim! Se nos últimas décadas as mais elementares regras de ordenamento do território tivessem sido acauteladas, não teria sido permitida a especulação urbanística junto da estrada nacional. Assim, a população teria alternativa à A22, a qual em breve terá portagens. Precisaria o país de tantos quilómetros de auto-estrado se no passado recente tivesse conservado as suas estradas nacionais?
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De Luís a 06.10.2010 às 13:52

Errata: auto-estrada em vez de auto-estrado.
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De Nuno Castelo-Branco a 06.10.2010 às 18:07

Caro Luís, no fundo é mesmo um auto-estrado: um patíbulo onde colocámos as nossas cabeças no cepo. Assim se justifica a ânsia pelas auto-estradas e não me admirava muito, se por detrás desta coisa, estivesse o interesse imobiliário.
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De PALAVROSSAVRVS REX a 06.10.2010 às 14:18

Perdulários, gastadores, meu caro Nuno. Teremos de suar imenso para ver esses percevejos afastados do cerne da devastação que sofre Portugal.

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