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Antiguidades quase clássicas

por Nuno Castelo-Branco, em 07.10.10

No Diário de Notícias de 6 de Outubro, Baptista Bastos não se limitou a questionar alguém, acerca do local onde se encontrava no 25 de Abril. Antes o tivesse feito, pois provou à saciedade, que o projecto formatado da pretensa historiografia oficialista - a cargo dos inimigos do semi-imbecilizado Estado que a encomenda -, continua a insistir na estória da carochinha e nas imaginárias grandes arrancadas de massas e de quereres, descobertos não se sabe bem onde e por qual inaudito prodígio de imaginação.

 

Baptista Bastos falou da república. Não do conceito em si, mas muito concretamente, na única que lhe interessa e que porventura, mercê da reserva mental, julga que pode significar algo de próximo com um regime, que inevitavelmente poderia ter aberto o caminho à instituição daquele simulacro de "democracia" que o seu partido representa.

 

Começa com a conhecida e vitimizadora teoria do cerco, aliás uma má cópia da propaganda veiculada pelo partido soviético, nos primeiros tempos da hoje para sempre extinta URSS. A mania da perseguição e do inimigo às portas, continua a fazer escola e serve à perfeição os desígnios daqueles que exigem a rendição total do rebanho que apenas deverá obedecer.

 

No que aos golpistas do 5 de Outubro se refere, B.B. nem se deu ao menor trabalho de dissecação ou catalogação dos nomes dos principais vultos, porque as primeiras linhas do panegírico indicam de imediato o herói e eleito dos eleitos, porque sendo o mais brutal, artificioso e avesso a qualquer princípio de legitimidade ou lisura de procedimentos, configura o protótipo perfeito do "revolucionário". Aparte as trivialidades das origens de classe e das virtudes dos carrascos do Portugal do período inicial do século XX - outros se lhes seguiriam e esses, sabe B.B. apontar o dedo -, o que o articulista faz valer como pedregulho que julga poder esmagar qualquer contraditório, é a questão do idealismo. Esta gente encontra sempre um idealista no pior torcionário, por mais ilustrado ou boçal que seja. Todos os abusos, ilegalidades, roubos, violências e até extermínios, são facilmente desculpáveis pela apresentação da pouco racionada senha do idealista para consumos vários. É este o caso, embora se para B.B. o Afonso Costa e - adivinhamos nós - o Buíça, eram decerto parte desse pouco apetecível grupo de eminentes crápulas, o que se fareja é o mal disfarçado e corrosivo odor a sentina leninista, onde pululam germes infecciosos do calibre dos Lenine, Iezhov, Estaline, Beria, Pauker, Molotov, Che, Pol Pot e tantos, tantos outros que a memória vai fazendo esfumar.

 

Como bom samaritano do mais que caduco neo-realismo a estranhamente puxar para  estilo de uma daquelas antigas fotonovelas de Corin Tellado, B.B. revolve o arquivo fotográfico de Benoliel, ilustrando um já saudoso adeus - no caso do CEP, bem pode ter sido um até nunca mais - de uma moçoila ao seu magala que o fantástico Costa empurrou para o sanguinolento lodaçal, povoado pelas ratazanas da Flandres francesa. Pouco importava, aquela gente tinha mesmo de morrer, mas pelo "ideal". Mas que "ideal"? O pouco imaginativo jornalista, apoda a 1ª República como ..."aqueles anos extraordinários", aproveitando ainda para ver naquele hipotético soldado beirão ou transmontano, ..."um certo barroquismo ascético nascido não, somente, da idade jovem mas, sobretudo, da possibilidade de uma crença que ressoa na aparente mudez da imagem". A linhas tantas, julgamo-nos transportados para uma daquelas críticas, ou melhor, orações laudatórias a exposições em qualquer galeria  da bem refastelada  esquerda sushi-sushi, onde o incompreensível se torna sinónimo de sublime grande obra, apenas compreensível para uns tantos iniciados. No fundo, a vida de outrem, seja a do trabalho no campo, atrás de um balcão de mercearia ou num moinho de cereais, é tão dispensável como aquela confusão de números que alguns, na monomaníaca questão de tudo ser passível de contabilizar, contam a morte como um mero acaso, no ábaco dos "acidentes de percurso".

 

Neste inverno que pode muito bem vir a ser fatal para a caquética República, o senhor Baptista Bastos, recolhe para recordação em velha pasta esquecida numa gaveta de cozinha, os rasgados panfletos que apontavam .."omissões, calúnias, infâmias" tecidas contra a impossível salvadora da Pátria, essa República que como espectro que é, jamais apareceu à luz do dia. Não contente pela auto-infligida zaragatoa, ainda consegue largar um derradeiro e ruidoso escarro, insultando aqueles ..."historiadores sem vergonha, sem decência e sem moral". Não se refere certamente aos seus camaradas que queimavam documentos e fabricavam outros. Não dirige o libelo acusatório aos fotógrafos de serviço à tirania, aqueles mesmo que faziam desaparecer vultos tornados dispensáveis, ou pelo contrário, acrescentavam outros ao conjunto e sempre ao sabor das pulsões vampíricas do Grande Chefe. Isso seria demais, um colossal pecado capital para a religião de fanáticos efabuladores, frios detentores de uma verdade sempre às avessas, à qual tudo e todos se podem sacrificar. O que estes jograis de comité não perdoam, é a descoberta e exposição da nua e crua verdade. Maus hábitos que de longe vêm.

 

Esta piramidais inteligências, ou sofrem de degenerescência mental, ou antes pelo contrário, são inteligentes e diabolicamente más. Ficamos na dúvida.

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publicado às 00:40


5 comentários

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De Luís a 07.10.2010 às 02:11

Anos a fio de branqueamento da História deram nisto: http://www.marktest.com/wap/a/n/id~1650.aspx. Tenho 23 anos, e tudo o que sei sobre a Primeira República e a sua podridão, foi lido na biblioteca dos meus avós. Nos bancos da escola, a instauração da República era leccionada como um acto heróico, contra um regime caduco e tirânico. Assim estavam os programas escolares há dez anos atrás, assim estarão agora. Os jovens ululam contra a Monarquia, mas nem sabem quem foi Afonso Costa.
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De Nuno Castelo-Branco a 07.10.2010 às 03:21

Caro Luís, acabaremos por chegar onde pretendemos. Muito se tem feito nos últimos anos e quem se interessa, encontra sempre as respostas. A informação não é exclusiva de uns tantos senhores que se encerram nas universidades e garanto-lhe que estes dias, vêem um grande renascimento do interesse por aquilo que foi a Monarquia Constitucional, afinal, uma época não tão distante dos nossos dias, dadas as similitudes em numerosos campos. Para o bem e para o mal. Com o tempo lá vamos e os seus 23 anos são disso a prova. Um pesadelo para os barrigões do costume.
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De Carlos Velasco a 08.10.2010 às 10:42

Caro Nuno,

Os tipos estão cada vez mais nervosos. Isso é muito bom. Só é preciso continuar a bater e não se intimidar quando eles exibirem a dentadura.
No fim essa gente apelará para a misericórdia se fazendo de coitada e vítima da ingratidão. Quando chegar esse momento, aí teremos que bater ainda mais forte.
Depois farão tudo o que quisermos.

Um grande abraço.
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De Anónimo a 08.10.2010 às 17:05

Não li o seu texto. Desculpe. Só olhei para a photo, e logo me lembrei da lei paneleirote. Tudo tem que ter um simbolo não é!? que o simbolo não perece, permanece.
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De broncasdocamilo a 09.10.2010 às 23:59

Belo texto. Parabéns!!!

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