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Vórtice de desespero engole o regime

por Samuel de Paiva Pires, em 19.10.10

 

Depois da reacção que o meu texto de ontem gerou - deixo, antes de mais, um sentido agradecimento ao Sapo, pelo destaque -, a sucessão vertiginosa de acontecimentos deixa as perspectivas quanto ao futuro do país cada vez mais incertas.

 

O ex-economista chefe do FMI, Kenneth Rogoff, afirmou que o FMI poderá vir a intervir em Portugal, quer o Orçamento do Estado seja aprovado ou não, afirmando também que a intervenção da organização não é necessariamente melhor do que entrar em incumprimento de dívida. Precisamente no seguimento do que dissemos ontem, tal como já havia sido apontado pelo LR no Blasfémias.

 

Depois da distinta lata de Jorge "Lacaio", no Prós e Contras de ontem, dizendo que este orçamento defende o Estado Social, e que a pobreza está a diminuir (quando o Presidente da Cáritas havia dito precisamente o contrário, e quando está à vista de todos aquilo que se passa), veio agora outro comensal do orçamento, do lado do PSD, Paulo Rangel, dizer que o PSD se deve abster por motivos patrióticos. Mas como é que esta gente tem a lata de falar em patriotismo? Esta gente deste regime que acabou com qualquer sentido de patriotismo e de comunidade, através do qual tantos têm servido os próprios bolsos à custa dos contribuintes?

 

Valha-nos, para já, Passos Coelho, que contra tantas pressões lá tem demonstrado nervos de aço, e que já esta noite impõs as suas condições para aprovar o orçamento: aumentar o IVA em apenas 1%, suspender todas as Parcerias Público-Privadas (PPP), nada de cortes nos sectores principais do Estado Social - saúde e educação - aceitar reembolsos fiscais por entrega de dívida pública, recusa de algumas mexidas nas tabelas do IVA e que a Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) passe a ser uma agência independente de fiscalização da despesa e dívida pública que inclui o Estado, entidades públicas e privados que recebam subsídios públicos.

 

Contudo, não deve faltar muito para o governo cair. Depois dos trabalhadores da Direcção-Geral de Contribuições e Impostos se recusarem a trabalhar horas extra, ameaçando ainda com uma greve, agora é a vez dos juízes assumirem o seu poder de fiscalização. Não tenho dúvida alguma que, se forem para a frente com esta medida, muitas e diversas atitudes despesistas irão ser encontradas, e mais vale tarde que nunca: A Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP) requereu acesso aos documentos que autorizaram e atestam os montantes gastos pelos membros dos gabinetes dos 16 ministérios e dos secretários de Estado da Presidência do Conselho de Ministros e do adjunto do primeiro-ministro. O pedido solicita informação sobre “a atribuição e utilização de cartões de crédito e uso pessoal de telefones, móveis ou fixos”, e também “cópia dos documentos de processamento e pagamento das despesas de representação aos membros do actual Governo”, bem como “de subsídios de residência”.

 

Esta é a hora da verdade para Sócrates. O PSD está aberto a negociar, agora sim sobre  um documento que já se conhece. E tanto PSD como CDS já sugeriram onde cortar quase 600 milhões de euros, em várias despesas supérfluas. Será José Sócrates capaz de, ao menos uma vez na vida, ter sentido de Estado e de responsabilidade, ter percepção do que se passa realmente e capacidade de verdadeiramente negociar a viabilização de um OE mais equilibrado, menos despesista e que estimule a economia?


Seja como for, este é um governo a prazo. Tem os dias contados. Falta apenas saber se o regime também. E se este tiver os dias contados, como muitos já receiam, há um real perigo: o do poder cair na rua. E é preciso evitar isto. O que acontecerá com uma de duas situações: tal como escrevi ontem, com uma ditadura do FMI em nossas casas, ou se decidirmos tomar em mãos a responsabilidade de tratar dos nossos assuntos. Portugal não é uma democracia liberal madura, responsável, e não vai ser com este enquadramento democrático, perpassado por uma imensa rede de sombrios interesses clientelares, que alguém vai ser capaz de reformar o Estado português. Das suas quase 14 mil entidades, aposto que a esmagadora maioria nada mais faz do que ser um sorvedouro de dinheiro dos contribuintes. Este é um sistema caduco, que está a tentar preservar-se por todas as formas, colocando uma brutal pressão sobre os seus contribuintes liquídos, de tal forma que este não é um Orçamento de Estado mas um Orçamento de Extorsão. Não seria melhor sermos nós a tratar dos nossos assuntos, a arrumar a casa de forma a que possamos ter uma democracia liberal digna dessa qualificação (que não temos agora)?

 

Mas, quantos estão dispostos a sair para a rua? E, ao contrário do que alguns julgam, não estou aqui a fazer nenhuma apelo às armas. O que é preciso é mostrar, o quanto antes, o descontentamento dos portugueses, que não apenas os que se associam à greve da CGTP. Protestos pacíficos mas incisivos, que demonstrem que os portugueses estão vigilantes em relação às trapalhadas deste governo, e que não mais vão aturar bovinamente os devaneios socretinos.

publicado às 21:05


14 comentários

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De Anónimo a 19.10.2010 às 21:56

Muito bem Samuel. Muito bem mesmo.

Quem fala em apelos às armas, certamente não entende para além do literal.

Continue a erscrever, porque é preciso denunciar, clamar a esta gente que CHEGA, mas CHEGA mesmo.

Não tenho que pagar com as minhas palpebras, o meu estudo, que não foi feito por fax, o meu trabalho, que me sai da minha cabeça, o IVA ao preço que os ladrões querem, para isentar de impostos a preguiça nacional.
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De Samuel de Paiva Pires a 19.10.2010 às 22:13

Obrigado! Assim continuaremos!
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De José Sampaio a 19.10.2010 às 22:00

estado social é coisa que já não existe samuel. tenho seguido o teu trabalho e revelas boas ideias a tua escrita não é má de todo e contêm algum fundamento. porém, penso que não te defines ideologicamente o que mostra medo da tua parte ou pretensões em atingir cargos que até agora não te foram possíveis, dado que vejo que tens imenso tempo para escrever, as ocupaçoes devem de ser poucas.
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De Samuel de Paiva Pires a 19.10.2010 às 22:07

Caro José,

Se há coisa que não tem feito é seguir o meu trabalho. Ao longo dos últimos 3 anos, neste blog, e em várias circunstâncias públicas tenho sempre assumido e defendido o que sou em termos ideológicos: sou de direita, liberal e monárquico. Quer mais do que isto?

Se seguisse o meu trabalho, com diz, saberia perfeitamente que não engano ninguém.

Quanto a lugares, não pretendo alcançar nenhuns, a não ser talvez um lugar ao sol fora deste país, se as coisas continuarem assim.

E quanto às ocupações, meu caro, durmo 6 horas em média, trabalho das 9 às 18h (mts vezes para lá das 18h), e estou a fazer mestrado em Ciência Política, tendo aulas das 18 às 20h às quintas-feiras.

Espero que agora possa ficar descansado em relação à minha pessoa, às minhas posições ideológicas e às minhas ocupações.
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De Anónimo a 19.10.2010 às 22:13

Mas que grande lata.
Deves ser xuxa, com discurso encomendado.

A avaliara pela tua escrita, deves ser um dos motoristas do Sócartes...
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De Anónimo a 19.10.2010 às 22:14

Para que não haja dúvidas, o comentário supra é dirigido a um tal de José Sampaio!
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De MIGUEL a 19.10.2010 às 22:21

COM OS SAMPAIOS O LEME NAO FUNCIONA. POR ISSO NAO TEMOS BOMS VENTOS.
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De Anónimo a 19.10.2010 às 22:26

Absolutamente de acordo. De lemes nada percebem, mas pensam que podem arrear moralismos na postura dos outros, e na verdade até que arreiam, mas de outra forma. Só que os ventos mandam tudo de volta. Para os sampaios, claro.
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De Anónimo a 19.10.2010 às 23:01

Caro Samuel, parece-me ser demasiado tolerante. Por favor ignore Sampaios. Eles ficam irritadíssimos com a invisibilidade.
Felicidades para os seus projectos.
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De Anónimo a 19.10.2010 às 23:12

eheheheh. Granda boca....e boa boca....
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De Anónimo a 19.10.2010 às 23:22

oops...não é a boca «lá de cima» essa é não digo e tem umas cáries mal arranjadas...desculpe samuel, além de que os dentes estão amarelos...
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De Samuel de Paiva Pires a 19.10.2010 às 23:30

:) lol apareceu no google
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De João Pedro a 20.10.2010 às 00:19

O problema, Samuel, é que os portugueses, quando vão para a rua, é para pedir mais e mais para o seu próprio bolso, ou para não perderem os seus "direitos adquiridos" (alguns sem o mais completo fundamento), e não para protestar contra as iniquidades do regime. Um pouco como em França, mas com os "brandos costumes" a servir de freio.
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De Filipa a 20.10.2010 às 11:54

Tem razao. Apenas pensamos no nosso proprio bolso.
Quantos de nos se juntaram a greve ou protestos dos policias ou professores?! Isso nao nos diz completamente respeito, mas se sabemos que algo esta errado, seja para connosco ou pra com os outros, devemos intervir e ajudar. So assim conseguiremos que a nossa voz seja ouvida.
Mas...talvez seja dificil, porque a sociedade torna-se mais individualista a cada dia que passa...

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