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Mistérios de Lisboa

por Nuno Castelo-Branco, em 22.10.10

Há trinta e seis anos em Portugal e pela primeira vez fomos convidados para uma estreia na Cinemateca, tal se devendo à extrema amabilidade de Maria João Seixas e em atenção à minha mãe, trineta do escritor.

A actual cinematografia portuguesa, tem sido desconsiderada por um público sempre ávido dos conhecidos bang-bang visionados enquanto se mastigam umas pipocas, numa capciosa hegemonia do descartável destinado ao rápido esquecimento. Considerados como filmes chatos, longos e parados, são contudo apreciados por quem gosta de cinema, este mesmo que é em tudo distinto de uma simples banda desenhada ao estilo Manga, habilidosamente recheada de efeitos especiais passados ao video (?).

Não esperem assistir a planos que duram dez ou quinze minutos, nem a lacrimejares acompanhados por gritaria a lembrar um fado desesperado. Não. O chileno Raúl Ruiz rodou uma verdadeira obra prima, onde o interesse do espectador se mantém ao longo das quatro horas de intrincado enredo, numa riqueza de personagens onde os estudos de carácter e as diferenças ditadas por uma coisa nada fortuita que se chama nascimento, preenchem uma história que deverá ser vista num só fôlego. Estando prevista a transmissão sob o formato de novela RTP, cremos perder-se a clara intenção do realizador que sem confundir a audiência, consegue mostrar esta obra de Camilo como um todo bem coeso, de fácil acompanhamento e que sem surpresa, nos esmaga com a grandeza dos cenários criteriosamente escolhidos, música, guarda-roupa e o excelente desempenho dos actores. A nota dominante, é o irrepreensível profissionalismo. De facto, o trabalho de tantos e tão bons artistas que encarnaram as personagens, distingue-se pela coerência, nem sequer valendo a pena ressalvar este ou aquele nome, pois pelo que nos é prodigamente dado a ver, consolida-se uma certa forma de arte bem original e portuguesa, imediatamente identificável pelos cinéfilos mais inveterados.

Longe parecia a época dourada dos filmes que à meia-noite víamos no Caleidoscópio, onde os ciclos dedicados a Visconti, Antonioni ou Pasolini, emprestavam durante algumas horas, um transporte que conduzia a alfurjas abjectas, afinal não totalmente afastadas dos salões requintados onde brilhavam dourados e se faziam escutar os frú-frús dos cetins ou das sedas ostentadas por voluptosamente castas senhoras, de uma “alta” há muito desaparecida. EsteMistérios de Lisboa, nada tem a invejar a toda aquela pretérita grandeza italiana e bem pode ser o nosso O Leopardo.

Os tons pastel, a luz filtrada com mestria e os ciaro-oscuro que adensam o drama, tornam perfeito um ambiente já por si magistralmente fidedigno. Beleza palaciana de inaudito espanto – estamos mesmo num desconhecido Portugal? -, o mobiliário a autenticar o gosto nacional que já se julga eterno, o meticulososamente estudado vestuário que varia na perfeição e consoante as épocas em que a história decorre, não deixam ofuscar a profunda crítica social que Camilo legou à posteridade, percorrendo os principais acontecimentos do anoitecer do século XVIII e do nascimento daquele já nostálgico Oitocentos, a grande época das mais radicais transformações institucionais e materiais que o nosso país até hoje viveu. A injustiça do morgadio, a pecha do adultério e a vergonha da bastardia, compõem um quadro onde a nobreza, a burguesia e os extractos chãos, por vezes se confundem numa promiscuidade de espaços que ditam a interdependência.

Um extraordinário filme para rever.

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publicado às 08:00


10 comentários

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De LUIS BARATA a 22.10.2010 às 10:12

Mas em dia folgado: sempre são 4 horitas e meia...
Curioso ser um chileno o autor desta adaptação, enquanto cá no burgo se vão fazendo fitas com uma estética televisiva ( deve ser a pensar na revenda às SIC e TVI) e argumentos fraquitos. Ou então tão insondáveis como os desígnios de Nosso Senhor.
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De Nuno Castelo-Branco a 22.10.2010 às 10:56

Luís, este vale mesmo a pena. Grandioso!
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De Anónimo a 22.10.2010 às 12:15

«trineta do escritor»...

Qual é o escritor, por favor?
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De Anónimo a 22.10.2010 às 12:19

Ok Camilo CC. Muito bem.
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De Pedro Neves a 22.10.2010 às 15:14

Boa tarde,

O Estado Sentido está novamente em destaque nos Blogs do SAPO, em http://blogs.sapo.pt

Boa continuação!

Pedro
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De Nuno Castelo-Branco a 22.10.2010 às 16:21

Muito obrigado pela informação. A gente do Sapo é muito amável.
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De Anónimo a 22.10.2010 às 15:30

Pois está! Hum, e vai continuar a estar! Porque não havia de estar?

A história faz-se efectivamente de pequenos acidentes - note-se, acidente deve ser entendido na perspectiva filosófica de Sócrates - o antigo! Não o actual, que esse, não é um acidenet, esse é um sismo premeditado que ultrapassa a escla de Richter.

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De MIGUEL a 22.10.2010 às 22:42

A actual cinematografia portuguesa...
NUNO. A CINEMATOGRAFIA PORTUGUESA ANDA HA 30 ANOS A FILMAR PARA AMIGOS E GODARD VER. NADA FOI FEITO PARA O PUBLICO E MENOS O PUBLICO PORTUGUES.
TENHO CONHECIDOS AMIGOS ESTRANGEIROS QUE ME CONFIARAM TER VISTO DOIS FILMES PORTUGUESES NA CINEMATECA QUE FREQUENTAM. O PRIMEIRO NAO PERCEBERAM ABSOLUMENTE NADA, O SEGUNDO NAO SE LEMBRAM, ADORMECERAM. ELES! QUE ESTAO HABITUADOS A FILMES DE TODAS AS PARTES DO MUNDO! DE TODO O MUNDO MESMO.
PESSOALMENTE AGUENTO 2 MINUTOS A MESMA IMAGEM PARADA, A VIOLENCIA CRETINA,AS IMAGENS DUMA VIDA QUE NINGUEM VIVE E NINGUEM QUER VIVER, O ENREDO FALADO EM FRANÇES! PORQUE NAO PERCEBEM QUE QUEREMOS IR AO CINEMA PARA DISTRAIR, RIR, CHORAR E VER O QUE NAO TEMOS MAS QUE PODEMOS SONHAR E NAO A DEPRESSAO PSEUDO INTELECTUAL DO AUTOR.
PORQUE SAO POR VEZES PREMIADOS LA FORA ESSES FILMES? TALVEZ PARA ENCORAJAR A SEGUIR O CAMINHO SEGUIDO: O CINEMA PORTUGUES NAO EXISTE. OS OUTROS SIM!
A ACTUAL CINEMATOGRAFIA TALVEZ ESTEJA MELHOR MAS NAO SE RECUPERA UM PUBLICO PERDIDO HA 35 ANOS EM 10. VAI SER PRECISO MUITOS BONS FILMES E MUITOS ANOS.

OXALÁ CONTINUEM ASSIM

ABRAÇO

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De Nuno Castelo-Branco a 22.10.2010 às 23:29

Miguel, precisamente por isso que dizes, aconselho este filme. Não é a "mesma coisa". Garanto.
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De Francisco Brito a 26.10.2010 às 11:59

Um excelente filme, feito a partir de uma excelente história.
Ontem, após um dia bastante cheio (acordar as 6h30 + viagem de 4h para Lisboa + dia de trabalho) confesso que pensei duas vezes antes de ir ver um filme de quatro horas. Fui e valeu a pena cada minuto.
Os nossos escritores e a nossa História (romanceada ou não) tem muito para dar ao cinema portugues e mundial. Raul Ruiz soube como faze-lo. Esperemos que volte a faze-lo novamente ou que outros sigam este bom exemplo.

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