Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




WikiLeaks, um casus belli de café

por Nuno Castelo-Branco, em 12.12.10

De um lado, temos os eternos inimigos de tudo aquilo que pareça ser americano. Os porta-vozes, são, por regra aceite e confirmada, gente bem colocada socialmente e que desfia impressionantes conhecimentos de estória do cinema yankee do período áureo do pós-guerra, não desdenhando também em rotineiramente invocar Hemingway como marco de "garantia liberal". Umas férias anuais para gozo da neve em Nova Iorque e com as correspondentes visitas ao MOMA e à Broadway, compõem o quadro. Existe sempre o recurso a uma frase em louvor do país "muito livre, liberal, self-made e pai das liberdades individuais", surgindo logo como contraponto, o eterno mas!, simples expressão que contudo, visa a subreptícia liquidação de tudo o resto. O mas!, deve-se à reacção americana "sempre que os seus interesses económicos e de segurança sejam ameaçados". Como se tais sempre fossem coisa de somenos importância, os observadores do politiquês abespinham-se contra o reflexo defensivo conduzido por Washington D.C., que invariavelmente e para cúmulo do espanto dos santarrões bem pensantes, imediatamente contra-ataca.

 

Deve existir liberdade de expressão - logo, de informação - na net, aliás uma invenção proveniente dos States. O que parece ser espúria, é a obtenção de testemunhos que pela sua marginal importância, fazem parte da petite histoire diplomática. O que um embaixador diz ou pensa acerca deste ou daquele dirigente estrangeiro, consiste sempre numa opinião pessoal, quantas vezes ditada por informações prestadas por amigos ou inimigos do dito líder estrangeiro. Assim, o quadro geral não é absolutamente fidedigno e presta-se, bem pelo contrário, a deficientes interpretações por parte dos serviços receptores das mensagens, ou seja, o Departamento de Estado. Hillary Clinton "mandou espiar" o secretário-geral da ONU? Talvez, mas daí não advirá qualquer problema de maior, até porque o sr. Ban Ki-moon não possui a condução directa de qualquer potentado militar, ou uma única mala de códigos desencadeadores do Armagedão. Já há uns vinte anos, vieram a público informações referentes ao sr. Kurt Waldheim, o prolixo e severo secretário-geral que durante muito tempo, havia feito a "vida negra" à diplomacia portuguesa. Conhecido aliado tácito e táctico dos interesses da então omnipotente URSS, era incensado pelos apoiantes do Movimento pela Paz e Cooperação, como "homem da paz entre os povos", amigo da "causa árabe", dos "movimentos de libertação e crítico do "imperialismo". Naquela altura, o WikiLeaks era uma possibilidade tão imaginária, quanto a decifração do genoma humano. A queda da tirania moscovita e a paulatina abertura dos ficheiros secretos, revelaram uma outra estória que ficou para a história. O austro-alemão Waldheim era chantageado pelo Kremlin, conhecedor da sua antiga carreira de oficial nacional-socialista na Jugoslávia ocupada. Ficámos a conhecer a sua glabra silhueta, impecável no elegante uniforme das forças armadas do III Reich e a partir daí, toda aquela retórica da década de 60-70 fez coincidir, como papel químico, os postulados a que nos habituou, com outros que haviam desaparecido dos noticiários em 9 de Maio de 1945. Eram parecidos, para não dizermos escandalosamente idênticos. O homem tinha medo de ser "desmascarado" - no sentido marxista-leninista-maoísta do termo - e perder o vaidoso poleiro onde cravara as unhas.

 

A chamada Europa, deverá ser mais cuidadosa na receptação de toda as "boas-novas" trauteadas por quem já apoiou Estaline, Castro, Krushchev, Brezhnev, Mao, Ho Chi Min, a flácida família Kim, Pol Pot, Nasser, Khomeiny - este de forma envergonhada, mas por exclusão da outra parte, isto é, do Xá -, Samora, Neto, Arafat, Kaddafy e uns tantos mais. São precisamente aqueles que ainda há uma semana, já sugeriam uma "provocação americano-sul coreana à Coreia do Norte", a propósito da chuva de obuses que Pyong-Iang fez cair sobre uma ilha do seu rival do sul.

Os europeus têm desfrutado do seu Estado Social de uma forma que surpreende e atrai todos aqueles que não beneficiam da posse do passaporte das doze estrelinhas e isto deve-se única e exclusivamente, a um factor que não se compagina com "Declarações Universais", "Cartas" e outras miríficas prendas. A poderosa Europa que no seu exaustivo currículo pode ostentar as outrora colossais armadas portuguesa, espanhola, holandesa, francesa, inglesa, italiana e alemã, hoje em dia, de pouco se pode ufanar quanto à sua segurança. Um problemático porta-aviões para mostrar a bandeira tricolor, outros dois da R.N. em construção e mais três pequenos cascos porta-aeronaves, a isto se reduz o outrora esmagador poder mundial. É tudo o que justifica a condição de potência militar de terceira classe. Depende dos americanos na secreta, como dos americanos depende na vigilância e segurança que chega do espaço próximo do planeta Terra. Se excluirmos a semi-europeia Grã-Bretanha, a restante península pretensiosamente auto-denominada de "continente", pouco pesa, quando chega a hora da acção. No próprio Iraque, a intervenção foi atacada pelos "promotores e defensores da paz" - os mesmos que olhavam com complacência os 20.000 panzers e as dúzias de mísseis SS-20 soviéticos colocados na fronteira da RDA -, alegando estes, que a invasão visava o controlo do petróleo. Ora, bem vistas as coisas como realmente se passaram, a produção não só não aumentou, como bem pelo contrário, foi reduzida, tendo ficado de fora das concessões, muitas daquelas que pareciam ser as claras beneficiárias da queda de Saddam: as empresas energéticas americanas. Gostemos ou não, de facto, a nossa tranquilidade caseira tem sido garantida por algumas Task Forces que o Pentágono concentra em pontos vitais do globo. Uma dúzia e meia de porta-aviões nucleares, centos de aviões, milhares de operacionais prontos para intervenções imediatas, uma elaborada logística, aparelhos de vigilância contínua, a rede de satélites espiões, submarinos que patrulham todas as rotas vitais em todos os oceanos, centros de informação que avisam da entrada de elementos subversivos na Europa, etc. É este o guarda-chuva proporcionado pelos EUA. Não será disparatado afirmar que tal generosidade, é obviamente mitigada pelos seus próprios interesses na manutenção da hegemonia, devendo esta ser encarada com a naturalidade decorrente da própria experiência europeia que desde há 500 anos, o mesmo tem feito com picos e quebras de sucesso.

 

Ficamos contentes por descobrirmos as indecências relativas a negócios em que o Estado português foi lesado pela cupidez de assinantes de acordos comerciais ou de transferência de posse de bens? Com certeza que sim. É uma satisfação ficarmos cientes acerca esquemas comerciais e de abusos cometidos por dirigentes contra os seus próprios concidadãos? Decerto. Julgamos útil a divulgação de opiniões pessoais de um embaixador acerca de festas, bebedeiras ou transferências bancárias de um conhecido político da arena mundial? Sim, tratando-se de casos episódicos que tornam bem reais os sketches dos Monty Pitton, passíveis de nos alegrar um jantar entre amigos e proporcionarem tema de conversa à hora do café. Mesmo tratando-se de uma intolerável invasão da vida privada de quem a ela tem todo o direito, estes últimos casos são meramente marginais e não implicam o risco para a segurança de sujeitos singulares e muito menos ainda, de nações inteiras. Denotam apenas as chamadas "fraquezas humanas", onde a cobiça, a vigarice arteira e as naturais pulsões do bicho homem, surgem como aquela invariável que justifica a nossa espécie.

 

Os EUA mal agem quando se decidem a argumentar com a vida pessoal do sr. Assange. As alegações de violação nada mais são, senão isso mesmo: alegações. Justificar directivas de captura em termos de "lei, moral e bons costumes", não deixa de ser um aspecto caricato, pois assim sendo, entra-se naquela contradição que de imediato nos recorda uma pobrezinha secretária da Casa Branca, "abusada na sua dignidade de trabalhadora dependente" por um presidente dado a "vícios" de oralidades. Já repararam que quem mais atacou Clinton foram, precisamente, os mais estrénuos defensores de todas as "liberalidades"? Esses mesmo. O homem é W.A.S.P., ou seja, um yankee. Isso basta.

 

De tudo isto, retiramos umas breves conclusões. Os americanos, os seus aliados europeus e alguns países asiáticos - as democracias -, deverão regressar aos antigos processos de recolha e guarda a bom recato, da informação verdadeiramente importante - segurança e defesa, relatórios económicos e de pesquisa científica que garantem o que resta do nosso poder no mundo - e que durante longo período deve permanecer confidencial. Isto significa um regresso à missiva enviada em envelope lacrado e cuidadosamente resguardado pela mala diplomática, destinando-se a ser recebida por uma ínfima minoria de privilegiados que detenham o efectivo poder de decisão nos Estados. Após a leitura e devida ponderação dos factos - e não de suposições ou informações de duvidoso valor e proveniência -, a papelada deverá ser guardada a sete chaves e tal como outrora, apenas disponibilizada decorridos dez lustros.

 

Há umas semanas estivemos nos arquivos do MNE e lemos alguma da correspondência enviada pelo sr. Teixeira Gomes ao plasticínico ministro dos Negócios Estrangeiros da República de 1910. Numa das apressadas cartas endereçadas ao sr. Bernardino Machado, tecia considerações acerca de outros diplomatas, entre os quais sobressaía um, que por sinal, parecia ser um dos seus numerosos ódios de estimação. Entre algumas acusações de má fé e reserva mental, o ministro da Legação espanhola em Lisboa, era acusado de tendências oscar-wildinianas, com tudo o que poderia isto significar entre dentes, num garden-party qualquer. Afonso XIII não teria apreciado o dichote, disso estamos certos, mas na segunda década de novecentos e por muito inepto, grotesco e violento que pudesse ser o regime do PRP, tal alegação seria um casus belli? Não cremos, mas dá bem a dimensão da importância e seriedade de muitas das afirmações desfechadas pelos bem conhecidos degustadores do croquete alheio.

 

Ficamos por aqui.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:15


Comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.







Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas


    subscrever feeds