Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Um Post Sobre Futebol

por Felipe de Araujo Ribeiro, em 31.01.11

Calhou que se sentásse ao meu lado, a bordo de um velho Antonov 12, um militar Jordaniano, daqueles dados para a conversa. Eu, que tenho por hábito não entreter conversas de circunstância a bordo de cadáveres voadores, acedi desta feita à provocação, deixando o Requiem de Mozart para outros vôos.

 

A introdução é sempre a mesma: “Portugal? Ah! Cristiano Ronaldo, Luís Figo!” (não te esqueces de ninguém?) “And José Mourinho, The Special One!” 1X2…

 

Aproveitei para saber o que pensava sobre a situação do Egipto e demais mundo Árabe. Disse-lhe ter visto ontem nas notícias que cerca de 200 protestantes se reuniam em Amã a pedir a demissão do Primeiro Ministro Samir Rifai. Tranquilo e com um sorriso condescendente, avisou, como se o explicásse a uma criança, que na Jordânia não há espaço para uma revolução, mesmo apesar de que de tolos nenhum país se escapa. Que “ninguém dá muita importância ao PM, que nós temos lá a nossa Família Real”. Que “toda a gente sabe que o Rei (Abdulallah II) não deixa que um qualquer PM arruine o país” que “se ele começa a disparatar o Rei trata de o substituir”. A descontração com que falava mudou radicalmente quando lhe falei da última visita da Rainha Rania Al-Yasin a Portugal. Agora com entusiasmo, falou nos projectos sociais da Rainha, disse que toda a gente a conhecia pelo mundo fora, que tinha uma vida muito activa, sempre dedicada a quem mais precisa de apoio. Que “todas as mulheres querem ser como a Rainha!”.

 

Eu, par contre, ía falar-lhe do nosso Presidente e na sua família encantadora. Ía dizer-lhe que o Presidente da República também nunca deixaria que um mero Primeiro Ministro arruinásse um país inteiro. Que o povo confiava no Presidente e que todas as Portuguesas sonhavam em ser sequer metade da mulher que é a Primeira Dama. Depois lembrei-me dos Vitais Moreiras e pensei em explicar-lhe o que é um “patusco”. Reflecti e cheguei à conclusão de que não seria suficiente. Devia dizer-lhe, como se o explicásse a uma criança, que nós, os Portugueses, já saímos das trevas há cem anos, que fizémos uma enorme descoberta, que baptizámos de “ética republicana”, e  que é a resposta para todos os males do país.

 

Talvez assim o fizésse compreender o quão obsoletas eram as suas palavras. Quão ingénuo o seu discurso. Enfim, quão ridículo o seu regime. Tanta coisa teria eu para lhe ensinar, não calhásse este ser um vôo tão curto, mesmo atendendo à lentidão com que o lendário avião russo rasgava os céus carregados, sobre a selva Congolesa.

 

Tanto pensei em todas as coisas que haveria para dizer a tão primitiva criatura, que, quando chegou a minha vez de falar, foi “então e o Eusébio?” o melhor que nessa hora me ocorreu.

publicado às 15:05


9 comentários

Imagem de perfil

De Samuel de Paiva Pires a 31.01.2011 às 15:25

Grande post Image
Nada como uma comparação prática para entrever a superioridade do que defendemos...
Imagem de perfil

De Nuno Castelo-Branco a 31.01.2011 às 15:37

Maravilhoso!
Sem imagem de perfil

De editor69 a 31.01.2011 às 17:05

Até eu que sou verdadeiro adepto dos futebóis...
fiquei abananado (positivamente) com tão grande texto.
Parabéns...é que assim vale a pena...vou-me eticamente (repúblicanamente falando) apropriar deste texto para o meu blogue.
Imagem de perfil

De Felipe de Araujo Ribeiro a 31.01.2011 às 19:04

J

Obrigado, e faz como se estivésses em casa!

Sem imagem de perfil

De CMF a 31.01.2011 às 19:15

Pois. O problema é que em Espanha há uma Casa Real que também deixou que um presidente de governo arruinasse um país. E assim continua, impávida e serena.
Imagem de perfil

De João Pedro a 31.01.2011 às 19:30

E aposto que um marroquino diria exactamente a mesma coisa.
Já um egípcio começaria a conversa sobre Portugal a falar do Manuel José.
Imagem de perfil

De Cleópatra M.P. a 01.02.2011 às 18:17

Caro Felipe,

Gostei!! :-)
Voltarei cá mais vezes, certamente.
Imagem de perfil

De Felipe de Araujo Ribeiro a 01.02.2011 às 22:36

Obrigado :)
Volte sempre!
Sem imagem de perfil

De antonio vasconcelos miguel a 02.02.2011 às 01:54

 A partir do  sec XVI em todo o mundo conhecido se sabia que em Portugal havia um Rei , como se chamava, e onde mandava!!! Não havia jornais,nem rádios,tvs e redes sociais.Hoje,tirando os futebolistas,grande parte do mundo pensa que somos Espanha!!!

Comentar post







Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas