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Atrasados mentais ou canalhas?

por Nuno Castelo-Branco, em 04.02.11

Não estamos num momento de contenção nas palavras. Um blog também serve para a expressão de estados de espírito.

 

Digo isto, a propósito da azáfama que corre para os lados de Washington, ansiosa por desmioladamente apressar um desastre anunciado. Deixando para trás todas as bestialidades da política externa norte americana - que para os europeus tem início com a "inventona" da explosão do Maine -, o século XX foi profícuo em erros de cálculo, ignorância crassa acerca das realidades além-mar e pior que tudo, uma gelatinosa consistência das alianças. Mubarak não é "um qualquer". O Egipto consiste de facto, na mais importante nação do chamado "mundo árabe" e durante as três primeiras décadas de existência do Estado de Israel, arvorou-se no mais formidável adversário à consolidação daquela realidade artificial que a Europa submetida e os Estados Unidos triunfantes, impuseram como solução para um problema incómodo. O pragmatismo de Anwar el-Sadat e a expulsão dos soviéticos, trouxeram o país do Nilo para a esfera de influência ocidental, reeditando a velha tradição iniciada no século XIX.

 

Desaparecida em 1952 a fase liberal e parlamentar dos tempos da Monarquia dos descendentes de Mehmet Ali, os egípcios continuaram apegados aos costumes introduzidos quando da crescente curiosidade que o velho país suscitou nos visitantes europeus. A abertura do Suez, europeizara a aparência dos trajes e trouxera para dentro das casas de uma burguesia que florescia, um discutível gosto por tudo quanto era europeu ou parecesse sê-lo. Ao mesmo tempo que os europeus se extasiavam com cópias de artefactos dos tempos dos faraós, daquela época chegam testemunhos dos estilos do mobiliário francês, onde um exagerado Luís XV - entre nós conhecido por Louis Farouk -  e um pastiche dos móveis Império da Malmaison, tipificaram o aspecto geral da "montanha dourada" em que as mansões cairotas e alexandrinas apresentaram, garantindo também as modas trazidas por proles inteiras que para a Europa se deslocaram em estudo e preparação cosmopolita. Destes artefactos em madeira esculpida, sobram numerosos testemunhos, hoje acessíveis em algumas casas de móveis velhos, ou melhor, "antigos", em quase todas as capitais europeias. Lá para a Rua de S. Bento, há quem venda sumptuosos cadeirões ditos isabelinos, num hábil disfarce que muito mal esconde a sua verdadeira origem. Num misto de embevecida vaidade e de escasso embaraço pelo evidente kitsch, posso dizer que possuo dois, obtidos pelo preço de qualquer plástica, "standartizada" e insegura coisa made by Ikea. O Egipto é para os ocidentais algo de muito muito especial e sem surpresa, imaginamo-lo sempre segundo os padrões estéticos dos tempos faraónicos: que o digam as desavergonhadas cópias que são os edifícios concebidos por Speer, a águia dos uniformes do exército e do Reichstag de Hitler, os monumentos da URSS de Estaline ou a mastaba que encerra múmia de Lenine!

 

Regressando à aliança do Egipto com o Ocidente, Mubarak tomou posse do cargo presidencial, num momento em que a ofensiva radical ameaçava estilhaçar o processo de pacificação na margem oriental do Mediterrâneo. Sadat foi assassinado em público, às mãos de gente da Irmandade Muçulmana. Antes do desastre de 1979, Carter e a sua nefasta administração, há muito se atemorizavam com o crescente poder do Xá Mohamed Reza Pahlavi, um homem que a maioria, infelizmente ainda em surdina, hoje reconhece ter tido uma dimensão que ultrapassa em muito, a estereotipada imagem do ditador-sátrapa tão ao gosto das lenga-lengas panfletárias dos grupúsculos esquerdistas que pontificam nos media. O Xá marcou a diferença e nem sequer foi tão longe como Attaturk. O "grave problema" consistiu em ter sido um monarca, pois se ostentasse a faixa presidencial, outra teria sido a apreciação acerca do seu mandato. Toda a retórica de libertação que é hoje tão própria de causas várias, significou no Irão dos Pahlavi, a acção concreta do Xá: modernização da estrutura produtiva, um zelo extremo na educação - que hoje dá os seus frutos -, a liberalização das relações sociais com a consequente emancipação feminina - ponto fulcral que despertou o violento ódio do clero reaccionário que ainda hoje manda - e principalmente, progressiva obtenção da autonomia do país, face aos jogos geoestratégicos das superpotências de então. O Xá tornou-se demasiadamente poderoso e por isso caiu. Se houve alguém que manteve intacto o princípio fundamental da decência que deve reger as relações internacionais, esse foi o general Sadat, presidente do Egipto. Recebeu o Xá, quando Carter já ponderava a sua entrega aos assassinos de Khomeiny. Com o monarca surgiu em público e prodigalizou todo o conforto e segurança de que a família Pahlavi desesperadamente necessitava. A atitude de Sadat - pagou-a com a própria vida - deveria ter envergonhado aqueles que durante décadas contaram com a Pérsia, como o mais seguro e firme amigo no confronto leste-oeste, mas aquilo que os norte-americanos pensam ser a realpolitik, ditou outras regras.  A lista de infâmias que desrespeitabilizam um povo inteiro, trouxeram a verdadeira situação de catástrofe que agora mina a reputação americana em todo o mundo. Traição na Europa de 1945 - com os tanques de Estaline em Berlim, Praga e Budapeste -, traição no extremo oriente do pós-guerra, conspiração na Itália do "referendo" de 1946, política absurda na Crise do Suez, desastre no Vietname, traição no Laos e no Camboja, profunda estupidez no processo cubano, traição a Portugal na Índia, em África e em Timor , apoio a todo o tipo de regimes párias num terceiro-mundo onde pontificou gente como Mobutu, Idi Amin e uma infinidade de nomes mais ou menos esquecidos pela vergonha.

 

Obama tinha todas as condições para marcar uma viragem, dado o saldo francamente negativo dos "horizontes infinitos" das "batalhas finais pela liberdade" do Sr. Bush. Mas, pelo que parece, a administração parece ensimesmada nos velhos métodos de colmatagem de brechas, apostando sempre na solução errada, no momento errado. Assim ia acontecendo há um ano em Bangkok, quando Washington já se preparava para contemporizar com os estranhos apetites ditados pelos conluiados interesses da Wall Street e de Pequim. A Monarquia dos Chakri salvou-lhes in extremis este precioso e seguríssimo aliado de sempre, evitando-se também um banho de sangue e uma profunda alteração na correlação de forças no sudeste asiático. Por muito que desagrade ás vorazes bocas da plutocracia, em Bangkok não se firmou qualquer risonho Timoneiro, nem houve lugar para uma Junta à birmanesa.

 

Persiste-se na visão reducionista da "democracia à americana" que como se sabe, é bem diversa daquela que vigora nos países da sua órbita europeia. Aquilo que é normal no velho continente - a democracia da República portuguesa, é muito pouco democrática se comparada com a democracia da Monarquia holandesa, por exemplo -, aos olhos do Washington Post e do New York Times, não é aplicável na margem sul do Mediterrâneo. Mubarak sabe do que fala quando invoca o "ou eu ou o caos". Bem vistas as coisas como elas estão a acontecer, as ruas do país não foram "tomadas pelas massas". Longe disso, é uma ínfima minoria - muito mais reduzida que aquela que há um ano ocupou a zona central de Bangkok - contestada agora de forma desabrida. Chovem pedras, desferem-se bastonadas a torto e a direito e é bem possível que a grande maioria dos opositores manifestantes, seja gente cordata e que sinceramente deseje a introdução de processos de escrutínio mais transparentes e consentâneos com a natural evolução que a democracia egípcia deverá encarnar. O problema não consiste naqueles que dão o peito à carga policial. Quem afanosamente prepara o advento de uma "nova ordem", não está presente na praça do Museu Egípcio. Washington bem poderá tomar nota da possibilidade da instauração de uma provisória anarquia a ser aproveitada por sectores minoritários, mas perfeitamente organizados e preparados para a assunção violenta do poder. Não faltarão gangs de aliados externos que chegarão em massa para ajudarem a patrulhar as ruas das principais cidades, adequando-as aos "novos tempos" e à "moral" deste ou daquele imã mais atrevido. Não tenham ilusões quanto a isso, pois é este o fulcro da questão. Em suma, há que impedi-los.

 

Os americanos podem apostar no tudo ou nada e obterão um resultado que se aproximará bastante de outros bem conhecidos pelo insucesso declarado. Se houver algum bom senso - e ontem Mubarak não se poupou nas palavras dirigidas ao "bem intencionado" e patético palrador que pontifica na Casa Branca -, deixará a situação regressar paulatinamente à calma, deixando para o fim dos calores do verão que se aproxima, a preparação de uma transição tão pacífica quão desejável.

 

Apostar na monomania de sempre, ou se trata de atraso mental ou de uma desnecessária canalhice.

publicado às 09:45


5 comentários

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De Octávio dos Santos a 04.02.2011 às 16:02

De um modo geral, Nuno, concordo com o que escreve aqui - com excepção da apreciação que faz das «batalhas pela liberdade» de GWB, cujo saldo eu considero francamente positivo. Mas o que importa salientar é o contraste da loquacidade, agora, sobre o que acontece no Cairo, de Barack Obama e da sua administração, por comparação com o pouco ou nada que disseram há dois anos aquando dos protestos em Teerão contra Ahmadinejad e os «ai-as-tolas».
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De Nuno Castelo-Branco a 04.02.2011 às 17:55

Precisamente, também me recordei das manifs anti-aiatolás. Quanto a Bush, todo aquele processo que conduziu a Bagdade, foi muito mal tratado e estava de antemão armadilhado. Foram inábeis, como sempre. O resultado sabe-se qual é.
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De Carlos Velasco a 04.02.2011 às 16:36

Caro Nuno,

Dá uma olhada nesse artigo:

http://financialsense.com/contributors/jr-nyquist/revolution-in-egypt-and-the-hidden-hand

O senso comum não chega lá, mas aos poucos as pessoas vão acordar. Espero que não seja tarde demais.

Um abraço.
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De Nuno Castelo-Branco a 04.02.2011 às 17:54

Já li. Fiquei com os cabelos em pé, mas não estou admirado.
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De João Paulo Carvalho a 05.02.2011 às 16:06

Conheço razoavelmente bem o Egipto (estive lá 3 vezes nos últimos 2 anos, 2 das vezes em trabalho). Creio que a situação se vai resolver de uma de duas formas:
1) Os militares vão manter o poder, embora possam mudar algumas caras;
2) Um processo talvez similar ao da nossa 1ª República vai seguir-se ( na melhor das hipótes um similar ao da 3ª).
Em qualquer dos casos, isso não será bom para o Egipto, mas sempre bom ou razoável para os imperialistas do USA, que se metem em todo o lado. Para já, estão a representar os interesses de Israel, como de costume, que se mantém num silêncio inteligente.

Saudações monárquicas.

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