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Um dos argumentos mais utilizados contra o regime do Xá do Irão, consistia na visibilidade social da imperatriz Farah Diba. Os mulás revolviam-se em biliosos ódios pela sua presença em local destacado, nas cerimónias oficiais. Detestavam a sua obra social junto dos idosos, das mulheres e da infância, precisamente porque isso liquidava o papel do clero xiita nas populações resignadas à submissão. Execravam a sua protecção às artes "imorais e ímpias" - ópera, teatro, ballet, pintura - e a decisiva influência que exercia quanto à liberalização legislativa na igualdade de género. Para cúmulo, o Xá Mohamed Reza Pahlavi coroou-a, tornando-a numa igual. O monarca foi longe demais e hoje o Irão é controlado por uma sanguinolenta máfia, cuja cabeça visível é o taxi-driver Ahmadinedjad.

 

Se atentarem bem às imagens que chegam da Praça Tahrir, não se vislumbra uma única mulher sem um trapo na cabeça ou não vestindo um balandrau do pescoço aos pés. Lá estão alguns simulacros de avançadotas  balzaquianas vociferantes, mas ordeiras servidoras dos homens que ali acampam. O mulherio toma conta das bebidas, comidas, limpezas, e pouco mais. Afinal, é esse o papel que a sociedade, muito distante daquela que existiu há milhares de anos no mesmo território, reserva à mulher. Apesar do regime instituído em 1952 - que remeteu as activas  Faridas e Fauzias par o limbo da história -, nada que se compare com aquilo que os pressurosos "Irmãos" lhes destina.

 

Um exemplo bem próximo, chega da Jordânia. Segundo mais um oportuno e bem-vindo copy-paste do Diário de Notícias, um importante grupo composto por 36 chefes tribais beduínos, exige que o rei Abdulá II cerceie as actividades da consorte real, a rainha Rania. A alegação é tirada a papel químico daquelas outras inventadas por Khomeiny, quando nos anos setenta enviava de Paris, venenosos discursos contra a imperatriz Farah Diba. Segundo o douto e esclarecido parecer dos homens do deserto, Rania procura "construir centros de poder pessoal" e claro está, os homens das tribos ameaçam com um fantasma de crise social, à imagem do que se passa no Egipto e na Tunísia. Este ranger de dentes não é novo, pois durante o reinado de Hussein I, os fundamentalistas diziam o mesmo acerca da rainha Noor, obsessiva capa de revista e presença incontornável nas obras sociais do Estado.

 

A actual rainha é palestiniana e como tal, tem sempre defendido os direitos dos refugiados residentes na Jordânia, hoje a maioria da população. Num típico acesso de tribalismo, os beduínos hachemitas enviaram uma petição ao monarca, declarando-se como os "verdadeiros jordanos". Tudo isto não passa de uma manobra de diversão, pois o ponto essencial consiste no papel que a rainha tem desempenhado nas acções pelos direitos das mulheres e na obra social, laica, exercida junto das populações. Tudo o mais é secundário, quando os rígidos princípios de organização social a que a religião dá forma, é colocado em causa. No caso jordano, os contestatários parecem ter alguma facilidade na difusão deste tipo de mensagem. Apesar do regime moderado e pacífico, o reino é um país pobre, sem recursos petrolíferos e bastante dependente dos seus vizinhos. Muito se tem conseguido na modernização do aparelho do Estado e nas cautelosas reformas sociais, mas este súbito impulso que de fora chega, poderá causar sérias perturbações. Uma vez mais, a Irmandade Muçulmana aparece em todo o seu flamante reaccionarismo e pelas "Europas", pode sempre contar com o previsível aplauso de uma certa "esquerda anti-americana". A questão é saber até que ponto as camadas urbanas do reino, estarão dispostas a tolerar um discurso retrógrado e coonducente a uma implacável ditadura?

 

Já alguém imaginou a rainha Rania de burca, ou envelopada de negro num balandrau?

 

* Por aqui, continua tudo na mesma. Para descontrair-mos, um texto piroso e lamechas, vulgar e sem algo de inesperado: "utopia" (que bem poderá acabar em killing fields), "terra da fraternidade" (está-se mesmo a ver...), "chá de borla" (e música pimba local), "desconhecidos que se abraçam" (por isso sai, sai da minha vida!), "êxtase tranquilo" (o que é isso?), "um imenso sorriso" (we are the world, we are the children) e por "Feicebuques", "Ai-fáives", "éme-ésse-énes", "páuer-póntes" fora. Só lá falta a "Grândola", entre uma dentadura postiça da Caixa, chaparros e um burro.

 

Não sendo a peça artística assinada, dir-se-ia que o Público enviou Corin Tellado ao Cairo.

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publicado às 12:52


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