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Da série "Este manifesto é uma valente bullshit"

por Samuel de Paiva Pires, em 13.02.11

Este manifesto, aproveitando a onda gerada pela música dos Deolinda, além de não propôr nada, serve também o propósito de convocar a geração enrascada para um daqueles ajuntamentos inconsequentes de algumas horas, que nem comichão fazem ao establishment. De resto, segue na esteira do que já aqui assinalei.

 

Se, de facto, somos a geração mais qualificada de sempre (uma bela presunção, como se o ter uma licenciatura, mestrado ou doutoramento fosse, per se, indicador de competência), será que ninguém consegue ir para lá dos preconceitos ideológicos de esquerda e realizar acções consequentes, como organizar um movimento ou partido com um programa/plano para reformar o Estado e assegurar um desenvolvimento sustentável do país?

 

Eu não o faço, pura e simplesmente porque sou um desses "perigosos fássistas neo-liberais". À partida já estou condenado à derrota. Infelizmente, os quadros mentais esquerdistas, construtivistas e utópicos continuam a fazer escola.

publicado às 19:06


20 comentários

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De Zephyrus a 13.02.2011 às 19:46

Caro Samuel,


esses manifestos e petições são uma fantochada, acções pueris que pouco mudam.


Durante anos, na minha faculdade, tentei alertar para alterações que a poderiam aproximar mais da realidade de outros países europeus. Criar horários produtivos, com aulas das oito às treze horas, e todas as tardes livres, avaliação com frequências por oposição ao exame final, sistema de tutoria para alunos que tivessem reprovado a uma cadeira, fim da repetição de matérias em diferentes disciplinas, etc. Os regentes adoravam as ideias, mas nunca mudaram nada. E as associações apenas se preocupavam com festas académicas, propinas, créditos para transição de ano ou regime de prescrições. 


Nós temos um excesso de vagas em vários cursos, e para além disso não existe uma cultura de empreendedorismo nos jovens portugueses. 


Para o problema se resolver, precisamos de um Governo «iluminado» que faça uma reforma profunda no ensino superior. E isso não existe nem existirá nos próximos tempos. 
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De Samuel de Paiva Pires a 13.02.2011 às 19:49

Caro Zephyrus,


De acordo, em toda a linha.
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De Zephyrus a 13.02.2011 às 20:20

Vi de relance a notícia do Público sobre a questão do desemprego e da precariedade nos nossos desempregados, mas mais uma vez não se aborda com profundidade a falta de empreendedorismo dos nossos jovens. O país precisa de indústrias, agricultura, pescas e um novo modelo de turismo, estes jovens podem ser os novos empresários que relançarão a economia portuguesa. O que constato é diferente, o envio de currículos para a função pública e grandes empresas. Quase ninguém tem em mente um projecto empresarial. E o Estado também poderia facilitar a vida aos jovens. Onde está o mercado de arrendamento e o mercado fundiário? 
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De Samuel de Paiva Pires a 13.02.2011 às 20:23

Mas lá está, isso é o chamado pensamento dos "perigosos fássistas neo-liberais". Desde que ouvi numa aula de recepção aos caloiros, alguém dizer que o seu sonho era ser funcionário público ou, até mais recentemente, alguém numa aula dizer que "precisamos de ir para as Jotas porque só assim arranjamos emprego", que deixei de ter ilusões sobre as alegadas "qualificações" dos jovens portugueses. Muitos ainda vivem com um quadro mental datado de há décadas, com a ilusão de que ter um canudo deveria ser o bastante para ter as regalidas dos direitos adquiridos das gerações anteriores.
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De Zephyrus a 13.02.2011 às 20:35

É um problema cultural que não existe nos países anglo-saxónicos ou na Holanda, e possivelmente noutros países europeus. Ao longo da minha vida constatei que um empresário, mesmo com rendimentos que sejam duas, três, quatro ou dez vezes superiores aos de um médico ou advogado, não tem a mesma valorização social de um «doutor» que trabalhe na função pública, numa empresa pública ou num escritório, clínica ou consultório. Há jovens licenciados em Portugal a auferir menos de 800 euros por mês, cujos pais têm PME's onde eles poderiam estar a trabalhar e a auferir rendimentos bem superiores; mas para os pais seria uma vergonha. 


Poderei estar enganado, mas sinto que esta aversão ao mundo empresarial creceu nos governos de Cavaco Silva e piorou com António Guterres. Ela já existia, o Estado Novo já lamentava a falta de iniciativa dos portugueses. Mas piorou nas últimas décadas, e agora os resultados estão à vista. 
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De Samuel de Paiva Pires a 13.02.2011 às 20:41

Sempre foi apanágio dos portugueses recorrer a presunções de estatuto artificiais. Os "dôtores" e "ingenheiros" são o equivalente aos antigos títulos nobiliárquicos. Nas últimas décadas, criou-se uma horda de dependentes, em toda a escala, sem iniciativa e iludidos com as qualificações universitárias que, ao massificarem-se, tornaram-se menos exigentes e conferem cada vez menos competências.
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De Zephyrus a 13.02.2011 às 20:43

Quanto à praxe, a maioria das pessoas que por lá andava na minha faculdade e na minha universidade eram socialistas (PS e PSD). Os simpatizantes do BE e o PCP achavam a praxe fascista e não entravam, já os do CDS, os monárquicos e os católicos de boas famílias, por sua vez, achavam a praxe rude e degradante -e com razão. Assusta-me olhar para o futuro deste país, quando penso no que os meninos da JS e da JSD fizeram na praxe. 
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De Samuel de Paiva Pires a 13.02.2011 às 20:45

Infelizmente, partilho da mesma visão. Se achamos que quem nos governa actualmente é mau, esperem uns anos para ver o que vem por aí...
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De Rodrigo Subtil a 13.02.2011 às 22:39

A tua posição intriga-me. 
Compreendo algumas das tuas palavras. Mas a situação do país não está complicada? Não há pessoas que, como tu dizes, têm competências, independentemente dos seus estudos, mas que neste momento têm dificuldades em arranjar um trabalho "como deve ser"?  Concordo com a falta de empreendorismo/iniciativa. Contudo também nunca poderíamos andar todos para aqui a criar empresas, penso eu. 
Com certeza que conheces n jovens que abandonaram o país e que têm sucesso lá fora. Muitos que o fazem é simplesmente por não encontrarem soluções nem oportunidades de trabalho em Portugal. 
Além de que numa sociedade temos, necessariamente, de ter um pouco de tudo. Deve-se desprezar um trabalho com menos responsabilidade e explorar essas pessoas porque, como elas, há muitas? Faz sentido a enorme diferença que há, em Portugal, por exemplo, numa qualquer empresa, pública ou privada, entre o dito cargo mais alto e o mais baixo? 
É um facto que a situação do país é má. E o que fazer? Nada? Não vale a pena protestar? Vamos meter todos no mesmo saco? 
O que fazer, então? 
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De Zephyrus a 13.02.2011 às 23:28

Claro que urge fazer alguma coisa. Mas a discussão está enviesada. Não vejo estes jovens a reclamar por não termos um mercado de arrendamento; pela inexistência  de um mercado fundiário, o que impede investimentos na área agrícola a quem não tem terrenos; contra o quadro fiscal e a burocracia que asfixiam muitos projectos empresariais; pela injustiça que constituem os apoios e regalias de certos projectos privados de grandes grupos económicos, como os PIN ou o Autódromo do Algarve, enquanto as PME que exportam lutam diariamente pela sua sobrevivência; etc, etc, etc. Se o Estado abrisse amanhã as portas da função pública, veríamos o fim das reclamações. Muitos do nossos empresários construíram casas onde empregam dezenas de almas, partindo de uma pequena garagem, um pequeno armazém, tendo apenas o quarto ano de escolaridade, começando a trabalhar aos 11, 12, 13 anos, sem nunca terem férias ou mesmo fins-de-semana livres. E mesmo contra todas as adversidades, chegaram aos 40, aos 50 ou aos 60 anos com a sua pequena fortuna, merecida, depois de uma juventude perdida a trabalhar sem direito a idas ao ginásio, noitadas ou bilhetes para o Rock in Rio. Também sou jovem, tenho menos de 30 anos e faço parte da dita «geração parva», mas lamentavelmente, estou em crer que a minha geração errou nos objectivos pelos quais deve lutar. Não defendo o regresso às condições de vida de há 30 ou 40 anos, mas a actual pasmaceira (e diletância) de parte da minha geração é vergonhosa.
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De Samuel de Paiva Pires a 13.02.2011 às 23:31

Caro Zephyrus, posso também publicar este comentário sob a forma de post?
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De Zephyrus a 14.02.2011 às 00:26

Sim, claro. 
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De Zephyrus a 14.02.2011 às 00:27

Aliás, pode publicar sempre que quiser. Cumprimentos. 
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De Samuel de Paiva Pires a 14.02.2011 às 00:29

Certíssimo! Obrigado!
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De Samuel de Paiva Pires a 13.02.2011 às 23:30

Caro Rodrigo,


Eu não digo que não se deve fazer nada. Mas deve-se fazer algo com cabeça e não com ideias datadas de há décadas. Muito menos quando os próprios promotores da manifestação dizem que não vão propôr seja o que for. Então, qual é o objectivo? 
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De J. Cardoso a 13.02.2011 às 23:00

Os sintomas que este manifesto (e respectivos apoiantes) apresenta são bem representativos de um dos grandes problemas do país. A saber, a falta de iniciativa individual e o constante esperar que os problemas sejam resolvidos por outros (nomeadamente  por essa entidade mitológica que é o Estado).

A leitura do manifesto e uma breve conversa com alguns dos seus apoiantes evidencia a falta de vontade de agir e arriscar por conta própria, o medo de agarrar o seu destino com as suas mãos, o pavor de tomar decisões  e aceitar as suas consequências, tão bem descrito por Ayn Rand no seu Atlas Shrugged.

Tive a oportunidade de conversar pessoalmente com alguns apoiantes e à mera sugestão de intervir de forma cívica, designadamente pedindo explicações ou exigindo responsabilidades dos seus representantes eleitos ou, pior ainda, tomando acções consequentes como formação de um partido e apresentando o seu programa a eleições (já que têm tanto a reclamar e manifestar e tendo em consideração o que dizem sobre a classe política, por certo teriam sucesso e poderiam efectuar a renovação por que tanto clamam) escondem-se atrás de uma frase reveladora: "Mas não me cabe a mim formar um partido ou o que seja... temos é que forçar os políticos a mudar a situação, a actuar (...)" de acordo com as suas exigências.

Uma vez mais é tão mais fácil reclamar do que agir , a vontade de mudança não parece ser assim tanta, parece apenas a necessidade de garantir os mesmos privilégios (ou direitos, na sua versão de Newspeak) que outros antes tiveram.

Porquê tomar os problemas como seus e actuar tentando resolver estes como qualquer sociedade civilizada faria, se é tão mais simples fácil sair à rua e reclamar que outros actuem e resolvam?

Os problemas que o país enfrenta são sérios, mas não é saindo à rua que os resolveremos. Enquanto todos não se capacitarem que são parte activa no problema e  que por eles, pelas suas acções (e não por meras reclamações) passa também a solução não iremos longe.

Mas de arregaçar as mangas, agir e assumir as responsabilidades das suas acções isso é que não... infelizmente os Deolinda esqueceram-se de uma frase na sua musica: Que parva que sou que fico à espera que alguém me resolva os problemas...
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De Samuel de Paiva Pires a 13.02.2011 às 23:12

Nem mais! Permite-me que lhe "roube" este comentário e o publique sob a forma de post aqui (e já agora, no Facebook)? 
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De J. Cardoso a 13.02.2011 às 23:26

Caro Samuel,

Pode publicar sem qualquer problema.

Cumprimentos
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De Samuel de Paiva Pires a 13.02.2011 às 23:27

Obrigado! Cumprimentos!
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De Zephyrus a 13.02.2011 às 23:30

Concordo plenamente consigo. 

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