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Finalmente, Senhor Ministro!

por Nuno Castelo-Branco, em 17.03.11

A actual situação de guerra total e sem olhar a meios, exige a obliteração do regime do Sr. Kadhafi. Não pode haver qualquer ensejo de contemporização para com o déspota, ou pretender a reforma de um regime que durante quarenta anos, empilhou provas insofismáveis da sua marginalidade. Propor um "período de transição" com a gente que comanda em Trípoli, pode levar muitos a pensar que consiste numa tentativa de "salvar o que possa ser salvo". Ali, pouco ou nada existe para aproveitar e este deve ser um capítulo definitivamente encerrado.

 

O ministro Luís Amado finalmente acedeu a esclarecer a posição portuguesa, que contudo permanece prisioneira ao estranho princípio de um compromisso que todos sabemos muito difícil. De qualquer forma, as suas declarações no Maputo representam já qualquer coisa, mesmo verificando-se a existência de algumas zonas cinzentas no discurso. De facto, qualquer apeasement é inaceitável.

 

Hoje, nem Kadhafi pai ou qualquer outro membro da família, são hipóteses minimamente aceitáveis para a instituição de um Estado de Direito. Percebe-se facilmente que se não for possível obter uma vitória total com as óbvias consequências dela decorrente, o regime pretende pelo menos uma trégua que lhe permita reagir mais tarde, identificando adversários, consolidando posições e plausivelmente contra-atacar quando lhe for mais conveniente. Os Kadhafi não têm um mínimo de idoneidade no jogo diplomático entre potências, são avessos a qualquer noção básica de Direito Internacional, ameaçam sem escolher as palavras, não aceitam regras, nem hesitam quanto a reacções desproporcionadas. Pior que tudo, sempre foram absolutamente imprevisíveis. Comprovada esta verdade de décadas, deverão desaparecer da cena, por muito que isso custe aos seus amigos e recentes interlocutores da política e dos negócios. Que isto fique bem claro, pois para evitar desastres futuros, não há lugar para uma solução "à romena-Illiescu". Nas Nações Unidas, os aliados tácitos de Kadhafi - russos, chineses, e comparsas menores, alguns dos quais, envergonhados europeus que não valerá a pena mencionar -, demonstram bem a necessidade de um forte sinal a enviar à comunidade internacional.

 

O comércio pode esperar, mas os princípios impõem-se a um Ocidente que não pode nem deve transigir. Até os americanos finalmente parecem render-se a esta necessidade.

 

Adenda: são 21.01H e dentro de uma hora, o C.S. da ONU votará a resolução. Esperamos para ver qual será a posição portuguesa. Ficaremos a saber se Portugal votará ao lado da sua aliada de mais de sete séculos - além da França e EUA -, ou se tergiversará no sentido da decisão ou apetite do seu "tutor" de Berlim, o que possivelmente significará uma abstenção igual á russa ou chinesa. 

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publicado às 18:38


10 comentários

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De MMSequeira a 17.03.2011 às 18:56

Uma péssima ideia. Intervir numa guerra civil terá resultados lamentáveis. Não se corrige toda a contemporização ocidental do passado dessa maneira. O resultado pode será quase certamente trágico.
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De Nuno Castelo-Branco a 17.03.2011 às 21:06

Ouviu as ameaças do sr. Kadhafi, proferidas pela boca do seu ministro da defesa? O Ocidente já perdeu demasiadas oportunidades e esta poderá ser a última. Kadhafi devia ter eliminado há muitos anos. Não digo fisicamente, mas como "agente activo". 
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De MMSequeira a 17.03.2011 às 21:42

O Khadafi não ameaça ninguém do Ocidente. É possível até que tenha considerável apoio interno. É provável que o apoio que tem aumente perante uma ingerência ocidental. O resultado seria trágico. Mais, a oposição é uma oposição armada. Já não se pode falar em civis.
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De Nuno Castelo-Branco a 17.03.2011 às 23:32

Ele teve 40 anos para fazer melhor. Basta.
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De MMSequeira a 18.03.2011 às 00:14

Bastar, basta há muito tempo. Mas cabe ao ocidente, com o amen das lamentáveis nações unidas, as mesmas que colocaram a Líbia na comissão dos direitos humanos, decidir que assim é? Suponhamos que Khadafi vence a contenda, mesmo sem aviação. Que acontece? Bem, isso não vai acontecer. Porquê? Porque quem lá for garantir a zona de exclusão aérea sabe a priori que vai fazer mais do que isso. Sabe que vai atacar Khadafi, primeiro do ar, depois em terra. E vai acabar com mais um país muçulmano entre mãos, dando razão aos que acusam o ocidente de atacar e subjugar o Islão.
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De Nuno Castelo-Branco a 18.03.2011 às 10:23

Talvez não aconteça dessa forma. Esta resolução, até poderá abrir caminho a uma solução menos belicosa, negociando-se a partida de Kadhafi para onde o queiram receber. No entanto, dado a sua natureza conflituosa e inconstante, podemos duvidar desta hipótese, a mais desejável. Quanto à presença da Líbia na comissão dos direitos humanos, sabe bem que foi uma votação na AG da ONU, onde a maioria pertence a países com regimes pouco recomendáveis e desejosos de ter um dos seus num posto daqueles. 
O que temos visto na rua, em Bengazi, não aprece confirmar os receios "iraquianos ou afegãos", antes pelo contrário. Poderá estar ali a surgir algo de novo, tal como noutros países.  Olhe, em Marrocos, as coisas aparentam caminhar muito positivamente. Compare com a Líbia, embora sejam realidades muito diversas. Mohamed VI fez o que devia.
Quanto ao caso do islão, gostava de tentar perceber qual a razão para tanto receio e contemporização para com a dita religião. Não bastarão as exigências inaceitáveis que a Europa enfrenta dentro de portas? Os discursos dos imãs de Paris, Londres, Bruxelas ou Berlim, ajudam pouco a uma acalmia. Sendo directo e grosseiro, o islão tem tanto valor como qualquer outra crença exterior à nossa organização social - e a tudo o que o termo implica -, seja ela a dos adoradores de serpentes, do sol das vacas. Os indianos passaram bem pior às mãos dos ingleses e não cultivam um certo tipo de patologias.
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De MMSequeira a 18.03.2011 às 10:44

A probabilidade de surgir algo de novo é substancialmente menor, julgo, quando a mudança pode ser vista como tendo sido imposta do exterior. O nacionalismo, infelizmente, é uma doença crónica. Quanto ao Islão: (a) como ateu, acho todas as religiões indefensáveis, (b) reconheço que há diferenças substanciais entre as religiões, quer na sua natureza mais abstracta, se se pode pôr a coisa dessa forma, quer na forma como elas são vividas hoje em dia, (c)  a natureza do Islão parece-me mais violenta e incompatível com a liberdade que a do cristianismo, (d) o Islão, tal como é vivido hoje em dia, tem aspectos francamente perigosos, (e) quando disse que a decisão de intervir na Líbia daria razão aos que acusam o ocidente de atacar e subjugar o Islão, referia-me à plausibilidade dessa acusação e à maior facilidade de a apresentar como verdadeira, por um lado, mas por outro à sua veracidade propriamente dita. E a questão é mesmo essa. Devemos atacar o Islão? Metaforicamente, sim. Ou seja, devemos argumentar, discutir, tentar convencer quem o pratica a adoptar uma sua versão que seja compatível com a liberdade. Mas não o devemos atacar de facto, pelas armas. Isso nunca. E é isso, no fundo, que ficará inevitavelmente em causa. Quando os EUA, o RU ou a França ocuparem a Líbia e iniciarem um processo de eleições, se o conseguirem fazer, terão de lidar com o problema do islamismo. Ficarão envolvidos num problema que claramente não é seu, mas sim dos Líbios.
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De Nuno Castelo-Branco a 18.03.2011 às 14:40

Bem, parece-me que compreendo perfeitamente o que aqui diz e partilho de muitos dos seus pontos de vista. Voltando ao caso ONU, pelos vistos o sr. Kadhafi adoptou uma nova estratégia. Em termos verbais, corresponde ao que se pretendia, vamos é a observar se no terreno, tudo continuará como dantes. Nãos e pode confiar.
MM Sequeira, poderemos estar diante de uma situação inesperada, nova e de difícil compreensão.  Desta vez, opto por uma certa dose de optimismo. Quanto à questão das armas, eles não poderão continuar a pensar que na Europa - o Ocidente - gozam sempre da total impunidade. Já é tempo de países como o Reino Unido, reverem o seu sistema normativo, não permitindo cenas deploráveis como aquelas que Finsbury Park apresenta. Muito menos ainda, devemos permitir cedências quanto à universalidade da nossa lei dentro do nosso território. Nada de sharias para comunidades. A Lei  dos nossos Estados, é a Lei. Nada de resignações ou condescendências. Isto que fique bem claro.
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De Paulo Selão a 17.03.2011 às 19:26

Já estive mais optimista mas receio bem que Kadhafi saia vencedor. Ninguém ajudou nem de forma tácita a oposição. Bastava fornecerem armas e alguns elementos que coordenassem e dessem instrução. Bush podia não ser flor que se cheirasse e critiquei-o bastante no meu blog por causa do Iraque mas se esta revolta tivesse eclodido com ele no poder bem que o Kadhafi provavelmente já tinha ido à vida. 
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De Nuno Castelo-Branco a 17.03.2011 às 21:08

Também já estive mais optimista, mas naquele cenário, 150 km de areia não significam grande coisa. Se os kadhafistas levaram tanto tempo para controlar Zauía, imagine o que poderão enfrentar em Bengazi. Nem tudo parece estar decidido, ou então, muito enganado estou. Se eles puderem, talvez optem por atacar Tobruk, isolando a capital revoltosa. pelo menos, é o que a estratégia - de café ou não - aconselharia. Veremos.

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