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Revisitação de um texto escrito, há ano e meio atrás. Assim inicio, a minha colaboração no Sentido de Estado (ó SP, prefiria que o blogue tivesse este nome!), após várias insistências. A minha participação será apenas fortuita, porque não tenho mais nada que fazer.

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A questão dos cartoons sobre Maomé foi influenciada por uma sucessão de episódios manipulados, que começou pela indignada reacção das comunidades muçulmanas, quase quatro meses depois da primeira publicação das caricaturas, e passou pela republicação das mesmas, instigadora de um choque de civilizações, por vários órgãos de comunicação social, por vezes com intuitos menos claros.

O facto é que a comédia e a sátira são desde os clássicos um elemento fundamental da cultura europeia. É facto também que, como lembrou acerca desta questão Vasco Pulido Valente*, a verdade religiosa é absoluta e, logicamente, incompatível com a liberdade de imprensa. Foi esse o sentido orientador da Santa Inquisição e do Índex. A diferença é que as culturas eram relativamente mais homogéneas e os contactos entre áreas culturais pontuais. Assim as autoridades muçulmanas nunca souberam (pelos vistos não sabem hoje) que Camões apelida n’Os Lusíadas, apelida Maomé de torpe: O mesmo o falso Mouro determina/Que o seguro Cristão lhe manda e pede;/Que a Ilha é possuída da malina/Gente que segue o torpe Mahamede... Ou então já se teria levantado o direito à indignação (onde, como nos meios de tutela privada, o dano causado não pode ser manifestamente superior ao dano eventual), ou teria sido mesmo lançada uma Fatwa contra Camões, ou mesmo (com o apoio de muitos mais, é óbvio) contra o sistema de ensino português. Mesmo antes de Camões, Dante fazia na sua Divina Comédia uma representação grotesca de Maomé.

A questão mais pertinente que se levanta com as representações de Maomé encontra-se no seguimento de outras situações semelhantes, como a perseguição a Salman Rushdie, autor de Versículos Satânicos ou o assassinato do cineasta holandês Theo Van Gogh, que supostamente terá ofendido os seguidores do Profeta. O importante é lembrarmos que opiniões são opiniões, não são actos, resume Pedro Mexia. E, para mim, a liberdade de expressão é a de Voltaire, não a do politicamente correcto. E esta liberdade fundamental, como muitas outras, não é negociável na Europa. Estes valores universalizados, mas não verdadeiramente universais, têm, em grande medida, a sua origem na Europa e custaram-nos guerras, extermínios, manifestações, revoluções industriais e tratados de filosofia. Não é tempo de, em nome da subserviência e de jogadas diplomáticas, abdicarmos deles.

A polémica das caricaturas de Maomé e das violentas reacções em países muçulmanos voltou a pôr na ordem do dia a tese de Samuel Huntington do Choque de Civilizações, onde afirma que as grandes divisões entre o género humano e as fontes dominantes de conflito serão culturais. À primeira vista, um olhar sobre o mundo pós Guerra-Fria e com o surgimento das tensões com a área cultural muçulmana indicaria que estaríamos de facto perante clivagens culturais que em fase de escalada conduziriam a situações de crise e de conflito. Contudo as relações internacionais não se podem reduzir a estes termos e parece-me que ao analisar as situações de conflito das últimas décadas não estaria assim tão latente um choque de civilizações, mas tal daria para outro post. Cada comunidade procurou sempre reger-se pelos seus valores. Contudo evoluímos de comunidades clássicas, localizadas, para comunidades transnacionais e multi-situadas. Os indivíduos assumem hoje pluralidades de pertenças, o que não diminui necessariamente a sua condição enquanto membro de uma comunidade específica. Existem milhões de muçulmanos europeus, e outros tantos de europeus muçulmanos – e essa compatibilidade é salutar. As comunidades entram em contacto entre si e tentam-se influenciar mutuamente, pois a mudança é inerente à cultura, que hoje em dia viaja, transnacionaliza-se e desterritorializa-se. Assim certos projectos civilizacionais podem chocar em determinados aspectos, espontaneamente, contudo não me parece que a escalada para fases posteriores e mais agudas de conflito seja possível apenas baseando-se em reacções sociais.

Reservando-me a este caso particular, a meu ver houve uma clara manipulação e concertação por parte de muitos países muito islâmicos, como demonstra a denúncia efectuada pelo New York Times sobre a Conferência Islâmica Internacional. Assim sendo, este conflito terá sido mais manipulado pelas elites governantes, passando a aparência de uma revolta espontânea da população muçulmana.

Quanto a algumas reacções na Europa e no resto do mundo ocidental, vejo surgir concepções bizarras de multiculturalismo que se confundem, ou procuram confundir, com tolerância. O relativismo moral e cultural confunde-se com desculpabilização e faz lembrar a imagem do paradoxo do relativismo cultural sugerido por Claude Lévi-Strauss há uns anos: enquanto nas Antilhas os espanhóis enviavam missionários para aferirem se os nativos tinham ou não alma, os nativos colocavam os cadáveres dos europeus dentro de água, procurando saber se os seus corpos resistiam à putrefacção.



*Tenho o hábito de, em tudo o que escrevo, fazer referência a todos os autores que me possam ter influenciado. A minha política editorial resume-se no seguinte:

Confesso que as mais das iguarias
com que vos convido são alheias,
mas o guisamento delas é de minha casa.

Frei Amador Arrais apud Prof. José Adelino Maltez

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publicado às 21:46


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