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Quo vadis Portugal?

por Samuel de Paiva Pires, em 12.04.11

 

(fotografia minha)

 

A semana que passou estive em Washington DC, onde tirei a fotografia acima. Durante uma semana, nesta que foi a primeira vez que estive nos EUA, fui a várias reuniões com diversos think-tanks (daqueles a sério, não como as brincadeiras que temos por cá), e pude ainda aperceber-me um pouco da mentalidade americana de que Tocqueville falava. Num país que respira liberdade (e cuja capital é um hino a esta), o empreendedorismo e a capacidade de iniciativa e de associação são características de uma vibrante sociedade civil que se constitui como uma primordial ferramenta de fiscalização das actividades do governo, por um lado, e como motor da economia, por outro. Mais, numa altura em que tanta gente exalta as virtudes dos BRIC e aponta o galopante declínio norte-americano, talvez fosse bom ler O Mundo Pós-Americano, de Fareed Zakaria, para perceber que a capacidade de reivenção da sociedade norte-americana é a chave para compreender porque os EUA foram e são capazes de enfrentar desafios que a muitos parecem inultrapassáveis.

 

Nesta mesma semana, ocorreu em Washington algo que provavelmente nem foi noticiado por cá, o Government Shutdown 2011. Em traços largos, quando Democratas e Republicanos não conseguem chegar a um acordo para aprovação do orçamento, o governo deixa de providenciar todos os serviços que não sejam considerados essenciais. Raramente acontece - a última vez foi em 1995 - e desta feita conseguiram chegar a acordo nas últimas horas antes de se dar início ao shutdown

 

A capacidade de iniciativa e a liberdade individual naturalmente acentuam a criatividade, que se reflecte na condução da actividade governativa ou de qualquer actividade empresarial. No caso norte-americano, aquilo de que falo está patente na sua história, aliando-se a uma consciencialização quanto às situações enfrentadas.

 

Ora, indo ao caso português, é de realçar que a falta de liberdade individual em face do Estado - o peso deste na economia e nas nossas vidas é mais do que evidente -, bem como a ausência de uma verdadeira fiscalização da actividade governativa pela sociedade civil, são dois sintomas que ajudam a perceber como foi possível chegar à situação em que nos encontramos. Pior, perdemos a capacidade imaginativa e criativa que nos caracterizou enquanto povo ao longo de séculos, assim como perdemos a capacidade de gerar verdadeiros estadistas. 

 

Tudo isto para dizer que é uma autêntica vergonha o que se tem passado na política portuguesa nos últimos tempos, em particular quando a troika que vai negociar o nosso futuro já está em Portugal. As birras infantis dos políticos com voz mais activa deixam qualquer um envergonhado. Ser José Sócrates a negociar com o FMI é verdadeiramente um atentado ao futuro do país - o Primeiro-Ministro demissionário vai continuar a tentar defender os interesses do PS, dificultando o mais que puder a redução do disforme e excessivo aparelho estatal.  O jogo do empurra entre governo e oposição quanto a quem deve negociar com quem, de forma infeliz remetendo a questão para os parceiros europeus, só demonstra como temos autênticas crianças a desgovernar-nos. Cavaco Silva, ao estar absolutamente remetido ao silêncio, escudando-se na Constituição da decadente república para não ter uma voz mais activa, afronta todos os portugueses. Conforme Mário Soares e Adriano Moreira já salientaram, o Presidente da República tem que tomar as rédeas da situação.

 

Depois de ter aceite a demissão de José Sócrates, tinha que ter sido Cavaco Silva a solicitar a ajuda externa; tinha que ser ele a liderar as negociações (afinal, um doutoramento em economia pela Universidade de York deve dar mais jeito nesta situação que uma licenciatura domingueira em pseudo-engenharia pela Independente) ou a nomear uma equipa de negociadores com políticos e/ou diplomatas treinados e reputados nessa arte e técnicos que possam dar a imagem mais aproximada da realidade do país, desprendidos de quaisquer interesses partidários directos, i.e., a reeleição de José Sócrates. Ter o homem que nos trouxe para o abismo, que até há bem pouco tempo gritava histericamente que Portugal não precisava do FMI, a negociar com este, é demasiado mau. 

 

Não está na Constituição nem em lado algum que Cavaco o pudesse fazer? Azar. Mas é suposto a Constituição tornar o país seu refém? Valores mais altos se levantam, nomeadamente, a viabilidade de Portugal enquanto Estado soberano. Haja alguém que tenha o minímo de sentido de estado e assuma uma postura de seriedade. Será que ainda não perceberam o que está em causa?

publicado às 22:30







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