Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Vou já reler o Tintim no Congo!

por Nuno Castelo-Branco, em 18.04.11

Atraso mental, estupidez, arrogância e provocação, é a reacção imediata que qualquer pessoa normal poderá ter perante este ridículo processo instaurado num Tribunal de Bruxelas. Na pretensa "capital da Europa", apela-se, ou melhor, exige-se a censura ou o proibir da exibição de Tintim no Congo nas prateleiras das livrarias. Nos anos 30, Hergé desenhou e escreveu a aventura africana  e noutros episódios - em Tintim na América, por exemplo, pululam gangsters e agiotas - gozou com aspectos que o europeu comum considerava então como caricatos.  Quem tenha lido todas as aventuras de Tintim, facilmente se aperceberá do apontar de todas as misérias humanas onde quer que elas se encontrem: o banqueiro pouco escrupuloso, o ditador patusco, o ladrãozinho de bairro, o burguês arrogante e preconceituoso, o doutor cheio de empáfia, o cavalheiro distinto, a cantora lírica e sumamente chata, o camponês explorado,o cigano marginalizado, o livre arbítrio colonial na Índia, o chinês condenado ao massacre e tantas, tantas outras personagens que faziam o mundo daquele tempo. Algumas delas ainda existem, estão entre nós e medram como nunca. O Sr. Mbutu acaba de se juntar ao rol.

 

As Aventuras de Tintim fizeram - e ainda fazem - a felicidade de milhões de crianças, hoje bem atentas a alguns aspectos desfazados da nossa época e tão perceptíveis, que uma simples chamada de atenção é suficiente. Foi precisamente o que os meus pais fizeram, quando aos seis anos aprendi a ler. Por sinal, o primeiro livro foi uma Aventura de Tintim, "O Segredo do Licorne".

 

O senhor Bienvenu Mbutu, um congolês residente na tolerante Bélgica, devia pensar duas ou três vezes antes de se decidir pelo dislate. Se seguíssemos as pulsões do queixoso, ergueríamos fogueiras até aos céus, onde não escapariam Bíblias, Corões, as Crónicas de Fernão Lopes, Os Lusíadas, a Peregrinação, o "Panorama de Lisboa no ano de 1796"de j.B.F. Carrère e todos os outros livros de viagens de estrangeiros a Portugal - William Beckford, por exemplo -, muitas obras de Camilo ou Eça, nem sequer escapando páginas e páginas de textos de Marx eivados do mais puro preconceito em relação a "populações inferiores" e destinadas à aniquilação. As livrarias e bibliotecas,  abarrotam de "obras preconceituosas" e capazes de nos esclarecerem, página por página, a história da evolução das mentalidades e o erguer  ou desabar de civilizações. 

 

O Sr. Mbutu podia estar mais preocupado com a deplorável imagem que a África independente apresenta. No seu país, teve um quase homónimo Mobutu como dono absolutíssimo, incomparavelmente mais poderoso e impiedoso gatuno, que todos os colonialistas flamengos somados. Por lá vinga a lei tribal, a morte anunciada do vizinho, a extorsão pura e simples.

 

Na Europa de hoje em dia, há quem queira proibir o toque de sinos, a difusão pública de música sacra e as procissões. Por "ofensa" à sua forma de ver o mundo, esta nossa parte do mundo, há que afirmá-lo.

 

É por isso que o Sr. Mbutu ousa. Está na horrenda Europa, claro. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:10


3 comentários

Imagem de perfil

De Felipe de Araujo Ribeiro a 18.04.2011 às 16:11

Em relação ao “homónimo”, eis o nome que adoptou aquando do processo de zairização: Mobutu Sese Seko Nuku Ngbendu Wa Za Banga ou, em Português, O Guerreiro Todo-Poderoso que, por Sua Resistência e Inflexível Vontade de Triunfar, Irá de Conquista em Conquista Deixando um Rasto de Fogo no Seu Caminho.


Foi a altura em que o “Homem do Chapéu” ordenou a todo o seu povo que perdesse os seus nomes cristãos e adoptasse nomes africanos. Os padres que fossem apanhados a baptizar uma criança zairense com nome cristão eram “castigados” e condenados a 5 anos de prisão.

Sem imagem de perfil

De LUIS BARATA a 18.04.2011 às 17:27


Seria bem melhor que estas "boas consciências" se preocupassem com os verdadeiros problemas do verdadeiro Congo, em vez desta ridicularia tintinesca.
Imagem de perfil

De Pedro Quartin Graça a 18.04.2011 às 19:25

Sem dúvida!

Comentar post







Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas