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Líbia: pruridos europeus e realpolitik

por Nuno Castelo-Branco, em 03.05.11

Não se deveu a qualquer receio de falhar uma pretensa "previsão". Não foi também, o esmorecer do interesse pelo assunto que ainda pendente, vai evoluindo de forma lenta, mas segura. Como dissemos logo nos primeiros dias da "campanha da Líbia", o quadro militar depende muito das condições do terreno e das distâncias, logística e capacidade de movimentação dos contendores. De facto, a posse de milhares de quilómetros quadrados de dunas ou areais a perderem de vista nada significam e a distância que separa Trípolis de Bengazi, será equivalente à de um mar que não conhece fronteiras físicas.

 

Desde cedo houve quem apontasse a hipótese de uma mão da Al Qaeda no levantamento da parte oriental do país. Fazendo vista grossa da especificidade da Cirenaica e das suas gentes, esqueceram um passado conflituoso e alheio aos acontecimentos que pontilharam a evolução, bem diversa, da antiga colónia da Tripolitânia. A realidade líbia surgiu nos mapas e como entidade una, durante o consulado de Mussolini e a derrota italiana, consagraria já numa fase do mandato britânico, o caminho da independência. 

 

A Al Qaeda e o seu chefe Bin Laden, podem ser considerados como os mais temíveis e radicais inimigos das monarquias muçulmanas, entendendo a Umma como coisa indivisível e capaz de federar sem qualquer tipo de fronteiras, povos muito diversos e por vezes antagonistas devido a interesses, raízes históricas e clivagens religiosas. Assim, a Monarquia jamais poderia ser utilizada como bandeira libertadora em relação a qualquer um dos regimes fortemente pessoais que têm sobrevivido ao longo de décadas. O hastear da tricolor dos Senussi, a adopção do seu hino e a intenção de restaurar a Constituição de 1951 - e o seu articulado, aliás apadrinhado pela ONU -, nunca poderiam ter surgido pela vontade de gente ligada a uma pouco definível entidade como é a Al Qaeda. Abusando do termo, este registo pode estar a ser utilizado em termos de franchising por movimentos ou pequenos grupos activistas da subversão que não têm ligação entre si, não obedecem a qualquer directiva central e que variam nos objectivos e métodos. Bem vista esta realidade e passando sobre a candente questão da fé, qualquer grupúsculo terrorista poderá ser tentado à invocação Al Qaeda, recolhendo amplos dividendos na campanha de intimidação das populações. Embora e em desespero Kadhafi invoque Bin Laden, não parece ser este, o caso do conflito que o mundo tem seguido com cada vez mais mitigado interesse. O mundo parece ser estar agora obrigado a tentar compreender o fenómeno imprevisto de populações na iminência de derrotarem os desígnios da Al Qaeda.

 

A sublevação líbia foi organizada e isto não pode oferecer qualquer tipo de dúvida. Teve uma base tribal, recorreu à simbologia patriótica de uma região que jamais aceitou a queda dos Senussi e tal como oportunamente dissemos, decerto contou com algum apoio externo, mormente britânico. 

 

A recepção do chefe da Casa de Senussi no Parlamento Europeu, é sintomática de uma paulatina aceitação da possibilidade do estabelecimento de um regime representativo na Líbia, mas adequado à realidade local, aliás bastante confusa para os europeus há séculos habituados ao primado da Lei geral do Estado. Não surpreendeu a sua compreensão pela actual realidade no terreno, onde um caótico Conselho Interino Líbio faz as vezes de um governo legítimo. A evolução recente dos Estados ditatoriais, viu a genérica apropriação do vazio de poder por elementos dos anteriores regimes e esta é uma verdade tão válida na Polónia, como na Roménia, Bulgária, Hungria, Rússia e até, na omnipotente Alemanha reunificada. Nesta primeira fase, os líbios inevitavelmente tiveram de condescender com a colaboração de antigos funcionários Kadhafistas, embora a estrutura final do regime que sucederá ao conflito, ainda está muito longe de perfeitamente delineada. 

 

Mohamed as-Senussi propõe um maior investimento ocidental na queda de Kadhafi, sem que isso signifique qualquer imediato compromisso para a restauração da Monarquia no país. No entanto, há que salientar a sua insistência quanto à re-implantação da Constituição da independência - a Constituição promovida pela ONU de 1951 -, cujo articulado é bastante claro quanto à organização e forma do Estado. Tranquiliza os anacrónicos pruridos europeus, declarando que a escolha deverá obedecer à vontade dos líbios. Decerto conta com o prestígio local da sua dinastia e com o impulso que a vitória das suas cores poderá significar no conjunto de tribos que compõem o país, onde a ideia do primado do chefe e uma certa ideia de paternalismo benfazejo, serão poderosos argumentos a ter em conta.

publicado às 17:23







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