Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O "acordo" (Ultimatum 2): a razão de Paulo Teixeira Pinto

por Nuno Castelo-Branco, em 06.05.11

Há umas semanas, aqui dizíamos que esta intervenção estrangeira, significa algo de muito mais pesado e humilhante que a poeira levantada pelo Ultimatum de 1890. Há 121 anos, nada de material perdemos, pois toda a controvérsia provinha de sonhos e de velhas alegorias de uma sempre procurada grandeza. O que o Ultimatum, o que a Monarquia nos deixou, foi um património ultramarino inesperadamente vasto e rico e que ainda representa uma das razões de ser de um Portugal independente, numa Comunidade Lusófona de países independentes.

 

Chegaram de fora os três Regentes e em pouco mais de duas semanas, impõem a execução de um programa que paradoxalmente, não pôde deixar de recorrer ás preciosas fontes de informação e estatística que são fruto do laborioso trabalho de portugueses. Esta fonte de informações há muito existe e tem sido sempre ostensivamente ignorada. A conclusão que retiramos do dislate, é a evidência da total incapacidade e inépcia do sistema instalado, tornado refém de si próprio e sem força ou vontade para implementar as medidas necessárias à sua própria sobrevivência. Mesmo aqueles que mais situacionistas são, há muito sabem desta necessidade reformadora que atinge todo o edifício estatal e que a ser realizada com sucesso, terá imediatos reflexos na sociedade.

 

No verão passado, os avaros detentores das auto-outorgadas mordomias levantaram todo o tipo de obstáculos, procurando aterrorizar o país com essa inexorável chegada dos Regentes, apresentando-a como uma absurda reedição de cavaleiros do apocalipse. Todos sabíamos que viriam, mas apenas permanecia uma indefinição quanto à data. Naquele preciso momento, Paulo Teixeira Pinto abriu o necessário capítulo da revisão constitucional e então, todo o tipo de argumentos foram utilizados para liquidar o estudo. Os bem instalados sátrapas, gostam e querem a Constituição que ruma a um socialismo que nem os reivindicadores da superstição - quatro partidos parlamentares - sabem definir de forma uníssona. Por muito estranho que possa parecer, aquilo que mais se aproxima dos sonhos do sector "socialista democrático", consiste precisamente em modelos, cujos ordenamentos constitucionais não estabelecem quaisquer etéreos rumos, ou jamais mencionam a sacrossanta palavra. Pior ainda, são todos eles Monarquias cuja base de apoio popular é esmagadora e tão mais surpreendente, quando comparada com o parco respeito que a República Portuguesa colhe entre os seus súbditos. 

 

Paulo Teixeira Pinto apresentou um rascunho de proposta para uma revisão constitucional. O PSD não teve nem a força, nem a lealdade interna - coisa rara na sede laranja - para assumir o que todos sabemos ser um imperativo urgente. Amedrontado pela engrenagem propagandística que assola o país, o PSD recuou, humilhou-se e viu passar a oportunidade. Não nos surpreenderá se a bandeira for dentro de pouco tempo reerguida pelo seu eterno rival ainda no poder, apresentando-a à população como um "exemplo de coragem e de patriotismo". Aliás, está no seu pleno direito. É assim que a política funciona em Portugal. 

 

Não existiu qualquer "acordo", esta é a verdade com que nos regozijamos, intimamente vingados pela humilhação que não foi imposta à população, mas aos agentes políticos. Diante dos olhos de dez milhões de portugueses, três homens que chegaram de longe, passaram um atestado de incompetência aos "dirigentes portugueses", sejam eles os que estão à frente dos partidos do chamado arco governamental, ou aqueles outros que envoltos em velhos e esburacados xailes vermelhos de outro século, remetem-se à solidão nas suas cavernas de eremitas.

 

Paulo Teixeira Pinto tinha razão, quando generosamente pretendeu salvar alguma coisa daquilo que existe naquele amontoado de páginas que têm estampado um articulado já sem nexo. Hoje, o coordenador da revisão constitucional foi ultrapassado pelos acontecimentos e uma revisão já não serve. Num programa de debate político e perante um Carlos Abreu Amorim bastante embaraçado,
Joana Amaral Dias abespinhava-se com a possibilidade de Pedro Passos Coelho, o líder do maior partido da oposição, poder ser simpatizante da Monarquia, como se isso fosse um bom motivo para o reerguer de forcas ou rápida preparação de um auto-da-fé. Ontem, Jorge Sampaio saltou à boleia do conhecido comboio monárquico e agora insiste na necessidade de uma simplficação do mapa autárquico, um projecto que Ribeiro Telles há quarenta anos apresenta como uma inevitabilidade. Bem pode Sampaio dizer o que bem entender e atirar pazadas de carvão na fornalha, pois sabe que no actual quadro de caciquismo a que o país está entregue, a simplificação do mapa autárquico seria uma declaração de guerra que varreria o regime de norte a sul. Uma ou outra voz clama pela necessidade da adopção de uma nova forma de escrutínio da vontade popular. Subindo mais alto na hierarquia e pelas palavras de um dos Regentes, Portugal ficou ciente da inutilidade da assinatura presidencial no pretenso "acordo" que mais propriamente pode ser considerado como um esperado Diktat. Para os senhores da Comissão Europeia, do FMI e do BCE, o Parlamento é soberano e o Presidente do regime - eleito por uma insignificante soma de votos desgarrados -, consiste um mero apêndice descartável e sem qualquer interesse.

 

Temos as directivas financeiras e económicas que implicam uma profunda revisão da estrutura do edifício do Poder. Pessimistas, não acreditamos que os actuais homens do regime, hábeis ilusionistas mas péssimos estadistas, sejam capazes de executar aquilo que o país espera e intimamente quer.

 

Como conclusão, esta República está hoje tão morta como as suas duas antecessoras.

publicado às 11:53


5 comentários

Sem imagem de perfil

De Fernanda Leitao a 07.05.2011 às 02:55

Desculpará a pergunta: este militante partidário é o milionário que preside à Causa Real? É a mesma pessoa ou pura coincidência de nomes?
Imagem de perfil

De Nuno Castelo-Branco a 07.05.2011 às 19:41

Cara Fernanda


PTP é de facto o presidente da Causa Real. Quanto ao "caso milionário", mesmo que o seja, tal não se deve a qualquer crime praticado. Sendo totalmente partidário da existência da propriedade privada, aquilo que os bancos privados atribuem aos seus dirigentes, deve ser considerado como um assunto que interessa apenas a quem neles participa como accionista (e em certo grau, aos depositantes). Outra coisa se aplica aos bancos do estado, esses sim,objectos da política partidária. Os bancos do Estado e as empresas a eles ligadas, é claro.


Há alguns meses, PTP processou o Sr. Francisco Louçã, por este o ter acusado daquilo que jamais fez. Louçã refugiou-se na imunidade parlamentar, como é do seu direito. No entanto, Portugal tem assistido impávido, a décadas de abusos verbais normalmente proferidos por conhecidos nababos da esquerda. É assistirmos aos videos do youtube acerca do famoso PREC e verificar o percurso das criaturas que por cá fizeram o que bem lhes aprouve naquela época. Continuam todos muito progressistas, mas com mordomias que o Estado já não pode suportar. Mais ainda, os então entusiastas da descolonização, dedicaram-se a negócios mais ou menos conhecidos com as autoridades que hoje comandam no antigo Ultramar...


Embora nada possua, não sou contra a existência de milionários. O que se torna trágico, é a existência de tantos e tantos pobres, outrora classificados como classe média.
Sem imagem de perfil

De Vera Lagoa a 07.05.2011 às 15:57


Ó filha, dinheiro é o que não falta por aí, sobretudo em más mãos (ISTO É QUE NOS FOI ROUBADO). O Paulo T. Pinto, que eu saiba, nunca pôs os cascos na massa do colectivo ! Não venha com essa badernices porque não pega...filha !
Sem imagem de perfil

De Fernanda Leitao a 07.05.2011 às 16:24

Chamar milionário a um miliinário é insulto? Porque se picou de forma tão vulgar? Insulto me parece ter afirmado que o senhor em questão tem cascos. Isso não se diz de uma pessoa inteligente.  Aproveito para lhe lembrar que os bancos são os fiéis depositários do dinheiro colectivo.  E, também, para lhe dizer que, para além  de ser feio esconder-se atrás de um nome que não lhe pertence, é de mau gosto brincar com o nome dos que já partiram e serviram a Pátria.  Não me chame flha, porque eu sou filha de gente séria...
Sem imagem de perfil

De Fernanda Leitao a 07.05.2011 às 22:33


Ora viva, Miguel!
Vamos pôr as coisas claras: eu não sou tolerante  com os nababos de direita nem com os nababos de esquerda.  Tanto me chocam as reformas milionárias dos da direita como dos da esquerda, não porque eu alguma vez tivesse alguma coisa contra os ricos, mas precisamente porque pude ver a pobreza extrema do outro regime e a deste.  O nosso pais tem tido sempre esse problema porque os dinheiros do país andam mal distribuídos.  Não houve nem há justiça nessa partilha.   Sempre tive apreço pelos ricos que souberam sê-lo de forma cristã, isto é, com a preocupação de minorarem o sofrimento alheio. Ontem como hoje.
Portugal bateu no fundo, como hoje se pode ver, devido a um somatório de dinheiros esbanjados, à direita e à esquerda. Ninguém está inocente neste processo.  Mas, não sabendo se PTP partilha com os pobres, e neles incluo as várias associações monárquicas que se queixam amargamente de falta de fundos financeiros,  é óbvio que, chamando milionário a quem é milionário, não estou a fazer nenhum juizo de valor, muito menos a insultar. Continuo a não perceber porque se picaram tanto com uma coisa dita de boa fé.
Se PTP processou Louçã, esse de quem dizem ser uma sandes de caviar em pão saloio, um comunista intragável com o seu paleio de pastor evangélico,  lá teria as suas razões.  E se o Louçã se escondeu atrás da imunidade parlamentar, não fez nada que outros não tivessem feito como, por exemplo, aquele dos submarinos e da Moderna.  Tudo boa rapaziada...
Mas abertamente lhe digo que preferia ver na presidência da Causa Real alguém que não fosse militante partidário.  Se desejamos tanto a monarquia, porque chefiada por um Rei que nada tem a ver com partidos, a coerência obriga a que façamos já esse exercício nas instituições monárquicas.  Os exemplos têm de vir de cima, como diz o povo a que pertenço.  Levarei com um processo por dizer isto livremente e sem medo?

Comentar post







Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas