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Estado Novo-Novo Estado/3ª República

por Nuno Castelo-Branco, em 29.05.11

Até há uns anos, os agentes políticos costumavam referir-se aos malefícios da 2º República, com aquele oportuno sentido justificador da sua própria presença. Vejamos então, quais eram os temas favoritos:

 

1. O Fado

Apresentado como coisa passadista e quase infame, depois do 25-A foi proscrito das ondas da rádio, chegando-se ao ponto de perseguir fadistas como Amália ou Lucília do Carmo. Hoje, temos uma plêiade de cantores de renome internacional e tal como nos tempos da sua antecessora, a 3ª República deles se aproveita para a auto-promoção, atrevendo-se a convidar fadistas para mandatários de campanhas presidenciais. Para cúmulo, até já circula uma informal destrinça entre fadistas dos "nossos" - Mariza, Carlos do Carmo e Camané, por exemplo - e os fadistas "deles" - os Câmaras ou a Maria da Fé, - indicando o que é bom ou mau de ser ouvido. No funeral no Panteão, um cabisbaixo Jerónimo de Sousa dizia que "Amália até tinha ajudado o PC". Foi um acto de contrição.

Após farta sementeira na 2ª República, a 3ª quer levar o fado a património da humanidade. Faz bem.

 

2. O Futebol

Os "democratas" longamente lastimavam o aproveitamento político que o Estado Novo fazia dos sucessos do Benfica e da Selecção, chegando ao ponto de apresentarem o negro Eusébio, como um típico caso de colonial-fascismo. Gozaram a bom gozar com a filiação de Américo Tomás no Belenenses. E agora, como é? Nunca ninguém viu o choramingão Sampaio rastejar atrás dos jogadores do Euro? Nunca viram o Cristiano Ronaldo nos jardins do Palácio de Belém, coçando o rabo com a mão esquerda enquanto com a outra dava o passou-bem a Cavaco Silva?

Lembram-se dos telejornais do período anterior ao 25-A? Dedicavam os minutos finais ao desporto. Uma injustiça, claro. Não há fome que não dê em fartura, até porque agora, o dito desporto - reduzido ao monopolista futebol -, abre o telejornal, interrompe-o para noticiar uma unha encravada dum treinador e ocupa o interesse de políticos e comentadores pagos a peso de ouro. Todos os canais têm na agenda dúzias de programas sobre os casos da bola e o país empenhou-se até aos gorgomilos para construir estádios semi-vazios. No circunspecto juízo dos donos do regime, o orgulho nacional resume-se ao esférico e às polémicas que em torno dele giram. Recordam-se da construção do Estádio da Luz, onde espantosamente se contabilizaram milhares de horas de trabalho voluntário executado por devotados benfiquistas? Pois bem, isso acabou. Agora telefona-se para a empresa de betão mais conhecida e faz-se de conta existir um concurso público. 

 

3. Fátima

Logo após o 25-A, as coisas que se disseram e pior ainda, fizeram! Pecinhas teatrais - uma delas na FIL - em que se achincalhava a Igreja até mais não, ataque à RR, destruição de publicações da Igreja, etc. Fátima era considerada como coisa de superstição, talvez ao nível dos sortilégios da Madame Min.

E agora, como é? 

Temos esta gente sempre ansiosa por escovar os sapatos dos Bispos e se estiverem perante a complacente presença do Cardeal-Patriarca, então sim, é o cúmulo da felicidade. Ainda todos lembramos da triste figura do auto-proclamado ateu Sampaio, danado da vida por ter verificado o lugar de primazia atribuído pela Igreja à Família Real. Pelo que se disse na malévola imprensa, até "mandou vir cadeiras" destinadas a ele próprio e à respectiva cônjuge, para logo após a celebração do Te Deum na Sé de Lisboa, tentar encafifar-se num cortejo que obedecia a estritas regras protocolares.

Fátima está sempre cheia, a transbordar. O regime delira quando o Papa visita Portugal e ainda há meses vimos a "presidenta" que de alourada trunfa ao léu, de joelhos beijava o anel  de Bento XVI. O PS do Rato ao pé da Capela do Rato, fala nas "organizações de índole social", sem jamais se atrever a pronunciar católicas. O PSD não precisa desses truques, enquanto o CDS assume a sua satisfação. Na esquerda das margens parlamentares, o BE e o PC têm sempre uma fosquinha para os "católicos progressistas" e para os "Bispos de Setúbal e do Porto". 

 

4. Caciques

Era o fim do mundo. O que os "democratas" diziam! A 2ª República era o regime da cacicagem tão criticada desde os áureos tempos dos grandes escritores do liberalismo oitocentista. Regedores, dirigentes de Casas do Povo, autoridades locais da União Nacional/Acção Nacional Popular. Pareciam tentaculares, eram o poder local. Passando sobre a romaria PS/PSD que nos anos de 74 e 75 andou de terra em terra a cativar fidelidades das depostas autoridades ANP de província, hoje em dia, o termo cacique atingiu máximos everésticos, não se circunscrevendo a uns tantos palonços de aldeia. Chama-se em bastos casos, Poder Local, mesmo que a localidade confine com a capital do país. O cacique também vive e medra à volta dos grandes centros urbanos, é moderno, constrói poli-desportivos, rotundas, estradinhas e bairros sociais. Tal como os seus teoricamente superiores pares instalados no governo central, adora limusinas de um negro reluzente e a 150.000 Euros à peça. É devoto de tudo quanto se relacione com o betão, promove a construção de "grandes superfícies comerciais" e tornou-se exímio em comissões colocadas não se sabe bem em que banco estrangeiro. Manda nos Partidos e se lhe apetecer, aperta o pescoço aos seus líderes. Tal como os seus antecessores - ainda há alguns que estão no poder local desde antes de 1974 -, os caciques  são peritos na organização de caravanas expontâneas e pic-nics de apoio aos chefes que chegam da capital. Gente de vistas largas, recrutam fulanos e sicranos de turbante e fala estranha, para eles tão retintamente portugueses como os próprios irmãos. É tudo a mesma coisa, desde que se paguem uns trocos e se distribuam os infalíveis sacos de plástico com sandecas e latas de Sumol. Possuem uma razoável lista de velhas que de lenço na cabeça se aprestam a efusões mais ou menos brejeiras e de uma coorte de Ti Zés que de bonés de presilha enfiados até ao nariz, ainda fazem ouvir a voz para "bibas"! e convites para uma jeropiga. O cacique de hoje já não é apenas aquele fulano de amarrotado fato escuro e do colete de onde pendia a corrente da cebola que dava horas. Hoje anda de Mercedes-AUDI-BMW, a mulher platina-se todos os meses, estabeleceu-se no "mundo empresarial", é sócio-dirigente de um clube de futebol e foi substituindo a meia branca por tons mais escuros. Generoso, oferece presentes, desde electrodomésticos até vouchers para casas de alterne onde tem "garrafa". Volta e meia, frequenta as mais badaladas leitarias nocturnas  da Av. Duque de Loulé. Modernaço, usa óculos escuros da linha menos clássica da Ray Ban.

Também existe aquela espécie de cacique que até escreve nos jornais, sentando-se como pivot das televisões para comentórios, sendo ouvido com interesse ou veneração. Por vezes,  a sua voz é suficientemente audível para produzir "factos" políticos. Mais ainda, fala de tudo, desde as tricas dos Partidos até ao futebol, desgraças privadas de outrem, educação, preferências musicais e sobretudo, de livros, livros e ainda mais livros, apresentando-os ao monte, como se numa semana tivesse tido tempo para ler um que fosse. São os caciques de hoje, infinitamente mais perigosos, abusadores e sofregamente mais devoristas que os "do antigamente". Bem vista a situação, fazem parte do selecto grupo dos donos de Portugal.

 

Tal como a 2ª - aquela que Mário Soares teima em dizer "jamais ter existido" - era descendente da 1ª, esta 3ª República tem a quem sair. Em tudo, desde a gente que da ANP saltitou para o omnipotente centrão, até aos esquemas que todos lhe reconhecem.  Trata-se de um modo de estar na vida. 

 

publicado às 09:58







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