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Caro Orlando, eu não pretendo fundir qualquer religião com o estado. E se, concordando com o Orlando, o estado contribui sempre em maior ou menor grau para a formatação da moralidade, a sua actividade neste âmbito, porém, deve ser o mais minorada possível, por forma a deixar aos indivíduos o maior grau de liberdade possível neste campo - e sim, é mais que evidente que a prática política se fundamenta em larga medida na ética. É por isso que o reconhecimento de uma esfera pública e de esferas privadas é importante. É óbvio que há sempre uma qualquer ideologia subjacente à acção política e essa acção tem influência na sociedade, contribuindo para os costumes e condutas morais. Até que grau consegue impôr uma determinada ideologia e/ou moral coercivamente é uma questão essencial para a discussão sobre a liberdade individual. Ainda assim, o conservadorismo abstracto e o liberalismo clássico partilham precisamente as ideias de governo limitado, tolerância e liberdade individual. E, neste sentido, admitindo a minha confusão no que ao ponto 8 do texto do Orlando diz respeito, fruto do hábito de debater com conservadores substantivos que recorrem a mais das vezes à religião imposta a partir da coerção estatal, apresento-lhe desde já as minhas desculpas, registando que talvez não estejamos tão longe neste ponto, já que não defendemos a sinistra fusão da religião com o estado.
Agora, meu caro, a técnica da pseudo-cientificidade de quem se arroga encontrar-se no campo da episteme, classificando quem o interpela de estar no da doxa, é velhinha. Aquilo que é verdadeiramente científico, como sabe, é o método e não o conteúdo das teorizações. E mesmo assim, convinha começar por ler os autores de quem falamos, no caso, de Hayek, em vez de fundamentar qualquer teorização naquilo que achamos que ele escreveu ou que os seus discípulos dizem ou fazem, prática também muito em voga para fundamentar a religião política anti-neo-liberal, de que este seu confuso e ideologicamente empastelador texto é um exemplo.
Não é por o Orlando crer que o neo-liberalismo resulta de uma ética utilitarista hayekiana e objectivista randiana que assim é ou deixa de ser objectivamente - e eu ainda prefiro alinhar pelo subjectivismo (e até o Prof. Adriano Moreira que o Orlando cita como conservador o faz). Este é um debate que me parece estar longe de finalizado, e irá continuar por muitos e bons anos. E, lógica e racionalmente, para podermos argumentar num ou noutro sentido precisamos de seguir um método que nos permita operacionalizar os conceitos em causa. É que mais do que provavelmente, quando falamos de conservadorismo, liberalismo, nacionalismo ou totalitarismo, eu e o Orlando estamos a falar de coisas diferentes. E se eu estou aberto à crítica, à dúvida e à revisão, já o Orlando parece cheio de certezas, o que é particularmente grave nos seus pontos 5 a 7, visto que o utilitarismo comporta diversos entendimentos muito para lá da simplificação apresentada que não vai além do mero cliché do maior bem para o maior número de pessoas, ou no ponto 1, pois passando ao lado do que eu já havia escrito, o Orlando mostra não saber diferenciar entre os tipos de conservadorismo. Permita-me apenas recomendar-lhe o livro de Chandran Kukathas, em particular os capítulos onde este analisa a ética de Hayek e a comparação que John Gray faz com Stuart Mill em Hayek on Liberty. Vai ver que as tais "pequenas diferenças" não são assim tão pequenas quanto isso.
Só para finalizar, lamento imenso mas eu já tenho pouco tempo e paciência para me perder em debates deste género na net, talvez porque prefira ler e ter em consideração vários pontos de vista e analisá-los demoradamente (em textos longos, não apropriados para este meio) e porque ainda tenho muito que aprender. E neste momento tenho uma dissertação de mestrado para terminar.