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Frieza de morte

por Nuno Castelo-Branco, em 06.06.11

Inesquecíveis foram as noites de vitórias eleitorais de outros tempos. Caravanas automóveis a perderem de vista, o delírio ruidoso avenidas abaixo, a miudagem empoleirada aos cachos nos camiões de caixa aberta. Bandeiras, cornetas, t-shirts com o símbolo vencedor, carros de som com o hino da campanha, risos, garrafas de cerveja, festa de arromba até às tantas. A mais memorável terá sido a vitória da AD, celebrada naquela madrugada de 1980, como se uma libertação fosse. Os Partidos contavam com uma juventude que militava sem receber um tostão, regalando-se com o prazer do convívio na colagem de cartazes, bancas de propaganda onde os contendores se provocavam mutuamente e sem consequências de maior, comícios a fazerem abarrotar o pavilhão dos Desportos, o Campo Pequeno o Terreiro do Paço ou a Alameda.

 

Ao que assistimos ontem? Ao volante do meu calhambeque, desci a Avenida que cobre a distância que vai de Entre-Campos ao Saldanha. Alguns carros faziam soar as buzinas e os seus ocupantes, geralmente um tanto ou quanto entradotes, atreviam-se a uma bandeira laranja. Uma meia dúzia de viaturas de cê-dê-ésses um bocadinho contristados e já no Saldanha, noutras décadas repleto de milhares de foliões vitoriosos, nada. Tudo normal, numa noite fresca e ventosa. Mais abaixo, relutantemente conduzi até ao Marquês, esperando uma multidão compacta diante do pavoroso Hotel Sana, aquela imensa pilha de betão informe que parece fazer as delícias dos responsáveis pelo urbanismo da CML. Mas foi uma secreta esperança gorada. Uns tantos "espontâneos das secções", entretinham-se a agitar flâmulas perante a indiferença de quem passava. Poucas buzinadelas, nada de berreiro ou interrupção do tráfego. Pelos vistos, nem os próprios simpatizantes das diversas causas, sentem as vitórias como próprias. Encolhem os ombros, ficam em casa para o jantar de domingo e vão fazendo o zapping, à espera de novidades que não chegarão. A indiferença é total.

 

Decididamente, existe uma alteração climática.

publicado às 17:18


2 comentários

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De raioverde a 06.06.2011 às 21:13


além da sobriedade que os tempos actuais incutem. tb começamos a ser adultos no que a democracia toca. Na Europa penso que será assim a normalidade democrática, embora confesse desconhecer. Já os EUA são outros quinhentos. Cumprimentos
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De xico a 06.06.2011 às 21:39

Havia uma derrota a festejar. Não uma vitória. Por isso a falta de vontade para a festa...
O senhor futuro pode ser fantástico, competentíssimo, transparente, mas não fala ao coração. É um chato. Talvez seja bom para o país... um chato.

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