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Soares era olhado com embevecimento pela direita e pela esquerda, perdoando-se-lhe facilmente as estranhas amizades orientalistas e o nítido favoritismo pelo seu Partido. Sampaio era enigmaticamente amado pela sua e pela outra esquerda e em troca era positivamente desprezado, quando não detestado, pela totalidade da direita. O caso Cavaco Silva é bem diverso, pois concita o surgimento de anticorpos em todos os sectores políticos do regime. O que dele se diz no próprio Partido, o PSD, consiste apenas num mero aperitivo para o resto do repasto de má língua. É certo que os seus escassos defensores esgrimem sempre com os pruridos "sociais", argumentando com a "questão da origem de classe", despeito alto-burguês pelo "apolítico" filho do "pequeno comerciante de combustíveis" que subiu "a pulso" vida acima.
Nada mais falso, todo este arrazoado não passa de bem construída lenda para populista ler. Passando sobre o conhecido facto do cavalheiro já ter crescido num meio economicamente bastante confortável - quantos meninos portugueses estudavam então no Reino Unido? - e de fazer inveja a qualquer senhora de saia axadrezada da Avenida de Roma dos anos 60, a verdade é que de apolítico o homem pouco tem que se lhe aponte. O mais curioso é verificarmos o tardio despertar da consciência da "sua direita", subitamente a colocar a mão na testa por tudo aquilo que os seus mandatos significaram como contradição com aquilo que precisamente essa direita mais defende e ensimesma: a lisura nos procedimentos quando do Estado se trata, a salutar obsessão as contas bem feitas e a desestatização da economia e logo, da sociedade. O homem transformou-se num embaraço para os seus próprios aliados!
Desta vez, a reprimenda chega pelo teclado de Manuela Moura Guedes. Não valerá a pena tentarmos averiguar se a jornalista um dia foi apoiante das listas cavaquistas ou se publicamente também terá defendido as suas políticas ou o seu infelizmente bem presente legado que teve em Sócrates, uma espécie de "último Jedi". A verdade é que o texto que MMG deixou no Correio da Manhã, fala em nome da tal "direita sociológica" que vai desertando de uma certa forma de estar no regime. Senão, leiamos com alguma atenção:
"Foi o Primeiro-ministro com mais tempo de cargo, de 85 a 95. A década dos primeiros muitos milhões da Europa, da baixa histórica do preço do petróleo e do dólar forte, bom para as exportações. O ‘Homem do leme’ canalizou esses milhões para o betão, o cimento, o alcatrão e lançou a base de um modelo económico seguido pelos governos de Guterres a Sócrates. É dele a primeira PPP, com a Lusoponte, e que faria escola. Foram anos de euforia, de regabofe com os milhões para a formação e modernização das empresas. Deu subsídios para o abandono da Agricultura e das Pescas.
Hoje, Cavaco, o Presidente, encontrou no mar a solução para o País. E agora, com o Governo PSD fala de finanças e economia em joint venture, quando o devia ter feito na altura em que o País era enganado e caminhava para a bancarrota com Sócrates. Cavaco não avisou, não interveio. Preferiu garantir a sua reeleição porque sempre teve uma agenda pessoal. Esteve sempre ausente quando o País viveu crises sérias ligadas à Justiça, à Liberdade de Imprensa, a direitos essenciais. Escuda-se (na 3ª pessoa) dizendo que um PR não deve pronunciar-se sobre este ou aquele assunto. É exactamente o contrário. Mas falta-lhe essa dimensão. Homem comum, um tecnocrata, a sua formação assenta em valores como a honra, a dignidade, o trabalho. Os valores da Civilização não estão no topo da hierarquia de Cavaco e deviam estar. Por isso, se é para falar de "austeridade digna" o melhor é voltar para o Pulo do Lobo. Para mim, nunca saiu de lá!"
Realmente, este tempo do ainda Centenário da República é-nos presenteado como se de um gozo imenso se tratasse, quase roçando o prazer erótico. Infelizmente, o país é que paga a aventura de esquina fora de horas.