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A minha indignação, Miguel Castelo Branco:
«...por ver as falsas elites - aquelas que nunca tiveram um contratempo; que têm sempre um amigo no tal concurso público; que passaram décadas a martirizar o orçamento do Estado com reivindicações, regalias e subsídios; que pediam direitos especais e favores; que enchiam os departamentos do Estado mas não trabalhavam; que achavam natural sair do país duas ou três vezes por ano para ver a tal exposição em Paris ou para se queimarem nas praias dos Brasis e das repúblicas Dominicanas, sempre servidos por criados; que nunca pensaram que o tal "socialismo" iria ser alimentado ad eternum pelos contribuintes europeus; que se mostraram ufanos por serem europeus, conquanto mantivessem os vícios de um regime social fundado na cunha, no absentismo laboral e no emprego sem trabalho; que se diziam das esquerdas e progressistas, mas renderam-se ao mais desbragado consumismo (três carros por família, computador novo cada ano, casa na cidade, casa no campo, casa na praia, cartões de crédito); que tudo fizeram para cortar os laços que nos prendiam ao mundo (o espaço português); que retiraram dos pedestais os homens que fizeram grande Portugal e descerraram estátuas a bandidos, desertores e inimigos do país; que nos idos de 74 e 75 (logo após o tal vinte e tantos da Silva) foram MRPP's ferrenhos e mais tarde tomaram de assalto os capitalistas PPD e PS; que continuam a querer a Constituição da desgraça (...) - tenham o atrevimento de pedir mais.
Tanto barulho para nada, Francisco Mendes da Silva:
(...)«Nos tempos de Fidel, a esquerda não andava para aí a pedinchar aos governos burgueses: pegava em armas e tomava o poder. Ponto. Mas isso era quando a esquerda tinha uma ideia de como organizar a sociedade. Era uma ideia errada, como tragicamente se viu, mas era algo que se podia identificar e discutir. Agora, exposta a invalidade dos seus pressupostos históricos, e na penúria de alternativas que lhe dêem uma nova razão de ser, sobram estas charadas de fim-de-semana.»(...)
Estou indignadíssimo, LA:
«Com quem ajudou a que o resultado do esforço de quem trabalha, investe, poupa e paga impostos tenha sido malbaratado durante décadas. Estou indignado com muitos dos que hoje, esta semana, este ano, descobriram este adjectivo. Tivessem memória e estariam indignados com as escolhas que fizeram, quando puderam optar e votaram nas utopias e falácias que lhes ofereciam sem etiqueta de preço. Tivessem memória e lembrar-se-iam dos muitos que sempre avisaram que chegaríamos a este estado de penúria se não se tentasse atalhar caminho noutra direcção. Faço, por isso, minhas as palavras que ouvi há pouco a um exaltado manifestante: “tenham vergonha, pá!”. Indignados ou não, serão os mesmos de sempre a pagar a factura deixada pelos incompetentes que saciaram a ambição de poder e as suas clientelas penhorando o dinheiro dos contribuintes.
Da luta à indignação, Helena Matos:
(...) «A extraordinária simpatia que este movimento colhe junto dos jornalistas leva a que uma simples noite passada ao relento por estas desocupadas e abonadas almas – não vão dizer-me que eram trabalhadores e pobres aqueles ditos indignados que acamparam no Rossio em Lisboa ou nas Portas do Sol, em Madrid, pois não? – seja transformada num acto de resistência. E sobretudo explica por que se evita perguntar-lhes não apenas do que vivem e como têm tanto tempo e dinheiro para viajar e acampar, mas sobretudo o que pensam. (...) Eu diria que chegou a hora não de os ouvir, porque não se tem feito outra coisa, mas sobretudo de lhes perguntar o que querem. Qual é esse objectivo pelo qual se propõem organizar-se até o atingir? O que é essa “mudança global” que defendem? E se os outros não estiverem de acordo? Creio que é mais do que tempo de, em termos de informação, se deixar de tratar este movimento como um acampamento de Verão ou um festival de excêntricos alternativos. Esta gente tem propostas políticas. Por sinal muito perigosas.»
Indignem-se. Mas longe destes "indignados" e outros "ocupas", José Manuel Fernandes:
«Tenho pena que os organizadores das manifestações de amanhã, 15 de Outubro, não tenham convocado também uma concentração para o Funchal. Convocaram para Angra do Heroísmo, mas não para a ilha de Jardim. Uma lástima. Tinha real curiosidade de ver quem apareceria. Talvez aparecessem os 1,7 por cento que votaram domingo no Bloco de Esquerda (menos do que os que votaram no Partido da Terra ou naquele que defende os animais), por certo com cartazes a dizerem que representam 99 por cento do povo. Ou talvez não. Talvez aparecesse o próprio Alberto João Jardim, garantidamente mais eloquente do que os “indignados” a defender “o povo” (desde que da Madeira) contra os banqueiros e contra Wall Street, contra a troika e contra a austeridade de Passos Coelho. (...) Há algo de assustador nesta ideia de que juntando umas centenas de pessoas numa “assembleia popular” em frente à Assembleia da República se está a realizar um debate mais democrático e mais genuíno do que os realizados na casa da democracia, tudo numa espécie de reedição serôdia (e por gente de barriga cheia) dos sovietes de Petrogado nos idos de 1917. (...) O nosso problema não é, ao contrário do que dizem os manifestantes, falta de democracia: é os mecanismos democráticos favorecerem as maiorias, e as maiorias só agora terem começado a perceber que o contrato social do pós-guerra é insustentável. Porém, mesmo sendo insustentável, ainda beneficia essas maiorias. Basta pensar que os reformados ou quase-reformados de hoje dificilmente aceitarão diminuir os seus benefícios pois eles são palpáveis, ao mesmo tempo que os jovens de hoje ainda estão demasiado longe das suas reformas para perceberem que já não as terão. É por isso que é tão difícil formar maiorias democráticas favoráveis às mudanças necessárias.
É bom sonhar, mas a política faz-se com os pés na terra. Pelo que todos os que dizem querer manifestar-se contra tudo o que o capitalismo causou de mal ao mundo livre devem começar por lembrar-se que, sem capitalismo, não haveria mundo livre. E que sempre que se quis acabar com o capitalismo também se acabou com a liberdade.»