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À atenção de indignados e revolucionários

por Samuel de Paiva Pires, em 16.10.11

Fernando Pessoa, "O Preconceito Revolucionário":

 

«O estado mental do homem que crê na eficácia social directa das revoluções é exactamente o mesmo do do homem que crê na realidade dos milagres. A crença na eficácia das revoluções pressupõe a crença na intervenção antinatural da vontade humana no curso natural das coisas sociais. Não é mais absurdo supor que determinado taumaturgo inverte, por o uso de qualidades inanalisáveis, as leis físicas e naturais [?], do que supor que um grupo de homens nascido no mesmo meio que outro grupo, educado da mesma maneira, sofrendo as mesmas influências, e com hereditariedade social idêntica, pode, substituindo-se a esse outro grupo e por o simples facto de ter ideias diferentes, agir diferentemente na vida social. Isto é tão simples!

 

O estado social permanece o mesmo agravado com a anarquia que resulta da substituição violenta de uma situação administrativa por outra. Os antigos detentores do poder, por imorais e corruptos que fossem, tinham, ao menos, pelo uso do poder, certa noção inevitável de como usá-lo, conheciam, pelo menos, como administrar. Os recém-vindos, iguais moralmente a eles por serem produto do mesmo meio, levam para o poder a falta de prática do poder; são fatalmente piores — intelectualmente piores. Assim, os governos revolucionários, sendo tão imorais como os governos anteriores, são intelectualmente mais incompetentes. (...)»

publicado às 18:04


8 comentários

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De PALAVROSSAVRVS REX a 16.10.2011 às 18:33

Brilhante, mas um convite ao conformismo. No nosso tempo, há transformações monitorizáveis e influenciáveis por ti e por mim. Fernando Pessoa nunca poderia ter antecipado os nossos mecanismos sofisticados de revolucionar.
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De Samuel de Paiva Pires a 16.10.2011 às 18:38

Não o entendo como um convite ao conformismo, mas simplesmente uma rejeição da possibilidade de revoluções terem um efeito positivo na vida social. Há outras formas de transformação da vida social para lá das revoluções, como bem apontas, claro. E atendendo à influência britânica na personalidade de Pessoa, parece-me que este ia nesse sentido. 
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De V império a 17.10.2011 às 15:57

pois! mas Pessoa tinha uma devoção pelo Sidónio, que, como se sabe, chegou ao poder através de uma revolução...
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De Rui Botelho Rodrigues a 17.10.2011 às 19:09

Este excerto não implica abandonar também a concepção católica de milagre e revelação? Estou só a perguntar, não sou católico.
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De Samuel de Paiva Pires a 17.10.2011 às 19:12

Creio que sim. Quanto a mim, embora católico não praticante, estou cada vez mais agnóstico.
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De Rui Botelho Rodrigues a 17.10.2011 às 20:06

Existe um meio-termo entre o catolicismo e o agnosticismo. E no meio, em geral, está a virtude.
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De Samuel de Paiva Pires a 17.10.2011 às 20:11

Nem sempre, meu caro. Mas no caso, talvez eu ande por aí.
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De Rui Botelho Rodrigues a 17.10.2011 às 20:14

de facto, nem sempre. mas, posto de outra forma, a sequela é sempre pior que o original.

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