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O Paradoxo dos Indignados

por Samuel de Paiva Pires, em 17.11.11

(Artigo publicado no n.º 3 do Lado Direito, jornal da Juventude Popular de Lisboa)

 

O mês que passou viu as ruas de centenas de cidades em todo o mundo serem varridas por uma vaga de indignações e ocupações. Enquanto na Europa o efémero movimento já perdeu força, nos Estados Unidos da América os ocupantes de Wall Street continuam a aumentar os seus números. Motivados pelo livro panfletário Indignez-vous! da autoria do intelectual francês Stéphane Hessel e, certamente, pelo revanchismo patente em Inside Job, uma película cinematográfica à boa maneira de Hollywood, plena de pseudo-moralismo esquerdista, os “indignados”, a começar por Hessel, acertam no diagnóstico mas falham redondamente na cura, conforme Axel Kaiser e Russ Roberts evidenciam.

 

Os indignados acertam em cheio quando reclamam contra a relação promíscua entre o poder político e a banca. Tanto nos EUA como na Europa, assistimos nas últimas décadas a uma convergência de interesses entre políticos e banqueiros. Os políticos expandiram o aparelho estatal a coberto do Estado Social, prometendo benefícios e direitos como forma de ganhar eleições, e ao aperceberem-se que não seria aceitável aumentar (ainda mais) os impostos cobrados aos contribuintes, descobriram que a forma que tinham de continuar a financiar as suas clientelas eleitorais e partidárias era através de empréstimos, ficando em larga medida à mercê da banca. Na Zona Euro, acresce ainda uma outra perversão, a da moeda única. Esta incentivou os países conhecidos jocosamente como PIIGS a endividarem-se a juros baixos, que se justificavam em virtude dos investidores terem encarado os títulos de dívida destes tão seguros quanto os da Alemanha, crendo que esta e a França os resgatariam se algum deles entrasse em incumprimento. Com estes incentivos, não admira que os políticos dos países do sul da Europa tivessem aproveitado a oportunidade para prometer aos eleitores mais benefícios, assim conseguindo vitórias eleitorais e alargando redes clientelares onde a promiscuidade entre políticos, banqueiros e empresários é a regra. E tanto na Zona Euro como nos EUA, a actividade dos bancos centrais é também ela perversa, pois não só criam dinheiro a partir do nada e mantêm taxas de juro artificialmente baixas, como se prestam ainda à função de credor de último recurso, resgatando bancos privados mal geridos em vez de os deixarem falir, como defende o mercado livre e o capitalismo.

 

Mas os ocupantes de Wall Street e os seus camaradas europeus falham redondamente quando ao criticarem este panorama o denominam como capitalista, visto que na realidade aquilo a que assistimos é mais correctamente designado por crony capitalism, ou seja, uma perversão do capitalismo em que os privados se tornam próximos do poder político e fazem depender o seu sucesso dos favores que este lhes confere. O diagnóstico dos sintomas está correcto, mas a doença não é demasiado capitalismo mas sim pouco capitalismo. O capitalismo e o mercado livre fundamentam-se, como Kaiser assinala, na concorrência entre actores privados como os bancos e empresários, na ausência de agências de planeamento monetário centralizado, na falência de empresas que são geridas de forma irresponsável, numa moeda forte que assegure o poder de compra do dinheiro das pessoas, e na ausência de relações promíscuas entre o governo e as elites económicas. Ou seja, exactamente o oposto daquilo a que vimos assistindo um pouco por todo o Ocidente.

 

A solução dos indignados para um problema que é reflexo da expansão do aparelho estatal é mais estado, o que é perfeitamente ilógico: é o paradoxo dos indignados. Para Hessel, se os políticos e burocratas tiverem mais poder, o sistema será menos corrupto. A evidência histórica mostra precisamente o contrário, e não é por acaso que os países mais corruptos são aqueles onde o estado e os políticos têm mais peso na sociedade. Esta solução errada baseia-se em ideias que há muito vêm fazendo escola no pensamento político, tendo contribuído para alguns dos maiores desastres da humanidade, nomeadamente a combinação entre o colectivismo e o bem comum na perspectiva de Rousseau e a rejeição da liberdade individual que é o fundamento essencial da civilização ocidental.

 

Torna-se, por tudo isto, perigoso que no debate público as ideias erradas dos indignados, subscritas por muitos intelectuais, criem raízes duradouras. Indignações fundamentadas em ideias erradas reflectem-se em soluções erradas, apenas agravando o problema. E é por isso que intelectuais, académicos e políticos com especial responsabilidade na criação e difusão de ideias devem esforçar-se para que o debate público não se torne, como em outras épocas, propício a que ideias potencialmente totalitárias se tornem dominantes.

publicado às 12:54


11 comentários

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De Artur de Oliveira a 18.11.2011 às 04:54

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De zé luís a 18.11.2011 às 18:21


Bem resumido.
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De Exilado no Mundo a 29.11.2011 às 20:52

Tão certo como aqueles que defendem que o comunismo foi mal aplicado nos países de leste. Nenhum sistema está isento de culpas pelas deturpações que permite! E há uma arma que os atinge letalmente: a indignação popular.
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De Samuel de Paiva Pires a 30.11.2011 às 10:06

Errado. Leia o Lenine. Está lá tudo aquilo que foi feito. E continuam a ser ideias veiculadas por comunistas, socialistas e social-democratas que deturpam o capitalismo e nos levam a estas crises.
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De Exilado no Mundo a 30.11.2011 às 10:20

Pois pois, já entendi a sua ideia: no fracasso de uns a culpa é de uns e no fracasso de outros a culpa é dos outros. 


Parece-me ser mais uma questão de você querer observar a realidade de maneira isenta do que eu ter que ler Lenine. 
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De Samuel de Paiva Pires a 30.11.2011 às 10:21

Isso. Ilumine-me.
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De Samuel de Paiva Pires a 30.11.2011 às 10:52

A respeito da observação da realidade, permita-me a imodéstia de citar parte da minha tese de mestrado:
«Para além dos ardis do cientismo e do relativismo, importa realçar que, na realidade, aquilo que distingue a ciência da mera opinião é a metodologia científica e não o conteúdo das permanentes conjecturas e refutações que enformam o corpo de postulados e premissas de uma determinada teoria e a fazem evoluir, pelo que, naturalmente, “o conhecimento obtido através de uma dada metodologia, isto é, um sistema de regras explícitas e procedimentos em que a pesquisa se baseia”, só é válido se essa metodologia for efectivamente científica. Ante o dilema enunciado com que todos os investigadores em ciências sociais se deparam e que encontra também expressão no relativismo dogmático, é José Adelino Maltez quem nos dá uma resposta tão simples quanto certeira: “não é averdade que é relativa, mas antes a realidade”, e por isso importa mais “começar pelos problemas do que pelas definições”, sabendo que neste “processo interessa mais a provocação do que a certeza” , não deixando, no entanto, de procurar as respostas “que têm de ser garantidas e por isso só as cautelas do método são suficientes”.

Isto para dizer que isenção e neutralidade são acepções impossíveis de alcançar nas ciências que observam a realidade social. O carácter subjectivo do conhecimento e das próprias concepções do investigador  fazem com que assim seja. O que não quer dizer que da lógica e do debate não saiam conclusões e explicações mais ou menos aproximadas da realidade, ainda que sejam generalizações e explicações de princípio, que obviamente têm de ser sujeitas a teste e falsificação.  Só que, até ver, ainda não utilizou nenhum argumento que desqualifique ou invalide aquilo que escrevi, e que me faça repensar a minha perspectiva.
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De Exilado no Mundo a 30.11.2011 às 12:55

Plenamente de acordo com o que citou sobre a sua tese de mestrado. 


E talvez até esteja de acordo com o que disse antes também. Acho mesmo que são comunistas como o Madoff (ou o Loureiro, ou o Oliveira e Costa, se quiser comunistas mais próximos) que nos dão cabo disto tudo!
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De Samuel de Paiva Pires a 30.11.2011 às 13:05

Excrescências de um sistema degenerado são mais sintomas que causas. As causas encontra-as no plano das ideias e daqueles que as tentam aplicar. A começar nos políticos. Pelo que se conclui, como ontem salientou José Adelino Maltez a respeito da entrevista de Soares ao i: "Eu apenas notei a respectiva definição de neoliberalismo que fará obviamente parte de todos os tratados ideológicos: é a ideologia que une a Internacional Socialista com o PPE de hoje. Como os liberais de sempre não fazem parte dessas duas famílias, mais não posso do que saudar esta criatividade do neo-socialismo que o meu presidente de sempre manifestou." e ainda "Por outras palavras, ele é um gajo porreiro, mas representa a desgraça do planeta...", em reacção à classificação de Soares do neoliberalismo  (coisa que não sei o que é) como a desgraça do planeta.
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De Exilado no Mundo a 30.11.2011 às 13:20

Em termos ideológicos não repudio nenhum dos sistemas. São precisamente as excrescências que os aniquilam e parece-me que só nalgum ponto entre os dois se poderá encontrar um desejado equilíbrio.
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De Samuel de Paiva Pires a 30.11.2011 às 14:08

Tenho sempre dúvidas quanto a terceiras vias. A social-democracia é uma. Mas enfim, é o que temos. Sabendo-se que os seres humanos são imperfeitos por natureza, também não podemos pensar que alguma vez vamos atingir a perfeição.

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