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O jornal Público deste domingo inclui nas suas últimas páginas, um extraordinário artigo assinado por António Barreto. O tema é um tabu de três décadas e remete-nos para o desastroso e conturbado biénio de 1974-75, quando numa apressada, vergonhosa e sob todos os pontos de vista imoral fuga, as autoridades portuguesas então no poder em Lisboa abandonaram o Ultramar. Uma debandada decidida como necessidade imperiosa e razão de ser de um hipotético regime democrático a instaurar em Portugal. Não importa hoje o desfiar de queixas, a apresentação de casos pessoais que afectaram milhões, os roubos, as tropelias e ilegalidades cometidas pelos representantes do Estado português, ansiosos por acompanhar obedientemente as directivas emanadas por aqueles que tendo sido oposição ao Estado Novo, vieram com a queda do regime, liquidar a presença portuguesa em África. Este colapso beneficiou os interesses imediatos de potências estrangeiras e conquistou para certos sectores, uma desmesurada influência interna nos negócios e na estrutura erguida pelos novos detentores do poder em Portugal, situação esta que chegou aos nossos dias.

A documentação que comprove os conhecidos delitos parece ser escassa, embora quem tenha vivido o drama da chamada "descolonização" terá para sempre presente a realidade da violência e do livre arbítrio dos senhores do momento, impiedosos carrascos dos seus próprios compatriotas. Não se pretende um ajuste de contas meramente contabilístico. A grandeza de uma história secular, não cede perante reivindicações de uma casa, propriedade agrícola ou conta bancária. Aquele património que importa conservar é o dos Direitos do Homem, da memória da nação e o da honra esbulhada.

A assunção do processo da "descolonização" pelos seus responsáveis mais directos, sempre foi orgulhosamente apresentada como glorioso feito, enquanto centenas de milhar foram esquecidos e deliberadamente imolados no altar do interesse de uma pretensa e hoje justamente considerada ridícula revolução. A inépcia, cobardia, e pusilanimidade dos sectores militares a quem imputamos a situação criada, aliadas à cobiça e à luta pelo poder entre os políticos recém chegados à nova situação, ocasionaram um drama sem paralelo na nossa história.

O artigo de António Barreto cita nomes de conhecidas figuras daquele tempo e alega a existência de importantíssimas provas documentais. Chegou o momento dos portugueses conhecerem a verdade que é guardada pelos refugiados que chegaram à Portela naqueles anos de medo e de miséria.

Na África do Sul existe uma comissão para o apuramento da Verdade e a promoção da Reconciliação e da Justiça. A Verdade da "descolonização" é bem conhecida, embora calada pelos seus mais directos beneficiários. A Reconciliação está feita, conhecendo-se bem o carácter altaneiro das gentes que orgulhosamente não renegando o passado, souberam estender as mãos aos carrascos que lhes destroçaram as famílias e os privaram dos bens. Falta a Justiça. Aos crimes perpetrados pela soldadesca portuguesa e dos movimentos guerrilheiros, somam-se aqueles que premeditados e autorizados pelos mais altos responsáveis do poder, carecem de punição exemplar. O Tribunal Internacional de Haia que julga os crimes de limpeza étnica cometidos na Bósnia, alerta o mundo para as consequências que recaem sobre os mandantes e autores morais, julgados tão responsáveis como os simples executores. Chegou a altura do ajuste de contas. Quem consultar os jornais delirantemente publicados durante os anos de 1974, 75 e 76, encontrará sobejas provas de delito e de reivindicação dos crimes. Precisaremos de um Baltazar Garzón?

**********

*Um texto de António José Saraiva (5-5-1976)
"Diz-se e escreve-se que os retornados eram exploradores, brutais, ávidos de lucros, criminosos de delito comum, culpados de si mesmo..."Então esses que apontam os crimes dos retornados, que fizeram vidas inteiras senão aproveitarem-se dos ditos crimes?Como foi possível a vida parasitária da maior parte da população portuguesa durante séculos, senão à custa do negro, accionado pelo colonizador?Donde vinha o café e o açúcar que se consomia e consome abundantemente nas pastelarias de Lisboa?Donde vinha o algodão barato que permitia a tantos operários e patrões sustentarem-se de fabriquetas primitivas?Donde vinham as toneladas de ouro que faziam do escudo uma moeda forte, permitindo, com uma indústria deficiente e uma agricultura rudimentar, sustentar legiões de funcionários improdutivos?Pois é!Os "retornados" chegam numa altura em que "eles" precisam de uma desculpa para o maior fracasso da História e de um objectivo para cevar a nossa frustração irremediavel.
"Eles" gritam e bradam que: "o povo é quem mais ordena!"
Que povo?

publicado às 18:54


3 comentários

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De cristina ribeiro a 13.04.2008 às 22:23

É importante que se proceda a uma análise isenta- essa isenção foi sempre abafada por aqueles que falam mais alto-do que se passou nessa altura, e dizer sem rodeios se foi para a melhoria dos que lá vivem. Os relatos que nos chegam desmentem esse "progresso"...
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De António Bastos a 14.04.2008 às 02:23

Sem a queda do regime tal objectivo, que de resto é altamente louvável, afigura-se-me uma total utopia. Ainda há muitos desses criminosos vivos, bem instalados e protegidos.
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De Nuno Carvalho a 14.04.2008 às 23:56

Realmente trata-se de um artigo – o do Público- extraordinário pelo absurdo, será que António Barreto tem apenas 20 anos? Ou é cego e surdo?

Definitivamente a hipocrisia –dos politicamente correctos - em Portugal não tem limites.

A descolonização portuguesa foi sem dúvida uma das maiores monstruosidades da história de Portugal, paradoxalmente, só agora, é que muitos portugueses estão a abrir os olhos.

Concordo inteiramente consigo: chegou a altura do ajuste de contas.

Parabéns por mais um brilhante texto.

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