Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




É indispensável ler A Tragédia do Euro de Philipp Bagus (já nas bancas a edição portuguesa) para perceber a ironia da História que é a moeda única ter sido o preço imposto por Miterrand a Kohl pela reunificação alemã, tentando os franceses, desta forma, contrariar a hegemonia económica e monetária da Alemanha e impedir que esta se tornasse novamente demasiado forte no contexto da hierarquia das potências europeias, para agora o euro ser precisamente o instrumento político que permite à Alemanha fazer dos franceses o que quer e vir a controlar cada vez mais toda a UE. As lições da História e da Geopolítica parecem ser algo que não assiste a muita gente. No contexto dominado pelo economês em que vamos vivendo, onde muitos vociferam violentamente contra o mercado e os especuladores, parece que pouca gente se recorda do processo de unificação alemã no séc. XIX, do aparecimento de Bismarck e da crença deste que, citando Políbio Valente de Almeida, "a hegemonia germânica podia ser aceite pelos outros estados através de uma negociação moderada e credível", e das consequências da paz de Versailles que Lord Keynes bem assinalou que acabariam por levar a outro desastre. Quem não percebe que a humilhação da Alemanha e a tentativa de lhe colocar amarras está e estará sempre fadada ao fracasso, dado não só o carácter dos alemães - uma nação que no espaço de um século provoca duas guerras mundiais e recupera o seu país das cinzas em tempo recorde, elevando-o a potência dominante no espaço europeu e mundial, é, de facto, uma nação com uma certa superioridade - mas também a sua posição geopolítica - convém recordar a Escola Alemã de Geopolítica promovida por Karl Hausofer, que teorizou sobre a noção de Heartland desenvolvida por Mackinder, encontrando-se a Alemanha no Heartland da Europa Ocidental, e o célebre espaço vital ou Lebensraum, assim como a ideia de Mackinder que uma Alemanha aliada da Rússia controlaria o mundo, não senso despiciendo referir as boas relações existentes entre os dois países - não percebeu ainda o que se está a passar. Permitam-me conjecturar que talvez não haja uma reacção lenta da Alemanha à crise. Ao contrário do que muitos poderíamos pensar, parece-me cada vez mais que Angela Merkel tem estado a colocar em ponto de rebuçado a restante Europa, preparando-se para devolver as vinganças e humilhações que foram impostas aos alemães. Atenção que não estou a falar em teorias da conspiração. As circunstâncias e os acasos que nos trouxeram até aqui são, certamente, fortuitos e o resultado não desejado das intenções e políticas de muitos líderes europeus. Mas a Alemanha saberá, com toda a certeza, aproveitar as oportunidades que lhe são servidas de bandeja. Talvez muitos analistas, especialmente aqueles que têm orgasmos intelectuais quando falam dos BRIC, estejam enganados quanto à ascensão destes ao longo do presente século, a par com o declínio americano e europeu. Diz-me a minha intuição que as próximas décadas serão talvez as da ascensão da Alemanha ao seu lugar natural, de potência mundial, não só a nível económico mas também político e militar. Queriam alta política e liderança? Aí as têm.

publicado às 01:15


11 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 04.12.2011 às 01:57

Magnífica análise sobre a Alemanha e uma  inteligente ante-visão  da sua política  futura, com a qual estou completamente d'acordo.
Maria
Imagem de perfil

De Samuel de Paiva Pires a 04.12.2011 às 02:04

Muito agradeço as sempre simpáticas palavras da Maria.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 04.12.2011 às 07:25

Pois é... mas quando à 5 anos atrás eu dizia que a Alemanha nos haveria de fazer pagar o facto de terem perdido a guerra e que o que na verdade os move  é o desejo de controlar a Europa no seu todo,de mão dada com a França, chamavam-me tótó...
A velhice para além de ser um posto é também um estado de sabedoria e de visão para além dos acontecimentos do presente.
Contudo não acredito que a Alemanha consiga os seus intentos porque a Nazi vai por caminhos muito  óbvios, não tem a diplomacia necessária e o cinismo suficiente para subtilmente nos levar a embarcar na sua filosofia. Não esquecer que os países do leste não vão querer, novamente, ficarem subjugados. Acredito que toda esta confusão economica-financeira vai cair de bandeja no prato dos alemães e a Nazi vai sair de cena completamente derrotada colocando o povo por mais alguns anos, não muitos ,uns 2 ou 3, e CONSPIRAR na penumbra. Cabe ao resto da europa estar de olhos abertos para não os deixar marinhar muito. O sangue nazi, quer queiramos ou não, esta-lhes na veias..é genético, não há nada a fazer...Não será em Bruxelas ou no raio que os parta que a coisa vai partir, acredito que será na rua...
Sem imagem de perfil

De Mourão a 04.12.2011 às 10:03

Por lapso não pus nome no comentário  publicado acima.... Para haver situações ambíguas aqui vai a correcção... Sou  eu Mourão
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 04.12.2011 às 20:16

aí a tem ou aí as têm.Image
Imagem de perfil

De Samuel de Paiva Pires a 04.12.2011 às 21:29

Tem razão, obrigado pelo reparo! Já corrigi Image
Imagem de perfil

De Nuno Castelo-Branco a 04.12.2011 às 20:23

Bem, tenho ideias contraditórias sobre o tema. Já há uns anos e aqui mesmo no ES, chamei a atenção para aquilo que a UE significava e que mais não era, senão uma reedição adaptada do Zollverein de Bismarck. Embora a realidade seja outra, o princípio activo é precisamente o mesmo e não será difícil imaginarmos o gizar do plano nas "mais altas instâncias" comunitárias, onde aliás, Berlim pontifica.
Por outro lado, Paris calculou pessimamente o resultado da queda do Muro, sonhando talvez com uma repetição daquilo que ocorrera no pós-Versalhes, quando todo o leste europeu provisoriamente se rendeu á sua influência. A verdade é que já nos anos 30, a própria Polónia se foi adaptando à nova realidade alemã imposta por Hitler e há quem se esqueça do tipo de regime que vigorava em Varsóvia e que tinha em Goering, um visitante atencioso. A questão da guerra, prende-se com os desígnios pessoais - e pasmem alguns, místicos, da doutrina que dava corpo ao III Reich. Após 1935, um a um, todos os países do leste foram caindo na esfera alemã, tal como se verificou logo após a reunificação. Croácia, Eslovénia, Chéquia, Eslováquia e outros, são satélites aos quais se juntam a Hungria e a Áustria.
Imagem de perfil

De Nuno Castelo-Branco a 04.12.2011 às 20:25

Discordo do Samuel quando afirma que a Alemanha é a responsável pelas duas guerras mundiais. O caso de 1914 é completamente diverso daquilo que sucederia duas décadas mais tarde, até porque as rivalidades comerciais e a corrida às armas - principalmente navais -, coincidiram com o imbróglio dos Tratados celebrados entre coligações que alguns anos mais tarde se materializariam em Entente e Impérios Centrais. Mesmo no nosso caso, a visita de Eduardo VII e de Loubet, esteve dentro dos parâmetros do estabelecimento de campos do confronto que decerto chegaria mais ano, menos ano. O Kaiser sabia-o e criou a sua própria rede, avançando em direcção a sudeste, para Constantinopla.  O resto da história sabe-se e ainda hoje dela sofremos as consequências. Em 1944, Franco avisava o embaixador britânico acerca da necessidade de uma Alemanha forte que fizesse face ao inevitável expansionismo russo. Chegou mesmo a afirmar - "se a Alemanha não existisse, teria de ser criada" - que não seria uma coligação de letões, romenos, lituanos e polacos, o óbice ao estender da hegemonia militar, política e económica na Europa. Tinha razão. Muito se protesta contra a Alemanha e o seu papel determinante na UE. Mas como?! Durante décadas, os alemães pagaram perto de 50% do orçamento comunitário e por outro lado, os franceses consumiam também perto de 50% dos recursos, destinando-os à protecção da sua agricultura. A Alemanha apoiou e subsidiou todos os alargamentos da CEE, todos, sem excepção. Pagou e de que maneira...
Imagem de perfil

De Nuno Castelo-Branco a 04.12.2011 às 20:33

 Quanto a Haushofer, existem alguns problemas. O primeiro, decerto consistirá nas profundas diferenças de regime entra a Alemanha e a Rússia. mais ainda, a Alemanha tem hoje uma sociedade muito liberal, como aliás e ao contrário daquilo que se pensa, sempre existiu desde as guerras napoleónicas. Na Rússia, o peso do Estado, a ideia imperial - não me admiraria muito se dentro de anos Putin restaurasse a Monarquia -, o sentido do "colectivo" e da necessidade de um "pulso forte", predomina. Pois então, como criar esse espaço de continuidade entre o Reno e o Estreito de Bering? A Alemanha não tem o essencial peso demográfico e o "Lebensraum" essencial a essa hegemonia. A menos que os russos decidam inverter os resultados da guerra que terminou em 1945 e queiram fazer parte de um novo Reich... Impossível. Os alemães são 90 milhões, têm um pensamento estritamente continental - o Kaiser foi a excepção - e há ainda que contar com o mais que certo revitalizar do Atlântico. As potências emergentes estão interessadas e os EUA seguirão esse caminho. Aqui está uma excelente oportunidade para Portugal. Não duvido acerca da ascensão política e militar da Alemanha, até por razões de segurança que a Europa teme mais a sul. O que se passará além-Mediterrâneo é ainda uma incógnita, mas feitas as contas, parece-me que os alemães terão necessidade de colaborar com os seus antigos aliados - Itália, países balcânicos e da Europa central -, mas também cuidar das boas relações com a Grã-Bretanha e seus aliados naturais, como a Holanda, os países do Grande Norte e Portugal, dada a nossa posição atlântica. Não imagino a Alemanha com uma frota comparável à do Japão e muito menos ainda, à futura armada chinesa. Ora, sem o controlo marítimo, a hegemonia não existe e não me parece que os russos pretendam "fazer a vez" da antiga Marinha Imperial dos tempos de Guilherme II. Pior ainda, nem sequer podem contar com uma Europa homogénea sob o ponto de vista dos interesses próprios dos países que a compõem. Na verdade, existem três Estados - Reino Unido, Portugal e Espanha - que possuem o raríssimo privilégio de poderem sonhar com uma expansão económica e política que decorre da presença que tiveram no mundo. Para mais, os próprios EUA não deixarão de se interessarem pelo assunto, naquele equilíbrio de poderes que é, por mais voltas que se pretendam dar, a ser a essência da política internacional. 
No que mais nos interessa, se em Portugal existir gente capaz,  não tenho qualquer dúvida quanto à continuidade da celebração - mesmos em feriado - do 1º de Dezembro. Quanto à França, paciência: quando no século XVII  escolheu o caminho das "fronteiras naturais", perdeu qualquer hipótese de garantir o futuro além península europeia. Esta é a verdade.
Sem imagem de perfil

De Zephyrus a 05.12.2011 às 04:58

Vou ler o livro que sugere.
 
Parece-me que as elites alemãs estão a construir um Super Estado controlado por Berlim. O seu pareceiro natural será a Rússia, e não os EUA ou o Reino Unido. Mas isto já vem a ser congeminado, pelo menos, desde os anos 60. No futuro Super Estado, a Europa Central absorverá a nata das periferias. Concentrará a indústria, as melhores universidades, os centros financeiros, etc. Provavelmente daqui a vinte anos os jovens aprenderão alemão como primeira língua estrangeira em toda a Europa, em vez de inglês. O futuro Super Estado será nacional-socialista, e não liberal ou social-democrata cristão, sublinhe-se. Portugal, Espanha, Grécia, Chipre ou o Sul de Itália serão as Floridas do novo Super Estado; afastados do centro, serão estados pobres, com pouco tecido produtivo.

No entanto, os EUA e o Reino Unido temem a Alemanha, e tudo farão para impedir a emergência desta nova UE!

Portugal, se tivesse elites, já deveria estar a preparar um renascimento, que deveria incluir:

1) Um plano de saída do euro e da UE, para concretizar ao longo de 10 a 15 anos;

2) Um plano de desenvolvimento tecnológico e científico que passaria por uma Reforma profunda das universidades e ensino até ao 12.º ano, e o abandono do Protocolo de Bolonha.

3) Um plano de expansão cultural e económica, a concretizar ao longo de várias décadas, para os países de língua oficial portuguesa, e para os países com os quais temos profundos laços históricos.

4) Um plano de captação de cérebros para as nossas Universidades, e a inclusão de Lisboa, Coimbra e Porto entre as 200 melhores universidades do mundo, sendo que pelo menos uma universidade portuguesa deveria ficar entre as 30 melhores e ser a referência para os jovens e investigadores dos países de língua portuguesa.

5) Novo Regime e nova Constituição, tudo sujeito a referendo, com proposta de fim da República e instauração da Monarquia.

O nosso destino não é a UE. É sim o mundo.
Imagem de perfil

De Nuno Castelo-Branco a 05.12.2011 às 10:02

Concordo com muito daquilo que diz, mas quanto ao super-Estado Europeu centrado em Berlim, duvido muito que os russos o aceitem. São duas tentativas de hegemonia. Não existe solução.

Comentar post







Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas