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É indispensável ler A Tragédia do Euro de Philipp Bagus (já nas bancas a edição portuguesa) para perceber a ironia da História que é a moeda única ter sido o preço imposto por Miterrand a Kohl pela reunificação alemã, tentando os franceses, desta forma, contrariar a hegemonia económica e monetária da Alemanha e impedir que esta se tornasse novamente demasiado forte no contexto da hierarquia das potências europeias, para agora o euro ser precisamente o instrumento político que permite à Alemanha fazer dos franceses o que quer e vir a controlar cada vez mais toda a UE. As lições da História e da Geopolítica parecem ser algo que não assiste a muita gente. No contexto dominado pelo economês em que vamos vivendo, onde muitos vociferam violentamente contra o mercado e os especuladores, parece que pouca gente se recorda do processo de unificação alemã no séc. XIX, do aparecimento de Bismarck e da crença deste que, citando Políbio Valente de Almeida, "a hegemonia germânica podia ser aceite pelos outros estados através de uma negociação moderada e credível", e das consequências da paz de Versailles que Lord Keynes bem assinalou que acabariam por levar a outro desastre. Quem não percebe que a humilhação da Alemanha e a tentativa de lhe colocar amarras está e estará sempre fadada ao fracasso, dado não só o carácter dos alemães - uma nação que no espaço de um século provoca duas guerras mundiais e recupera o seu país das cinzas em tempo recorde, elevando-o a potência dominante no espaço europeu e mundial, é, de facto, uma nação com uma certa superioridade - mas também a sua posição geopolítica - convém recordar a Escola Alemã de Geopolítica promovida por Karl Hausofer, que teorizou sobre a noção de Heartland desenvolvida por Mackinder, encontrando-se a Alemanha no Heartland da Europa Ocidental, e o célebre espaço vital ou Lebensraum, assim como a ideia de Mackinder que uma Alemanha aliada da Rússia controlaria o mundo, não senso despiciendo referir as boas relações existentes entre os dois países - não percebeu ainda o que se está a passar. Permitam-me conjecturar que talvez não haja uma reacção lenta da Alemanha à crise. Ao contrário do que muitos poderíamos pensar, parece-me cada vez mais que Angela Merkel tem estado a colocar em ponto de rebuçado a restante Europa, preparando-se para devolver as vinganças e humilhações que foram impostas aos alemães. Atenção que não estou a falar em teorias da conspiração. As circunstâncias e os acasos que nos trouxeram até aqui são, certamente, fortuitos e o resultado não desejado das intenções e políticas de muitos líderes europeus. Mas a Alemanha saberá, com toda a certeza, aproveitar as oportunidades que lhe são servidas de bandeja. Talvez muitos analistas, especialmente aqueles que têm orgasmos intelectuais quando falam dos BRIC, estejam enganados quanto à ascensão destes ao longo do presente século, a par com o declínio americano e europeu. Diz-me a minha intuição que as próximas décadas serão talvez as da ascensão da Alemanha ao seu lugar natural, de potência mundial, não só a nível económico mas também político e militar. Queriam alta política e liderança? Aí as têm.

publicado às 01:15


2 comentários

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De Zephyrus a 05.12.2011 às 04:58

Vou ler o livro que sugere.
 
Parece-me que as elites alemãs estão a construir um Super Estado controlado por Berlim. O seu pareceiro natural será a Rússia, e não os EUA ou o Reino Unido. Mas isto já vem a ser congeminado, pelo menos, desde os anos 60. No futuro Super Estado, a Europa Central absorverá a nata das periferias. Concentrará a indústria, as melhores universidades, os centros financeiros, etc. Provavelmente daqui a vinte anos os jovens aprenderão alemão como primeira língua estrangeira em toda a Europa, em vez de inglês. O futuro Super Estado será nacional-socialista, e não liberal ou social-democrata cristão, sublinhe-se. Portugal, Espanha, Grécia, Chipre ou o Sul de Itália serão as Floridas do novo Super Estado; afastados do centro, serão estados pobres, com pouco tecido produtivo.

No entanto, os EUA e o Reino Unido temem a Alemanha, e tudo farão para impedir a emergência desta nova UE!

Portugal, se tivesse elites, já deveria estar a preparar um renascimento, que deveria incluir:

1) Um plano de saída do euro e da UE, para concretizar ao longo de 10 a 15 anos;

2) Um plano de desenvolvimento tecnológico e científico que passaria por uma Reforma profunda das universidades e ensino até ao 12.º ano, e o abandono do Protocolo de Bolonha.

3) Um plano de expansão cultural e económica, a concretizar ao longo de várias décadas, para os países de língua oficial portuguesa, e para os países com os quais temos profundos laços históricos.

4) Um plano de captação de cérebros para as nossas Universidades, e a inclusão de Lisboa, Coimbra e Porto entre as 200 melhores universidades do mundo, sendo que pelo menos uma universidade portuguesa deveria ficar entre as 30 melhores e ser a referência para os jovens e investigadores dos países de língua portuguesa.

5) Novo Regime e nova Constituição, tudo sujeito a referendo, com proposta de fim da República e instauração da Monarquia.

O nosso destino não é a UE. É sim o mundo.
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De Nuno Castelo-Branco a 05.12.2011 às 10:02

Concordo com muito daquilo que diz, mas quanto ao super-Estado Europeu centrado em Berlim, duvido muito que os russos o aceitem. São duas tentativas de hegemonia. Não existe solução.

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