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Os nossos aliados americanos apoiaram a invasão indiana

por Nuno Castelo-Branco, em 18.12.11

Muito se tem escrito acerca dos acontecimentos daquele já distante Dezembro de 1961. Em Portugal, a discussão gira em torno dos militares revoltados pelo injusto tratamento dispensado pelo então regime vigente. Se por um lado lhes exigiram o obrigatório sacrifício que a escolha daquele serviço impõe, por outro, não lhes foram fornecidos os meios mínimos para uma defesa consistente, mesmo que simbólica.

 

A situação internacional era para os americanos péssima, dados os recentes acontecimentos em Cuba, a escalada da guerra no Sudeste asiático, a corrida ao armamento nuclear, a sempre presente chaga isarelo-árabe e os tumultos independentistas em África, muitos deles provocados pelos próprios EUA. Kennedy, proveniente de uma família de bastante discutível reputação e alianças que lhe daria o poder na Casa Branca, temia a China maoísta, não olhando a meios para agradar à "maior democracia do mundo", a Índia das castas e da segregação. O velho preconceito anti-colonial pautava toda a política externa americana, mesmo que a assunção dessa posição prejudicasse os próprios aliados dos EUA e a posição do Ocidente nos territórios extra-europeus, essenciais à segurança das rotas comerciais e à defesa militar. Quando nos anos 20 e 30 os EUA ainda possuíam as Filipinas como pouca disfarçada colónia arrebatada à Espanha, as administrações - nomeadamente a de Roosevelt - dedicavam-se a encontrar em África e na Ásia, possíveis líderes locais que fizessem passar os territórios coloniais para a esfera de interesses norte-americanos e disso mesmo o próprio Churchill se aperceberia durante as conversações tripartidas que durante a II Guerra Mundial, manteria com o presidente americano e o ditador Estaline. 

 

Os americanos sabiam que a Índia preparava o ataque ao Estado Português da Índia e apoiaram-no sem sofismas. Constava que Salazar e Mao negociavam secretamente, no sentido de tornar impossível esse avanço sobre as possessões portuguesas, aproveitando Lisboa a conhecida realpolitik política chinesa da presença sem o directo exercício da soberania, aliás manifesta em Macau. A ser verdade este persistente rumor, a instalação dos chineses em Goa teria repercussões muito vastas, especialmente nos territórios portugueses de África, onde mais tarde, a China tornar-se-ia conhecida por exercer um grande esforço no fornecimento de armas aos inimigos de Portugal. Como teria tal política ter sido possível no caso de um acordo "entre cavalheiros" de Lisboa com Pequim? A hipótese dessas negociações carecem da confirmação que só os arquivos diplomáticos poderão um dia relevar, mas a posição norte-americana foi sempre hostil a Portugal e disso não existe a mais pequena dúvida, até porque logo no início de 1961 e em Angola, a UPA iniciara a guerra com um devastador ataque às populações negras e brancas da Província Ultramarina, UPA esta criada, municiada e financiada por entidades apertadamente ligadas ao governo de Washington.

 

A Salazar restavam-lhe várias opções:

 

1. Desistir e imitando os franceses, entregar o Estado da Índia a Nova Deli, atitude impensável dada a vontade da população local e mais importante para o regime, a própria posição integracionista que o governo fazia escutar na ONU. 

 

2. Promover um referendo em todo o Estado da Índia, solução aliás sugerida por um importante sector dos círculos mais influentes de Goa. Talvez fosse a opção mais curial e mais temida por Nehru, mas criaria um precedente que poderia ser reivindicado como solução primeira para o alienar do património ultramarino. Isso o regime jamais aceitaria, pois Portugal nem sequer possuía as necessárias instituições - após a morte de Carmona, uma hipótese ignominiosamente sabotada por Marcelo Caetano  - que no caso britânico, conduziriam ao fortalecimento da Commonwealth

 

3. "Há quem pense, erradamente, que os actos inúteis devem ser evitados. Errado, o acto inútil pode assumir transcendente significado."

 

A opção militar era a mais previsível, dado o Direito Internacional e a doutrina oficial da II República. Neste caso, os militares deveriam ter sido dotados de equipamento e de unidades capazes para uma defesa, mesmo que o termo "simbólica" significasse uns tantos dias de resistência, capazes de inflingir graves perdas aos atacantes e criar um terrível problema político a uma teoricamente "pacífica" Índia, que além de cultivar um estado latente de guerra com o Paquistão - tácitamente aliado dos portugueses - poucas semanas depois, era completamente derrotada pelos chineses no breve conflito nos altos dos Himalaias.

A posição de Lisboa foi precisamente oposta, exaurindo os arsenais e os quartéis de equipamento e homens capazes para tal missão de um sacrifício quase suicida. Munições caducas, nem um único tanque, poucas bocas de fogo, nenhum material anti-aéreo e anti-carro, péssimas transmissões, quase nenhumas armas automáticas - a Mauser era a regra na infantaria local - e nem uma única unidade naval moderna. O glorioso Afonso de Albuquerque estava só, tinha um quarto de século e jamais havia sido modernizado para um combate contra unidades modernas. A Armada possuía alguns meios muito mais eficientes e que inutilmente fundeavam na Metrópole ou em Moçambique. Nada se fez para essa almejada resistência "à Estalinegrado" e surgiria mais tarde, o escusado argumento da certeza do ataque indiscriminado dos indianos ás zonas civis, bombardeando e massacrando a população. Mas não era isso mesmo que Lisboa deveria esperar, provocando uma rápida reacção política por parte da opinião pública mundial? Não contou Portugal - mercê dos incansáveis esforços de Franco Nogueira e do MNE - com o voto favorável na ONU, condenado Nehru e a Índia?

 

O tratamento que mais tarde seria dado aos militares repatriados, careceu de qualquer tipo de tino político, pois em vez de o regime os fazer desfilar com todas as honras Avenida da Liberdade abaixo - culminando as honrarias com aquela que se tornaria na sacramental cerimónia no Terreiro do Paço -, tratou-os de uma forma tal, que despoletaria os profundos ressentimentos que chegam até aos nossos dias. Consistiu esta atitude num erro crasso, até porque o terrorismo em Angola e a política assumida da defesa do Ultramar, exigia, pelo contrário, a máxima atenção às Forças Armadas, especialmente naquilo a que para elas é mais relevante: a manutenção da honra e o seu reconhecimento como o essencial braço armado da nação.

 

O ataque a Goa, Damão e Diu, poderá ser visto como um esquecido episódio da Guerra Fria, não hesitando os EUA em sacrificar um aliado incómodo e com o qual mantinham acrimoniosas relações, dados os interesses de certos sectores lobistas financeiros, económicos e políticos norte-americanos. A política de Washington era definitivamente a mesma que Roosevelt prosseguira nos anos trinta, procurando substituir as antigas potências coloniais e criando os seus próprios potentados locais, sendo o caso Mobutu, apenas o exemplo mais flagrante. Embora numa realidade completamente diferente, factos idênticos ocorreriam quando da invasão indonésia a Timor Oriental - com o beneplácito da administração Ford-Kissinger -  num momento em que as Forças Armadas Portuguesas eram pasto de convulsões intestinas que as desprestigiaram por várias gerações e cuja infausta canga, sobre elas ainda pesa de forma esmagadora.

 

De facto, a II República teve graves responsabilidades quanto ao desfecho do infeliz episódio. A culpa não se deve á política em si, mas à forma em que por vezes esta se reveste e que como é confirmada no vetusto mas bem realista dizer dos círculos diplomáticos, fazê-la através da opção do empunhar de armas. No caso da Índia Portuguesa, os militares tiveram chouriços em vez de granadas e paus de vassouras como sucedâneos de metralhadoras.

 

Erro de Salazar.

publicado às 09:56


4 comentários

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De JJ Gonçaves a 18.12.2011 às 16:12

Erro de Salazar foi acreditar que uns generalecos afidalgados sacrificassem um pelo do cabelo pelo país. 
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De Nuno Castelo-Branco a 18.12.2011 às 16:25

Mas não lhes dar os meios mínimos, foi uma profunda parvoíce. 
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De Jorge Humberto a 19.12.2011 às 03:36

Os senhores generais querem messe, copos, criados e fardas. O Salazar deu o que tínhamos e mesmo que nada tivesse dado era dever daquele Vacila e Salva engolir o cano da pistola e não sujar o nome do país.
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De Nuno Castelo-Branco a 19.12.2011 às 14:17

Desculpe-me, mas Salazar procedeu de forma totalmente irresponsável. esmo sendo certa a derrota militar, poderia ter acontecido de forma bem diversa. mais ainda, apesar do claro fracasso, a tropa deveria ter sido recebida de outra forma, com estandartes em desfile, cantorias patrióticas, uma chuva de medalhas e apagando o fracasso com uma propaganda que se visse, tornando mais coesa a frente interna e agradando à tropa que partia para Angola. Foi um disparate - mais um - do regime. Os próprios alemães pós-REstalinegrado fizeram muito mais e melhor. E desta opinião será impossível demover-me. 
Francamente... com os arsenais a abarrotar de material NSATO - os americanos que fossem dar uma voltinha e que protestassem à vontade! -, e nem uma bazooka existia em todo o Estado da Índia? Mausers em vez de metralhadoras? Nada de morteiros que se vissem, nada de transmissões modernas, nem um veículo blindado credível, nada, nada nada? Fragatas modernas fundeadas em Moçambique e o pobre do Afonso de Albuquerque só e sem hipóteses contra aquilo que a Indian Navy tinha e que utilizou sem hesitar?

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