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Nesta luta pela sobrevivência, o governo português optou por apostar nos chineses, em detrimento do Brasil. Para já, o único resultado positivo respeita à esfera da política, porque economicamente, muitos agentes há que vêem com alguma circunspecção, o papel que empresas do Império do Meio desempenham noutras "anexadas" em períodos de dificuldades destas últimas: conquista de poder económico e logo, a quase infalível pressão política que não deixará de se fazer sentir. Mais ainda, é observado o corriqueiro processo de obtenção de know-how e a sua transferência para Oriente, dando início ao descurar dos interesses vitais das empresas adquiridas. Veremos se com a EDP se passará o mesmo, mas neste caso, há que contar com outra realidade, a do mundo lusófono. Assim, a situação parecerá mais equilibrada, não sendo de estranhar se proximamente assistirmos à conjugação de políticas entre a China e alguns dos países da CPLP, às quais Portugal não deverá escapar.
De facto, a Alemanha é a grande derrotada na contenda. Derrota económica e sobretudo politica, num momento em que a rispidez do ein befehl ist ein befehl, parece ser a norma adoptada pelo directório composto por alemães e seus assistentes franceses. A boa notícia consiste também em mais um escolho aos impulsos tendentes a forçar um federalismo que mais não é, senão uma clara "provincialização" dos "Estados secundários", sempre em detrimento dos interesses particulares que ainda justificam os resquícios da soberania. A oligarquia possidente, vem agora na pessoa do Sr. Paulo Rangel, despudoradamente reivindicar um certo decisionismo discricionário e em claro detrimento da vontade dos povos, consagrando aquele princípio do referendo "repete até ao sim" que deu início ao total descrédito daquilo que se chama União Europeia. Por outras palavras, de Berlim e via Bruxelas, estamos perante uma espécie de reformulação daquela política olivarista da "União de Armas" que no nosso país despoletaria o movimento do 1º de Dezembro de 1640.
Teria sido mais desejável a aquisição da EDP pelos brasileiros, não apenas por razões económicas e de proximidade - capaz de gerar outros resultados dentro da CPLP -, como também e sobretudo, políticas. Simplesmente, parece existir no Brasil e entre uma certa camada dirigente - principalmente da parte dos "recém-chegados de duas gerações" da Alemanha, Itália e de outros tantos países fornecedores de contingentes migratórios - que se estende das empresas às academias, uma clara má vontade ou declarado preconceito em relação a Portugal e aos portugueses. Se tal não é significativo entre o homem comum escolarizado, verifica-se, no entanto, uma acérrima oposição a tudo o que de Portugal chegue, estejam esses brasileiros em locais de decisão nas universidades americanas, ou nos círculos culturais ou empresariais locais, de Macau, Angola, Moçambique ou até, pasme-se, em Timor. Muito trabalho há a fazer por parte das autoridades políticas de Brasília, agora pertencentes a um sector político pouco propenso a sonhos de padronização Made in USA que eram apanágio de uma certa Direita local. A impressão que fica, é que dada a exiguidade portuguesa, os brasileiros tendem pura e simplesmente a olhar-nos por cima do ombro, ignorando-nos. Erro crasso, pois a situação geográfica portuguesa e a posse - mesmo que teórica - do amplo espaço do Atlântico Norte que vai de Lisboa até bem para lá da última nesga de terra açoriana, deveria fazê-los reconsiderar. Se a isto somarmos a ainda presença portuguesa na U.E., o interesse chinês e de outros "emergentes" - condição que o Brasil reivindica - nas grandes rotas comerciais que ainda são aquelas que o Atlântico retém e aspecto fundamental, a desejável articulação em todo este espaço através de uma coordenação de esforços entre o nosso país, o Brasil e Angola - com os arquipélagos portugueses e os outros que outrora fizeram parte do Ultramar -, temos um quadro onde é possível desenhar uma outra realidade. Não se trata apenas wishful thinking ou de salvar a soberania portuguesa, embora este seja um ponto obviamente interessante para o sucesso do processo de expansão da economia brasileira.
Dito isto, veremos quais serão as imediatas consequências desta vitória chinesa. Não nos admiremos muito se dentro de pouco tempo, a "eterna promessa Sines" não conhecerá novos desenvolvimentos e se a sempre anunciada ligação ferroviária à Europa não será uma prenda chinesa.
Adenda: pese a desconfiança - como aqui dissemos, os chineses não se livram facilmente da fama de "seca-economias" - que já várias vezes manifestámos acerca da política de penetração chinesa, há que reconhecer que neste caso, o governo agiu bem. Enganou os "politólogos" de serviço, fez tábua rasa do propalado princípio de submissão a tudo aquilo que a Alemanha deseja e o processo EDP foi limpo, preenchendo todos os critérios exigidos pela credibilidade. O Brasil não conseguiu o que timidamente aparentou querer. Conseguir enganar uma opinião pública unanimemente formatada para "decisões inevitáveis", é obra. O que irá acontecer ao sr. Mexia?
Um nosso leitor deixou na caixa de comentários, um desabafo acerca do "latente antigermanismo" patente neste blog. Pelo contrário, há entre os colaboradores do E.S. admiradores confessos da Alemanha e entre eles me incluo. Isso não nos impede de verificar a falta de habilidade política de que enfermam muitas das actuais autoridades germânicas, esquecendo-se do facto de não estarem a lidar com uma novidade nacional recente de apenas uns, digamos... 500 anos. Portugal tem as suas fraquezas, mas a generalidade dos seus nacionais é extremamente orgulhosa quando quer e essa erupção pode ser súbita e violenta. Sabendo que jamais declarámos guerra à Alemanha ou participámos na exploração da sua população por duas vezes derrotada nos últimos 90 anos e tendo ainda a consciência de que Portugal excedeu em muito as obrigações que o estatuto de neutral lhe conferia, aos alemães restaria uma réstia de bom senso, evitando melindrar um povo que contra eles não nutre qualquer tipo de preconceito. De facto, a geração dos pais da sra. Merkel, bastas vezes matou a fome com produtos Made in Portugal, apesar do enorme alarido que a Grã-Bretanha e os EUA faziam junto do Palácio das Necessidades. Até podemos recordar a Chancelaria de Berlim, de um evento ocorrido em Maio de 1945, quando Portugal cumpriu escrupulosamente as necessárias obrigações protocolares, colocando a sua bandeira a meia haste.
Os alemães não se recordam, paciência, mas nós ainda temos bem presentes aquelas palavras que o embaixador francês em Roma, André-François Poncet dirigiu ao embaraçado Conde Ciano, no dia 10 de Junho de 1940, dia da declaração de guerra da Itália:
-"Os alemães são patrões duros e isso vão os senhores aprender à vossa custa".