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Curto-circuito brasileiro (infelizmente)

por Nuno Castelo-Branco, em 22.12.11

Nesta luta pela sobrevivência, o governo português optou por apostar nos chineses, em detrimento do Brasil.  Para já, o único resultado positivo respeita à esfera da política, porque economicamente, muitos agentes há que vêem com alguma circunspecção, o papel que empresas do Império do Meio desempenham noutras "anexadas" em períodos de dificuldades destas últimas: conquista de poder económico e logo, a quase infalível pressão política que não deixará de se fazer sentir. Mais ainda, é observado o corriqueiro processo de obtenção de know-how e a sua transferência para Oriente, dando início ao descurar dos interesses vitais das empresas adquiridas. Veremos se com a EDP se passará o mesmo, mas neste caso, há que contar com outra realidade, a do mundo lusófono. Assim, a situação parecerá mais equilibrada, não sendo de estranhar se proximamente assistirmos à conjugação de políticas entre a China e alguns dos países da CPLP, às quais Portugal não deverá escapar. 

 

De facto, a Alemanha é a grande derrotada na contenda. Derrota económica e sobretudo politica, num momento em que a rispidez do ein befehl ist ein befehl, parece ser a norma adoptada pelo directório composto por alemães e seus assistentes franceses. A boa notícia consiste também em mais um escolho aos impulsos tendentes a forçar um federalismo que mais não é, senão uma clara "provincialização" dos "Estados secundários", sempre em detrimento dos interesses particulares que ainda justificam os resquícios da soberania. A oligarquia possidente, vem agora na pessoa do Sr. Paulo Rangel, despudoradamente reivindicar um certo decisionismo discricionário e em claro detrimento da vontade dos povos, consagrando aquele princípio do referendo "repete até ao sim" que deu início ao total descrédito daquilo que se chama União Europeia. Por outras palavras, de Berlim e via Bruxelas, estamos perante uma espécie de reformulação daquela política olivarista da "União de Armas" que no nosso país despoletaria o movimento do 1º de Dezembro de 1640.

 

Teria sido mais desejável a aquisição da EDP pelos brasileiros, não apenas por razões económicas e de proximidade - capaz de gerar outros resultados dentro da CPLP -, como também e sobretudo, políticas. Simplesmente, parece existir no Brasil e entre uma certa camada dirigente - principalmente da parte dos "recém-chegados de duas gerações" da Alemanha, Itália e de outros tantos países fornecedores de contingentes migratórios - que se estende das empresas às academias, uma clara má vontade ou declarado preconceito em relação a Portugal e aos portugueses. Se tal não é significativo entre o homem comum escolarizado, verifica-se, no entanto, uma acérrima oposição a tudo o que de Portugal chegue, estejam esses brasileiros em locais de decisão nas universidades americanas, ou nos círculos culturais ou empresariais locais, de Macau, Angola, Moçambique ou até, pasme-se, em Timor. Muito trabalho há a fazer por parte das autoridades políticas de Brasília, agora pertencentes a um sector político pouco propenso a sonhos de padronização Made in USA que eram apanágio de uma certa Direita local. A impressão que fica, é que dada a exiguidade portuguesa, os brasileiros tendem pura e simplesmente a olhar-nos por cima do ombro, ignorando-nos. Erro crasso, pois a situação geográfica portuguesa e a posse - mesmo que teórica - do amplo espaço do Atlântico Norte que vai de Lisboa até bem para lá da última nesga de terra açoriana, deveria fazê-los reconsiderar. Se a isto somarmos a ainda presença portuguesa na U.E., o interesse chinês e de outros "emergentes" - condição que o Brasil reivindica - nas grandes rotas comerciais que ainda são aquelas que o Atlântico retém e aspecto fundamental, a desejável articulação em todo este espaço através de uma coordenação de esforços entre o nosso país, o Brasil e Angola - com os arquipélagos portugueses e os outros que outrora fizeram parte do Ultramar -, temos um quadro onde é possível desenhar uma outra realidade. Não se trata apenas wishful thinking ou de salvar a soberania portuguesa, embora este seja um ponto obviamente interessante para o sucesso do processo de expansão da economia brasileira.

 

Dito isto, veremos quais serão as imediatas consequências desta vitória chinesa. Não nos admiremos muito se dentro de pouco tempo, a "eterna promessa Sines" não conhecerá novos desenvolvimentos e se a sempre anunciada ligação ferroviária à Europa não será uma prenda chinesa.

 

Adenda: pese a desconfiança - como aqui dissemos, os chineses não se livram facilmente da fama de "seca-economias" - que já várias vezes manifestámos acerca  da política de penetração chinesa, há que reconhecer que neste caso, o governo agiu bem. Enganou os "politólogos" de serviço, fez tábua rasa do propalado princípio de submissão a tudo aquilo que a Alemanha deseja e o processo EDP foi limpo, preenchendo todos os critérios exigidos pela credibilidade. O Brasil não conseguiu o que timidamente aparentou querer. Conseguir enganar uma opinião pública unanimemente formatada para "decisões inevitáveis", é obra. O que irá acontecer ao sr. Mexia?

 

Um nosso leitor deixou na caixa de comentários, um desabafo acerca do "latente antigermanismo" patente neste blog. Pelo contrário, há entre os colaboradores do E.S. admiradores confessos da Alemanha e entre eles me incluo. Isso não nos impede de verificar a falta de habilidade política de que enfermam muitas das actuais autoridades germânicas, esquecendo-se do facto de não estarem a lidar com uma novidade nacional recente de apenas uns, digamos... 500 anos. Portugal tem as suas fraquezas, mas a generalidade dos seus nacionais é extremamente orgulhosa quando quer e essa erupção pode ser súbita e violenta. Sabendo que jamais declarámos guerra à Alemanha ou participámos na exploração da sua população por duas vezes derrotada nos últimos 90 anos e tendo ainda a consciência de que Portugal excedeu em muito as obrigações que o estatuto de neutral lhe conferia, aos alemães restaria uma réstia de bom senso, evitando melindrar um povo que contra eles não nutre qualquer tipo de preconceito. De facto, a geração dos pais da sra. Merkel, bastas vezes matou a fome com produtos Made in Portugal, apesar do enorme alarido que a Grã-Bretanha e os EUA faziam junto do Palácio das Necessidades. Até podemos recordar a Chancelaria de Berlim, de um evento ocorrido em Maio de 1945, quando Portugal cumpriu escrupulosamente as necessárias obrigações protocolares, colocando a sua bandeira a meia haste. 

Os alemães não se recordam, paciência, mas nós ainda temos bem presentes aquelas palavras que o embaixador francês em Roma, André-François Poncet dirigiu ao embaraçado Conde Ciano, no dia 10 de Junho de 1940, dia da declaração de guerra da Itália:

 

-"Os alemães são patrões duros e isso vão os senhores aprender à vossa custa".

publicado às 18:01


9 comentários

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De Anónimo a 22.12.2011 às 20:02

Boa análise,embora pareça-me haver um excessivo anti-germanismo neste blog; cada país, procura defender o seus interesses; temos é que também saber defender os nossos.

Sem dúvida que a atitude brasileira face a Portugal não é a melhor e vai prejudicar o Brasil a prazo (já está!). Aliás, o preconceito que têm contra Portugal não se limita a italianos e alemães; já conheci brasileiros com nomes portuguesíssimos e que dizem ser de origem italiana.

GP
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De Nuno Castelo-Branco a 22.12.2011 às 22:56

Caro GP, não se trata de antigermanismo. Eu próprio muito admiro a Alemanha, o que não impede de verificarmos a total falta de consciência, nem que seja na forma, do tratamento público que têm as suas autoridades dado a países como portugal. Portugal não é a Eslováquia, a Rep. Checa, a eslovénia ou outra qualquer novidade europeia surgida nos últimos, digamos... 500 anos. 
Lembraria à sra. Merkel e seus subalternos, que o nosso país jamais declarou guerra a Alemanha e bem pelo contrário, cumpriu muito para além do seu dever, as obrigações da neutralidade. Os pais e restantes idosos familiares da Chanceler, terão durante anos recebido refeições e agasalhos Made in Portugal, por exemplo. Em Maio de 1945, a bandeira republicana portuguesa esteve a meia haste, pelas razões que se conhecem e até neste aspecto protocolar, Portugal não cedeu um milímetro à conveniência do momento. Os alemães que se lembrem disso e não nos aborreçam. 


No nosso país não existe a mínima animosidade para com a Alemanha e o seu povo, antes pelo contrário, mas o mesmo não se poderá dizer dos fervorosos aliados que a Chanceler encontra hoje bem perto das suas fronteiras. Bastará falarmos com qualquer holandês, dinamarquês ou checo e concluiremos facilmente acerca do que que pensam dos seus poderosos vizinhos. 
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De Anónimo a 22.12.2011 às 23:47

Caro Nuno, agradeço a resposta. Relativamente ao anti-germanismo, concordo consigo quando diz que não há um sentimento anti-germânico em Portugal. Daí que eu próprio sentisse um certo incómodo com algumas coisas que tenho visto neste blog. Repare que o comentário que fiz sobre o anti-germanismo neste blog não se dirigia tanto a si, mas a alguns do seus colegas que colocaram alguns cartoons grosseiros sobre alemães. Parece-me bastante deselegante num blog que pretende ser de referência política.

Já agora um texto do Jornal de Negócios sobre a novela EDP:

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=527005

Se o que foi escrito está correcto, percebo melhor a escolha. Enfim, vai-se espalhando os ovos por diferentes cestos. Entretanto, estou curioso em ver a reacção brasileira: vão procurar ter de futuro uma reacção mais construtiva ou irão chamar-nos "colonialistas"?
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De Nuno Castelo-Branco a 23.12.2011 às 00:12

Colonialistas? Só se fosse ao contrário, mas eles não se esforçaram demasiadamente. Neste momento, este tipo de intervenções deve sem ser vistas de outra forma, abrangendo múltiplos campos, hoje complementares. Parece que não entenderam, paciência.


Quanto ao antigermanismo, há que dizer que os alemães, ou melhor, as autoridades alemãs ou aqueles colocados em posições de relevo, têm sido extremamente desastrados na lida de todo este processo de crise. Como sabe, em todo o mundo existem preconceitos - alguns bem razoáveis - em relação a esse país e isso deve-se ao que todos sabem, nem vale a pena falarmos mais nisso. No entanto, quando altos responsáveis  reivindicam a colocação a meia haste das bandeiras dos países "vigaristas", a "obrigatoriedade " disto e daquilo, o ar de severo escrutínio e outras habilidades do estilo, a coisa muda de figura. Mais ainda, quando sabemos que o nosso país é um ávido consumidor de produtos alemães e para desgraça nossa, nem as Forças Armadas escapam, pese o reconhecimento da boa categoria do equipamento vendido. Em 10 de Junho de 1940, dia em que Mussolini declarou a guerra à França e à Grã-Bretanha, o embaixador francês em Roma, o sr. Poncet, dizia a um embaraçado ministro dos negócios estrangeiros italiano, o conde Ciano: "os alemães são patrões duros e os senhores aprenderão isso mesmo á vossa custa". Viu-se que tinha razão.


O governo acertou ao acabar com a péssima política da "colocação de ovos no mesmo cesto". Neste aspecto, estamos atrasados trinta anos, pelo menos. Já reparou na percentagem ridícula do nosso comércio com o antigo Ultramar, Brasil incluído? Basta.
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De Anónimo a 23.12.2011 às 00:33

Quanto ao meu comentário sobre os "colonialistas", o que quis dizer é que espero que não haja da parte dos brasileiros uma reacção a quente.

Quanto à dureza dos germanos, talvez seja isso que estamos a precisar agora. Passamos a ter um maior auto-respeito e acabaram-se as grandes obras faraónicas que tiveram a sua quota-parte para  a actual ruinosa situação financeira do país.

GP
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De Nuno Castelo-Branco a 23.12.2011 às 12:21

Caro GP, pelo que me disseram há dias, prepara-se uma contrapartida "alemã" e que tem a ver com o famigerado TGV. Se isto não colonialismo, então não sei o que diga. Claro que admiro os métodos de planeamento deles e o sucesso da RFA é disso prova. No entanto, o mundo não acaba na antiga Prússia Oriental.
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De Pedro Quartin Graça a 23.12.2011 às 08:55

O estimado leitor está a referir-se a mim a propósito dos cartoons aqui publicados que retratam a chanceler alemã Merkel. Gostaria de lhe dizer que tomei nota das suas críticas mas as suas críticas passam-me ao lado. Em primeiro lugar porque, em toda a blogosfera portuguesa, serei eu, talvez, a última pessoa a poder ser acusada de anti-germanismo. Estudei com efeito desde os 3 anos de idade com alemães, dou-me desde sempre com eles, uso muito do seu método de trabalho, tenho por eles enorme admiração enquanto povo. Agora isso não me impede de ser crítico e de, essencialmente, fazer notar o que a sua postura tem de menos bom para a UE e para as populações europeias. É com os alemães como seria com os italianos, belgas, ou outros, se fosse o caso. Não confundamos por favor  as coisas.
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De Anónimo a 23.12.2011 às 11:58

Caro Pedro Quartim de Graça, muita da blogosfera portuguesa não presta e não me surpreende encontrar lá comentários grosseiros sobre os alemães. Agora, o "Portugal Contemporâneo" é um blog que pretende ser de referência e fazer comentários brejeiros sobre os alemães não fica bem.  Aprecio mais a atitude do Nuno Castelo Branco que procura explicar cuidadosamente as suas críticas aos alemães.

Você é um político e se tiver um dia de ocupar cargos de maior responsabilidade e lidar directamente com os alemães, pergunto-lhe como o vai fazer depois de ter divulgado cartoons grosseiros sobre eles.

GP
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De Pedro Quartin Graça a 23.12.2011 às 12:04

Estimado leitor: em primeiro lugar não me chamo Pedro Quartim de Graça mas sim Pedro Quartin Graça, se me permite. Em segundo lugar creio que se equivocou com o blog destinatário já que este blog é o Estado Sentido. Em terceiro lugar não tenho de momento qualquer responsabilidade política, logo "não estou no activo". Em quarto lugar os cartoons não foram, em momento algum, grosseiros, mas sim, no máximo, brejeiros, como qualquer leitor poderá aferir. Em quinto lugar, os cartoons não eram de minha autoria mas "apenas" os divulguei, coisa que voltaria a fazer sem qualquer relutância.Por ultimo, negociaria com a mesma cara que tenho e sem qualquer problema de consciência. Na verdade quem não deve, não teme. É o meu caso. Melhores cumprimentos.

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