
Há uns meses atrás, numa exposição que teve lugar na FIL, onde se fizeram representar universidades, partidos políticos (através dos seus departamentos de juventude) e outras instituições afins, tive a oportunidade de conversar com alguns membros da Juventude Monárquica Portuguesa.
Questionei um jovem do referido movimento sobre os motivos de defender a causa monárquica. Entregou-me um folheto com um design muito tosco onde vinham explicítas as razões para a sua posição. No meio da fraca argumentação houve uma afirmação que me prendeu a atenção (também explicíta no folheto), e me deu uma enorme vontade de rir, que é a de que um Rei não está sujeito aos interesses de grupos económicos.
Antes de me despedir perguntei-lhe qual a sua formação académica, que praticamente já havia adivinhado, sendo o jovem em questão estudante de Direito da Universidade Católica.
Mais tarde visitei sites da Juventude Monárquica Portuguesa, da Casa Real e da Real Associação de Lisboa. Para além da falta de actualização, um aspecto que marca os diversos sites é o design pouco atraente. Na altura, na página de entrada do site da Real Associação de Lisboa encontrava-se um enorme quadrado preto, onde se podia ler, em letras garrafais
República R.I.P: 1910-____. Pouco se pode encontrar em termos doutrinários, sendo de assinalar apenas dois textos no site da Real Associação de Lisboa. Mais recentemente visitei o site do Partido Popular Monárquico, bem melhor a todos os níveis, sendo até de destacar um fórum (que não tem nenhuma mensagem).
Sendo um curioso da ciência da genealogia e do tema das elites, tenho-me vindo a aperceber de extraordinárias “coincidências” de ligações familiares e de certos apelidos repetidos vezes sem conta que se encontram nos mais diversos sectores da sociedade, reflectindo-se na configuração político-partidária do Estado.
Recordo o que disse num exame oral de melhoria de nota de Ciência Política:
É o mesmo sistema que se verificou entre 1877 e 1900 em Portugal, durante o período do Rotativismo entre Progressistas e Regeneradores (período que alguns autores consideram extensivo ao prévio período do regime de Fusão e ao posterior período da Monarquia terminal), onde já se verificava esta tendência e outras bastante actuais como o facto de os líderes dos dois partidos se alternarem na liderança do governo e do Crédito Predial, à semelhança do que acontece hoje em dia com a CGD, ou o facto de determinados indivíduos e famílias, se prolongarem indefinidamente através do património genealógico na teia relacional de influências que é o aparelho estatal, aqueles que segundo Dostoievski pertencem ao Estado Superior, esse conceito abstracto e artificial de diferenciação dos homens, que reprime a meritocracia e caracteriza o Portugal dos Pequeninos com a mania das grandezas, em que reina a incompetência e a demonstração daquilo que não se é, numa permanente verificação do que Pessoa sumarizou na ideia de que “Não há nada mais provinciano do que tentar ser cosmopolita”.
Pergunto-me se é a isto que se pode chamar a causa monárquica? Porque se é, então eu não devo ser monárquico.
Se a causa monárquica está reduzida a uma série de tios de Cascais/Lisboa, barões do Norte e “elites” provincianas, cujos filhos são umas autênticas futilidades que se julgam seres superiores pelos apelidos de que são portadores (pois a pouco ou nada mais podem recorrer para se valorizar), que desprezam os que não são fúteis como eles, que à pergunta “Porque defende a instituição monárquica?” respondem “Porque é uma coisa de gente de bem”, então eu não devo ser monárquico.
Começo a entender porque não se regressou a um regime monárquico em Portugal. A causa monárquica está reduzida a um bando de provincianos sem qualquer sentido de Estado, mal organizados, sem uma liderança esclarecida e desconhecedores dos fundamentos teóricos e históricos do que dizem defender. Raras são as excepções, que assim confirmam a regra.
Pergunto-me o que pensariam disto homens como Pombal, Saldanha, Palmela, Sá da Bandeira, Ávila, Loulé, Passos Manuel, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, José Estevão (estes três na tela em cima), Paiva Couceiro...
Partindo da perspectiva de que as revoluções se processam no sentido de subverter a ordem e interesses vigentes para poder substituí-los pelos interesses dos que fazem a revolução, espero que Portugal não caia definitivamente nas mãos de provincianos, mesquinhos, oportunistas, fadistas, toureiros e afins que se dizem arautos da salvação da nação.
Seria interessante saber o que pensa sobre esta conjuntura social S. A. R. o Duque de Bragança, pessoa de assinalável inteligência e cultura, que sem ter culpa se vê no meio destes pretensos monárquicos.
É preciso renovar as elites, recuperar o ideal monárquico de Estado e organizar um movimento credível e profissional que se possa revelar como verdadeira alternativa aos olhos da nação.
Novamente recordo o que disse no exame oral de melhoria de Ciência Política:
Por tudo isto me assumo pessoalmente como um idealista defensor da Monarquia, como garante da imparcialidade e defesa dos interesses dos cidadãos, arguindo que de facto, para evitar a lógica cíclica dos regimes políticos, devem-se observar as positivas características do sistema britânico (bem como da grande maioria dos países europeus, em que não é de estranhar a existência de Monarquias Constitucionais) e num futuro, que falta saber se breve ou longínquo, introduzir novamente o elemento substancial Monárquico, não apenas o formal representado pelo órgão de Presidente da República, em Portugal, com vista a institucionalizar um sistema de “checks and balances”, em que o povo se une em torno da prossecução de um ideal que os seus representantes, detentores da ciência da polis, deverão defender constantemente, o verdadeiro desenvolvimento intelectual e educacional que permita também um sustentável desenvolvimento económico e social.