Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Coisas de Conspiradores

por o corcunda, em 08.01.12

A gente às vezes lê coisas e nem acredita.

Parece que a Maçonaria está a sofrer um ataque gigantesco por parte de teorizadores da conspiração, de pessoas malevolentes que querem reavivar velhas perseguições e destruir uma entidade que para além de patriótica, tanto fez pela liberdade em Portugal.

 

Como é evidente a Maçonaria nunca nada teve a ver com perseguições religiosas, extinções e expulsões de ordens religiosas, hasta pública de bens roubados por decretos ilegais e substituição por essa via das elites do país. E nossos liberais, que tanto se insurgem contra o Estado Omnipotente, contra as nacionalizações e o crescimento do Estado, são capazes de olhar o saque da propriedade da Igreja, a repressão das consciências e a sua subordinação, como se isso nada tivesse tido a ver com um conflito entre religiões ou visões do mundo. Foi só uma questão espontânea de interacções entre indivíduos e quem diz o contrário é um maluquinho das conspirações.

 

Como é evidente, as pessoas que esgrimem o argumento da conspiração são as mesmas que afirmavam que o país precisava de destruir o catolicismo, ou de um Vaticano II, para que a democracia e liberdade emergissem. Os mesmos que afirmam que as pessoas que professam uma religião a deveriam subordinar a um conjunto de ideais cívicos que são passados através de segredos. Ou seja, os que dizem que as suas crenças e formas de associação são irrelevantes, são os mesmos que andaram durante os últimos dois séculos de dedo em riste, dando caça a todos os, reais ou imaginários, inimigos da liberdade. Sobre isto não há quaisquer dúvidas.

 

Sobre deformações da História e o grande patriotismo da associação não-religiosa benemérita o Nuno Castelo Branco já aqui meteu ordem numa história digna dos parodiantes.

 

Falta-me ainda relevar mais uma. Quando se refere como o conservadorismo europeu é obra de um maçon, Edmund Burke, é preciso não esquecer o ataque que à Maçonaria é endereçado nos escritos posteriores a 1790 e a ideia de que a Igreja é a última esperança e salvação da Europa. Curiosamente são esses escritos que dão origem ao conservadorismo europeu e não as discussões sobre Hastings, a carga fiscal, ou os gastos militares. Apresentada a coisa como aqui, o leitor mais incauto e menos versado na literatura conservadora, pode até acreditar que Burke realmente só se opunha a meia-dúzia de princípios da revolução e que no fundo era um pedreiro-livre que acreditava na liberdade como propriedade racional, quando na verdade a sua oposição é integral a essa visão racionalista.

 

A insistência de que a Maçonaria não é uma ideologia ou uma religião é talvez das mais curiosas. A Maçonaria gaba-se do seu anti-clericalismo, do seu apego à secularidade do Estado. Mas para o fazer não precisa de um conjunto de pressupostos, de uma afirmação de supremacia da sua própria racionalidade? Essa mesma racionalidade que lhe permite seleccionar e proceder a uma meta-intepretação de todas as religiões, para obter as suas finalidades seculares, não é em si uma racionalidade e uma interpretação cosmológica (ainda por cima alicerçada num deísmo que é totalmente insustentável nos dias de hoje) que se torna suprema face às outras? E como afirmar que uma posição que não é religiosa exclua a da sua concepção de verdade a possibilidade do Deus Vivo e Encarnado? E como todas as ideologias, esta não substituiu uma visão do bem divino por uma concepção secularizada que ordena, ela própria, a própria estrutura da Revelação?

 

No meio de tantas cortinas de fumo, esta visão do mundo, bem limitada e insuficiente, faz bem em esconder-se e lançar engodos e meias-verdades. Porque o rabo do gato está mesmo de fora.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:44


4 comentários

Sem imagem de perfil

De william a 09.01.2012 às 00:07

Tinha ouvido dizer que o Corcunda voltara à atividade e estava por aqui, e vejo que é não era mentira. Fazia falta.
Sem imagem de perfil

De areia_do_deserto a 09.01.2012 às 00:14

Nem mais! Vai um vinhito da Confraria de Carcavelos, cultivado nas terras da Estação Agronómica de Oeiras, degustado pelos confrades tão mas tão filantrópicos, tão mas tão meritocratas? Mas atenção- este locus é uma espécie de Entroncamento, pois até algumas beatas da Igreja lá o degustam tb e, por mera coincidência, talvez por habitarem todos no mesmo concelho, têm os herdeiros a laborar em postos de se lhe tirar o chapéu em bico! Ah, mas esqueci-me - esta loja é cristã!Image
Sem imagem de perfil

De areia_do_deserto a 09.01.2012 às 00:31


Quer-se dizer :) toma-se como tal, porque se Cristo cá Viesse, bania-os a todos com um bom pontapé no rabo e garanto-vos que nem sequer Bebericava tal vinho na Última Ceia, pois seria o mesmo que Se Renegar e à Sua Palavra! Que o diga o comandante da PSP de Oeiras que dizia nos media não cumprir uma determinada ordem judicial se esta fosse contundente, num país que se diz democrático, onde, em teoria, deveria haver uma separação étrica dos campos sociais, i.e., dos poderes. Talvez por isso um membro do grupo entrópico, cujo veículo de uma familiar apreendido em plena passadeira pela PSP local, tenha chegado à esquadra e agredido dois agentes, um dos quais à dentada. Foi julgado e condenado? A quem mo comprovar dão-se alvíssaras!
E porquê a construção do TIO quando há um auditório Eunice Muñoz???!!!! Porquê a construção das Torres das Palmeiras e do shopping? Porquê a construção do Oeiras Parque? Porquê que vários casos desaguam em Oeiras???!!! 
Sem imagem de perfil

De José a 09.01.2012 às 10:37


Caro Corcunda, gostei muito do artigo. É uma pena que haja quem - revelando uma grande ignorância em matéria histórica, o que não se compagina com os pergaminhos académicos que gosta publicamente de ostentar com imodéstia notória - confunda o devorismo jacobino oitocentista puro e duro (origem da maior parte dos males de que Portugal ainda hoje padece…) com um liberalismo imaginário, que de resto só existe dentro da cabeça de quem o idealiza.  

Comentar post







Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas