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Crisis state of mind

por Samuel de Paiva Pires, em 12.01.12

(Artigo publicado no n.º 5 do Lado Direito, jornal da Juventude Popular de Lisboa)

 

Solicitou-me a editora do nosso Lado Direito que redigisse um artigo em jeito de balanço do ano que se findou. Confesso que depois de ter lido, visto e ouvido tantos balanços a relembrar o ano de 2011 fiquei enfastiado. Por isto, e desde já rogo que me desculpes, Joana, em vez de procurar repetir aqui o que já todos sabem, optei por discorrer sobre aquilo que está na mente de todos desde há algum tempo a esta parte e que é definitivamente a palavra que marca o ano transacto: a crise.

 

Ora e porque em português nenhuma tradução do título supra me soava minimamente atraente e pomposa, apresento desde já as minhas desculpas aos caríssimos leitores por me atrever a dar um título em “estrangeiro”. Noutra língua poderia também ser Schaum der Tage, ou seja, espuma dos dias. Porque na verdade, a crise é, entre as suas várias dimensões, também e sobretudo um estado de espírito, que neste contexto da modernidade líquida (termo cunhado por Zygmunt Bauman), em que tudo é efémero e provisório, assume contornos que de uma forma generalizada roçam o cataclismo apocalíptico, coisa que tende a atrair facilmente a mente humana. Na espuma dos dias, praticamente não houve dia algum durante o ano de 2011 em que não surgissem notícias em Portugal, na Europa, nos Estados Unidos da América, a sugerir o iminente colapso da civilização ocidental. Civilização esta que ao conjunto do seu património histórico, cultural e espiritual alia ainda os mais altos níveis materiais de bem-estar e desenvolvimento humano de todo o mundo. Parecemos ter uma atracção inegável pelo apocalipse.

 

Acontece que apocalipse significa revelação, ou seja, não é algo necessariamente negativo, ao contrário do que o emprego habitual da palavra deixa adivinhar. Significa que, após uma revelação, após uma determinada alteração, como cantam os comunistas, “o sol brilhará para todos nós”. E não só isto se passa com a palavra apocalipse como também com aquela que está profundamente sedimentada nas mentes de milhões de pessoas e que tem conexões óbvias com o significado da primeira. Etimologicamente, crise provém do grego krísis e do latim crĭsis e significa momento de decisão, de transição. E na realidade, é essencialmente disto que se trata quando se fala em crise, especialmente quando é qualificada de sistémica. De forma simplista, uma crise tem três fases: pré-crise, escalada e resolução. E esta resolução, em sistemas complexos, faz-se por uma de duas vias ou capacidades, a homeoestase ou a homeorese. No caso da primeira, o sistema preserva-se, integrando as problemáticas com que se depara através de processos de aprendizagem simples, nunca realmente se alterando de sistema. No segundo caso, normalmente derivado da ineficácia da capacidade homeostática em responder a um problema, ocorre um processo de superação do paradigma sistémico vigente por via de um processo de aprendizagem complexa, mudando-se verdadeiramente de sistema. Neste sentido, parece-me que estamos actualmente a assistir a uma gigantesca e, de certa forma, dolorosa, reestruturação do sistema financeiro e económico internacional, com reflexos geopolíticos que se vão definindo de forma ténue.

 

Não é segredo para ninguém, em particular para os que têm lido os meus artigos publicados nesta coluna, que considero a mentalidade racionalista construtivista e planeamentista e o crony capitalism (promiscuidade entre actores políticos e agentes económicos) como factores largamente responsáveis pela crise que vamos vivendo. Mas apesar de tudo, e porque um conservador é um optimista moderado (como afirma Roger Scruton), se colocarmos a nossa visão do mundo em perspectiva e relativizarmos um pouco os tempos em que vivemos, não há que entrar em desespero, ainda que perante a catadupa de notícias e acontecimentos que enformam o estado de espírito generalizado vigente. Se nos desprendermos da nossa tradicional visão eurocêntrica, percepcionaremos claramente que vivemos num mundo melhor que o de há escassos 100 anos. Basta pensar, por exemplo, que nas últimas décadas, por via da globalização, milhões de pessoas saíram da pobreza extrema. Não podemos negar que existem problemas, muito pelo contrário, e um espírito crítico é algo sempre saudável e muito necessário para uma sociedade vibrante e com uma cidadania que se pretende activa e participativa. Mas, como em tudo na vida, há coisas negativas mas também positivas. A natureza humana é imperfeita, pelo que é simplesmente utópico pensar que alcançaremos alguma vez um mundo perfeito e acabado. Como escreveu Camões, “todo o mundo é composto de mudança”. Temos é que saber encará-la. Crises sempre existiram e continuarão sempre a existir na humanidade. Neste momento de transição, em que 2011 ficará definitivamente marcado pela crise e por movimentos como os Indignados, Occupy Wall Street e a Primavera Árabe, e quando em Portugal enfrentamos provavelmente um dos anos mais difíceis das últimas duas décadas, permitam-me deixar esta mensagem contra os histerismos que nos fazem temer regressar quase à Idade da Pedra.

 

Quanto ao nosso país, é seguir o lema britânico “Keep Calm and Carry On”, para que, como escreveu Fernando Pessoa, ainda possamos cumprir Portugal. Não será fácil, mas se há algo verdadeiramente constante na nossa História são as permanentes crises económicas, sociais e políticas em frente das quais nos soubemos reinventar. Cabe-nos, reportando-me a Portugal na Balança da Europa de Almeida Garrett, “não nos iludir com aparências, não nos cegar com facilidades. Temos estorvos grandes que remover, obstáculos imensos que superar, grandes e perplexas e quase inextricáveis dificuldades que deslindar e desembaraçar. (…) Venceremos, mas não sem trabalho. Havemos de triunfar, mas não sem sacrifício”.

 

Finalizo expressando o meu desejo de que tenham um óptimo ano de 2012!

publicado às 00:44


5 comentários

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De Zephyrus a 12.01.2012 às 08:48

Em resposta a muito do que foi dito sobre Maçonaria.

Teoricamente, um dos objectivos da Maçonaria é «provar» a existência de Deus, do divino. A Maçonaria envereda pela corrente teosofista herdada das antigas escolas de mistérios, por oposição à corrente teológica que prevaleceu no Ocidente e na bacia do Mediterrâneo nos últimos 1500 anos. A Maçonaria visa o contacto directo com o divino, por oposição a especulações teológicas, que aliás despreza.

A tradição dos mistérios teve o seu auge no Antigo Egipto, nos povos celtas (druidas) ou com escolas como os Pitagóricos. Já nessa época o acesso era limitado, e feito então por convite. Allternativamente, o candidato deveria provar a sua rectidão moral e a sua capacidade inteletual através de uma série de provas, que se poderiam prolongar por mais de 100 anos. Além disso, uma vez iniciados, estavam obrigados a guardar segredo.

O Cristianismo Primitivo começa gnóstico, isto é, esotérico. No entanto, nos séculos seguintes, a corrente gnóstica é abafada. Nomes ilustres como Santo Agostinho muito contribuem para que o cristianismo esotérico quase desapareça. Os membros das escolas de mistérios passam a ser vistos como magos perigosos, ou praticantes de magia negra. Bruxos e bruxas, quando não conseguem escapar, acabam por ser condenados à morte. Tudo o que envolva conhecimento teosófico é agora obra do demónio.

Aproximadamente entre o fim do Império Romano e a destruição da biblioteca de Alexandria, e o século XII, o conhecimento esotérico fica essencialmente ligado aos judeus, que se dedicam ao estudo da cabala, e a alguns intelectuais islâmicos, neste caso por influência do estudo da cultura clássica.

No século XII é fundado a Ordem dos Templários, que segue nitidamente uma via gnóstica. Graças a um estilo de vida austero os Templários atingem rapidamente um nível de riqueza invejável e grande sucesso militar. Todos devereis saber a sua importância no processo de Reconquista e na criação de Portugal tal como o conhecemos. Em Tomar, no Convento de Cristo, surgem referências à árvore da vida (cabala), geometria sagrada, ao demiurgo e a outros símbolos herméticos, astrológicos ou alquímicos.

Contudo, a inveja e a cobiça motivam o fim dos Templários durante o século XIII, e a morte do seu grão-mestre, Molay, condenado à fogueria. Antes de morrer, declara que o rei de França e o papa não viverão muito tempo. Ambos morrem nos meses seguintes...

D. Dinis salva os Templários portugueses, que passam para a recém-fundada Ordem de Cristo.

Com o Renascimento tudo muda. O estudo da cabala florescera na Península Ibérica, mas com a expulsão dos judeus, feita pelos reis católicos, e as perseguições em Portugal, iniciados mesmo no final do século XV, este conhecimento passa para outras regiões do Mediterrâneo e da Europa. Triste fim têm também os alumbrados de Sevilha, perseguidos pela Santa Inquisição.

O aumento da intolerância no mundo católico leva a que a Maçonaria se separe da Igreja Católica. Entenda-se Maçonaria como a vertente gnóstica que se encontrava no seio da Igreja, e que é tradicionalmente representada pelos pedreiros-livres, responsável pela arquitectura dos templos. Com esta saída, as igrejas católicas deixam de ter uma orientação e uma arquitectura baseada nos ensinamentos esotéricos. O conhecimento gnóstico floresce então nos séculos XVI e XVII na Europa Média e surge associado à revolução científica. Da astrologia nasce a astronomia moderna, da alquimia a química, e da Medicina Antiga a Medicina actual. Muitos dos grandes nomes da ciência e da música estão então ligados a sociedades secretas e iniciáticas, mormente nos Países Baixos, em Inglaterra ou em França, entre outros estados da Europa Média. 

No século XVIII o Iluminismo, a Revolução Francesa e a Independência dos EUA, tudo o que referi tem como catalizador a influência da Maçonaria. E neste século é fundada a Ordem dos Illuminati.   
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De Zephyrus a 12.01.2012 às 09:01

No século XIX a Maçonaria surge ligada a Napoleão, à independência de quase todos os actuais países da América Latina, à guerra civil norte-americana ou à instalação da Monarquia Constitucional em Portugal.

É também neste século que o ocultismo ganha uma notável expressão entre as elites intelectuais e aristocráticas dos EUA e das grandes nações europeias. Destaque para Helena Blavatski, fundadora da Teosofia, que terá uma influência extraordinária no nacional-socialismo alemão.

No século XX esse movimento continua. Aleister Crowley, Helena Blavatski, Papus ou Eliphas Levi influenciam políticos, cientistas, estrelas pop, realizadores de Hollywood, estilistas, pintores, médicos, etc. Destaque, por exemplo, para Jung ou Freud, Fernado Pessoa ou David Bowie.

Quase todos os presidentes dos EUA são membros da Maçonaria. Washington DC é construída de acordo com os ensinamentos dos mistérios. Tais referências surgem também na sede do Parlamente Europeu, na sede da ONU ou do Centro Rockfeller em Nova Iorque.
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De Zephyrus a 12.01.2012 às 09:11

Não estamos perante uma religião. Estamos sim perante um conjunto de ensinamentos muito antigos, uma espécie de Filosofia, que vêm dos mistérios egípcios e gregos, da cabala judaica ou do cristianismo gnóstico primitivo. A eles aderem uma reduzida percentagem da população; contudo, a sua influência é extraordinária, pois, regra geral, apenas as elites financeiras, políticas, aristocráticas ou intelectuais entram.

A Maçonaria é uma escola de mistérios extraordinária e mal compreendida devido à falta de informação que grassa entre a maior parte da população. Os seus objectivos são nobres e elevados, mas isso não impede que dê abrigo a canalhas. O mesmo sucede na Igreja Católica, outra instituição nobre com objectivos altruistas, por onde passaram papas acusados de homicídio ou sodomia, padres acusados de fraude, roubo ou pedofilia; e há ainda a Inquisição, ou os entraves colocados ao avanço da Ciência.

Pertencer ou não à Maçonaria é algo do foro íntimo. Obrigar a dizer se se pertence ou não à instituição mais parece uma espécie de caça ás bruxas ou perseguição medieval.

E se cuidam que saberão que são os verdadeiros maçons, enganam-se. A maior parte jamais aparecerá em público ou deixará a menor pista sobre a sua filiação
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De Zephyrus a 12.01.2012 às 09:13

Nota: peço desculpa pelos vários erros que tenha cometido. O texto foi escrito à pressa. Alguma dúvida e passarei por cá para responder, dentro dos meus conhecimentos. Saudações.
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De dr.vijaya a 13.01.2012 às 11:30

Gritam os portugueses à porta da Angela alemã.
Ich bin sehr hungrig (Tenho muita fome),

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