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Putin está em campanha e tal como um seu já longínquo predecessor que no ano de 1941 apelava à Santa Mãe Rússia, o candidato-já eleito faz subir a parada, não se contendo nas palavras. O discurso patriótico que envereda sempre por aquele caminho que tem como estação terminal as Forças Armadas, pode ser facilmente lido nas suas entrelinhas. Em jogo estão interesses económicos e a luta pelo controlo da energia, daí a "extrema preocupação" com eventos ocorridos no norte de África e agora, na Síria. As empresas russas habituadas a monopólios, são agora substituídas por concorrentes ocidentais. Tudo isto, no seguimento do desabar do poder russo no Cáucaso e correspondente penetração norte-americana na Ásia central ex-soviética. Desta forma, a afirmação da incredulidade pelo desejo dos EUA em tornarem-se invulneráveis a qualquer ataque, só poderá ser um exercício de wishful thinking, pois a invulnerabilidade a qualquer tipo de ameaça, deveria ser o objectivo primeiro de qualquer Estado independente, principalmente quando, como é o caso, se trata de uma potência ainda hegemónica. O antigo discurso do maior país do mundo que "vive cercado" por inimigos em potência, renasce das cinzas e de facto, todos os programas de armamento soviéticos, tiveram sempre como argumento primeiro, a invulnerabilidade do império.
A realidade dos nossos dias aponta para outros dados dificilmente ignoráveis. O primeiro consiste nas extremas dificuldades financeiras dos EUA, repercutindo-se estas no extenso e intenso dispositivo militar. Finda a missão de contenção do expansionismo soviético, a NATO perdeu o objectivo essencial para o qual havia sido criada, servindo agora e alternadamente, para intervenções que façam vingar os interesses estratégicos americanos - bastas vezes em contradição com os dos seus aliados europeus ou até em detrimento destes -, ou passando à acção sob a capa legitimizadora emprestada pela impotente ONU. Obama adverte quanto a uma "drástica redução" de recursos militares e o que ainda não se pode garantir, é se tal anúncio se deve às já citadas dificuldades, ou pelo contrário, à bem calculada previsão da entrada em serviço de novos meios tecnológicos que tornem o até agora pesadíssimo aparelho, mais ágil e racional. Não sabemos.
Putin anuncia um programa de rearmamento de uma ambição desmedida, assemelhando-se no sector naval, à reedição do Plano Z que um dia o III Reich sonhou aplicar à sua marinha. Não se medem as palavras, o anúncio é de uma colossal grandeza e deliberadamente arrisca uma corrida aos armamentos e o trilhar do mesmo caminho que nos anos 70 e 80 levou à liquidação da URSS. Se a isto juntarmos a expansão militar chinesa - que até agora possui umas forças armadas muito inferiores no plano de vista táctico e estratégico -, estamos então perante uma nova realidade, à qual se junta um claro indício do voltar de atenções dos EUA para o Pacífico. É neste sentido que devem ser lidas as notícias de um certo abandono da Base das Lajes, sem que tal signifique o seu fecho, pois os americanos não arriscarão a reedição do "buraco negro" dos tempos da Batalha do Atlântico. De um dado estamos certos: longe ainda estão os tempos do completo ocaso da supremacia militar norte-americana.
Resta-nos pensar em que termos o nosso país melhor pode garantir a segurança dos resquícios da sua soberania, especialmente quando se trata de uma vastíssima, potencialmente rica e cobiçada área marítima no ainda centro do mundo: em suma, urge olhar para sudoeste.