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A entrevista de D. Francisco ao semanário Sol

por Nuno Castelo-Branco, em 03.03.12

Francisco van Uden foi o primeiro da família, exilada durante 115 anos, a nascer em Portugal, e espera viver até aos 100 – como a sua mãe, neta do Rei D. Miguel, falecida há dias. Fez o curso dos Comandos e esteve na guerra de África, onde hoje tem negócios. Amante de pólo, de parapente e de caça grossa, já pescou um tubarão de 400 kg e arrepende-se de ter morto um elefante.

À chegada ao Turf Club, no Chiado, um empregado fardado de branco pergunta-nos: «Vêm ter com o D. Francisco?». À medida que nos conduz a uma sala dominada por dois grandes retratos do Rei D. Miguel, o bisavô de Francisco van Uden, vai acendendo candeeiros e aquecedores a gás. O Turf, um dos mais exclusivos gentlemen’s clubs lisboetas, tem uma decoração antiquada, com temas de caça e hípicos, e quadros, esculturas e fotografias da realeza. Conta ainda com um pátio ajardinado, semelhante a um claustro, que oferece aos seus sócios um refúgio no centro de Lisboa.

Como lida com o facto de o seu bisavô, D. Miguel, ser um Rei de má memória? Acha que foi injustiçado?
Completamente. Um homem que perdeu uma guerra, vai para o exílio sem um tostão e casa as filhas todas com as casas reinantes da altura – Bélgica, Luxemburgo, Baviera, Liechtenstein, Áustria-Hungria, Borbón-Parma, etc. – é porque aquela casa era uma casa como deve ser. Foi um santo homem. Em 1966 houve a trasladação do corpo dele da Alemanha aqui para a Sé. Antes de embarcar no avião em Munique a urna foi aberta e, perante o pasmo de toda a gente, o corpo estava intacto.

É um sinal de santidade?
Pode ser. Toda a história que conhecemos de D. Miguel no exílio foi exemplar. A guerra civil em Portugal foi muito baseada na propaganda. A maioria do povo português era contra os liberais afrancesados. Mas criou-se a chamada Quádrupla Aliança, com a Espanha ao lado, para invadir o território português. D. Miguel ainda tinha um exército muito forte e o apoio do povo, mas disse: ‘No momento em que os espanhóis cá entrarem nunca mais de cá saem. Prefiro que seja o mano Pedro a tomar conta de Portugal do que sejam os espanhóis’. Tirou os anéis dos dedos e embarcou em Sines com a roupa que tinha vestida.

E foi para onde?
Para Roma. Foi recebido pelo Papa. Os liberais e o irmão tinham-lhe atribuído uma pensão e ele chegou a Roma e disse: ‘Não quero receber nem um tostão’. E ficou sem nada. Era um grupo de portugueses que lhe mandava um donativo mensal.

E vivia simplesmente?
Com total simplicidade. Depois foi convidado pelo Metternich, o primeiro-ministro austríaco, para ir para Viena e começou a ser conhecido. Já com 49 anos, casou com uma princesa Löwenstein, teve um rancho de filhas e um filho.

O pai da sua mãe.
O meu avô, D. Miguel II. Fez carreira militar ao serviço do imperador Francisco José da Áustria. Uma irmã dele era cunhada do imperador e quando a imperatriz Sissi morreu foi ela que tomou o lugar no protocolo de Estado.

Mantém ligação com esse ramo da família?
Sim. Quando a minha mãe fez 100 anos reunimos os mais próximos. Houve um grande jantar no CCB, com 400 pessoas, e uma missa na Igreja do Bom Sucesso. O Papa mandou uma bênção lindíssima, porque a minha mãe conheceu-o quando ele era cardeal em Regensburg. Já a tinha recebido pessoalmente na sua visita a Fátima. Vieram primos de toda a Europa. Têm um respeito enorme à minha mãe porque, de facto, ela teve uma vida incomum.

 

E o seu pai?
O meu pai era um holandês do Sul, católico. Era um cientista brilhante. Não lhe deram equivalência ao curso de Medicina que tinha tirado em Viena, por isso voltou a tirar o curso cá e dedicou-se à investigação científica tropical. Em 1956 fundou o Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras, que se tornou um dos grandes centros mundiais. Desenvolveu investigação sobre genética molecular, o que na época não era normal. Depois deu aulas na Universidade Nova e trabalhou até morrer, em 1991.

Como foi a sua infância?
Lá em casa havia um ambiente de quinta. Éramos seis filhos. Os meus irmãos andaram no S. João de Brito e iam a pé até à Trafaria e apanhavam o barco. Também fiz isso mas ao fim de algum tempo fiquei doente e depois comecei a ir às aulas da fundação [Nun’Álvares Pereira, criada pela mãe]. Fui colega daquela rapaziada que a minha mãe acolhia, 140 crianças. Ainda sou amigo de alguns. Fazia 2,5 km a pé para lá e depois no regresso o mesmo.

Pessoas de um estrato social diferente...
A maior parte eram pessoas oriundas do Alentejo que vinham à procura de emprego. Mas na minha casa habituámo-nos a dar-nos com toda a gente. Não fazíamos essa distinção.

Os outros miúdos da escola da fundação tratavam-no de maneira diferente?
Era igual. Eu andava de pé descalço, andava sempre a fazer diabruras. Quando estava na 3.ª classe comecei a faltar às aulas porque passava o dia com o pessoal da lavra e almoçava com eles. Um dia o professor disse à minha mãe: ‘Então o seu filho está doente?’. Levei uma sova terrível.

Tratava os seus irmãos por tu ou por você?
Por você. Os meus pais também.

Como é que a alta sociedade da altura via a sua mãe?
De início com alguma perplexidade, depois muita gente entendeu e começou a colaborar com ela. Outros nunca a entenderam e diziam: ‘Coitada da Sr.ª Infanta, casou com um estrangeiro, que deve ser comunista’. Ela mandava os filhos, nas férias, para o campo. Tive a sorte de passar muitas férias na Chamusca, onde montava a cavalo, toureava, caçava lebres. A partir da puberdade, íamos para o estrangeiro trabalhar para ganharmos as nossas semanadas.

Iam para onde?
Eu fui sempre para o Principado do Liechtenstein, porque tinha lá família. Ficava em casa de um amigo dos escuteiros e ia de bicicleta para uma fábrica de conservas, com imigrantes italianos, onde trabalhava 10 horas por dia. À noite mudava de roupa e ia para o castelo de Vaduz, para jantar com os príncipes reinantes, meus primos.

Como eram esses jantares?
Eram jantares de gravata. Mas em ambiente de família.

Com uma certa pompa?
Não. Nestas famílias não há pompa. Quer dizer, quando ia para casa das minhas tias Thurn und Taxis, com 8 ou 9 anos, lembro-me que o pessoal ainda usava peruca branca e fardas encarnadas nos dias de festa.

Era mesmo à antiga.
Era uma questão de tradição, porque depois o relacionamento entre os patrões e os empregados era óptimo – todos os filhos dos empregados tinham subsídio para estudar e tinham garantido um lugar na casa se quisessem.

O que fazia na fábrica de conservas?
Empacotava. Mas depois mudei para um trabalho de que gostava muito mais. Fazia a manutenção do cemitério do principado, que é a coisa mais bonita do mundo. Ficava na encosta da montanha com uma vista lindíssima sobre o vale e o rio Reno lá em baixo. Do outro lado ficava a Suíça.

Quanto ganhava?
Três francos e meio por hora, que era uma fortuna. Fui um dos primeiros a comprar uma motorizada boa, uma Zundapp, enquanto os meus amigos de famílias ricas gastavam tudo nas férias. E arranjei lá uma namorada, filha de um conde húngaro. A tia dela nunca quis sair da Hungria e esteve presa 10 anos. Quando foi solta, o pai da minha namorada pediu para eu ir ajudá-la. Ela era das famílias mais importantes da Hungria e vivia num cubículo. Quando entrei na sala fiquei com o meu coração latino aos saltos porque era uma senhora muito bonita. Convidei-a para o melhor restaurante de Buda, onde iam os dirigentes comunistas e os turistas americanos. O chefe de mesa percebeu que ela era uma senhora dos velhos tempos. Levou-nos para a melhor mesa e chamou o conjunto de violinistas ciganos, que não arredaram pé durante todo o jantar.

Desde que idade tem o bigode?
Desde os 17 anos. Mas no curso dos Comandos tive de o cortar e de rapar o cabelo.

Foi um desgosto?
Não. Na prova de choque havia um placar debaixo de um embondeiro que dizia: ‘Barbearia Palanca, não corta mas arranca’. Um dia estávamos na parada a ler o Código Comando e chamam-me. Recebi um envelope que vinha da parte do comandante. Pensei que tinha feito algo de errado. Era uma carta a dizer que devido aos bons resultados durante o curso passava a ser autorizado a usar ‘o apêndice capilar superior’ [risos]. Então deixei crescer o bigode.

Como foi parar aos Comandos?
Ofereci-me para os pára-quedistas e quando terminei os primeiros três meses fui para Lamego, para as Operações Especiais. Aí decidi oferecer-me para os Comandos. Fomos para Luanda tirar o curso de Comandos, durante seis meses, em 1971. O curso foi muito duro mas muito bem dado. Foi das organizações mais extraordinárias que conheci até hoje.

Como eram os exercícios?
O curso começava com a prova de choque. Fomos acordados com altifalantes a meio da primeira noite e tínhamos de formar em três minutos na parada. Meteram-nos em viaturas e andámos 10 a 12 horas até ao meio do mato. Quando chegámos fizemos um mini acampamento. Estávamos em Fevereiro, que é dos meses mais quentes em Angola. A prova de choque passava pela prova da sede, em que há uma actividade permanente. Tínhamos apenas um cantil de água por dia que tinha que dar para beber e fazer a barba. A prova acabava quando cerca de 60% desmaiavam por desidratação, mas tínhamos de desmaiar em pé.

Foi dos 40% que não desmaiaram?
Fui dos primeiros a desmaiar, apesar de depois ter ficado em primeiro lugar no curso. O motorista deu-me água sorrateiramente durante a noite. Só que bebi demais, transpirei imenso e perdi os sais minerais todos. O futuro furriel sofria mais, corria mais e comia depois dos soldados. O aspirante a oficial corria ainda mais. Isto tudo para que fôssemos respeitados nas hierarquias.

Acabou por ir para Moçambique.
Formámos duas companhias. Escolhi a que foi para Moçambique porque achei que o General Kaúlza de Arriaga me dava mais garantias. Começámos a formar Comandos em Moçambique. Entre os 21 e os 24 anos tive uma experiencia muito forte. Andávamos muitos dias no meio do mato às vezes quase sem água, comendo muito pouco.

Tinham de caçar para se alimentarem?
Não. Nem a boca abríamos, só fazíamos gestos. O silêncio era total e não dávamos um tiro que não fosse absolutamente necessário. Éramos uma tropa especial e do melhor que havia no mundo. Não tivemos um único morto em combate. Durante a instrução, em Angola, morreram seis, em Moçambique não tivemos nenhuma baixa.

E a sua namorada?
Ela disse que não ia esperar quatro anos. Então disse-lhe que tinha de arranjar outra pessoa porque o país estava à frente da namorada. Um dia estava no Norte de Moçambique e vi no correio uma carta para mim. Era o convite para o casamento dela.

Não se ressentiu na altura?
Não. Era um rapaz novo.

Fez mais de uma comissão.
Um dia fui chamado pelo comandante-chefe e o adjunto dele disse-me: ‘Sabe porque é que o comandante o mandou chamar? Ele vai pedir para fazer outra comissão. Não se meta nisso, vá para casa’. Era o Major Tomé da UDP. O comandante falou comigo e disse que estávamos a ganhar a guerra no mato e que tínhamos o apoio da população. Disse que precisava de tropas especiais e convidou-me para ir para o Dondo apoiar o grupo de pára-quedistas especiais africanos. Pedi-lhe 15 dias de férias para visitar a família em Portugal e voltei para lá. Fiz o curso de pára-quedista e fui coordenar as companhias de GEPs [Grupos Especiais de Pára-quedistas] de toda a zona de Tete.

Ainda estava em Moçambique no 25 de Abril?
No dia 25 de Abril fui ao bar às 10 da manhã, no comando das ZOT [Zona Operacional de Tete]. A rádio BBC estava a dar a notícia do golpe de Estado em Lisboa. Na sequência do 25 de Abril, o comandante do CIGE [Centro de Instrução de Grupos Especiais] convidou um comissário para dar aulas, onde se dizia que a Frelimo é que eram os bons e nós os maus. Foi um choque terrível. Com um grupo de oficiais da Beira definimos que manteríamos o combate para defender a população de Moçambique. As pessoas não falam nisso, mas 40% do orçamento militar do Ultramar era dedicado à acção de apoio às populações.

Mas acabou por ter de regressar.
Em Junho, o General Costa Gomes, que tinha sido nomeado comandante-chefe das Forças Armadas, foi a Moçambique e fez a espantosa declaração de que não ia haver referendo para a autodeterminação, que ia ser feita a independência e que o poder ia ser entregue à Frelimo. Entrei numa situação psicológica muito tensa. Fui convidado para um plenário do MFA e aproveitei estar com o microfone na mão para dizer tudo o que tinha a dizer. O comandante do meu regimento desatou aos gritos mas não me calei. Fui expulso e meteram-me num avião para Lisboa. Antes de embarcar, começam a chegar oficiais dos GEPs e um deles, o mais velho, oferece-me um presente e diz: ‘O nosso coração está muito contente porque o capitão vai finalmente para junto da sua família, mas e nós? Qual vai ser o nosso futuro?’. Eu tinha sido educado que um homem não chora, mas começaram-me a cair as lágrimas pela cara abaixo. Senti nos meus ombros o peso da traição profunda que Portugal estava a fazer àquela gente.

Como foi o regresso?
Cheguei cá no dia 3 de Agosto de 1974 e fui para a Caparica. Apareci em casa fardado e às tantas a minha mãe disse-me para mudar de roupa. Houve pessoas que me chamaram e disseram que o MFA estava a ser dominado pelos comunistas e que o Spínola estava cada vez mais isolado e era preciso dar-lhe apoio. Foi então que fizemos a Maioria Silenciosa. Nessa altura soube que tinha um mandado de captura por estar no activo e ter actividades políticas. Eu que passava à disponibilidade a curto prazo, quando todos eles estavam a fazer política. Era para me liquidar.

Foi aí que invadiram a casa da sua mãe?
Foi. Liguei-lhe e, como ela tinha um carregamento de estrume, foi ao meu quarto tirar tudo e enterrou no estrume. Às duas da manhã um grupo do MDP-CDE bateu-lhe à porta e revistaram a casa. Quando iam a sair a minha mãe disse: ‘O que os senhores estão a fazer aqui é pior do que a Gestapo fazia em Viena’. Como tinha o mandado de captura já não fui a casa.

Foi para Espanha.
Sim. Tive uma sorte enorme a passar a fronteira em Badajoz porque o meu nome já era um dos procurados. Quando cheguei telefonei para o príncipe Juan Carlos – ainda não era Rei. Ele disse para nos encontrarmos no dia seguinte em Madrid, e assim foi. Quando entrei na Zarzuela ele recebeu-me de braços abertos e disse: ‘Meu caro primo’. Conhecia-me mal mas recebeu-me bem.

Qual a sua actividade em Espanha?
Trabalhava numa organização clandestina com base em Espanha para apoiar o povo português que não estava com o Partido Comunista. Ajudámos o chamado levantamento popular do Verão Quente de 75, em que houve assaltos às sedes dos partidos comunistas e de extrema-esquerda.

Vinha a Portugal clandestinamente?
Claro. Passava cá a maior parte do tempo, mas cortei o bigode.

Como é a vida de clandestino?
Há um livro que se chama Dossiê do Terrorismo, das edições Avante, de 1976, que descreve dia após dia o calendário de todas as acções ‘terroristas’, ou seja, anticomunistas. Nesse livro está uma fotografia minha na estação da Campanhã que tem como legenda: ‘O Capitão van Uden, mais conhecido pelo Colombiano, momentos antes de iniciar uma operação terrorista na cidade do Porto’. Não fui preso por milagre. Detectaram-me, mas despistei-os sempre.

Quando é que vai para os Açores?
Fui convidado por um amigo para passar lá férias em 1976. Tive uma alegria suprema por verificar que havia uma parcela do território nacional onde não havia um único comunista. Era um paraíso. Namorava-se à janela às quartas e domingos e quem passasse na rua podia detectar os avanços do namoro com a percentagem do corpo do rapaz que estava dentro da janela.

Era um paraíso. Mas não havia pobreza?
Não havia a miséria que conheci nos anos 50 na Caparica.

Nessa altura começou a pescar.
Esse meu amigo tinha um barquinho de pesca desportiva de alto-mar. Como eu percebia um bocado de navegação começámos a sair com o barco e apanhávamos tubarões azuis. Ia imensa gente para o porto ver e os jornais tiravam fotografias.

Lembra-se do maior que apanharam?
Apanhámos um mako com 400 kg. Um dia uma menina do Turismo disse que receberam uma carta do editor da melhor revista de pesca da Suécia, que queria experimentar as águas dos Açores para pesca grossa. Eu levei-os a pescar. Os tipos partiram as canas todas e não pescaram nenhum atum, mas ficaram fascinados. No último dia o homem disse-me: ‘Francisco, você tem aqui hot spot mundial da pesca desportiva’.

Seguiu esse conselho?
Não queria ir para Lisboa aturar aquela gente toda. Fui ao banco e pedi um empréstimo para fazer uma empresa de pesca desportiva. O responsável do banco era um fanático por pesca desportiva. Iniciei o Big Game Fishing nos Açores, com a minha empresa, a Pescatur. Foi um êxito.

É nessa altura que conhece a sua mulher.
Em 1978 vim passar três meses ao continente e sempre que estava com alguém da minha família perguntavam-me se conhecia a Teresa. Sem eu saber, arranjaram um encontro com ela num restaurante no Chiado. Como não sabia de nada, convidei uma amiga para ir comigo. Sentei-me na mesa reservada. Passados uns minutos chega uma menina muito gira que olhou para nós e deu meia-volta. Senti que ela fugiu da mesa. Voltou mais tarde com os meus irmãos e sentou-se longe de mim e não me falou durante toda a noite, até que percebi que ela é que era a Teresa. Por volta da meia-noite fui levar a minha companhia a casa rapidamente e voltei a tempo de apanhar a Teresa lá.

Quando se casaram?
Ao fim de um ano casámos nos Açores. Foi só o núcleo mais íntimo da família. Éramos 15 pessoas, mas foi muito bonito.

Não é o casamento que se espera de uma pessoa da sua condição.
Em 1980 o ambiente em Portugal era muito apertado. Não dava para grandes festas.

Como foi a educação que deu aos seus filhos? Foi igual à que recebeu?
De certo modo, mas mais meiga que a que a minha mãe me deu.

Os seus filhos não tiveram educação militar?
Não, mas faz-lhes falta. Na minha opinião um acto vale mais do que mil palavras. Eles conhecem mais ou menos a minha vida, sabem os valores que defendo e espero ter-lhes transmitido isso. Até agora acho que sim, porque o comportamento deles só me tem orgulhado. São miúdos impecáveis. Não lhes estou sempre a ralhar.

Quando saíram dos Açores?
Em 1988, quando os meus filhos já estavam a crescer. Voltei lá pela primeira vez em Setembro do ano passado. Fui com um amigo que queria levar o filho a pescar. Pesquisei na internet e vi um barco de um skipper que trabalhou para mim. Era um miúdo vindo de Liverpool que um dia, nos anos 80, bate-me à porta. Tinha 17 anos e tinha fugido de casa porque tinha visto um artigo numa revista. A minha mulher ligou logo para a mãe dele. Dei-lhe emprego e hoje é o melhor skipper de todo o Norte do Atlântico.

Depois mudou de ramo de negócio.
Sim, radicalmente. Fundei uma empresa de imobiliário, estávamos no início do boom imobiliário. Durou de 1988 a 1991.

Que tipo de casas vendia?
Eram sobretudo projectos de reconstrução de prédios em Lisboa. Por exemplo, os Terraços de Bragança, que era uma fábrica de cerveja, fui eu que vendi ao Grupo Mello. É um bocado incómodo viver lá dentro. Consegui, mesmo assim, que o Siza Vieira fizesse estacionamentos para todos os habitantes. O Siza é bom para as volumetrias, mas não sabe o que é ter uma família.

Nessa altura ganhou muito dinheiro?
Fui ganhando para viver como deve ser e os miúdos estarem em boas escolas.

Como conheceu o André Jordan?
Em 1991 houve um sueco que me convidou para jogar pólo na Quinta da Marinha. Gostei imenso e comecei a jogar. Um dia houve um jantar de pólo e aparece um senhor com sotaque brasileiro que disse que tinha gostado de me ver jogar. E disse que sabia que eu estava ligado ao ramo imobiliário. Era o André Jordan. Passado um minuto perguntou se queria trabalhar com ele no futuro Belas Clube de Campo.

Quando deixaram de trabalhar juntos?
Há cerca de cinco anos, o meu amigo Jorge Ferro Ribeiro perguntou-me se queria trabalhar com ele. Fui ao gabinete do André Jordan e contei-lhe que ia fazer 60 anos e queria fazer projectos em África. Aquela história quando saí da Beira, em 1975, a escorrer lágrimas, esteve sempre na minha cabeça. Despedimo-nos afectuosamente e fui trabalhar com a Geocapital. Neste momento estou com projectos na Guiné-Bissau, Angola e Moçambique. Estamos a concentrar-nos em tudo o que seja banca, energia, agro-indústria e infra-estruturas.

Uma grande mudança de ramo. Começou na pesca, depois imobiliário e turismo…
Sim e estou a ter algum êxito. Também fiz uma fábrica de descasque e empacotamento de caju em Bolama, na Guiné, juntamente com o meu amigo Alpoim Calvão. Tem 250 postos de trabalho.

A fábrica é rentável?
Vai pagando as despesas, mas ainda não tirámos de lá dinheiro nenhum. Damos 10% dos resultados para um fundo de apoio aos antigos combatentes. Também apoiamos alguns jovens com bolsas de estudo.

E em Angola, o que está a desenvolver?
Um projecto de habitações sociais que são kits de auto-construção. A burocracia tem sido difícil, mas acho que vamos conseguir.

Portugal vive tempos difíceis. Acha que poderia voltar a ser uma monarquia?
As repúblicas implantam-se com golpes de Estado e assassínios – foi o que aconteceu em Portugal, nunca foi referendada. As monarquias só podem ser restauradas ou instauradas com uma grande onda popular. Neste momento não creio que a monarquia ganhasse. Mas se a situação piorar vai-se questionar o regime.

Algumas pessoas ainda pensam na monarquia como absolutista?
Há falta de informação, mas as pessoas já sabem que todos os países de maior sucesso na Europa são monarquias, onde há mais liberdade que nas repúblicas. Com excepção da Arábia Saudita e mais um ou outro caso, todas as ditaduras no mundo são repúblicas.

São ricos graças à monarquia ou mantêm-se monarquias por serem ricos?
São países que não tiveram razão nenhuma para mudar de regime. A Rainha de Inglaterra é Chefe de Estado de 16 países no mundo inteiro! Nenhum Presidente o conseguiria ser. Sempre que há uma eleição do Presidente, o país divide-se a meio. Será esse o bom início de uma chefia de Estado?

Mas acha sequer concebível um regresso à monarquia? Não é uma página na História que já foi virada?
As três repúblicas que tivemos em Portugal não foram grande coisa. A primeira república foi um desastre total, a segunda foi uma ditadura, e a terceira é aquilo que se vê. Se é isto que a gente quer…

Há quem defenda que a sua mãe seria a herdeira legítima do trono. Porquê?
Talvez por, até há uns dias, ser a única neta do Rei D. Miguel. Mas o irmão dela, D. Duarte Nuno, era o filho varão e foi o pretendente aceite quer pelos liberais quer pelos tradicionalistas no acordo de Dover.

Caso o seu primo não se casasse seria você o chefe da Casa Real?
Perguntei isso uma vez. Em princípio, se ele não tivesse filhos, passaria por mim.

Como é que ele viu isso?
Entretanto casou. Na nossa família casamos muito tarde. Por isso é que a minha mãe era neta de D. Miguel. São 210 anos em três gerações.

E como teria assumido essa responsabilidade caso D. Duarte não tivesse casado?
Enquanto fosse vivo ele seria o Chefe da Casa. O que eu teria de fazer era preparar os meus filhos. Uma coisa é educar um miúdo normalmente, outra coisa é educá-lo para essas funções. Tem de viajar, aprender línguas e ter outros contactos.

D. Duarte encarou isso como alguma quebra de lealdade?
Houve intrigas, como há sempre. Mas tivemos uma conversa a três – a minha mãe, ele e eu – e a coisa ficou esclarecida, porque eu não tenho a mínima vontade de assumir essas funções, que são terríveis. Ser chefe de uma casa real numa república é a pior coisa que pode haver. Tem as responsabilidades todas e não tem o exercício. Ele é um homem sacrificado uma vida inteira.

Um dos seus passatempos é a caça.
Ainda caço, mas cada vez atiro menos. Já não atiro nos troféus grandes. Nas férias ia a África todos os anos para caçar, na Tanzânia. Quando a guerra terminou em Moçambique comecei a ir para lá.

Qual foi o maior animal que já matou?
Foi um que jurei que nunca mais caçava, um elefante, em Moçambique. Andava a destruir as machambas da população e o Governo pediu para ser abatido, mas fez-me imensa impressão.

Também faz parapente. Desde quando?
Tive um acidente em Évora a fazer pára-quedismo. Distraí-me com a paisagem e ia caindo nuns fios de electricidade. Aterrei a grande velocidade e acabei por me magoar na coluna. Em 2004 aprendi a fazer parapente com motor. É muito mais perigoso que o pára-quedismo, mas é muito mais simpático em termos físicos.

Também é presidente da Associação Portuguesa de Pólo. É um jogo elitista?
Assim-assim, mas é muito mais caro ter um barco na doca do Bom Sucesso. Não se discute se as pessoas têm um iate, mas se tem quatro ou cinco cavalos e joga pólo…

Até quando pensa trabalhar?
Como não tenho esperança que o Estado me pague uma pensão até morrer, e como espero viver até aos 100 anos, vou continuar a trabalhar enquanto tiver capacidade para isso. Enquanto puder jogar pólo também posso trabalhar.

 

publicado às 14:15


3 comentários

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De WZD a 03.03.2012 às 16:57

Esta entrevista fez-me lembrar que em tempos, um certo príncipe adolescente andava pelos Países Baixos a aprender como se faziam canhões e se construiam navios... Entretanto o jovem príncipe tornou-se um homem e revolucionou o seu país...
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De Bic Laranja a 03.03.2012 às 20:54

Ainda não acabei de ler mas venho já comentar. Que grande entrevista! Como saiu no jornal nem sei.
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De Anónimo a 05.03.2012 às 15:37

Excelente entrevista. Parabéns a quem fez as perguntas e a quem as respondeu - D. Francisco van Uden.
Maria

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