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Alberto Gonçalves, crónica Esta rotunda pátria, sub-título "Os homens que dormem contigo na cama":
«Mais um ano, mais um Dia Internacional da Mulher. Alguns acham escandaloso que em pleno século XXI ainda haja necessidade de assinalar a data. Eu estranho que em pleno século XXI alguns ainda achem a data neces- sária. E sobretudo que algumas se empenhem tanto na respectiva comemoração.
A menos que a coisa possua virtudes insuspeitas, debater, louvar e sequer considerar o papel da "mulher" genérica é enlatar cada senhora numa categoria que lhe esgota a identidade e, à semelhança de qualquer categoria, a limita. Também é um embaraço para as mulheres que levam as suas vidas sem complexos ou favores e uma condenação das mulheres que não beneficiaram de idêntica sorte. Não imagino que uma criatura pensante goste de se ver totalitariamente definida pela etnia, orientação sexual, simpatia partidária ou níveis de colesterol. Ou pelo género. Não me admiraria que o ruído alusivo à efeméride fosse uma conspiração do macho da espécie para subalternizar a fêmea mediante piropos vazios e bajulação. Entre resmas de banalidades, juro que um "telejornal" exibiu Carlos Mendes a cantarolar Amélia dos olhos ooces a título de homenagem ao feminino. Se o objectivo não era reduzir o feminino a uma anedota, parecia.
E depois há o resto. Só por si, o facto de o Dia Internacional da Mulher ter começado como uma reivindicação sufragista e prosseguido como uma bandeira da propaganda soviética torna-o um bocadinho anacrónico, por um lado, e desagradável, por outro. O facto de o louvor das mulheres que ascendem ao poder tender para uma selectividade ideológica que exalta Pinta.silgo ou a "presidenta" do Brasil e achincalha Manuela Ferreira Leite ou Thatcher torna todo o exercício pouco credível. O facto de muitos dos entusiastas actuais se mostrarem aflitos com a discriminação, real ou imaginária, de uma "mulher" mítica nas sociedades ocidentais enquanto se deixam fascinar por culturas que continuam a tratar mulheres de carne e osso com desprezo e crueldade torna o exercício ligeiramente repugnante.
Na melhor das hipóteses, o Dia Internacional da Mulher legitima o cliché da mulher indefesa e carente de ajuda varonil. Na pior, serve-se das mulheres para alimentar interesses particulares. Vale que uma incauta capaz de cair em tão grosseiro truque é digna dele.»