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Ratzinger, a polemização necessária

por João Pinto Bastos, em 03.01.13

Não tenho por norma dissentir das postas dos meus ilustres confrades, aliás, concordo geralmente com tudo o que os escribas deste blog escrevem. Contudo, e como há sempre uma primeira vez para tudo, desta feita sou obrigado a discordar em parte do longo comentário da Regina da Cruz a propósito da Mensagem de Ano Novo, de Sua Santidade Bento XVI. Subscrevo a opinião da Regina no tocante ao erro que Bento XVI cometeu ao afirmar que o "capitalismo desregulado" é o grande responsável pela crise económica e financeira do último lustro. Erro esse, justificado pela observância imprescritível da doutrina social da igreja que não é propriamente um receituário ou uma súmula de prescrições liberais. Como podem depreender do que venho escrevendo neste blog e noutros fóruns não considero o capitalismo como o grande responsável pela crise. Sou, à semelhança da Regina, um apreciador inveterado das virtudes do capitalismo. Gosto do frémito da liberdade induzido pela criatividade que só um regime de mercado e livre concorrência consegue gerar. Liberdade e criatividade devidamente temperadas pela ética, como muito bem sublinhou a Regina. O busílis do argumento desfiado pela caríssima colega prende-se não com a apologia do capitalismo, que acompanho e suporto, mas sim com o breve libelo contra o Papa e a Igreja. A Igreja, não obstante os erros, desvios e imperfeições que qualquer instituição naturalmente possui - e, aqui, mais uma vez sigo a opinião da Regina - é uma das derradeiras formas de vida inteligente que existem neste mundo pós-moderninho. Mais, se há alguém que tem apelado à renovação espiritual do homem, esse alguém tem sido Bento XVI. Com os vitupérios do costume provindos dos artesãos do politicamente correcto. Portanto, quando a Regina fala em reabilitação dos valores humanos fundamentais deveria olhar, em primeiríssimo lugar, para a Igreja, por uma razão bastante singela: em tudo o que diga respeito à vida humana, a Igreja está e estará sempre na primeira linha de defesa do justo e do direito. Ontem, hoje e amanhã. A raiz do catolicismo bebe, justamente, nesta predisposição para a dádiva.

 

A Igreja não tem uma história impoluta? É um facto indesmentível. A Igreja deixou em vários momentos de viver a palavra de Cristo? Sim, é verdade. A Igreja favoreceu, em muitas circunstâncias, os grandes deste mundo? Infelizmente, sim. Tudo isso é verdade, porém, o que atrás foi dito não ajuda, de todo, a explicar o porquê de, ainda hoje, muitas pessoas devotarem à autoridade papal um respeito invejável. A relevância da Igreja mostra-se no dia-a-dia, nos magistérios da palavra e da acção, com o Homem como pano de fundo. As "palavras vazias" e os "rituais anacrónicos" são a razão de ser da Igreja. Sem eles nada faria sentido. Com eles a comunidade de fiéis alarga e fortalece os seus horizontes. O Governo da Igreja, tão criticado por alguns, é a prova de que a conjugação entre autoridade e liberdade é uma possibilidade bem real, testada ao longo de dois mil anos. Não são muitas, se não mesmo nenhumas, as formas políticas que podem gabar-se de combinar hierarquia com autonomia, justapondo autoridade pessoal com descentralização. O Governo da Igreja, considerado amiúde como uma antigualha bárbara, é um resguardo imprescindível em tempos de niilismo político e cultural. Bento XVI soube interpretar, como poucos, a impessoalidade do mundo contemporâneo, chamando a atenção para o relativismo que acomete todos os recantos da vida social. Impessoalidade que não brota apenas da falta de ética que perpassa os mecanismos económicos. A origem desta maleita é bem mais funda, grave e periculosa. É por isso que, por mais que eu possa discordar desta ou daquela afirmação do Santo Padre, nada me levará a dizer que a Igreja pouco ou nada faz pelo bem-estar espiritual do Homem. Faz e muito, sobretudo junto dos que mais precisam, assim como, dos que anelam por um futuro melhor. Talvez o tom seja demasiado apologético, mas a verdade é que nunca como hoje a Igreja foi tão necessária. O filisteísmo relativista só será combatido com autoridade e auctoritas. Bento XVI encarna na perfeição estes dois predicados.

publicado às 01:22

Recordar Palavras Bem Ditas

por Daniela Silva, em 03.01.13

Carta Encíclica Deus Caritas Est, do Sumo Pontífice Bento XVI.

 

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b) O amor — caritas — será sempre necessário, mesmo na sociedade mais justa. Não há qualquer ordenamento estatal justo que possa tornar supérfluo o serviço do amor. Quem quer desfazer-se do amor, prepara-se para se desfazer do homem enquanto homem. Sempre haverá sofrimento que necessita de consolação e ajuda. Haverá sempre solidão. Existirão sempre também situações de necessidade material, para as quais é indispensável uma ajuda na linha de um amor concreto ao próximo. Um Estado, que queira prover a tudo e tudo açambarque, torna-se no fim de contas uma instância burocrática, que não pode assegurar o essencial de que o homem sofredor — todo o homem — tem necessidade: a amorosa dedicação pessoal. Não precisamos de um Estado que regule e domine tudo, mas de um Estado que generosamente reconheça e apoie, segundo o princípio de subsidiariedade, as iniciativas que nascem das diversas forças sociais e conjugam espontaneidade e proximidade aos homens carecidos de ajuda. A Igreja é uma destas forças vivas: nela pulsa a dinâmica do amor suscitado pelo Espírito de Cristo. Este amor não oferece aos homens apenas uma ajuda material, mas também refrigério e cuidado para a alma — ajuda esta muitas vezes mais necessária que o apoio material. A afirmação de que as estruturas justas tornariam supérfluas as obras de caridade esconde, de facto, uma concepção materialista do homem: o preconceito segundo o qual o homem viveria « só de pão » (Mt 4, 4; cf. Dt 8, 3) — convicção que humilha o homem e ignora precisamente aquilo que é mais especificamente humano.

 

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b) A actividade caritativa cristã deve ser independente de partidos e ideologias. Não é um meio para mudar o mundo de maneira ideológica, nem está ao serviço de estratégias mundanas, mas é actualização aqui e agora daquele amor de que o homem sempre tem necessidade. O tempo moderno, sobretudo a partir do Oitocentos, aparece dominado por diversas variantes duma filosofia do progresso, cuja forma mais radical é o marxismo. Uma parte da estratégia marxista é a teoria do empobrecimento: esta defende que, numa situação de poder injusto, quem ajuda o homem com iniciativas de caridade, coloca-se de facto ao serviço daquele sistema de injustiça, fazendo-o resultar, pelo menos até certo ponto, suportável. Deste modo fica refreado o potencial revolucionário e, consequentemente, bloqueada a reviravolta para um mundo melhor. Por isso, se contesta e ataca a caridade como sistema de conservação do status quo. Na realidade, esta é uma filosofia desumana. O homem que vive no presente é sacrificado ao moloch do futuro — um futuro cuja efectiva realização permanece pelo menos duvidosa. Na verdade, a humanização do mundo não pode ser promovida renunciando, de momento, a comportar-se de modo humano. Só se contribui para um mundo melhor, fazendo o bem agora e pessoalmente, com paixão e em todo o lado onde for possível, independentemente de estratégias e programas de partido. O programa do cristão — o programa do bom Samaritano, o programa de Jesus — é « um coração que vê ». Este coração vê onde há necessidade de amor, e actua em consequência. Obviamente, quando a actividade caritativa è assumida pela Igreja como iniciativa comunitária, à espontaneidade do indivíduo há que acrescentar também a programação, a previdência, a colaboração com outras instituições idênticas.

 

publicado às 01:10

Aborto acordográfico

por João Pinto Bastos, em 02.01.13

O descalabro moral deste doce delíquio ocidental que dá pelo nome de Portugal revela-se em toda a sua majestade na desvergonha absoluta que é o facto de o país manter um acordo ortográfico que noutras latitudes, mais tropicais e abençoadas por Deus, já foi suspenso. Enquanto a "Presidenta" ouve e adia, as elites portuguesas procrastinam com deleite e gozo. A cultura em Portugal, na acepção dos protectores do politicamente correcto, serve somente para manifestações graffiteiras voluptuosas pagas, de preferência, com dinheiros públicos. Língua, tradição e costumes, jamais, como diria o outro, posto que isso é para reaccionários enjaulados na prisão do tempo passado. O futuro pertence aos espetadores da língua.

publicado às 23:00

A humanidade de Ratzinger

por Regina da Cruz, em 02.01.13

Ratzinger condena, na sua mensagem de ano novo, o “capitalismo desregrado” como o grande culpado da crise económica e social em que o ocidente vive. Ratzinger aponta, portanto, o dedo à criação e não ao criador ou, dado que estas palavras podem, neste contexto, causar equívocos, quero dizer que sua santidade – a vossa santidade! – aponta o dedo às imperfeições e erros do capitalismo como culpados pelo homem e não o contrário, como julgo deveria ser. Tivesse Ratzinger dado ênfase a esta fundamental distinção – na verdade, um mero exercício lógico, nem sequer filosófico - e quase me surpreenderia pela positiva. Digo *quase* porque nunca me esqueço da lustrosa hipocrisia a que a igreja já nos habituou; estou a lembrar-me, por exemplo, da diabolização da riqueza e o elogio da pobreza que esta instituição professa não vivendo, no entanto, os seus máximos representantes de acordo. Oiço todas as declarações das instituições religiosas, especialmente da ICAR, com as maiores reservas. Todo o rigor nas palavras é pouco neste momento histórico de confusão e de perdição. Basta um pequeno mal-entendido para regressarmos à barbárie.

Concordo que o laissez faire deixou o espírito do homem ocidental correr à solta e por vezes de forma selvagem - e ainda bem, digo eu. Como dizia o mais incompreendido dos filósofos e o mais sábio: "É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela." A liberdade tem destas coisas. No entanto temos de estar preparados para as consequências dessa liberdade criativa e devemos ser responsáveis e sérios, adultos o suficiente, para encaixar os seus prejuízos, se não os pudermos, evitar. Devemos também, na medida do possível, tirar lições e transmiti-las aos mais novos, de forma clara, para que cenários semelhantes não se repitam no futuro. A culpa de estarmos à beira do colapso civilizacional não é do capitalismo, é dos seres humanos. A liberdade tem de acarretar responsabilidade e guiar-se pela ética pois só assim adquire sentido; de outro modo, facilmente se transforma em libertinagem imoral e inconsequente, causando prejuízos variados.

Veja-se, por exemplo, a criação de instrumentos financeiros, inicialmente concebidos sem pecado original (dou o benefício da dúvida) mas que foram sendo adicionados de camadas de complexidade sucessivas, transformando-se em enigmas que escapam à compreensão dos próprios criadores. A fusão entre o pensamento matemático, o engenho e criatividade humanas e a informatização permitem descobrir caminhos nunca antes trilhados no domínio da inteligência, com resultados imprevisíveis. Esta questão da *presunção do conhecimento* é muitíssimo bem apresentada por Nassim Taleb no seu extraordinário livro, O Cisne Negro, cuja leitura vivamente aconselho.

Assim vai a humanidade avançando, por tentativas e erros. E os erros humanos merecem perdão porque esse mesmo génio errante e livre consegue operar, dentro da sua imperfeição, verdadeiros milagres. Ratzinger revela, na melhor das hipóteses, falta de jeito para comunicar. Não sei se por excesso de isolamento, por falta de contacto com gente comum - meros mortais com problemas mundanos - não sei se por falta de zelo, velhice ou simplesmente por lhe faltar o dom da palavra em público – qualidade com que nem todos formos agraciados, é um facto.

O problema que hoje os ocidentais vivem não se deve ao capitalismo desregrado, nem mesmo ao corrupto, ou decadente, ou ganancioso, ou imoral – chamem-lhe os nomes que quiserem! - porque o capitalismo não vive no éter, suspenso no ar! Ele não vem de fora para dentro, ele sai de dentro para fora. O capitalismo é uma criação imperfeita de um ser humano imperfeito, ou dito de outra forma, uma criação inacabada de um ser humano em aberto, o espelho do homem no tempo. O capitalismo é naturalmente humano e por isso enferma, de forma directa, dos mesmos males dos humanos. Não é pois o capitalismo que deve ser substituído pelo que quer que seja, como Ratzinger parece insinuar, ignorando, ou fazendo por ignorar, que este sistema foi o que mais gente tirou da miséria e mais prosperidade trouxe ao mundo.

A igreja deve, mais do que nunca e se quiser cumprir a seu dever, apelar para a reabilitação de valores humanos fundamentais, dando o exemplo. O capitalismo só proporciona o máximo benefício quando comunga de ética. O erro fatal que a igreja comete, pelas palavras do seu mensageiro maior, é pactuar, por omissão intelectual, com o poder corrupto e com o facilitismo, recusando-se a apontar com firmeza e lucidez as razões que tornaram órfãos de moral os humanos que hoje pisam a face da terra, nomeadamente as terras do ocidente. Há muito que a igreja se afastou e deixou de servir de exemplo moral aos ocidentais. Walk the talk: a igreja deixou de viver, em vários momentos da história, a palavra de Cristo e foi por isso perdendo sentido e credibilidade. Hoje a igreja, nomeadamente a Católica Apostólica e Romana, sobrevive por pontas, num exercício penoso de jogos de palavras vazias e rituais anacrónicos, com o objectivo desesperado de mostrar alguma relevância.

A igreja, tal como o capitalismo, também foi traída pela imperfeição humana mas ao contrário do capitalismo, este não tem um representante institucional, vestido de branco, para lhe apontar o dedo de forma enviesada, dissimulada e injusta. Mais do que regras, o capitalismo, enquanto prolongamento do génio humano, carece de ética. Ratzinger pede a regulação do capitalismo quando deveria apelar e inspirar a regeneração espiritual do homem. Ao falar superficialmente de um problema tão grave e ao abordar de forma parcial aquela que me parece ser *a* questão crucial do nosso tempo, Ratzinger revela irresponsabilidade, algo imperdoável àquele que se assume como o representante de deus na terra, a incarnação viva da verdade e da justiça.

publicado às 21:33

A hiper-religião do disparate

por João Pinto Bastos, em 02.01.13

A laicização da máxima protestante de que basta a fé para nos salvarmos criou um homem maleável e permissivo. As obras, a ética e a moral não têm lugar num mundo em que a acção perdeu o referente transcendente. Tudo é vendável, a honra, a dignidade, a fé, o corpo, a moral, em suma, tudo é negociável contanto que no fim a simples crença na infalibilidade do indivíduo garanta a nossa segurança. Precisamos urgentemente de regressar a Deus.

publicado às 20:44

Feliz OE2013

por José Maria Barcia, em 02.01.13

 

Cavaco Silva afinal tem dúvidas. Nomeadamente em dois pontos do Orçamento de Estado para 2013. Pelos vistos, ''Ano Novo, Vida Nova'' bateu forte pelos lados de Belém. De qualquer maneira fica a pergunta: o que é que o CDS vai fazer?

publicado às 15:20

The Pope recently denounced "unregulated capitalism." This is an economic system that never existed and certainly does not exist at present in any country. In the United States, the Code of Federal Regulations, which contains the federal regulations currently in force in fifty different subject areas, occupies more than 300 inches of shelf space. "In each book, regulations are in small type, double column, printed on both sides of the page." Each year, thousands of new regulations are proposed and thousands of others made final. Many of them are complex and virtually incomprehensible, even by lawyers and other experts.

 

This body of regulation, however, is but a small part of the whole, because each of the states, counties, cities, and many other government units have vast bodies of regulation as well. Altogether the amount of regulation to which economic activity is subject in the USA defies comprehension. Other countries and supra-national entities such as the European Union have comparably vast bodies of regulations, constantly in the process of alteration and enlargement.

 

To make reference to unregulated capitalism betrays a total ignorance of the situation now -- and long previously -- prevailing in the world's economies. To say that the economic system lacks regulation is like saying that the NYC sewer system lacks excrement.


http://extent-of-regulation.dhwritings.com/


Robert Higgs, via facebook.


publicado às 14:25

Alguém viu por aí o "capitalismo desregrado"?

por Daniela Silva, em 02.01.13

«…the corporation, legally considered, is a magnificent social invention, prior in its existence to the modern nation-state. The laws governing corporations appear to go back in their origin to ancient Egyptian burial societies and, in the Christian West, to religious monasteries, towns, and universities. Such legally constituted societies possessed an Independence recognized by successive political regimes.
Their independence from the state had a legitimacy implicitly founded in primeval rights of association and common respect for the sacred. Such institutions were constituted to endure beyond the lifetimes of their founding generation. The founder of Western monasticism, St. Benedict (480–547), having learned from the early Christian hermitages in Egypt, wisely provided for regular and frequent changes of leadership in each monastery according to formal rules. He staked out unsettled and often remote lands on which the economic sustainability, however meager, of each new Foundation could be ensured for generations. Among historians, it is no longer unusual to suggest that the Benedictine (and other) monasteries sweeping north into Europe from Italy and east from Ireland, gradually beginning to sell their wines, cheeses, brandies, and breads from region to region, were the West’s first transnational corporations. The monks introduced to many formerly nomadic peoples what was, for its time, scientific agriculture, thus enabling entire regions to advance beyond subsistence living. From the surplus thus accumulated, libraries and schools, music halls and commissions for paintings grew; civilization took root. Arts and sciences such as botany, metallurgy, and architecture were nourished, and industries such as mining and engineering were furthered. As the historian Paul Johnson has described it:

 

A great and increasing part of the arable land of Europe passed into the hands of highly disciplined men committed to a doctrine of hard work. They were literate. They knew how to keep accounts. Above all, perhaps, they worked to a daily timetable and an accurate annual calendar—something quite alien to the farmers and landowners they replaced. Thus their cultivation of the land was organized, systematic, persistent. And, as owners, they escaped the accidents of deaths, minorities, administration by hapless widows, enforced sales, or transfer of ownership by crime, treason and folly. They brought continuity of exploitation. They produced surpluses and invested them in the form of drainage, clearances, livestock and seed . . . they determined the whole future history of Europe; they were the Foundation of its world primacy

 

«From the point of view of civil society, the business enterprise is an important social good for four reasons. First, it creates jobs. Second, it provides desirable goods and services. Third, through its profits it creates wealth that did not exist before. And fourth, it is a private social instrument, independent of the state, for the moral and material support of other activities of civil society. In recent decades, this last-mentioned Independence from the state has been more and more compromised, through “command and control” regulations and heavy-handed “guidance” from ambitious politicians, promiscuous with state and federal power. Not surprisingly, economic growth has been grinding to slow, fitful levels. And the iron of state programs is rubbing through the fabric of civil society.»

 

«Moreover, sources of private capital and private wealth, independent of the state, are crucial to the survival of liberty. The alternative is dependence on government, the opposite of liberty. The chief funder of the many works of civil society, from hospitals and research institutes to museums, the opera, orchestras, and universities is the business corporation. The corporation today is even a major funder of public television. Absent the financial resources of major corporations, civil society would be a poor thing, indeed.»

 

Michael Novak, "The Future of Corporation"

publicado às 14:02

Papillon

por Fernando Melro dos Santos, em 02.01.13

Presenciado numa loja Lidl onde me desloquei há instantes: pessoas com medo (receio, temor, aflição, nervosidade) de serem inquiridas e multadas pela autoridade fiscal (tudo isto é sic) ao saírem da loja levando comida para casa sem factura.

 

O moço na caixa prestável e comungando do mesmo pavor, a despachar facturas.

 

Eu a fazer o meu papel, explicando aos aldeões, aldeães, aldeãos, que a única forma de "isto" não piorar e de retermos todos algum domínio sobre o futuro de quem cá fica é recusar, resistir, fugir, desafiar, desobedecer, refundir, não pagar, não dar, enfiar um biqueiro na canela e uma marrada nas trombas do primeiro chibo fiscal que vier à cata de talões para ajudar a pagar as reformas dos políticos.

 

Banda sonora? Vai já. Com isto tudo até me esqueci de envolver o Paulo Cardoso num amplexo de boas-vindas. Bem hajas, confrade.

publicado às 13:02

Voando Sobre um Ninho de Cucos

por Fernando Melro dos Santos, em 02.01.13

Bom dia, e Bom Ano.

 

Estive fora de Portugal durante uns dias. Peguei no carro, atravessei a vastidão de Espanha, e cheguei a Lourdes, no meio dos Pirenéus, mesmo a tempo de experienciar um terremoto de magnitude 4.7 com epicentro a poucos quilómetros de onde me encontrava no preciso instante em que ocorreu o abalo. 

 

A França ainda é um país bem aproveitado, bonito, fértil e viçoso. Florescem a pequena indústria e o prestador de serviços, homens caçam à beira da estrada um pouco por toda a parte sem terem de olhar por cima do ombro à procura do fiscal e do bufo, e não consta nem parece que alguma versão gaulesa da ASAE ande por lá a chatear as boulangeries e patisseries que oferecem (e escoam) uma pluralidade dos mais suculentos e intrinsecamente abundantes bolos que é dado a uma pessoa atirar pelo gasganete a baixo.

 

Por outro lado, os franceses conduzem mal, a medo, são na generalidade capazes de levar a 40 km/h um carro, sobre uma recta de 2km, se ali houver um sinal a compeli-los nesse sentido. Não percebem nada de informática, o profissionalismo e a observação das regras tolda-lhes o pragmatismo, e também regra geral, a internet funciona pobremente fora das grandes cidades. Sem querer que isto pareça um assomo de pensamento mágico, arrisco dizer que esta peculiaridade genética, a propensão para espectar em rebanho, pode vir a ser a Queda da estirpe franca diante das convulsões que agitam a Europa.

 

Isto tudo para dizer que ouvi em directo os votos proferidos por François Hollande para 2013 e antevi, com tristeza, uma França entregue ao comunismo, versão islamizada, a prazo de 50 anos. Projectaram-se desse momento em diante, na minha mente e nos meus olhos, imagens desse quadro Dantesco sobrepostas às bucólicas e frondosas paisagens por onde me fiz levar.

 

Certo de que este mês de Janeiro será pródigo em notícias que irão ratificando o meu vaticínio, mais não direi agora sobre este assunto, qual arúspice que aguarda o regresso dos sinais no vôo das aves migratórias.

 

Tive ainda oportunidade de parar em duas cidades Espanholas: Donostia (San Sebastián para os homogenistas) e Valladolid. Na primeira, havia pessoas a correr às sete da manhã, com cinco graus e chuva, e bastante movimento. Respirava-se. Eu que abomino cidades, considerei com alguma seriedade ser-me possível viver inserido naquela urbe de gente fresca e idioma esdrúxulo. Já à passagem por Valladolid, constatei o pior da súmula socializante que assolou Espanha nos últimos anos. Ninguém nas ruas, muitas e largas vias ao abandono que desembocavam em áreas comerciais igualmente feéricas, e aquela sensação deprimente de estar numa povoação onde entrar ou sair vai dar ao mesmo.

 

Durante todo este tempo acompanhei sempre que pude os boletins noticiosos através da televisão, em ambos os países e em cada região. O gradiente depressivo é deveras impressionante, quando posto em perspectiva.  Pareceu-me que em França o torpor ainda não é completo, que se tiram consequências daquilo que é dito, que é possível esperar do cidadão televisionado um escrutínio mínimo da realidade. Nas terras onde se vive sob o jugo de Castela, contudo, impera o registo a que Arturo Pérez-Reverte, com o sortilégio que lhe é único na urdidura da palavra, apodou de tonterías del culo. Ao longo desta rampa descendente de insensatez e a caminho deste coto na periferia humana que é Portugal, quem é que ainda poderia ficar surpreendido ao chegar à santa terrinha e deparar com a continuação da saga que deixáramos para trás? Mais mil milhões para um banco, mais dez milhões para um jogador da bola, normas novas, taxas novas, tudo a cavalo na inveja do Portugazinho, para quem o problema não é ter X, mas sim que o vizinho tenha X+1. 

 

Bem dizia ontem José Couto Nogueira entrevistado por Fernando Alvim. No tempo de Salazar, não podiam ser ditas certas coisas e assim ficavam por revelar muito do abuso e da miséria que grassariam. Mas hoje essas mesmas coisas são ditas e não acontece nada em consonância e consequência com a gravidade do que é revelado. Mais, a populaça vai cantando e rindo com a estaca entalada no recto sempre a queixar-se dos outros, dos outros, dos outros, dos outros. 

 

Só tenho um desejo para 2013: levemos o Estado à falência.

publicado às 09:58

"Insustentável"

por Pedro Quartin Graça, em 02.01.13

A mensagem de Ano Novo foi o esperado fiasco. Mal na forma. Igualmente mal no conteúdo. Numa palavra, tão do agrado, aliás, do Presidente, "insustentável".

Insustentável é colocar mal o teleponto. Insustentável é não saber usá-lo. Insustentável é não conseguir olhar os portugueses nos olhos. Insustentável é fazer de conta que se tem convicções sobre algo quando se percebe que não tem. Insustentável é nada de realmente útil fazer face à consciência que tem de que o esforço pedido neste OE ao país não é equitativo. Insustentável é, no fundo, sustentar esta República.

Também publicado aqui.

publicado às 09:45

Ab initio

por Paulo Cardoso, em 01.01.13

Nunca achei piada apresentações. Talvez porque já tive que assistir a muitas em que múmias deificadas em círculos académicos (de mera designação) insuflam o peito e o ego que nem velhos sacos de papel, rotos no fundo por plágios que toda a gente finge não ver; ou até mesmo por já ter visto outras em contextos profissionais (também só de mera designação, pois afinal de contas estamos a falar de Portugal) em que se tenta balbuciar algo coerente em frente de uma mini-plateia de possíveis futuros colegas e de um qualquer Torquemada dos Recursos Humanos que finge que está a ouvir quando provavelmente está a jogar ao jogo do galo. No iPhone, como é óbvio.

Por isso prometo ser breve.
Quero agradecer ao Samuel pelo convite e confiança, antes de mais. Lembro-me perfeitamente da sua impressionante e douta figura quando nos conhecemos, de calções e havaianas, 8 anos atrás. E muito vivemos. Muito passou por nós. Muitas conversas que duraram noites e dias. Muitos silêncios arrastados pelas horas. E sempre sobrevivemos, com o amparo do ombro amigo um do outro.

Por motivos inerentes à minha profissão, que implica que esteja sempre a viajar permanecendo 3 a 4 meses em países diferentes, mas também por motivos de logística, sendo que nem sempre é fácil apanhar um sinal wifi decente no meio de lugarejos perdidos no tempo em plena Ásia Central, tenho algum receio de não dar o meu contributo ao Estado Sentido com assiduidade. Mas prometo um esforço, porém.

Desliguei-me consideravelmente da política em Portugal. Do Portugal social e cultural. Do Portugal tradicional. Pois cedo aprendi que a vida só começa quando saímos da nossa zona de conforto. E porque sempre me pareceu por demasiado evidente que o mundo não se resume a um rectângulo de terra de 848x250kms, por muito que o tradicionalismo tacanho ainda tente vender essa ideia que nem um ardiloso e insistente vendedor de cartões de crédito do Citibank.

Mas relatarei o mais objectiva e imparcialmente possível os diferentes political and business climates com os quais tenho que lidar diariamente nos países nos quais páro. Creio que esse poderá ser o contributo de maior relevo para o Estado Sentido e para os seguidores do blog. Desde o cenário de andar perdido no meio da tundra com neve até ao joelho (inteligentemente vestido de fato e gravata, pois até mesmo quando se está em situações de profundo aperto não há nada melhor que manter a pose, tipo James Bond), até ao cenário de estar a debater a Eurocrise com o recém eleito Primeiro Ministro na Geórgia (onde me encontro actualmente).

Cordiais saudações a todos. E também somente para ninguém me achar rude como o-tipo-que-chega-aqui-e-nem-deseja-bom-ano, votos de um excelente 2013, com motivação para domar a besta da austeridade. Pois alegadamente o pior já passou, embora se continue a passar pelo pior ano após ano. Enfim, certamente mais uma questão metafísica que escapa ao conhecimento humano.

 

Disse.

publicado às 22:15

A política é bem mais complicada do que muitos crêem

por Samuel de Paiva Pires, em 01.01.13

Roger Scruton: "O mercado livre é o princípio segundo o qual a vida económica deve ser organizada. Mas a vida económica é só parte da vida. As pessoas não procuram apenas o lucro e bens económicos. Procuram a felicidade, valores religiosos, ordem moral. Procuram a amizade com outros, querem unir-se com outros em pequenas comunidades. Isto significa que há muitos aspectos da sociedade para além do mercado. Há clubes, instituições e igrejas e há toda a ordem moral que é difícil de definir caso a caso, mas que é de muito maior importância para nós que a mera acumulação do lucro e evitar perdas. É o entender estes outros aspectos da sociedade humana que nos leva a reconhecer que a política é bem mais complicada do que os free-marketeers gostariam que acreditássemos. A política tem de proteger não apenas o mercado livre, mas também estes outros aspectos da vida social, que são repetidamente ameaçados não só por inimigos exteriores, mas também pela anarquia individual."

 

 

(Vídeo via Filipe Faria)

publicado às 21:48

A descoberta das Berlengas

por Nuno Castelo-Branco, em 01.01.13

Afinal, a tradição confirma-se e Cavaco Silva, o cada vez mais notório Presidente honorário do PSD fez o trabalho que lhe competia, defendendo o governo. Nada disse de errado ou de fácil contestação, pois a situação para a qual foi o país arrastado nas últimas décadas, não é de molde a negar as evidências.

 

Apesar de tudo, o Presidente honorário do PSD disse em poucas palavras, aquilo que o governo não tem conseguido transmitir. Foi uma boa lição de mestre-escola da antiga segunda classe, para todos inteligível e que em poucos minutos expôs as dificuldades, evidenciou as responsabilidades do passado recente e teve a ousadia de afirmar poderem os portugueses esperar por melhores dias.

 

Este é o discurso da república, coisa exclusivamente capaz de conceber o curto prazo e sem outros horizontes senão aqueles que a gestão dos factos consumados impõe. É o que temos, a Europa que eternamente aguardamos como nova Malaca de todas as especiarias e pior ainda, as incertezas de uma Espanha a quem o regime completamente hipotecou a sua sorte.

 

Pedia-se mais. Pedia-se mais política, o início de uma profunda reforma na organização do Estado e dos seus órgãos representativos, assim como do sistema eleitoral. Pedia-se um outro encarar da posição de Portugal no mundo. Pedia-se um discurso que fosse directo aos portugueses e à Comunidade de Países de Língua Portuguesa e pelo menos, a proposta de um projecto que a todos interessasse e que sem recusar as evidentes necessidades de vantagens económicas e financeiras, fosse capaz de um futuro redesenhar de zonas de influência no Atlântico. No entanto, isso pressupunha um estudar criterioso das possibilidades e uma rede de contactos que fossem solidificando ideias de todos os potenciais interessados. Uma outra inatingível galáxia, pois ainda nada se fez e desde há muito continuamos resignadamente a escutar apaixonadas declarações de paixão por odes marítimas em dias de solenidade.  

 

Enfim, para estes senhores do regime, tudo aquilo que escape à linha do horizonte - por mais próximo que este seja -, será coisa indesejavelmente arriscada e propiciadora da emergência de medonhos e intransponíveis Adamastores.

 

Com uma classe política deste estilo, o Portugal de há seiscentos anos teria ficado urbi et orbi conhecido pelo país que um dia descobriu as Berlengas. 

publicado às 21:36

Cavaco, o ilusionista-mor

por João Pinto Bastos, em 01.01.13

Cavaco sofre da síndrome "Jorge Jesus": fala mal, esquece-se do passado e omite responsabilidades. Passa pelos pingos da chuva e ousa dar lições de moralidade a antigos apaniguados. Uma espécie de Barrabás moderno, sem os crimes de sangue deste último. Um eterno medíocre alçado ao topo dos topos, com um "cursus honorum" digno de um servente do beija-mão a todos os poderes. Ouvi-lo? Não, não vale a pena, aliás, contrariando o dito pessoano, já nada vale a pena. O melhor mesmo é ficar sentado à espera que estas fantasmagorias caiam de podres.

publicado às 17:52

Reforço de início de ano - Paulo Cardoso

por Samuel de Paiva Pires, em 01.01.13

Há uma espécie de ditado ou frase feita que nos diz que os bons amigos são a família que escolhemos. Se eu tivesse que classificar a relação que tenho com o Paulo Cardoso, seria mesmo a de irmãos. Tratando-se do meu melhor amigo e de alguém que já há uns anos escreveu neste blog, é com uma certa emoção que anuncio o seu retorno. Natural de Lisboa, o Paulo é duplamente licenciado, em Filosofia e em Ciência Política, e em virtude de ter seguido o conselho deste governo para emigrar, vive há quase um ano no estrangeiro, tendo já passado por diversos países. Deixarei ao cuidado do Paulo apresentar-se mais pormenorizadamente, como bem entenda.

 

Da minha parte, caríssimo, para além de te dar as boas-vindas, relembro apenas um excerto de Montaigne que te dediquei quando partiste: «Há, para lá de todo o meu discernimento e de tudo o que eu possa dizer esmiuçadamente, não sei que força inexplicável fixada pelo destino a servir de mediadora desta união. Procurávamo-nos antes de nos termos encontrado, por causa dos relatos que ouvíamos um acerca do outro, os quais nos abalavam emocionalmente mais que o que seria razoável esperar de relatos que se ouvem, e, creio-o, por causa de algum decreto do Céu: abraçávamo-nos pelos nossos nomes. E, no primeiro encontro, que ocorreu casualmente numa grande e muito concorrida festa da cidade, sentimo-nos tão cativados um pelo outro que desde então nunca nada passou a ser tão próximo de cada um de nós como o outro.»

publicado às 17:21

O Poder da injustiça

por João Pinto Bastos, em 01.01.13

Um Poder que obriga frequentemente os indivíduos a despojarem-se da sua propriedade e de parte significativa dos seus rendimentos é um Poder ilegítimo. Um Poder que viola o direito e o justo, que abusa e corrompe a cidadania isolada. Um Poder que, a não ser atalhado, terá de ser firmemente desobedecido. Thoreau tinha uma boa fórmula para descrever a coisa, ao dizer que antes de sermos súbditos devemos ser homens. Homens com consciência e valores. Homens que desobedecem pacificamente quando o injusto é alegremente crismado na Lei pela bonzaria oligárquica. Seremos nós, portugueses e cidadãos apáticos, capazes de pôr fim à cascata impostocrática do Governo? Não sei. A certeza, se é que ela existe, até porque certezas só há as da morte e dos impostos, é que o país estará bem pior no final do ano que ora começa. Mais pobre e mais indignado. A "torrente das vontades irreflexivas" herculaneana pode ficar fora de controlo. O futuro da partidocracia jogar-se-á aí: na resistência do português, súbdito tutelado, ao espartilho da injustiça fiscal.

publicado às 17:07

2013, annus horribilis

por João Pinto Bastos, em 01.01.13

Sente-se no ar o princípio do fim de qualquer coisa. Tudo encareceu, desde as amizades até ao amor. A ruína e a desgraça tomam conta de muitas famílias. Muitos lares passarão, neste ano que hoje começa, dificuldades ingentes, sofrimentos múltiplos e desesperos vários. O medo está bem presente nas nossas vidas. O medo de que tudo se perca, o emprego, a família, o bem-estar duramente almejado durante anos de porfia. Entrementes, o Leviatã continua gordo, poderoso e activo, afogando tudo e todos com a impostocracia do Estado todo-poderoso. Nada muda, nem mesmo os rostos da ruína. Não sei o que este ano reservará a muitos de nós, não sei sequer se chegaremos todos vivos ao final do presente ano para contar a estória das nossas vidas, o que sei, e já é muito, é que o país está gasto. Cansado e exausto. Prestes a rebentar de ódio e revolta. 2013 será um ano perigoso, um ano em que o regime, a partidocracia, a oligarquia da finança e os prebostes da mesmice serão colocados permanentemente em causa. Nada será como dantes. As imposturas serão desnudadas e as mentiras verberadas. Espero que o torniquete fiscal seja combatido com fé e zelo por todos aqueles que não se revêem no esbulho do nosso futuro. Espero mesmo que algo mude para que tudo não fique na mesma. 

publicado às 16:52

Cavaco Silva à hora do Vitinho

por John Wolf, em 01.01.13

 

Aguardo ansiosamente pelas 21h deste primeiro dia de 2013. Não prego olho há várias noites. Faço directas para esse directo. À hora do Vitinho, o Presidente da República dirige-se-á à nação com a sua mensagem de ano novo. De acordo com a RTP, Cavaco Silva "traz-nos o seu tradicional voto de bom Ano Novo". O que querem dizer com tradicional voto? Sinto um registo mordaz nesse anúncio. Um certo cinismo bélico proveniente da Av. Marechal Gomes da Costa, lá para os lados da RTP. Mais do mesmo? Será isso que transforma o entediante em tradição, ano após ano, mandato após mandato? E voto? Será uma eleição de boletim único, individual. Este tipo de singularidades faz-me lembrar uma afirmação deliciosa proferida pelo Prof. Ernâni Lopes no exercício de funções não governativas, e que tive a oportunidade de registar para meu bel-prazer semântico e filosófico - "concordei em tomar a seguinte decisão". Mas parece que estamos sujeitos a um outro género de inconsequência, uma coisa impensável que dá azo a especulações. Por vezes as "não decisões" são mais danosas que as convicções planas. De uma forma ou outra, o país não será reembolsado com o achocalhar das hostes políticas de um país sujeito a uma trela. Uma corda de enforcado ainda mais apertada pelo tabu da imobilidade. A essa hora escutaremos uma homília que não mexe em nada, que não vai dar de vaia, que não vai agitar as almas sequer. Cavaco Silva, no exercício das suas prerrogativas, muito raramente fez algo que pudesse ter um efeito instigador de novas soluções. Seja qual fôr a tonalidade do quadro que se quiser pintar, parece que estamos na presença de uma natureza morta. O revólver da roleta que nos amedronta tem balas de pólvora seca. Uma bala preventiva, e uma outra disparada primeiro para se perguntar depois. Pelo andar da carruagem, e à luz da tradição, o futuro será relativamente benigno no entender do Presidente da República. Imagino, caso haja um pouco de consciência ética ou política, que o Presidente da República se recorde que esteve no outro lado da emissão e que também contribuiu para afundar o país. A mensagem de ano novo, a ser proferida em abstinência e respeito, deveria acontecer diante de um espelho, no bairro de enganos virado ao avesso, onde agora residimos.

publicado às 15:21

A ignorância das massas

por João Pinto Bastos, em 01.01.13

O melhor retrato de uma pátria em ruína moral é aquele em que os crédulos dão a audiência máxima a um programa em que a venda da dignidade é negociada a um preço módico. Quanto mais o tempo passa, mais saudoso fico das aristocracias meritocráticas.

publicado às 15:03

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