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O homem mais temido em Portugal

por Fernando Melro dos Santos, em 20.06.14

Recordo-me reconfortadamente de quando, na minha pré-adolescência, aderi a um clube de pen-friends. À época, e aqui tratamos de contas simples uma vez que nasci em Abril de 1971, uma carta, que era simultaneamente o meio mais económico e mais eficaz de comunicação a longas distâncias, demorava seis a oito dias para executar a round trip entre Caneças e Oslo, e mais de três semanas se a ponta remota do trajecto ficasse situada além-oceanos. 

 

No decorrer de três anos, correspondi-me com perto de uma centena de jovens, cujas idades gravitavam em torno da minha com um desvio de 3 ou 4 anos para cada lado na recta da vida. Poucas coisas, à parte a leitura de um livro ou o visionamento de um filme, me davam tanta satisfação intelectual como a espera, a antecipação do momento em que, transpostos a três e três, oito lanços dos degraus que mediavam a porta da casa de meus pais e a caixa do correio, a abriria para nela encontrar palavras, expressões, imagens, informação, emoções e a explicação de mundos intangíveis e tão oníricos como Xanadu ou Rivendell.

 

Algumas dessas pessoas ainda fazem parte da minha vida, graças ao advento das redes sociais. Outras morreram. E ainda outras tornaram-se irrastreáveis, e delas não sei. 

 

Volvidas três décadas, venho confessar-vos que de todas as atrocidades, de todos os atropelos à dignidade humana, entre a miríade de aviltantes degenerescências impostas a este país, uma das piores -  senão mesmo a mais vil e soez - foi o assassinato de carácter perpetrado sobre aquela personagem, então ansiada, expectada, tida por Hermes Trismegisto completo com esperança, bonomia e Caduceu: o carteiro.

 

O carteiro hoje em dia já não entrega missivas da Rachel em Wellington onde vinha contar-me como estava feliz pelo trabalho que havia arranjado para as férias da Páscoa, nem do Timothy em Manchester cujos envelopes mais pareciam sapos inchados, tal era a dilatação do seu bojo repleto de autocolantes, fotografias de concertos, e recortes de bandas das quais por cá, somente dois anos depois se ouviria falar. 

 

O carteiro, nestes dias de depressão e torpor, entrega a morte lenta. 

 

Deposita-a na forma de notificações institucionais, às quais metade da população não consegue compreender, e quase outros tantos reagir, por manifesta falta de meios intelectuais, anímicos, financeiros.

 

Deposita-a na forma de facturas abusivas, erróneas, repetidas, trocadas e truncadas, perdidas. 

 

Deposita-a sobretudo na forma da ameaça. Há uma aura sobre o carteiro, ora fiel palafreneiro com a espada de Dâmocles na albarda, que é de ameaça, porque deixou de ser possível contar com as únicas três coisas que um Estado, por natureza e por ser pago a expensas da população, tem o Dever maior de cumprir: o apuramento da Verdade, o arbítrio de conflitos, e a protecção dos desprotegidos. 

 

Não havendo literacia, não existe Verdade. A Verdade é aquilo que o mais destro na urdidura da palavra bem entender que ela seja.

 

Não havendo justiça limpa, célere, impoluta e pragmática, não há arbítrio. Ganha sempre o que tiver o exército maior ou a bomba dissuasora mais temível.

 

Não havendo correlação entre a realidade da classe política (compadrios e satélites incluídos) e as pessoas normais, não há égide que valha aos que caem nas malhas do erro judiciário, da caderneta predial mal lavrada, da denúncia escarninha porque as galinhas do vizinho são menos fartas que as nossas.

 

E uns recebem correspondência tranquilos e serenos, sob a redoma que lhes foi permitido erigir, enquanto outros se esforçam para disfarçar o timbre nervoso e a passada trémula até à caixa do correio, para que a família não soçobre ainda mais enquanto tenta manter-se à tona.

 

Mergitur nec Fluctuat. Até quando, não sei. Sei que o carteiro era, para mim, uma figura arquetipal tão importante como todos os meus outros heróis da infância, desde os bombeiros de Armamar (quem se lembra levante o braço) até ao anónimo de Tian Nan Men.

 

E agora é a pessoa mais temida em muitos dos círculos onde ainda tenho paciência, vontade e ânimo para mover-me.

 

 

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publicado às 10:46

Escolhe o teu veneno

por Fernando Melro dos Santos, em 18.06.14

Exmº Senhor
Director-Geral do Fisco,
José António Azevedo Pereira

 

Em resposta às inúmeras missivas de cariz terrorista, totalitário, imoral, cretino, prepotente, acéfalo e sobretudo incauto, por V Exas a mim remetidas, nas qualidades diversas de utente, contribuinte, arguido, infractor, transgressor, notificado, nascido, criado e eventualmente falecido neste marasmo onde só musgo como V Exas pode brotar, tenho a informar, em suma:

 

que possuo uma lista, lavrada a lápis, numa folha de papel pardo, onde anoto cada tostão a mim, aos meus entes queridos, e a nossas conexoes socio-emocionais por v. cobrados até à quinta colateralidade;

 

mais digo que dessa lista, exarada com o rigor e paciência de um construtor de ábacos, cobrarei a V Exas ou a quem v/ substitua à luz, letra e espírito da Lei e da Constituição, cada unidade de conta, qualquer que seja o câmbio e a divisa em vigor à data em que o meu limiar de sensatez - curto, a avaliar pela parte publicamente dada a ver do meu carácter - seja galgado.

 

Seu e sem mais

 

fms

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publicado às 22:34

« O que se Não Deve Dizer » *

por Cristina Ribeiro, em 18.06.14
" Nós, os « espectadores » somos ' espequetadores '. Nós, os « ouvintes » somos ' óvintes ', os ' timados óvintes ' "

Quando assim escrevia, o escritor duriense não tinha ainda de se preocupar com a grafia das palavras; escandalizava-o antes o descaso com que se falava, sem respeito, mormente da parte dos locutores, pelo bem pronunciar, pela prosódia.
Lembrei desta passagem ao passar há dias frente à televisão: no rodapé anunciava-se " a atualidade nacional comentada pelos espectadores ": se aquela aparece sem o C culpemos o infeliz do acordo ortográfico; mas se esta aparece com o C, é apenas porque supõem os escribas que o mesmo se pronuncia - isso de ' espequetador...
                     
 * Título de livro de Cândido de Figueiredo

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publicado às 17:04

Continuem

por Fernando Melro dos Santos, em 18.06.14

Continuem a discutir a quinta via, a sexta-feira, o Coentrão (150 mil likes, senhores), a direita coesa, a esquerda ex-livre, a bruma que proíbe os chinelos, o PSI-20, as notícias com três dias de atraso, e dancem, sobretudo dancem, riam, divirtam-se, jantem às onze da noite, paguem trinta euros por gin, deixem comprar areia, votem, ou que merda vos fizer felizes. 

 

Mas por todos os santinhos, não mudem agora. Continuem.

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publicado às 14:06

Uma direita ignorante

por Samuel de Paiva Pires, em 18.06.14

Uma direita dita liberal que teima em insistir que o liberalismo rejeita a tradição, sem conceptualizar a noção de tradição a que se refere - ficando implícito que é todo e qualquer tipo de tradição -, não é uma direita liberal. É uma direita dita liberal que não leu um dos seus autores supostamente predilectos, Friedrich Hayek, e, portanto, desconhece que a noção de tradição subjaz ao próprio mercado livre e está intrinsecamente ligada ao conceito de ordem espontânea. Se, efectivamente, o liberalismo rejeitasse toda e qualquer tradição, dado que o liberalismo é, ele próprio, uma tradição, que contém em si várias tradições, então o liberalismo rejeitar-se-ia a si próprio - em face disto, conservadores e esquerdistas só se podem rir de certos patuscos liberais. Em suma, estamos em presença de uma direita ignorante.

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publicado às 10:36

A era da inflação já chegou

por John Wolf, em 18.06.14


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publicado às 09:44

Pensionistas da bola

por John Wolf, em 18.06.14

Dois em cada três pensionistas dados como aptos para trabalhar. É quase o oposto da selecção nacional de futebol.

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publicado às 09:17

Ainda que esteja assoberbado de trabalho, tenho sempre tempo para fazer notar que um bronco idiota é sempre um bronco idiota. Embora, de facto, não se possa esperar nada de um iliterato que mal sabe pensar e escreve com os pés. Como pedir que volte para a caverna de onde nunca deveria ter saído talvez seja pedir muito, então que ao menos continue a divertir-nos com a sua estupidez. 

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publicado às 22:01

Leitura recomendada

por Fernando Melro dos Santos, em 17.06.14

Educar é possível? Ai é, garanto-vos que é. A bem ou a mal.

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publicado às 17:35

Prolongamento de Portugal

por John Wolf, em 17.06.14

Qual árbitro qual carapuça. O problema é muito maior e vem de longe. E a culpa não é dos outros (o instrumento dilatório de sempre). A responsabilidade pelo destino está enraizada, é endémica e faz parte do DNA nacional - tem dono, pertence aos próprios. Desde tempos imemoriais que o culto da personalidade tem abafado a virtude do organismo colectivo.  Há quase uma década que a sacralização de Cristiano Ronaldo tem sido uma constante, a transferência do ónus para a figura sebastiânica, superior, que reduz a nada os alegados parceiros da empreitada. Esta mesma patologia permeia tantas dimensões. É a mesma contradição existencial, repetida à exaustão  - a falsa consciência colectiva alvitrada pela promessa de um guru elevado aos céus e derretido pela circunstância de uma fénix. Na mesma senda da glorificação totalitária, do tudo ou nada, besta ou bestial, são inúmeros inscritos na mesma ordem de devassa do espírito das nações. Depositem a fé toda na vinda do esclarecido. De Salazar a Soares, de Cristiano a Costa, é assim que funciona na tômbola de consequências nefastas. Do murro dado por João Vieira Pinto em 2002 a lugar de destaque na equipa técnica. Da cabeçada agachada ao descartar da nacionalidade oportuna. Tudo isto faz parte da mesma mossa que sacode águas fintadas pelo capote. A culpa é dos outros. Foi um dia para esquecer, em vez de ser a razia para começar de novo. Para cometer os mesmos erros.

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publicado às 16:57

Nigro Notanda Lapillo (trocadilhos #1)

por Fernando Melro dos Santos, em 17.06.14

 

 

 

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publicado às 16:40

Porca miséria

por Samuel de Paiva Pires, em 17.06.14

Esta reportagem do Público tem provocado umas quantas reacções por aí. É um exercício que quase roça o caricatural e não deve ser confundido com o exercício sério de António Araújo. Mas quando leio a um dito liberal, em reacção à peça do Público, que "Um liberal, por tradição, deve rejeitar a tradição como argumento para o debate político, ou pelo menos relegar-lhe a importância que este merece: um estabilizador. A tradição não é necessariamente melhor ou pior. O seu único mérito foi sobreviver ao tempo, coisa que uma rocha também faz com especial primazia", percebo cada vez mais claramente a miséria intelectual que assola muitos dos liberais indígenas. Não se trata de mera opinião, mas de um erro clamoroso. Que se torna ainda mais grave quando, mais à frente, o mesmo autor refere que "Embora um liberal não partilhe do imaginário utilitarista de Stuart Mill ou não se identifique com Burke (...)."

 

Evidentemente, convinha averiguar o que liberais como Friedrich Hayek, Karl Popper, Edward Shils e Michael Polanyi pensavam sobre o conceito de tradição. Podem começar por aqui, ou por aqui, ou por aqui (o ensaio "Towards a Rational Theory of Tradition") ou ainda por aqui. E a respeito da não identificação do liberalismo com Burke, investigue-se o que pensava dele Adam Smith ou Hayek e as semelhanças entre este último e o parlamentar irlandês

 

Ademais, este recorrente exercício de "para um liberal é assim" e "para um liberal não pode ser assado", além de muito pouco liberal, já enjoa, e bastaria uma breve leitura de uma pequena obra de João Ricardo Catarino, O Liberalismo em Questão, para ficarem maravilhados com a pluralidade que caracteriza o liberalismo. Ou, para os que preferem estrangeiros, aquele também pequeno livro - é melhor recomendar obras pequenas e concisas - de John Gray, Liberalism. É que não há um liberalismo, mas vários. Conforme escreve José Adelino Maltez no tomo II da sua tese de doutoramento, Ensaio Sobre o Problema do Estado: 

 

"O liberalismo clássico desdobra-se em duas fundamentais vertentes: a do contrato social e a do conservadorismo evolucionista. O primeiro é radicalmente fundacionista, tende a ser utilitarista e cai na tentação da utopia; o segundo é consensualmente realista e marcadamente idealista. Ambos são normativistas e eticizantes, cada qual à sua maneira.

 

O problema talvez esteja no facto de haver um liberalismo que não sabe, nem quer saber, da economia, como o romantismo de Rousseau que, segundo Proudhon, «refere-se exclusivamente a direitos políticos: não reconhece os direitos económicos», ao passo que outros liberalismos, apenas pensam a economia, desdenhando da política."

 

Infelizmente, muitos liberais formados em economia continuam a protagonizar um certo analfabetismo intelectual. Os mesmos que, muitas vezes, clamam contra a ignorância sobre conceitos económicos básicos, pretendendo que quem não seja formado nessa magna ciência não emita opiniões sobre o funcionamento da economia. Também infelizmente, não aplicam um critério idêntico a eles próprios, pois que evitariam incorrer em disparates, acaso se coibissem de emitir opiniões sobre filosofia política, ciência política ou direito.

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publicado às 12:54

O mundial não acaba aqui

por Samuel de Paiva Pires, em 16.06.14

Sim, a selecção nacional fez uma pobre exibição. Mas a Alemanha também não jogou nada por aí além - teve uma eficácia tremenda, claro. Sim, faltou velocidade, garra e eficácia a Portugal, e houve jogadores que em determinados momentos nem pareciam lá estar. Sim, Paulo Bento é um seleccionador teimoso e que errou ao não levar jogadores como Quaresma e Adrien ao Mundial.

 

Mas os meus amigos crédulos que não querem ouvir falar nos árbitros ou os que acham que não nos devemos queixar dos árbitros terão de me desculpar. É que o futebol tem regras que devem ser garantidas pelo árbitro, um ser humano e, logo, falível, susceptível a erros e manipulações. Portanto, colocar os árbitros num plano de soberania neutral é, no mínimo, uma valente ingenuidade. É, em analogia, o mesmo que achar que o Tribunal Constitucional é absolutamente imparcial e, de repente, perceber que, afinal, é um orgão político, não apenas jurídico - isto, claro, para quem acredita na carochinha, como se o Tribunal Constitucional pudesse não ser um orgão político, mas parece que temos umas quantas alminhas que ainda não tinham percebido isto.

 

Agora, coloquem-se no lugar dos jogadores da selecção nacional, por pior que tenha sido a exibição. Entram em campo depois de já terem assistido a vários jogos e arbitragens suspeitas, com penáltis altamente duvidosos a serem recorrentes, e sabendo que há notícias de que a Interpol estará a investigar jogos alegadamente combinados. O jogo começa equilibrado e aos 12 minutos o árbitro marca um penálti muito forçado contra Portugal, cujo critério, se fosse efectivamente imparcial, implicaria assinalar um penálti evidente sobre Éder na segunda parte. A desmoralização é, inevitavelmente, imediata. Pouco depois, Pepe comete um erro imperdoável, mas que em parte alguma do mundo seria motivo para o cartão vermelho que viu - e, novamente, não deixa de ser questionável tanto rigor por parte do árbitro para um dos lados em contenda, e tão pouco para o outro, com várias faltas por assinalar.

 

Ninguém diz que a selecção nacional não tem responsabilidades pelo que aconteceu. Mas há mais variáveis que contribuíram para o resultado final. E o árbitro foi uma variável determinante.

 

Posto isto, o mundial não acaba aqui. Há, para já, dois jogos para ganhar. Força, Portugal!

 

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publicado às 20:25

Lémingues

por Fernando Melro dos Santos, em 16.06.14

Enquanto a Rússia corta o gás, o Cristo de Detroit envia 550 marines para o Golfo, e São Paulo fermenta, congratulemo-nos por vivermos numa Nação segura, limpa, moderna e socioicónica que nos deixa ver em directo a abertura dos torniquetes por onde passarão os adeptos. 

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publicado às 13:41

Abuso de Estupidez

por Fernando Melro dos Santos, em 16.06.14

Por vir expor algo que me causou uma overdose imediata nas sinapses e nos disjuntores anti-esquerdalhistas, reproduzo na íntegra e no original a crónica de hoje de Arturo Pérez-Reverte. Bem haja Don Arturo desde já por mais esta demolição elegante da paródia em que se tornou o Ocidente.

 

Em suma, no Reino Unido prepara-se uma lei que pode punir com penas de até dez anos de cadeia progenitores que demonstrem crueldade emocional, privando os filhos de beijos e abraços. Porque podem sofrer muito. Bastando para tal que assim o entendam - os putos.

 

Pode abortar-se? Pode, em nome de um futuro Bom ou nenhum futuro, que Nós é que sabemos.

Pode ordenar-se ao latagão de 15 anos que não esteja na consola a comer cheetos até às 05h? Não, é perigoso para o futuro da criança, que a criança é que sabe. Puta que os pariu a todos. 

 

E mais aqui está:

 

"Consuela comprobar que en todas partes cuecen habas, y que otros, a veces, incluso las cuecen más gordas. El daño colateral, sin embargo, es que, como toda estupidez suele ser contagiosa, y España -lugar donde una ardilla podría recorrer la península saltando de idiota en idiota- es lugar bastante propenso a tales contagios, al final las habas gordas de los demás también acabamos, indefectiblemente, cociéndolas nosotros. Con lo que no hay disparate guiri digno de telediario que, tarde o temprano, no acabe siendo adoptado, con militante entusiasmo, por nuestros tontos del haba de aquí. La última es tan excelsa que no me resisto a contársela.

 

En Gran Bretaña, impulsada por una oenegé llamada Action for Children -gente que parece de lo más respetable, por otra parte-, están preparando la que llaman allí, y no es coña, Ley Cenicienta; aunque habría sido más bonito, más literario y más inglés llamarla Ley Dickens. Pero, bueno. En cualquier caso, como su apodo sugiere a quien haya leído lo de los hermanos Grimm, esa modificación legal pretende que los padres que priven a sus hijos de abrazos, besos o muestras de cariño se enfrenten a penas que irían desde multas hasta diez años de cárcel. Según el Daily Telegraph, que comenta el asunto, se pretende modificar la legislación vigente para introducir como delito la crueldad emocional paterna, situándola casi al mismo nivel de los abusos físicos o sexuales. Y ahí no hablamos ya de malos tratos a niños, incluso psicológicos -punto sobre el que no hay discusión ni matiz posible-, sino de si se les besa y abraza lo bastante, se les dice hijo mío cuánto te quiero, y cosas así.

 

Cómo se evalúa eso es lo de menos: ya se irá viendo. Lo que cuenta es que los padres culpables de ignorar afectivamente a sus hijos o de no darles suficiente cariño, perjudicando así su desarrollo emocional, puedan ser detenidos por la policía y llevados ante un tribunal, donde un juez decidirá sobre el asunto después de averiguar -calculen la finura que se le supone a su señoría- si el niño se siente lo bastante amado por sus padres, si éstos le dan besos y abrazos suficientes, o si, por el contrario, muestran una frialdad afectiva que, según la oenegé antes citada, «puede producir problemas de salud mental y, en algún caso, el suicidio».

 

No cabe duda de que el bocado es tan jugoso, tan de telediario, tan fácil de manejar una vez adobado con la demagogia idónea, que de aquí a nada tendremos en España bellas iniciativas como ésa. Bofetadas habrá para apropiarse el bombón y masticarlo. Todo, claro, con la etiqueta política de cada cual, derecha e izquierda -está científicamente probado que los maltratadores siempre son de derechas-, y planteado mucho más a lo radical que en Gran Bretaña -donde, por cierto, uno de los paladines de esta ley es un diputado conservador-.

 

Si en España basta que una señora diga en una comisaría que su marido o su novio la maltratan para que, con sólo su palabra, sin averiguación ni comprobación previa y garantía mínima de veracidad, el fulano pase esa primera noche automáticamente en un calabozo, y mañana ya veremos, calculen cuando haya de por medio, con una ley Cenicienta sobre la mesa, un niño -y eso incluye cabroncetes de hasta dieciséis años- que llega y dice: «Oiga, señor policía, mis padres no me quieren lo suficiente, eso perjudica mi desarrollo emocional y un día de éstos acabaré suicidándome». Esposados salen de casa, como el Lute. No les quepa a ustedes la menor.

 

Y es que esto es España, recuerden. Así que los progenitores poco afectuosos pueden ir poniendo los pavos a la sombra. Imaginen a un juez, según respire, estableciendo si los abrazos que tal o cual madre da a sus retoños son apretados de achuchón o sólo fríos gestos para cubrir el expediente. Si supone delito no arropar a un hijo y leerle cuentos hasta que se duerme. Si es punible, o no, que mientras un padre hace la declaración de Hacienda, ocupado en desear un futuro de felicidad al ministro Montoro y a todos sus muertos, no bese a su hija cada vez que ésta pasa cerca. Si es frialdad afectiva prohibir al niño matar vampiros en la videoconsola hasta las tres de la madrugada, o hasta qué punto el hecho de que por imprevisión paterna se acaben los crispis para el desayuno puede causar trastorno emocional, con el correspondiente suicidio cuando cumples los cuarenta tacos.

 

Imaginemos, en resumen, el interesante panorama paterno-filial que puede abrirse aquí con una ley semejante. Las deliciosas escenas. Todas esas madres abalanzándose enloquecidas sobre sus criaturas de quince años, a la salida del cole, rivalizando en colmarlos de besos y abrazos ante sus compañeros. Por si acaso."

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publicado às 11:09

O PS é Portugal

por John Wolf, em 16.06.14

O que está a acontecer ao Partido Socialista (PS) é realmente muito positivo. Os políticos vêm sempre com aquela conversa de abrir os partidos à sociedade civil, da regeneração, do alargamento das bases, sem esquecer a máxima da sua importância na história da democracia em Portugal. Sem o ter planeado de um modo estratégico ou programático, o PS está a braços com um processo de saneamento. Mas há motins que são bem-vindos. O conflito visceral que opõe Seguro a Costa está a servir objectivos diversos, entre eles a falsa purificação do partido. Por mais voltas fratricidas que o PS dê, não se afastará do seu core-business. E a sua actividade nuclear (à semelhança dos outros partidos) consiste em redistribuir o poder pela rede de apoiantes que fazem com que os candidatos cheguem ao poder. No próprio partido as falanges esfregam as mãos pelas migalhas maiores ou menores que serão lançadas como prémio pelo apoio incondicional. Vozes desconhecidas, de norte a sul do país, começam a dar a cara na expectativa de participar na OPA lançada por António Costa sobre as bases distritais. A velha-guarda, depositada a longo prazo no capital ideológico do partido, não precisa de se mexer, de se fazer ao piso. Está presa aos valores que sempre lhe granjeou dividendos. Uns a favor do actual secretário-geral, outros a amparar aquele que almejam que chegue a primeiro, mas todas estas voltas não passam de um mesmo caminho batido, da mesma alvenaria que eterniza essa ideia de superioridade moral, política - como se os socialistas fossem os únicos bons de Portugal. E, nesse processo de clarificação, temos sabores para todos os gostos. Diria que o espectro ideológico de Portugal entornou-se todo na casa socialista. Se o Rato representasse a totalidade do espectro político de Portugal, António Costa seria um partido de direita, alicerçado em valores e processos conservadores - seria o CDS do PS. António José Seguro o BE do PS e Sócrates/Soares o PS do PS. Podemos, sem nos afastarmos dos socialistas, ler Portugal na sua íntegra. Aquele microcosmos, no seu presente estado de ebulição, serve de exemplo, de tabela períodica de como o processo político decorre em Portugal. Não sai dali. É como um toiro encrençado nas tábuas. Que se afasta um pouco, mas que regressa sempre à sua natureza. E enquanto decorrem as faenas na arena, Portugal resvala ainda mais para um beco sem saída. As frases feitas já não servem de consolo, quanto mais para um programa de governo.

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publicado às 09:55

Memória (1)

por Fernando Melro dos Santos, em 15.06.14

 

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publicado às 18:31

Quimioterapia

por Fernando Melro dos Santos, em 15.06.14

 

Hoje, um domingo em 2014, fui ao cinema ver um bom filme, interessante e provocador mas acessível q.b. para que num dia saudável a sala tivesse, pelo menos, recebido 1/3 da sua capacidade. Estava assim, como a foto ilustra. 

 

E Portugal é isto, um país em quimioterapia constante, à espera da remissão com a cabeça na areia indeciso entre puxar das gónadas e morrer do mal, ou persistir em ficcionar um argumentário infantil - porque sem religião ("somos laicos") nem ética (abortamos de punho erguido) e quando os novos senhores que passámos a idolatrar - o Estado, a Instituição, o Ninho de Especialistas, a Incubadora de Salvações - nos abandonam, é isto que sobra: o Outro sozinho três filas mais adiante.

 

De regresso a casa, passei por muitas esplanadas, que nem estavam cheias, nem vazias. Em todas, porém, havia gente que ria, e outros que não riam. De entre os que não riam, percebia-se a ruína completa das suas faculdades anímicas. Pois se está um tempo tão bom, como não rir?

 

E nos que sorviam com a largesse que apenas os que muito e os que nada sabem podem exibir, havia um cisma. Porque alguns riam no timbre estugado de quem pretende chegar depressa ao copo cujo ordinal marca o fim do orçamento pré-estipulado, para poderem dali fugir e na reclusão carpir a diferença entre esta tarde e as de há tempos; e outros riam do próprio riso, numa espécie de acto bacteriano onde a vida de cada interveniente se mede em períodos tão curtos que só a colónia aparenta permanecer coesa à lupa do bom cientista.

 

Que estranhos dias, uma pessoa sair de casa e aperceber-se de que os conceitos de diversão, saúde e até de Vida ficaram reduzidos às patranhas - que ingenuamente, em moço, sempre pensei que não iludissem um cego, ai, um invisual - impingidas por socialistas de esquerda, centro, direita e nenhures, e que a resposta das massas é afinal a pergunta que não serve para nada: ó doutor, mas eu trato-me e fico curado?

 

Fica, fica. Esteja descansado. Vá para casa e faça a sua vida normal, como todos os dias. 

 

Adenda às 17:10

 

Este poderia ser um post sobre amizades perdidas, que é como dizer, sobre a ligeireza com que as pessoas mudam. Por vezes por crerem que da mudança virá o alento, ou a paz, ou que mudando a luz do Sol deixará de ferir com tanta inclemência os olhos por detrás do vidro de marca. 

 

Um post sobre quem deixa de procurar respostas no espelho, no silêncio e nas trevas, por medo ou por birra, e vai no seu encalço para a praia da moda, para dentro da turba néscia, para o copo mais caro no cubículo onde se é mais visto, et caetera ad nauseam. 

 

Mas é um post sobre uma sala de cinema vazia, que é outra forma de ter pena, e raiva, que são dois lados da mesma moeda, pelo sentimento de repulsa que me causa pensar numa expressão outrora querida, e hoje esvaziada: ama o teu semelhante. 

 

Cada vez há menos dos semelhantes que importam.

 

 

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publicado às 15:56

Para quê tranches quando há fantasia?

por Fernando Melro dos Santos, em 14.06.14

Link.

 

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publicado às 20:11

Hossana!!!!!

por Fernando Melro dos Santos, em 14.06.14

Li no Público um artigo imperdível. O primeiro nestes anos todos. Já ganhei o dia. Já o tinha ganho, porque sou um porco capitalista e trabalho aos fins-de-semana, mas assim ganhei capital espiritual. Taxem-mo. 

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publicado às 11:13







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