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L'importã é que a gente se comprã.

por João Quaresma, em 21.04.12

Desta vez não concordo com a crítica a Mário Soares, feita abaixo e no Combustões. Mário Soares tem e sempre teve um bom Francês, fluente e correcto, apenas com uma péssima pronúncia (e divertida, de facto), que o próprio certamente melhoraria se quisesse. Mas ninguém tem obrigação de falar uma língua estrangeira com outra pronúncia que não a derivada da sua língua materna. Se conseguir falar na pronúncia original, melhor; embora a perfeição injustificada pela ausência de um uso práctico prolongado possa por vezes ser entendida por parte de quem escuta como subserviência e complexo de inferioridade: precisamente a razão por que muitos portugueses se esforçam por falar um Inglês perfeito, por vezes ridiculamente mais britânico que o dos britânicos.

 

Em contraponto com o Francês de Mário Soares, temos o excelente Inglês de Jorge Sampaio que, nos encontros formais com personalidades estrangeiras, discursava na língua da Shakespeare com perfeição oxfordiana quando a função e a ocasião determinariam que fosse em Português. Até que um dia, numa visita oficial à Bósnia-Herzegovina, depois de Sampaio fazer uso da palavra como lhe era costume, o então presidente Alija Izetbegovic não correspondeu e fez o discurso de boas vindas na língua local, como era de esperar. Sampaio percebeu a figura que tinha feito e emendou-se daí em diante.

 

Nós, Portugueses, até somos dotados para as línguas e não há muitos países na Europa onde a população esteja tão à vontade com uma língua estrangeira como nós estamos com o Inglês. Isso é sem dúvida uma mais-valia que, por exemplo, os nossos vizinhos espanhóis não têm. E contrasta com os estrangeiros que nos visitam e que se estabelecem cá, que frequentemente não têm a menor preocupação em aprender Português, mesmo após vários anos de estadia.

 

Por isso é que não precisamos de nos esmerar muito: se nos fizermos compreender com clareza, o objectivo está atingido.

publicado às 16:55


9 comentários

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De areia_do_deserto a 21.04.2012 às 17:52

Não concordo e a minha opinião é fundamentada, pois fui professora, em regime voluntário, de Português como Língua Segunda (como factor preponderante de integração em contexto de imersão sociolinguística) e quase todos os meus alunos eram de Leste e todos eles (alguns com Mestrados e Doutoramentos e a trabalhar nas obras ou como domésticas) sempre demonstraram uma enorme vontade de aprender a Língua do país de acolhimento (vinham cansadíssimos dos seus  trabalhos e tinham aulas à noite numa instituição escolar...)e mais- detinham um desenvolvimento lógico-matemático tão apurado que chegavam às regras gramaticais, tantas vezes, não sabendo mais do que palavras ou expressões de saudação como "olá" ou "boa tarde". E o que é que o desenvolvimento do raciocínio lógico-matemático tem a ver com as línguas? Tem quase tudo, como tem a ver com a música e com a Espiritualidade, pelo desenvolvimento das competências de abstracção conceptual. Leia Chomsky!
Agora, os imigrantes Chineses, na sua maioria, esses, estranhamente, não demonstram alguma vontade de aprender a LP, o que demonstra que, de facto, a sua intenção não é a integração sociocultural e que são uma comunidade entrópica, que se auto se exclui nos seus ghettos.
E claro poder-se-á alegar que os de Leste têm como alfabeto o cirílico, enquanto os Chineses têm uma escrita iconográfica. Pleaaase, give me a brick, que não break! O fenómeno é o mesmo do que se verifica em quase todas as Chinatowns e até nos bairros de Portugueses residentes e nacionalizados nos EUA que nem sequer uma palavra em Inglês falam, pois a sua vida decorre ali, numa comunidade fechada. Claro que há digníssimas excepções. Isto é a consequência explica a causa.
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De areia_do_deserto a 21.04.2012 às 17:53


Quanto aos Espanhóis não demonstrarem grandes capacidades para falar outras línguas, a dobragem dos filmes é um factor fundamental para que tal aconteça. Senão vejamos- a competência da fala desenvolve-se numa criança até aos 7 anos- se até aí não a desenvolver, sei finito! Daí o fenómeno das Crianças-lobo. Ora muitos de nós (exceptuando os que nasceram em Moçambique, onde se estava constantemente em contacto com a Língua Inglesa, devido ao contacto com a Rodésia e a Áfrca do Sul, e aos empréstimos linguísticos que actualizávamos como ice cream, chwinga ( provinha de chwingum), tatá, farma (= quinta) entre tantas outras e onde se verificava uma confluência deveras intercultural e totalmente integrada entre 4 civilizações- a Chinesa, a Indiana, a Africana e a Ocidental- a Portuguesa) tivemos como primeiro instituto de Inglês os filmes e séries, daí que a maior parte apresente uma pronúncia americanizada do Inglês..
Para além de que em Portugal, a interculturalidade ainda não é uma realidade nem mesmo quando se está a falar não de distintas civilizações e/ou de etnias, mas até de grupos sociais, de tribos urbanas- as pessoas fecham-se, tendencialmente, em grupos entrópicos...
Quanto aos anglo-saxónicos, tb não corresponde muito à verdade dos factos a argumentação de que se julgam hegemónicos- a contrariar essa circunstância está a comunidade Inglesa sita no Algarve, cuja 2ª geração fala fluentemente a LP e muitos Alemães no Alentejo que procuram aprendê-la. Todavia, verifica-se uma séria dificuldade no entendimento de um fenómeno linguístico: a palatalização da pronúncia lisboeta que nos faz aglutinar sons. Daí que um professor brasileiro de S. Paulo ou até alguém da zona de Coimbra seja muito mais eficaz a leccionar LP, pois soletra todas as sibilantes- só quem detenha uma capacidade para se descentrar no momento da aula e compenetrar-se na superação desse handycap poderá contornar esse obstáculo. Daí que a opinião de senso comum ignorante de que o Português do Brasil é mal falado é um disparate de todo o tamanho. Naquela região do Brasil, actualiza-se uma pronúncia muito mais próxima da nossa do séc.XVI do que, hoje, cá em Portugal seja qual for a região, para além de que os Brasileiros usam muitas estruturas sintácticas e muitos vocábulos arcaicos que já nós não usamos. Logo, a questão purista do AO cairia logo por aí, acrescentada ao facto de que o Brasil tem muitos mais falantes de Português que estes rectangulozinho à beira-mar-plantado. A Língua É Um Símbolo que não deve jamais ser alvo de egocentrismos e sempre evoluiu e evoluirá pelo erro! Claro que há que respeitar as normas sincrónicas, por uma questão de organização mental, mas as diacrónicas já lá vão e se a génese dos Descobrimentos foi descentrada, então que o seja a política linguística!
E claro que no Brasil há muito mais pronúncias distintivas (algumas impronunciáveis) do que cá- é natural- dada a extensão do território. Mas o que tb é natural é que mesmo com as pronúncias igualmente impronunciáveis ao comum dos lisboetas (a centralização tem destas coisas:) da Madeira e dos Açores, não há dialectos nem cá nem no Brasil, no que ao Português diz reespeito, exceptuando o crioulo dos imigrantes cabo-verdianos e o Mirandês.
Para além de que, muitos anglo-saxónicos residentes se queixam de que, por mais que queiram fazer o esforço de aprender a LP pela imersão sociolinguística, nós Portugueses, em contextos da vida quotidiana, não os deixamos, pois queremos logo praticar o nosso Inglês :)
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De areia_do_deserto a 21.04.2012 às 17:57


Correcção: o Mirandês não é um dialecto, é uma língua.
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De areia_do_deserto a 21.04.2012 às 17:58

Quanto ao Mário Soares, apenas demonstra, mais uma vez, que  esperteza se distingue de inteligência.Image
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De João Quaresma a 21.04.2012 às 19:59

Areia do Deserto: obrigado pelas sua resposta tão completa. Mas se reparar no que escrevi, não discordo do que diz. Eu refiro-me ao facto de por vezes sermos demasiado perfeccionistas, e que poderá ser mal interpretado. Os chineses são de facto um caso à-parte. Cumprimentos.
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De Nuno Castelo-Branco a 21.04.2012 às 20:04

Não sou político e assim, estou à vontade para lhe dizer, João, que até um certo ponto compreendo Soares, pois quando noutros tempos de vez em quando ia a França, eu próprio fazia questão que eles percebessem que não era francês nem fingia sê-lo. Mas ser Chefe de Estado é um outro inatingível e pouco apetecível patamar e assim, se Sampaio fazia boa figura com o seu inglês Oxford, por outro, cometia o erro crasso de nos discursos oficiais desatar a dar à língua numa outra que não a portuguesa. Aí está a questão. Mas convenhamos, Mário Soares não fala assim para "dar uma" de blasé. Aquele françuguês é tão límpido e autêntico como o "espahuél" - aliás copiado por Sócrates - que "costumbráva áblár em lás cumbres cum sió camaráda del Pê-Soi Félipe Gonzálej". João, não me diga que também era um castelhano perfeito e apenas descuidado na pronúncia. É mesmo assim, nada a fazer. Tudo isto misturado com algumas calinadas como os famosos e constantes "eles hadem"..."a Húngria", ou ..."os EUA perderam um milhão de homens na I Guerra Mundial", completam bastante o ramalhete da "lata".
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De João Quaresma a 22.04.2012 às 23:52

Nuno, não estou a falar no Sócrates. Esse então, nem há descrição para as figuras que fez. E acredite que não tenho simpatias nenhumas por Mário Soares. E também não sou político.
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De Paulo Porto a 22.04.2012 às 00:50

Quaresma
Não concordo consigo. A maioria dos portugueses que diz falar inglês fala um inglês de praia, básico, tão básico como o francês de Mário Soares. Você fala francês? Não vê que aqui corresponde às competências de nível elementar aprendido nos três primeiros anos do liceu?
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De João Quaresma a 23.04.2012 às 00:00

Paulo Porto, 


Falo e escrevo Francês, desde a infância. Desculpe mas não, não é um Francês básico. E o entrevistador não parece ter nenhuma dificuldade em entendê-lo. Aliás, Soares pertence ainda a uma geração para quem a língua internacional de referência era o Francês, sendo que as mais recentes cresceram já em pleno domínio da língua inglesa.


Um dia destes ainda vamos ter políticos a falarem chinês e aí confesso que não poderei avaliar da boa ou má pronúncia.


Com os melhores cumprimentos.

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