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O mundo às avessas

por Nuno Castelo-Branco, em 16.05.12

O agora hiperactivo dr. Mário Soares, naturalmente embandeira em arco com a mais que previsível vitória obtida pelo sr. Hollande, esse "bom socialista e com uma formação académica e política excepcionais" (sic).

 

Estas festas de sucessos eleitorais têm as mais diversas leituras e entre uma certa orfandade sovietista que bem conhecemos, saldam-se sempre por esmagadoras vitórias, mesmo perdendo votos e aproveitando-se os actos para lerem as maiorias ao contrário. O dr. Mário Soares evita a contagem dos votos esquerda-direita, pois sabe perfeitamente que o sr. Hollande deve o passeio pelos salões do Eliseu Napoleão, à boa vontade e teimosia sabotadora anti-Sarkozy da sra. Le Pen. Talvez o ex-presidente acabe por ter alguma razão neste separar de águas entre a direita que no seu douto saber é sempre neo-liberal, ultra-conservadora e populista e a esquerda sempre generosa, nada amiga da plutocracia - essas pérfidas agências pejadas de bons socialistas como o sr. Strauss-Kahn, por exemplo - e completamente blindada aos desvarios do capitalismo selvagem. Essa verdade é tão escusa, como verdadeiro foi o vórtice capitaleiro dos senhores Blair, Brown, González, Zapatero, Fabius, Jospin, Craxi, Prodi, Soares dos anos 76-85, Guterres, Sócrates e claro está, do agora haupt-agente de gás russo Gerhard Schröder. Tudo boa gente, impoluta quanto à finança das negociatas de rumo PPP que acabam sempre cobertas a expensas dos contribuintes. 

 

O dr. Soares não pode reconhecer o papel da senhora Le Pen, aliás largamente beneficiada no constante aumento das suas hostes, por gente que ainda não há muito tempo andava de punho erguido e delirava pela criação do homem novo e de uma "Terra sem amos". Da Internacional ao Horst Wessel Lied vai apenas um passo de ganso e o dr. Soares sabe do que se trata. A Frente Nacional, nos anos oitenta impulsionada por um Mitterrand ansioso por  criar uma clivagem na direita gaullista, pela sua notória abstenção no acto eleitoral de 6 de Maio,  graciosamente ofereceu a vitória a Hollande. A FN fica assim num limbo, naquele espaço de impossível classificação pelos Mários Soares desta Europa sempre em demanda de contrastes branco-preto. Se o nacionalismo, essa invenção da velha esquerda de entusiasmos bastilheiros que estilhaçou a Europa, incluída a portuguesa, é hoje a pecha da direita, a FN é sem qualquer dúvida, de direita. Mas o que dizer então do seu discurso tendencialmente hermético no campo da economia e finanças? O que dizer do subir da parada quanto à intervenção estatal em todos os sectores da sociedade? Como poderemos então classificar aquela mole de gente, aliás pouco dada a molezas burguesas café et croissant au 16º arrondisement e bastante belicosa ao estilo das barricadas parisienses de outros tempos? Ora, a FN aparece nas ruas, como um típico movimento de massas que a esquerda gosta de apresentar como exclusividade sua e sociologicamente, além de uns pós católicos e tradicionalistas reminiscentes de Vichy - outro alfobre de ex-comunistas e bons socialistas como Mitterrand, entre muitos, muitos outros -, os eleitores banlieu de Le Pen, pensam e agem como os comunistas e a "ala esquerda" da antiga SFIO pensavam e agiam. Se assim é, o dr. Soares está perante um democrático dilema: ou ignora completamente a existência de um quinto do eleitorado francês e apenas soma à direita as forças que imbecilmente são crismadas de "clássicas", ou então deverá adicionar aos maoístas, estalinistas, trotsquistas, rebotalho pretensamente "verde" e piratarias diversas, a "esquerda clássica" socialista PS, até agora nitidamente bastante minoritária em França. Para o observador mais distraído, a gente que corre atrás do populista Mellenchon e das migalhas sobreviventes da Guerra Fria correspondem à esquerda, aquilo que a FN é para a direita. Em suma, se Le Pen é de direita, então é visível o estado de inferioridade eleitoral em que a "esquerda" se encontra em França, pois a aritmética é simples: 48% + 20% = 68%.  No entanto, com o empurrão presidencial e mercê do retorcido e escabroso sistema de eleição de duas voltas, o PS poderá talvez surgir na Assembleia Nacional, com algum renovado vigor. A França é uma democracia onde o facto de um candidato ter votos, tal não significar ter possibilidades de ser eleito, devido à política de boicotes orquestrados sob a mesa.

 

Mas sejamos generosos e deixemos todo o espaço para aquelas alegrias pueris que ainda há poucos anos saudaram o advento de Obama - e de Mitterrand, Blair, Schröder, Zapatero ou Sócrates - como o regresso do verdadeiro Messias. A cegueira chegou ao ponto de um chamada - em diplomacia diz-se convite para consultas - de Merkel que convoca Hollande no próprio dia da sua tomada de posse, é vista quase como uma reedição da assinatura de Compiègne naquele já longínquo Outono de 1918. Claro que para os alemães, uns poucos noventa milhões de pacóvios que na ideia do dr. Mário Soares pagam e têm de continuar a pagar, a apressada e solícita chegada de Hollande à Bundeskanzlei de Berlim, soa demasiadamente a uma espécie de Rethondes do Verão de 1940. Aguardemos pelas notícias quanto aos "dinheiros da França", porque as próximas semanas não deixarão de mostrar a realidade que todos intimamente reconhecem, dr. Mário Soares incluído.

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publicado às 18:22


10 comentários

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De areia_do_deserto.i.e_Isabel_Metello a 16.05.2012 às 21:24


Nuno, tudo bem que os extremos se tocam e que há aqui qualquer plano mefistofélico globalizante (eu que não acreditava já estou quase a acreditar, pois em todo a sociedade ocidental está-se a acirrar o fenómeno da dicotomia muito ricos/ miseráveis...:), mas ontem estive a ver uma reportagem sobre grupos Nazis franceses e alemães e arrepiei-me- ai, Meu Deus, é que chega-se a um ponto em que se pensa :) mas quem nos poderá salvar de loucos- tantos os brutos assumidos como as cobras de gravata endinheiradas? Image
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De Nuno Castelo-Branco a 16.05.2012 às 22:22

No caso alemão, o PC da RDA esteve demasiado tempo no poder  e o resultado é esse fenómeno nazi. Quanto à França, devíamos desde já questionar os partidos do centrão acerca das suas prioridades económicas. Na verdade, escancararam as portas a uma torrente que chegou do norte de África,  mão de obra barata. Ao fim de duas gerações, o país está a chegar ao caos, pelo menos nos centros urbanos mais importantes. Um dia, a FN poderá vir a ser maioritária.
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De Isabel Metelo a 16.05.2012 às 21:26


Só o Renascimento de uma Fé Inexorável Holística, como Cavaleiros de Cristo contra "a banalidade do mal" que não tem cor, mas tem sempre o mesmo cheiro!Image
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De jojoratazana a 16.05.2012 às 23:49

Mais de um milhão e meio de investidores empurrados para a miséria.

Chamar desempregados a esta gente é um tremendo erro.

São investidores que vendem ao mercado aquilo que produzem trabalho, nos últimos trinta anos metodicamente foram sendo cerceados no valor daquilo que produzem, os seus impostos foram brutalmente aumentados, de forma que pouco a pouco foram-se tornando excedentes.

Os principais clientes desta gente, as micro e pequenas empresas, também foram afogadas em impostos e todo um cem numero de obrigações que as empurraram para a ruína e posterior desaparecimento.

Ficaram os tubarões que vivem só da miséria e exploração dos cegos falidos, acolitados por um exercito de economistas e servidos por governos formados por funcionários seus.

Gente que não percebe que 20% de 1000 são duzentos, mas que 10% de 5000 são quinhentos.

Em suma alimárias com falta do Ensino Básico. 

Trinta anos desta politica deram no que deram, mas ninguém aprendeu nada.

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De Nuno Castelo-Branco a 17.05.2012 às 00:45

Concordo, jojo, mas isso não é razão para norte-coreanizarmos o país. Ou porque razão pensa ter acontecido o que se sabe no leste? A URSS não era propriamente uma potenciazinha indefesa, pois não?
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De jojoratazana a 17.05.2012 às 00:49

Caro Nuno a sua pregação, não o deixa ver a realidade.
Só fantasmas.
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De Nuno Castelo-Branco a 17.05.2012 às 08:09

A realidade é o Sr. Putin no Kremlin.
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De jojoratazana a 17.05.2012 às 19:54

Sr. Nuno o Putin é um perigoso comunista?
Olhe que não.
Não passa de um testa de ferro da oligarquia que tomou conta da Rússia.
Que na actualidade está igual ao que se passa em Portugal, onde quem manda é a oligarquia instalada.
O resto é conversa de chacha.
Para entreter os parolos.
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De Isabel Metello a 17.05.2012 às 18:23

Sim, Nuno, infelizmente, as massas perante a repressão criminosa, muitas vezes, canalizam-se para ideologisas igualmente criminosas (os extremos tocam-se e se antes havia dois pólos a esse se acrescenta um terceiro- o tal que tb destrói tudo por onde passa em prol do bezerro de ouro...

Mas Jojó, pela Santa! O regime soviético pós-moderna e simulacralmente (eu até diria simu.laucrau.mente :) remodelado por Putin (nunca mais me esqueci de uma entrevista em que a Márcia Santos (creio que seja esse o nome da jornalista) perguntava algo a uma politóloga sobre Putin antes das eleições e alguém disse que ele lá ficaria mais 20 anos (linda demoniocracia, que não escapa à lógica do bezerro de ouro, aliás, são aliados- agora não há uma "cortina de Ferro", há um corrimão de diamantes de sangue..Image
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De Nuno Castelo-Branco a 17.05.2012 às 19:25

Gostava que o jojo me explicasse o fenómeno "camisas casttanhas" na antiga RDA.

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