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A abordagem de Camus ao Mito de Sísifo é atravessada da mesma incultura religiosa que marca muitos dos existencialistas do seu tempo. Camus não inventa nada, nem coloca em Sísifo nenhuma questão nova a que o Cristianismo não tivesse já respondido, da forma mais sublime, nas Sagradas Escrituras. A questão da "falta de significado" dos padecimentos do homem no mundo é respondida precisamente por Jesus Cristo: Deus toma a forma da sua criatura eleita, o homem, e vem, como verdadeiro Homem, experimentar as agruras da condição terrena. Ensina-nos S. Tomás de Aquino que Deus cria por Amor, e por Amor vem verificar, na pele de Homem, o suplício das misérias terrenas. Enquanto verdadeiro homem, Cristo, como o Sísifo de Camus, é livre: pode recusar, nada lhe é imposto. Só que o que os Evangelhos nos mostram é que Cristo une, pela oração, a sua vontade humana à vontade divina, pois é também verdadeiro Deus. E com isso suporta todo o padecimento da sua vivência no mundo, que culmina na Paixão e na Cruz. O grito lancinante que replica o Salmo 22, mostra até que ponto o Deus compreende a condição humana! No alto da Cruz, Cristo cita o salmista, "Meu Deus, porque me abandonaste?", dando voz a todas as agruras que no mundo levam o homem a questionar-se da sua sorte. Mas cumprindo com a vontade de Deus, e ressuscitando no terceiro Dia, Cristo responde ao sentido da existência Cristã: Deus não abandonou o Homem, pois o sentido da vivência humana ultrapassa esta efémera passagem terrena.
O homem Jesus não é coagido a aceitar a vontade divina: ele conhece-a e sofre com ela, suplica no Getsêmani que se afaste de si o cálice, mas adere totalmente a ela, ao desejar que seja a vontade de Deus que prevaleça sobre a do homem. E assim une a sua vontade à do Logos Universal que é também. Job, antecipação vetrotestamentária da vinda de Cristo, traduz com a sua vida a descoberta da mesma realidade, e a descoberta da forma de conferir sentido ao sofrimento humano, radicando-o no amor a Deus e vivendo-o pelo Amor a Deus.
O sentido da esperança Cristã não se baseia, por isso, em mecanismos, regras e leis: essa é uma leitura filosófica da religião. Mas uma religião não é uma filosofia pelo que implica de aderência pessoal. E no Cristianismo a aderência não é a qualquer código mas antes ao próprio Cristo. Deus é Amor, e a inclinação da alma humana a Amar o seu Criador deve conduzir-nos à procura da imitação contínua de Cristo: Deus que viveu entre nós. Cristo age por amor oblativo, e essa é a regra ou a lei única que dá sentido à vivência cristã. Procurar viver no amor oblativo exige radicar, fundar em Cristo a nossa vivência, pois só reconhecendo-nos irmanados pelo Baptismo como filhos adoptivos de Deus - como recorda S. Paulo - podemos amar o próximo independentemente de quem este seja: nele reconhecemos um irmão, e o amor a um irmão não se questiona.
As regras de conduta, ou as normas morais que o Cristão segue não resultam da lei escrita como tal. Resultam antes da compreensão do sentido verdadeiro do amor oblativo, num tempo em que as limitações linguísticas e o relativismo moral tornam complexo recuperar esse genuíno sentido do Ágape, que bem discute Bento XVI em Deus Caritas Est.
A moral cristã radica na adesão ao amor de Deus, e Deus como Verdade e Absoluto não depende das nossas conveniências interpretativas. Aquilo que aqui se chama de Cristianismo contemporâneo é um conceito pouco claro e preciso: a missão da Igreja, sob o primado do Papa, iluminada em tempo Pentecostal pelo Espírito Santo, que a constitui deposito da fé, é também a de, no respeito pela hierarquia, descodificar em cada momento aos fiéis o sentido do Amor que é Deus em situações concretas. Sem mudar, contudo, um milímetro à Verdade revelada que, como nota o Papa, se encerrou com o Novo Testamento.
A Teologia do Corpo, no exemplo porventura mais complexo, mostra bem como João Paulo II fundou em Cristo, e nas Sagradas Escrituras, a tradição da interpretação católica do Amor humano. O catolicismo não é, para quem conheça a Teologia do Corpo, jamais confundível com um conjunto de normas de conduta sexual. Antes, a adesão a Cristo implica a adesão uma forma de Amor que porventura difere das modas do século, mas que não se confunde com as normas do Levítico ou da Sharia. Precisamente por não ser normativa, antes brotar naturalmente do respeito pela ordem natural com fundamento moral, pois a Criação é Amor de Deus.