Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Do sentido da Esperança e da Vivência Cristã

por Carlos Santos, em 29.05.12

A abordagem de Camus ao Mito de Sísifo é atravessada da mesma incultura religiosa que marca muitos dos existencialistas do seu tempo. Camus não inventa nada, nem coloca em Sísifo nenhuma questão nova a que o Cristianismo não tivesse já respondido, da forma mais sublime, nas Sagradas Escrituras. A questão da "falta de significado" dos padecimentos do homem no mundo é respondida precisamente por Jesus Cristo: Deus toma a forma da sua criatura eleita, o homem, e vem, como verdadeiro Homem, experimentar as agruras da condição terrena. Ensina-nos S. Tomás de Aquino que Deus cria por Amor, e por Amor vem verificar, na pele de Homem, o suplício das misérias terrenas. Enquanto verdadeiro homem, Cristo, como o Sísifo de Camus, é livre: pode recusar, nada lhe é imposto. Só que o que os Evangelhos nos mostram é que Cristo une, pela oração, a sua vontade humana à vontade divina, pois é também verdadeiro Deus. E com isso suporta todo o padecimento da sua vivência no mundo, que culmina na Paixão e na Cruz. O grito lancinante que replica o Salmo 22, mostra até que ponto o Deus compreende a condição humana! No alto da Cruz, Cristo cita o salmista, "Meu Deus, porque me abandonaste?", dando voz a todas as agruras que no mundo levam o homem a questionar-se da sua sorte. Mas cumprindo com a vontade de Deus, e ressuscitando no terceiro Dia, Cristo responde ao sentido da existência Cristã: Deus não abandonou o Homem, pois o sentido da vivência humana ultrapassa esta efémera passagem terrena.

 

O homem Jesus não é coagido a aceitar a vontade divina: ele conhece-a e sofre com ela, suplica no Getsêmani que se afaste de si o cálice, mas adere totalmente a ela, ao desejar que seja a vontade de Deus que prevaleça sobre a do homem. E assim une a sua vontade à do Logos Universal que é também. Job, antecipação vetrotestamentária da vinda de Cristo, traduz com a sua vida a descoberta da mesma realidade, e a descoberta da forma de conferir sentido ao sofrimento humano, radicando-o no amor a Deus e vivendo-o pelo Amor a Deus.

O sentido da esperança Cristã não se baseia, por isso, em mecanismos, regras e leis: essa é uma leitura filosófica da religião. Mas uma religião não é uma filosofia pelo que implica de aderência pessoal. E no Cristianismo a aderência não é a qualquer código mas antes ao próprio Cristo. Deus é Amor, e a inclinação da alma humana a Amar o seu Criador deve conduzir-nos à procura da imitação contínua de Cristo: Deus que viveu entre nós. Cristo age por amor oblativo, e essa é a regra ou a lei única que dá sentido à vivência cristã. Procurar viver no amor oblativo exige radicar, fundar em Cristo a nossa vivência, pois só reconhecendo-nos irmanados pelo Baptismo como filhos adoptivos de Deus - como recorda S. Paulo - podemos amar o próximo independentemente de quem este seja: nele reconhecemos um irmão, e o amor a um irmão não se questiona.

As regras de conduta, ou as normas morais que o Cristão segue não resultam da lei escrita como tal. Resultam antes da compreensão do sentido verdadeiro do amor oblativo, num tempo em que as limitações linguísticas e o relativismo moral tornam complexo recuperar esse genuíno sentido do Ágape, que bem discute Bento XVI em Deus Caritas Est.

A moral cristã radica na adesão ao amor de Deus, e Deus como Verdade e Absoluto não depende das nossas conveniências interpretativas. Aquilo que aqui se chama de Cristianismo contemporâneo é um conceito pouco claro e preciso: a missão da Igreja, sob o primado do Papa, iluminada em tempo Pentecostal pelo Espírito Santo, que a constitui deposito da fé, é também a de, no respeito pela hierarquia, descodificar em cada momento aos fiéis o sentido do Amor que é Deus em situações concretas. Sem mudar, contudo, um milímetro à Verdade revelada que, como nota o Papa, se encerrou com o Novo Testamento.

A Teologia do Corpo, no exemplo porventura mais complexo, mostra bem como João Paulo II fundou em Cristo, e nas Sagradas Escrituras, a tradição da interpretação católica do Amor humano. O catolicismo não é, para quem conheça a Teologia do Corpo, jamais confundível com um conjunto de normas de conduta sexual. Antes, a adesão a Cristo implica a adesão uma forma de Amor que porventura difere das modas do século, mas que não se confunde com as normas do Levítico ou da Sharia. Precisamente por não ser normativa, antes brotar naturalmente do respeito pela ordem natural com fundamento moral, pois a Criação é Amor de Deus.

publicado às 17:47


1 comentário

Sem imagem de perfil

De areia_do_deserto.i.e_Isabel_Metello a 30.05.2012 às 02:37


Deus nunca nos Abandona, nós é que, por vezes, na nossa arrogância queremos entender A Sua Divina Lógica pelo nosso umbigo...ora a lógica mundana é oposta à Divina! Claro que se ainda cá estamos, cada qual na sua dimensão evolutiva, creio eu, cada qual com o percurso que escolheu para se purificar antes de reencarnar, é porque ainda temos muito que aprender até atingir Esse Estado! E, como tal, muitas vezes, revoltamo-nos contra aquilo que consideramos  injustiças, mas creio que, depois, se tivermos Fé e olharmos para trás e percebermos quantos acontecimentos que considerámos obstáculos se revelaram oportunidades de crescimento espiritual, conseguimos perceber que o "Assim Seja!" é fulcral! Nada é por acaso e o Sofrimento é um pólo de aprimoração da alma, segundo Qualquer Texto Sagrado! Ora muitos que ouvem tal pensam que isso é um apelo ao masoquismo- não, muito pelo contrário, é uma forma de aprimorarmos a capacidade de desapego ao supérfluo. falo por mim, claro, pois creio que o percurso religioso (no sentido etimológico de religar a humanidade a Deus...:) é individual (não no sentido de individualista...:), mas no da responsabilização anímica de cada alma pelas suas vidas passadas e pela presente, cujas opções advindas do livre arbítrio condicionarão as futuras até a Purificação se Verificar e nos libertamos do Ciclo da Reencarnação, que se distingue claramente de Ressuscitação- o Messias Ressuscitou, mas nós meras criaturas divinas cá estamos até entendermos O Que É Essencial e O Vivermos com Autenticidade!Image

Comentar post







Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2023
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2022
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2021
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2020
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2019
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2018
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2017
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2016
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2015
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2014
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2013
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2012
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2011
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2010
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2009
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D
  235. 2008
  236. J
  237. F
  238. M
  239. A
  240. M
  241. J
  242. J
  243. A
  244. S
  245. O
  246. N
  247. D
  248. 2007
  249. J
  250. F
  251. M
  252. A
  253. M
  254. J
  255. J
  256. A
  257. S
  258. O
  259. N
  260. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas