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Sobre este texto do Samuel:
1) Uma religião que tem uma finalidade social é um código político, ou seja, um mero instrumento do Poder. Se se aceita isso, nunca mais poderás dizer que algo é justo ou injusto, porque a justiça é apenas reflexo do Poder. Tocqueville, p.ex., vê no Cristianismo uma verdade transcendente que tem utilidade social. E tu estás a afirmar a primazia desse papel social, face ao Transcendente, o que implica uma subordinação do padre ao sociólogo. Isso é positivismo puro e incompatível com a fundamentação do liberalismo que defendes...
2) A modernidade não matou Deus. Foi a pós-modernidade. A modernidade de Locke a Kant está cheia de Deus, de um Deus que possibilita o progresso (individual e colectivo) que é tão patente no vitorianismo e na obra de Hayek. Nenhuma dessa modernidade ousou afirmar que haveria uma independência entre o Homem e Deus, ou que o segundo fosse subproduto do primeiro.
3) Esse vitorianismo foi uma forma de fundamentalismo sem fundamento. Sem transcendência divinizou os "mores" sociais (vide penas sobre a homossexualidade ou mendicidade) utilizando o aparato de Poder para perpetuar "manners not morals". Foi certamente mais repressivo moralmente que toda a Idade Média, com os seus filhos bastardos e liberdade para o pecado socialmente irrelevante.
4) Essa visão que tens em relação à verdade e expuseste em "Não creio que a modernidade tenha transformado a verdade numa percepção humana, creio que sempre o foi" é radicalmente incompatível com os teus pressupostos liberais políticos e económicos, uma vez que um pós-moderno não pode ser defensor de visões protestantes ou deístas. Como sabes melhor que eu, o fundamento de Hayek para a liberdade repousa na concepção de que a melhor (um termo qualitativo) forma política é revelada através do sucesso material, ou seja, presume uma transcendência protestante, incompatível com essa visão. Até porque se a consciência empírica fundamenta a liberdade, temos de aceitar também a boa-fé dos que não aceitam a liberdade. A circularidade do argumento é evidente e demonstra que nesta formulação não há possibilidade de fundamentar o que seja.
5) Como verás, o texto a que te referes não é uma apologia do Cristianismo. E portanto o argumento do agnosticismo ser mais antigo que o Cristianismo não tem razão de ser. O que sabemos é que a definição de uma Verdade em Sócrates (de Platão) conduziu a uma concepção religiosa monoteísta (a Ideia do Bem) e a aceitação de que a Verdade não é um artefacto humano (o diálogo com Trasímaco). O oposto do que afirmas. O que significa que a dúvida socrática tem uma fé que a fundamenta. Essa fé é em algo que é exterior ao homem e constitui a referência para este! Algo radicalmente incompatível com essa concepção humanizante da verdade. Mesmo o cepticismo presume que se pode atingir uma verdade externa ao Homem. A tua posição não é céptica, mas sofística.
6) Nas últimas linhas fazes uma profissão de fé na tua concepção, acreditando que a mesma toca a transcendência. Mas como? E não podemos fazê-lo todos? Hitler acreditava firmemente nisso. E também na verdade como produto humano e num conjunto de máximas morais. Se não há nada de transcendente na posição dele, o que é que a distingue da tua?