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O humorista Boaventura Sousa Santos

por Samuel de Paiva Pires, em 24.06.12

Alberto Gonçalves, Rio para não chorar:

 

«Recentemente, Ricardo Araújo Pereira seguiu o remoto exemplo de Raúl Solnado e foi mostrar a comédia nacional aos brasileiros. Como o Ricardo é brilhante, é de presumir que a coisa tenha corrido bem. O pior é que, como tantas vezes sucede, o sucesso do bom abre as portas ao mau, ao péssimo, ao atroz e a Boaventura Sousa Santos, que enquanto comediante integra uma categoria à parte. Quer dizer, eu e a maioria das pessoas que conheço rimo-nos feito perdidos de cada intervenção do homem. Aliás, basta o homem aparecer para desatarmos às gargalhadas: ele é o sotaque de BSS, ele é o penteado de BSS, ele são os fatos de BSS para consumo ocidental, ele são as camisas exóticas de BSS para passeios no Hemisfério Sul. Para cúmulo, BSS fala.

 

No Brasil, durante os encontros de vozes "alternativas" que antecederam a Cimeira Rio+20, de resto duas notáveis oportunidades para o humor inadvertido, BSS falou. E explicou que a Europa precisa de aprender com os maravilhosos exemplos do Terceiro Mundo, experiência de que foi privada devido a séculos de colonialismo. Tradução: a menos que a Alemanha e a Inglaterra imitem os fraternais regimes da Bolívia ou da Venezuela, a Alemanha e a Inglaterra estão perdidas. A título de punch line, acrescentou ser necessário lutar contra a concentração de riqueza e o abismo entre ricos e pobres, eventualmente adoptando o modelo "bolivariano" e arruinando toda a gente.

 

É ou não é brilhante? O pior é que este estilo de comédia também é arriscado: muitos brasileiros não percebem o humor de BSS e tomam-no por um pensador de facto e não pela caricatura de uma sátira a uma paródia de um pensador. Ricardo Araújo Pereira apresenta-se como humorista e tem graça. A vastíssima maioria dos restantes humoristas indígenas apresenta-se como tal e não tem gracinha nenhuma. BSS apresenta-se como "cientista social" e suscita a estupefacção dos não iniciados, que hesitam entre levar aquilo à letra ou usufruir do seu potencial hilariante.

 

E o melhor de tudo passa pelo facto de não sabermos se o próprio BSS se leva igualmente a sério. A sério, só isto: sempre que se lamenta a fuga de cérebros do país, convém contrabalançá-la com a fuga de malucos. Infelizmente, estes regressam logo a seguir.»

publicado às 14:55


3 comentários

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De Alberto Alves a 26.06.2012 às 17:12

E o Samuel o que acha? Fico curioso porque p. exemplo o seu mestre Prof Adelino Maltez embora discorde de BSS não o vê como humorista, tendo grande consideração intelectual por BSS. Perdoe-me a curiosidade...
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De Samuel de Paiva Pires a 26.06.2012 às 22:32

E os aprendizes têm que achar o mesmo que os mestres acham em relação a tudo? Mal do mestre e do aprendiz que por aí enveredem. 
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De Alberto Alves a 26.06.2012 às 23:55

Claro que não!! Era mesmo o que mais faltava!
Só queria ver a minha curiosidade satisfeita. 


Uma nota final:
Acho particularmente interessante a relevância dada aos fatos do BSS pelo sr Alberto Gonçalves. Ainda bem que não conheceu o dr. Joao Camossa! É quase tão importante como a critica ue faz às ideias do BSS - critica inexistente, diga-se, o que no Portugalzinho de hoje não lhe retira profundidade. 
Tenho a ideia que foi este mesmo cavalheiro que, em tempos, escreveu numa revista (Sábado? Dn?Visao?) um artigo sobre o regresso à lavoura em que evidênciava um complexo qualquer  em rlaçao ao tal regresso triste de se ver. Não percebi contudo se o tal "grilo" se devia ao facto de não gostar de uma qualquer gravata do Arq Ribeiro Telles ou se à hipótese de o papa ou o vôvô terem sido lavradores no tempo da "terça". Muito lúcido de qlq das formas...De certeza que esta tudo explicado nos seus trabalhos de fundo.
Viva Portugal!

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