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O futebol e a pátria

por Samuel de Paiva Pires, em 28.06.12

Por estes dias, falham alguns em entender o mito que é a pátria enquanto, nas palavras de Karl Deutsch glosado por José Adelino Maltez, "uma comunidade de significações partilhadas" e, nestes tempos de paz na Europa, como esta se reflecte numa ligação emocional entre um povo e os seus representantes em actividades onde exista representação nacional, como o caso do desporto - em concreto, nestas últimas semanas, o futebol. Lembrando que a pátria é, como escreveu Miguel Torga, "o espaço telúrico e moral, cultural e afectivo, onde cada natural se cumpre humana e civicamente. Só nele a sua respiração é plena, o seu instinto sossega, a sua inteligência fulgura, o seu passado tem sentido e o seu presente tem futuro", vale bem a pena ler o Filipe Nunes Vicente e o Carlos Guimarães Pinto:

 

Filipe Nunes Vicente, O futebol e os intelectuais:

 

«As vitórias da selecção nacional suscitam orgulho aos portugueses porque o EURO 2012 é um parque de diversões para os símbolos nacionais. Nenhum problema nisto.  Nas guerras, as acções dos soldados, dos generais  e dos políticos suscitam o mesmo espírito e ninguém pensa que essa inflamação patriótica oculta atraso económico, maus hospitais ou insucesso escolar.

A ligação de um povo com a sua selecção não passa pela leitura de Píndaro ou pela exegese de Heidegger: é simples, directa e dura pouco. Como o sexo.

Os que contam bandeirinhas, se incomodam com  a cruz ou anotam os minutos imbecis dos directos, racionalizam o que não é racionalizável. Nunca tiveram um ataque de pânico ou uma obsessão?»

 

Carlos Guimarães Pinto, Os ateus do Futebol:

 

«Os ateus do futebol já fazem parte do folclore das competições internacionais de futebol em que Portugal participa. Para quem não sabe o ateísmo futeboleiro foi inaugurado por Pacheco Pereira e, entre coisas, consiste em passar todo o período das competições de futebol a falar sobre o quão irrelevantes elas são, da irracionalidade do gosto pelo futebol e sobre a forma como estes eventos distraem as pessoas dos assuntos importantes (por assuntos importantes, entenda-se, a política, a troika, o défice, o sacana do Sócrates e o demagogo do Louçã).
Tenho que concordar com eles: a devoção irracional pelo futebol contribui de facto para que muitas pessoas se esqueçam por um período de tempo destes assuntos. Mas não é só o futebol: um bom livro, as séries de televisão americanas, as quecas, os bikinis, os jantares de amigos, um bom cabrito, o sorriso dos filhos são tudo aspectos da vida que, sem motivo racional, nos fazem esquecer desses assuntos “importantes”. Os ateus do futebol estão certos relativamente à relação causal, têm é as prioridades de vida trocadas.»

publicado às 11:12


15 comentários

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De Duarte Meira a 28.06.2012 às 21:39


A Exma. Srª Isabel Metelo tem carradas de razão.

Agora, em respeito à memória de Miguel Torga e do trecho citado pelo Samuel.  - O futebol é precisamente o contrário de realização humana e cívica: não passa de uma brincadeira de garotos a correrem de um lado para o outro atrás duma bola. Uma brincadeira não é trabalho e, por conseguinte, modo crescido e humanamente digno de ganhar a vida. Aliás, o mesmo vale para qualquer desporto assalariado e escravizado à indústria de entretenimento de massas. A perversão é tanto mais grave quanto há tanta gente a trabalhar a sério e duramente por ordenados que mal chegam para comer.

Postal lamentalvelmente infeliz da sua parte, meu caro Samuel, mormente no estado de calamidade social e moral em que estamos. Para quê sofismá-lo com drogas e pueris ilusões, que só perpetuam aquele estado, agravam a ressaca e dificultam a recuperação de um mínimo de juízo e de saúde?

(Não disse que as "massas" não tenham circo; digo que este deve ser reduzido pelas pessoas sensatas às suas dimensões sensatas.)
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De sobrevive-se a 29.06.2012 às 11:18

Tão mais infeliz quanto compara futebol a um bom livro ou ao sorriso dos filhos. Terá filhos, o autor do post (e o do texto nele citado)? Experimentou alguma vez (experimentaram, um e outro), verdadeiramente, apesar de toda erudição meritória e copiosamente por aqui já demonstrada (o autor do post ), o conforto de um livro que marca, por vezes numa curta frase que para sempre se guarda?

Pacheco Pereira e outros, nesta questão do futebol, "limitam-se" a ser Velhos do Restelo. No verdadeiro significado camoniano. Não naquele, por estes tempos, tão convenientemente enraizado. E errado.

Tempo virá...

Costa

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