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1 - Como agnóstico, ou seja, não sendo católico, avalio D. Januário como cidadão, não como membro da Igreja - tal como salientou José Adelino Maltez
2 - Quanto à forma, discordo e critico o tom incendiário das afirmações de D. Januário. Quanto ao conteúdo, acho que o erro capital foi ter generalizado, em vez de dirigir a crítica. Há quem diga que tem que apresentar provas do que diz. Há um problema que não sei se será exclusivo de Portugal, que é o de toda a gente saber um pouco da vida de toda a gente, mais precisamente, de cunhas, negociatas e afins. Por não se ter provas (num sentido jurídico), não se pode falar nisso? Queremos mesmo enveredar por uma judicialização da política e desatar a entupir tribunais com processos por difamação? Eu prefiro jogar no campo da sociedade e do combate político, crendo que, quando determinadas opiniões são manifestamente exageradas e até patéticas, quem se descredibiliza na opinião pública é o próprio opinador, o que já é castigo suficiente. Por outras palavras, é a ordem espontânea e a selecção natural aplicada à credibilidade dos opinion makers.
3 - Há quem aponte a hipocrisia de D. Januário, ao não se ter manifestado em relação ao anterior governo da mesma forma. Claro que é uma barbaridade dizer que os socráticos eram anjinhos se comparados com os actuais, e claro que há uma certa hipocrisia. E também há uma certa hipocrisia em certa esquerda anticlerical, que quando lhe dá jeito já gosta dos homens da Igreja.
4 - Há quem exija moderação e até silêncio a D. Januário, em virtude da posição que ocupa de Bispo das Forças Armadas. Ora, como o mesmo apontou e bem, "Aguiar-Branco não é meu superior nem meu ministro." Mais, também não é militar, mas mesmo que fosse, importa salientar que as Forças Armadas devem lealdade ao Estado e à Pátria, não necessariamente ao governo. E mesmo quem seja militar, o que obviamente implica constrangimentos em relação a opiniões políticas, não deixa de ser um ser pensante, que naturalmente observa o descalabro a que vários governos nos trouxeram. As sociedades livres funcionam como panelas de pressão, e quiçá D. Januário serve como válvula de escape daquilo que muitos militares gostariam de dizer e não podem.
5 - Prefiro homens de convicções, ainda que discorde deles, ao cinzentismo que tanto nos tolhe. Subscrevo estes dois posts do Professor Maltez:
«D. Januário, visto por Aristóteles: a voz do homem não se reduz a um conjunto de sons. Não é apenas simples voz (phone), não lhe serve apenas para indicar a alegria e a dor, como acontece, aliás, nos outros animais, dado que é também uma forma de poder comunicar um discurso (logos). Graças a ela o homem exprime não só o útil e o prejudicial, como também o justo e o injusto. Como dizia Fénelon, "em Atenas tudo dependia do povo e o povo dependia da palavra". Nesta democracia também. Obrigado D. Januário, pela palavra, a que apenas se pode responder com outra palavra. Para podermos continuar a ser animais políticos, isto é, animais de discurso, que, muito siomplesmente, significa razão.»
«Mais dialéctica. Porque D. Januário não é propriamente a caricatura do peixinho vermelho em água benta. É um ortodoxo que fala politicamente, da mesma maneira que o Padre Américo escrevia com obras, denunciando com clamor e indignação dizendo em voz alta o que muitos outros apenas vão passando, de ouvido em ouvido.»
Leitura complementar: D. Januário, a Relvas School of Political Science e os tiques salazarentos que teimam em não desaparecer; Sobre D. Januário escreverei mais logo
Pense-se aquilo que se quiser sobre D. Januário Torgal Ferreira. Porém, considerá-lo um modelo de “ortodoxia” católica, à imagem do Padre Américo, é afirmação ridícula, passível de ser feita apenas por quem não percebe nada do que é a ortodoxia católica, da qual, de resto, o mesmo D. Januário permanentemente zomba e troça. Não, não é um "peixinho vermelho"; é um "Judas", o que é muitíssimo pior.